quarta-feira, março 09, 2011

"O que nós vamos fazer com a unidade?"

Fiquei muito surpreso com o discurso de François Mitterrand “O que nós vamos fazer com a unidade?” feito na assembleia de reorganização do Partido Socialista. Ali ele pede aos socialistas, de qualquer orientação, que tenham vocação para a maioria, isto é, que se preparem para ocupar o governo e ganhar as eleições e que ganhar as eleições poderia ser a grande revolução; não o ganhar em si, mas sim realizar as promessas que fariam para ganhar a eleição. Mitterrand pede uma análise da situação política, determina estratégias e nove anos depois do discurso ele assume a presidência francesa.

Nasci um ano depois da eleição Mitterrand e por metade da minha vida ele foi presidente francês; confesso que tinha certo estranhamento com ele, o imaginava politicamente fraco, dentro de governos de coabitação com a RPR/UDF (atual UMP) como com Édouard Balladour. No entanto, tanto a biografia do Truffaut como o documentário do Yves Saint-Laurent colocam a eleição de Mitterrand como um fato tão grandioso que fiquei bem curioso por este acontecimento.

O engraçado, ou melhor, o contraditório do discurso é que ele cabe bem a crise do PSDB e do DEM, que grosso modo seria a UMP francesa, o outro pólo do PS (ok, tenho a mais profunda convicção que por mais que Giscard d’Estaign tenha sido um estadista, não há um tucano histórico que não deva ter comemorado a vitória de Mitterrand). Talvez alguém no PSDB precise lembrar que muitos eleitores podem vir a votar no partido não porque seguem a risca as idéias do partido, mas sim porque há uma identificação entre o que o partido faz e diz e que isso dá confiança e pode trazer votos de pessoas que não aceitam a atual estrutura de governo (por incrível que pareça, no discurso de Mitterrand, ele escolhe o monopólio como o inimigo; o político, que não permite que o cidadão participe do processo político e o econômico, da mesma maneira que FHC também faz no seu “Discurso de Despedida ao Senado”; ambos privatizaram os monopólios estatais).

Para que se dê um sentido na unidade, o PSDB precisa definir seu campo, seu discurso, seus “inimigos”, seus aliados e sua estratégia. Ainda que muita gente no PSDB queira esquecer, isso já está pronto no Discurso de Despedida ao Senado do FHC, ali está a chave, mas tem que aceitar aquilo, ser coerente com o discurso. Escrevo de um dos Estados mais pobres da federação onde de um trem metropolitano precário vejo casas mais precárias ainda com adesivos de “Teotônio 45”. Essa gente votou 45, os valores defendidos não são “elitista”, são transversais, caso contrário Teotônio Villela não seria governador de Alagoas nem tampouco Alckmin teria sido eleito com a maioria dos votos em São Paulo (ou alguém acha que 51% do Estado de São Paulo é elite?).

Quem será o Mitterrand que o PSDB precisa encontrar? Será o Aécio com sua vocação conciliatória? Será o Serra com sua capacidade de desagregação? Provavelmente, o PSDB precisa mais de Fernando Henrique do que acredita precisar.

terça-feira, março 08, 2011

Feliz dia Internacional da Mulher

Contradição do mundo é o dia das mulheres cair em plena terça-feira de carnaval. Não que o carnaval tem que ser machista por definição, mas quando se vê uma mulher gritando “meu nome é Valeska e o apelido é quero dar, dá-dá-dá-dá-dá-dá-dá, o apelido é quero dar” você fica meio suspeito que a Valeska não está lá muito ligando para o fato das mulheres ainda ganharem menos que os homens, sofrerem violência doméstica e precisarem de uma lei específica para isso ou que a igualdade do serviço doméstico é uma ilusão na maior parte dos lares.

Talvez a Valeska ganhe mais que os homens de sua convivência, de repente a violência doméstica pode lhe render alguma grana (se não se converter numa loucura do tipo goleiro-Bruno) ou que o serviço doméstico seja uma coisa tão abstrata que nem se torne um problema, mas afinal, se esse é o papel da mulher no carnaval a Valeska Quero Dar esteja cumprindo o papel que lhe foi designado.

Enfim, é uma pena que o Dia Internacional das Mulheres foi eclipsado pelo carnaval. É necessário alguma luta para que até Valeska Quero Dar cumpra qualquer papel que deseje, mas que esse papel não lhe seja imposto e sim decidido.

De qualquer maneira, feliz Dia Internacional das Mulheres!

É carnaval!

Não conseguia imaginar outra coisa para os quatro dias de carnaval além de dormir e pôr a leitura em dia. Poderia ir a praia, viajar, mas só pensava na sua casa. O tempo o fez prisioneiro da casa, choveu, fez frio, a garganta inflamou, no olho apareceram terçóis que o deixaram sem nenhum tesão de por a cara na rua; cortou o indicador de uma maneira estúpida e agora estava reduzido a um homem sem o efeito pinça, o que lhe impedia até de segurar um copo da maneira como havia aprendido.

Ligar a TV se tornou um suplício, não agüentava ver nem desfiles, nem tampouco os bastidores dele. No pouco tempo que assistiu sentiu-se deslocado do mundo já que não reconhecia mais as celebridades. Leu o jornal, estudou um pouco para a pós e cozinhou. Comeu atum, estas latas não precisam de um efeito pinça para serem abertas.

Na terça-feira gorda, acordou, olhou o dia cinza, leu o jornal, checou o facebook. Já teve carnavais mais animados, já teve carnavais mais agitados, mas nunca se sentiu tão em casa num carnaval. Tinha companhia, saia de casa para dar uma volta no bairro, correu da chuva, namorou um pouco, viu filmes, se propôs a ir ao cinema e desistiu. Escutou músicas que não se escutaria no carnaval, mas que não tinha tempo para escutar no dia a dia. Visitou um casal amigo e conversaram de coisas que não tinham mais tempo para conversar.

Fez do carnaval sua pequena quaresma.

terça-feira, novembro 02, 2010

Como se vive sem Smartphone?

Eu não sei como se pode viver sem um smartphone. A necessidade é mãe de virtudes, estive num ambiente totalmente isolado, há meses estou numa empresa de internet restrita, eis que como um raio surgiu uma vontade incontrolável de voltar ao mundo e acabei comprando um smartphone que foi minha salvação e será minha ruína.

Claro, que não conhecendo lhufas de nada de tecnologia acabei comprando um plano onde a navegação é cara, mas é um prazer tão bom que o caro é compensado. Caí num mundo de Android, tomei uma decisão pró-Google, sem saber se devia, somente na confiança da marca e de que eles são uns caras legais contra a Apple que me parecia do mal (embora mais charmosa). Entre a decisão e a digitação da senha do cartão foram dois dias de profundos pensamentos e acabei com um novo brinquedo.

O problema de chegar aos trinta é que nossos brinquedos se tornam caros demais, mas igual aos brinquedos das crianças, além do próprio prazer intrínseco ao brinquedo, a gente se torna igual entre nossos pares. Eu que não ando de carro, agora já posso dar informação sobre trânsito!

Outubro Mudo

Praticamente fiquei fora de todos os acontecimentos deste mês de outubro, não fui nem voyer nem exibicionista, simplesmente não participei muito do que aconteceu em nada, desde que se fecharam as urnas do primeiro turno e até meu smartphone (tema para outro post).

Caí no meio de uma obra que começava e realmente não tive tempo para o mundo. Sensação estranha para quem lê todos os dias o jornal antes de ir ao trabalho. Pois bem, trabalhei em média umas 16 horas por dia neste mês e pasmem: eu adorei. A obra é a celebração do micro enquanto o escritório é o macro. Quando você pensa que o macro é o difícil de resolver, você realmente caí na armadilha dos detalhes, e esses realmente são o inferno. A obra é uma sucessão de decisões micro que surgem simultaneamente e que você precisa desenvolver critérios para decidir prioridade e estratégia para definir a ação. Lembrei-me de muitos clichês enquanto tentava encontrar um cotovelo, um espaçador, um saco de cimento que não estava na explosão de insumos e que por isso o ERP não me liberava. Enfim, eu que nem em telefone falo por vergonha, passei a controlar um rádio, sabendo de cor frequências e nomes de gente de várias partes da obra. Eu que sempre quis abraçar tudo, acabei parando o mundo para resolver detalhes que poderiam ser resolvidos rapidamente para tentar limpar a pauta.

A única coisa que me faltou foi acesso, no fim, não li jornal, não vi debate, não acompanhei nada, soube com atraso da morte do Kirchner, nem vi como foi construída a vitória da Dilma, não vi pedra nem bolinha de papel, tampouco bexiga com água e de tão cansado não votei. (o que me envergonha um pouco).

O mundo acelerou e a blogsfera é muito reflexiva, não postei nada porque não refleti sobre muita coisa!

quarta-feira, setembro 08, 2010

Síndrome de Alan García

Achei fantástico um artigo do Estadão de ontem (7/9) que falava sobre o presidente do Peru Alan García. Dizia que os analisas estrangeiros tinham muito mais complacência com o presidente peruano que os próprios peruanos e que a “maldição” sobre Alan García o perseguiu a 20 anos atrás quando era ícone para esquerda com um programa que incluía a estatização dos bancos (na campanha de 89 o presidente Lula citava muitas vezes o presidente peruano e quando se cantava nos protestos contra Alfonsín na Argentina “patria patria mía, dame un presidente cómo Alan García”). Nos anos 80 o governo García acabou com ataques cada vez mais violentos do Sendero Luminoso e do Tupac Amaru e com hiperinflação e García se tornou persona non grata para todos os espectros políticos.

Eis que depois da era Fujimori, governo forte, com atrocidades no campo humanitário e na democracia e estabilidade financeira e depois de Alejandro Toledo totalmente instável politicamente mas respeitando a democracia o Peru elegeu Alan García novamente e por incrível que pareça é um presidente com baixa popularidade. A economia cresce, o país é estável, é uma ilha de prosperidade perto dos seus vizinhos, tem a democracia consolidada e Alan García é totalmente impopular e corre o risco de passar a faixa presidencial para Ollanta Humala, que é considerado forte para acabar com a corrupção e a desigualdade.

Acho que a síndrome de Alan García pode ser bem transportada pela rejeição ao Fernando Henrique ou ao Gabeira, esquerdistas que acompanharam o tempo, que acreditam na democracia como valor e não como meio não são considerados bons estadistas já que queremos é sebastianismo, não acreditamos em processo mas em ação e aí fica difícil defender o amadurecimento das instituições frente a caudilhos que se declaram eles próprios as instituições e frente a povos lenientes de seu papel no amadurecimento. (embora eu duvide que tanto Fernando Henrique como o Gabeira queiram ser comparados a Alan García).

No entanto, quando o caudilhismo falha, a inflação corrói, o Estado vai a bancarrota, os direitos humanos e os sigilos são violados, são eles, os resilientes, os capazes de mudar e amadurecer que conduzem seus países de volta ao mundo, são Alfonsín, Fernando Henrique, Alan García, César Gaviria e Ernesto Zedillo que tentam como Don Quixotes restaurar a democracia por aqui.


quinta-feira, setembro 02, 2010

Filho Pródigo ou Pai Misericordioso

Acho que a religiosidade tem fases. Consigo imaginar a minha como várias delas, já houve a da passagem Marta-Maria, já houve uma fase de Sermão da Montanha, acho que hoje é uma fase da Parábola do Filho Pródigo.

Na verdade, acho que a parábola do filho pródigo para mim, responde a uma possível incoerência entre minha vida e meu catolicismo. Considerando que a vida é uma peregrinação e que a gente anda por ela, muitas vezes errantes, acho a parábola uma ótima metáfora. Trabalha alguns pontos importantes na minha fé.
Num primeiro momento a saída do filho pródigo que é um desejo totalmente humano, assim como a própria prodigalidade do filho pródigo é esperada de nós. O grande acontecimento, porém, é a percepção da volta para casa, uma volta modificada, pensada, de livre-arbítrio, sem orgulho que é recompensada com um pai que vai buscar o filho na porta de casa e não deixa que o filho seja servo e sim permite a volta da condição de filho.
Antigamente, não me conformava com esta parábola, achava uma injustiça com o filho que ficou, e aí que entra a misericórdia do pai, que assim como buscou o filho que volta, busca o filho que ficou lembrando que o filho que foi estava perdido e agora voltou.
Bem, acho que a resposta ao meu catolicismo vem destas idas e vindas que assim como o tempo da Igreja que sempre se repete e sempre se renova, assim como o filho pródigo que vai ao mundo.
A ideia do post era pôr uma musica desta parábola que ficou na minha cabeça desde ontem, mas não achei um vídeo bom no youtube para ela... fica para uma outra vez

segunda-feira, agosto 30, 2010

Verde Tucano

Bastou uma semana de ar seco e poluição excessiva para que eu mudasse minha vontade de estabelecer no primeiro turno a vantagem dos tucanos em São Paulo para tornar-me um tucano convertido em verde. Votarei em Fábio Feldman para governador do Estado.

É bem simples, como um Estado dinâmico, capaz de transitar da economia industrial para a pós-industrial (tema controverso já que o setor serviços e tecnologia ainda estão ligados ao setor industrial, mesmo que possa empregar mais e movimentar mais dinheiro já li um punhado de artigos e livros que dizem que este ainda está ligado a produção desumanizada do setor industrial e eu sou crédulo no que leio), ainda se prende à padrões de desenvolvimento da era industrial? Se não fosse assim, os congestionamentos não ocupariam esta posição central na vida e nas conversas dos habitantes da cidade ao mesmo tempo em que a cidade emplaca cada vez mais e mais carros. A poluição combinada com o ar seco trouxe um tom alaranjado a todos os problemas ambientais da cidade e deixou em evidência como esta cidade está se tornando insustentável (se já não for).

Ao contrário da Alemanha onde o governo Schröder conseguiu uma aliança verde-vermelho, os vermelhos brasileiros ainda pensam num desenvolvimento pela via polonesa (se é que existe um desenvolvimento polonês, talvez um russo). Não existe a preocupação ambiental, e isso se vê quando as alavancas para estancar a crise passam por alternativas totalmente não-ambientais como a diminuição do imposto sobre automóveis e o aumento do crédito que propiciam a compra bem como o estímulo a um estilo de vida totalmente não-sustentável como símbolo de mobilidade social, quando deveríamos promover tanto aos ingressantes da famigerada nova classe média, como os já pertencentes a ela um estilo de vida sustentável.

Soma-se a isso a sucessivas investidas do governo contra os órgãos ambientais, que graças a Constituição de 88 prezam pelos interesses difusos e coletivos e que por isso trabalham com mais variáveis que a única variável do governo, a eleitoral. Não se pode esquecer também a alteração do Código Florestal, criado no governo Castello Branco, representava o estilo daquela época, modificado no governo Collor, trouxe avanços na proteção ambiental, destruído no governo Lula, mostra como o governo enxerga esta questão.

O governo de São Paulo teve uma visão distinta, conseguiu produzir à política estadual de combate as mudanças climáticas, além de manter-se fiel a Lei Trípoli, que por mais controversa que fosse, permite a participação da sociedade nas decisões do meio ambiente, bem como a preservação dos interesses difusos e coletivos. Sendo eleitoreiro ou não, o grande investimento nos transportes de massa também representa um avanço, mesmo que o mesmo nível de investimento tenha sido feito para os transportes individuais.

Uma vitória do Mercadante representa uma piora da questão ambiental, afinal seu discurso está ligado ao pedágio, enquanto o de Alckmin, uma continuidade da atual gestão. Votar em Fábio Feldman significa avançar numa idéia de desenvolvimento sustentável, que passa pela transformação do modus vivendi da sociedade bem como um incentivo a economia criativa (eu realmente adorei este conceito). É necessário mostrar a força de uma idéia, e esse é o voto do 1º turno, o 2º turno, se houver, se decidirá ao seu tempo.

O pós é o anti

Fico impressionado como o Estado do Rio de Janeiro se converteu ao Sérgio Cabral, não é nem a um ismo, já que não existe um cabralismo (como não existia um garotinhoismo). O Estado que foi criador e perpetuador de conceitos, como o Socialismo Moreno, (filho dileto do Brizolismo), que na contramão de sua política oposicionista, elegeu em 1994 Marcello Alencar governador, alinhado com a era FHC; com a ajuda dos anti, virou o pós, o anti-tucanismo raivoso dos petistas trouxe a inviabilidade deste projeto no Rio, a própria raivosidade petista, impediu também a própria viabilidade de um projeto petista com a débâcle do petismo na junção como brizolismo não tão brizolista de Garotinho em 1998.

Então se criou o seguinte quadro, para superar o brizolismo que criava os quadros políticos para logo em seguida retirar o suporte destes, foi preciso que estes quadros que foram engolidos por Brizola o superassem. Alencar, pela adesão ao projeto tucano; Maia, por um processo personalista; Saturnino Braga se encontrou no PT e Garotinho foi o resultado dialético do anti-brizolismo e do brizolismo. Conseguiu até juntar-se à Moreira Franco, que era o anti-brizolista.

Após um período Garotinho/Rosinha, conseguiu-se a união de todos os anti. Os anti-tucanos, os anti-petistas, anti-brizolistas e anti-garotinhos se encontraram no pragmatismo voraz de Sérgio Cabral, que trouxe a reboque um Eduardo Paes, parido de César Maia, criado no ninho tucano e desabrochado nesta nova ordem de Cabral. É incrível que o Estado do Rio de Janeiro esteja neste projeto que só se define na negação de outros, que é incapaz de ter uma marca, não é socialismo moreno, embora utilize algumas de suas armas, não é social-democrata à Marcello Alencar, embora também utilize de suas armas; não é truculento como Moreira Franco, mas também utiliza seu discurso, é um amálgama do anti, que se corrói de inveja do a favor.

Acho que aí vem o contraponto maior: Denise Frossard, Gabeira e César Maia. Você não precisa concordar com eles, mas sabe sobre o que eles estão falando. A estes, existe um limite da ideologia, de suas próprias estratégias. Os anti-eles estão com Cabral, desde uma política à moda antiga do Senador Dornelles, ao comunismo-stalinista de Jandira Feghali, o petismo de Lindbergh Farias, a religiosidade de Marcello Crivela, até cabe o Wagner Montes. Enfim, eles não representam nada, só são contra algumas coisas, e são contra até em coisas que outros da mesma aliança não são contra.

Eu acho que o tão falado pós-Lula, será como no Rio, uma união de quem é contra. Que triste fazer política na negação.

(Mutatis mutandis o mesmo acontece em Campinas, Doutor Hélio é a união de todos os anti-qualquer coisa).

domingo, agosto 22, 2010

Guarda-roupa

Vamos comprar um guarda roupa novo? Daqui a pouco chegam suas malas, suas roupas e seus livros, e aí teremos que guardar tudo, ou podemos deixar tudo sem guardar para comemorar a chegada, depois guardarmos tudo no seu lugar. Não é necessária uma data, a certeza basta, e com certeza se compra um guarda-roupa novo, que não será o centro da casa, mas será o começo de uma nova casa, com novas roupas e novos livros. Vidas novas têm vários símbolos e a nossa vida nova é um guarda-roupa novo, onde estarão nossas roupas, nossas malas e nossos livros, algumas mensagens nas portas e novas roupas e livros.

domingo, julho 25, 2010

Lenine

A ideia não é nova, mas realmente eu acho que se existe um cantor que simboliza a cidade de São Paulo é o Lenine. Em nenhum momento ele nega que é pernambucano, ele é um símbolo do Recife, e aí torna mais simbólico o fato que para mim ele lembra a cidade de São Paulo. Acho que ele decifra seus habitantes e a cidade muito mais que Sampa do Caetano (embora não roube um certo ar romântico de Ronda ou de Adoniran Barbosa).

Eu sou um pessimista sobre os anos que vivemos, acho que perdemos o tom da modernidade que entrou avassaladoramente nos nossos discursos nos anos 90, anos em que forjei minha identidade (ainda a forjo, mas o grosso foi feito no segundo mandato de Fernando Henrique, sou produto do segundo mandato do Fernando Henrique). E aí que entra o Lenine com letras modernas, urbanas, facilmente assimilável por quem habita a cidade, por quem vive a cidade. Cantando coisas da cidade.

Hoje no show no shopping Anália Franco, onde a cidade está se forjando sobre o signo dos 2000, onde a modernidade sai de cena para o progresso descomprometido ideologicamente, foi muito bom encontrar-me com meu espírito de modernidade comprometida (mesmo que o comprometimento seja diametralmente oposto).

Valeu o show, me diverti muito.

Muito tempo, pouco tempo

Neste mês de julho praticamente não consegui escrever aqui no blog. Não que não tivesse ideia do que fosse escrever (embora pelo que andei relendo estou me repetindo demais), mas tive problemas operacionais tremendos como ora falta de computador, ora falta de internet, nas duas últimas semanas falta de tempo.

É praticamente uma sensação de transição onde ainda não sei bem qual será o papel do blog. Mas por que escrever no blog? A resposta é mais para treino de retórica, documentação de idéias e pelo prazer de reler depois de algum tempo e verificar como eu estava. O blog é uma fotografia do meu pensamento.

Que fique bem claro que eu pensei neste tempo que não escrevi, só não tirei fotografia.

Vou deixar os temas em aberto sobre o que eu queria escrever e depois se um dia eles voltarem a me preocupar, eu escrevo sobre eles. Tento fazer uma pintura da fotografia que não foi tirada.

Sobre o que não escrevi e pensei em escrever:

Existe um Destino Manifesto nos paulistas? Qual a melhor forma de verificar isso?

(sobre o 9 de julho e as críticas a festa)

Vou votar na Marina!

(Por que um discípulo do discurso de despedida do Senado de FHC adotou o verde)

É o Paraná, Estúpido!

(sobre a necessidade do Álvaro Dias ser vice do Serra).

Luciano Hook é o Sérgio Cabral na TV

(basta assistir o programa e olhar para o governo)

domingo, junho 20, 2010

Local e Global: Metropolitano

Um assunto extremamente importante passará em branco na campanha eleitoral deste ano: a organização do espaço metropolitano. Sendo institucionalmente um espaço de ação dos três níveis de poder, essas regiões expressam em si mesmas todas as contradições do capitalismo tardio, bem como os reflexos da revolução tecnológica. É palco dos conflitos de diversos interesses e ainda também é um conceito contraditório já que traz em si uma comunidade de mais de 20 milhões de habitantes, como na Região Metropolitana de São Paulo.

Se a organização regional, e metropolitana, é da órbita dos estados, as relações que se estabelecem entre os municípios, relações derivadas de uma organização econômica que extrapola esse espaço, são municipais. Pensar o metropolitano exige ir além dos municípios e dos estados. Qualquer ação municipal, por menor que for, interfere na lógica regional, já que esta é muito complexa e integrada. Qualquer decisão de cima para baixo, desarranjará o equilíbrio micro.

É importante ressaltar as qualidades da organização das regiões metropolitanas baseadas nos municípios, porque nessa esfera de poder encontram-se, ou podem se encontrar, os conflitos fundamentais da comunidade. Imaginar um esvaziamento dos municípios em favor do estado para melhor organizar o espaço metropolitano é antidemocrático. No entanto, o estado tem papel nesta organização e acabe a ele representações relevantes. Mesmo sendo a organização do espaço metropolitano uma determinação econômica que não é controlada por nenhum destes entes, a ação mediada pode trazer mais qualidade para essa determinação econômica estabelecida fora deles (esse fora deles não é metafísico, mas sim algo que está além, que é a própria organização da sociedade capitalista – com todo risco do chavão); pode induzir soluções para os problemas derivados dessa organização econômica que criou o espaço metropolitano e ser a arena para discussão dos interesses que compões esse espaço e essa organização econômica.

Sempre penso em como criar esse espaço de mediação que não é lugar de consenso, é lugar de convencimento. Acredito que a organização dos comitês de bacias instituídos pela Política Nacional dos Recursos Hídricos, onde numa composição múltipla formada pelos estados, municípios, união e sociedade civil organizada, estabelecem-se prioridades, princípios, metas, conflitos, acordos entre todos e tudo isso é posto em prática por um órgão executivo que reflete a diversidade do comitê, que são as Agências de Águas.

Instituir o Comitê de Bacias que envolva o espaço metropolitano é o primeiro passo para se criar um pensamento metropolitano. Garante-se o local e o regional, limitam-se ambos e insere a sociedade num órgão deliberativo. A própria instituição plena do Comitê de Bacias ataca um dos principais conflitos do espaço metropolitano, o uso dos recursos hídricos, além de por uma forma indireta estabelecer algumas regras de ocupação do solo a partir do Plano Diretor de Bacias.

Com uma cunha aberta talvez se consiga dar um passo mais ousado que está sendo dado na Região Metropolitana do Recife, que é criar um consórcio de transporte. A fragmentação dos municípios e a centralidade do capital favorece que o estado capitaneie essa discussão, mas, sendo o transporte um indutor do crescimento urbano, somente uma política integrada conseguiria ir mais além, sem contar que o consórcio também traz o controle social.

A lei ambiental sendo ela aplicadas por órgãos deliberativos e consultivos é freio a ação dos poderes, bem como um espaço para atuação da sociedade.

Acredito que uma vez aplicados plenamente estes instrumentos, o debate das Agências Metropolitanas tornar-se-á mais palatável, permitindo uma experiência ainda mais radical de democracia, de planejamento e de estímulo ao poder local.

Cabe, no entanto, que essas idéias sejam implantadas, e estas idéias não são para aqueles do Estado forte, da força do Estado. É preciso espírito dos anos 90, quando estas leis foram criadas. É necessário que o Estado saia um pouco do palco para que a ação da sociedade civil apareça e se institucionalize, trazendo uma nova onda, menos burocratizante e mais participativa.

Este é um debate com alto teor de discussão que tem potencial de liberar discussões fantásticas na arena política, mas quem poderia levá-lo adiante?

quarta-feira, junho 16, 2010

Propriedade ou moradia?

Acredito que a maioria dos problemas das grandes cidades pode ser derivada do conceito de propriedade que seus cidadãos têm. Desta forma, admitem-se subsídios a compra da propriedade através de subsídios governamentais ou conjuntos habitacionais construídos a fundo perdido; sendo que ambos permitem a aquisição da propriedade. Permite-se e estimula-se o subsídio ao transporte público e aos serviços públicos essenciais. No entanto, a aplicação dos instrumentos do Estatuto das Cidades que buscam o melhor aproveitamento da propriedade urbana sofre resistência inclusive daqueles que a lei queria beneficiar (as operações urbanas consorciadas, no entanto, acabam sendo bem aceitas uma vez que não mexe na estrutura da propriedade, ao contrário do IPTU progressivo e do direito de preempção).

Podemos perceber isso até na forma que os movimentos de moradia agem, e principalmente no seu descolamento da luta pela melhoria do transporte público. As invasões, não só pela dificuldade de reintegração de posse, ocorrem na maioria das vezes em áreas públicas, que são consideradas áreas de ninguém, ou em áreas de proteção ambiental (estas sim podem ser privadas, mas a estas são negadas o direito de ocupação). Se considerarmos que não há muitas invasões nas regiões centrais e se somarmos o movimento centrípeto do crescimento urbano, percebe-se que a moradia só tem valor positivo como propriedade. Como o preço da propriedade urbana é menor na periferia; os que podem pagar vão para lá construir o sonho da casa própria, e os que não podem pagar, ali encontram terras “ociosas”, públicas ou privadas, que podem ser ocupadas e aí sim forçar o direito de propriedade, seja por usucapião ou pela ação do poder público em construir conjuntos habitacionais em zonas especiais de interesse social, quando constituídas.

Cabe observar que se há um movimento centrípeto demográfico, seria interessante verificar os estoques de residências, e talvez veremos um descolamento do mercado de alugueres e do mercado de residências. Além disso, a presença de áreas pouco adensadas no centro, que não são de nenhuma maneira contestada pelos movimentos sociais pró-moradia. É, para mim, uma prova de que o movimento é pró-propriedade e não moradia. Embora existam cortiços e prédios invadidos no centro decadente das cidades, esse em porcentagem são um número muito pequeno das invasões; além disso, estas áreas pouco densas não são alvo de invasões e eu acho que não é só por uma ação vigilante do Estado.

Uma alteração no valor positivo da propriedade privada e uma valorização da moradia poderiam trazer para o mercado imobiliário uma forma de ganho diferente da especulação imobiliária: o mercado de aluguel, que poderia trazer rendimentos aos proprietários da terra, assim como o juros traz para quem investe. Além disso, tendo a moradia um valor positivo, poderíamos trazer para a lei as Concessões Especiais para o Fim de Moradia, onde o Estado é o proprietário de imóveis e se torna um regulador do valor dos alugueres. Cabe lembrar, que o Estado, pelas próprias regras do Estatuto das Cidades poderia, reorganizar a cidade (não de uma maneira fascista, claro, mas de uma maneira participativa e que respeite a dinâmica da cidade, caso contrário produzirá alguns fracassos como a Operação Urbana Água Branca, no que tange aos imóveis comerciais), otimizando os serviços públicos por ele concessionados. Cabe lembrar, que um mercado regulador de alugueres pelo Estado não necessariamente precisa ser estatal, já que se permite a associação com investidores privados para empreendimentos assim.

No entanto, cabe a pergunta: o que quer o movimento de moradia? O que querem os sem-teto? A resposta a esta questão pode representar uma surpresa. Talvez queiram mais propriedade que a moradia, ou a propriedade da moradia, que só é válida se for própria. E isso seria uma contradição fantástica de ser analisada, se conseguisse ser provada.

Democracia e Eleições

Eu não tenho nenhuma dúvida sobre em quem vou votar nas eleições deste ano. Acho que em cenários extremamente polarizados é uma covardia não tomar partido, mesmo com ressalvas. Já tinha tomado partido antes da polarização e isso que poderia comprometer minha análise, num cenário como o tal, me deixa mais a vontade uma vez explicitada minha escolha.

No entanto, sinto falta há algum tempo e acredito que chegaremos ao extremo este ano da absoluta falta de debates. É como se o país só precisasse de metas, de um objetivo, quando, penso eu, o mais importante é o processo onde se definem essas metas e como se as atinge.
Sei que o discurso é batido e clichê, mas como num mundo onde os interesses são cada vez mais difusos, numa sociedade multifacetada que se agrupa e se dissolve a favor de diferentes assuntos pode sobreviver a um nós-contra-eles a que estamos sendo submetidos? É necessária uma radicalização da democracia de forma que todos os interesses possam ser discutidos e decididos.

Ao focar suas campanhas em temas centrais, onde uma espécie de consciência já criou verdades absolutas, as campanhas buscam a todos, atingem a todos, mas a poucos em específico. Se fossem levantadas bandeiras pelas quais a sociedade ainda não criou o certo e o errado, poderíamos liberar forças, anseios e desejos que talvez nem imaginemos que existam.

Neste ponto muito me agrada campanhas como a da Soninha e do Gabeira para prefeito em 2008, da Heloísa Helena e do Plínio Arruda Sampaio para presidente e governador em 2006 e agora da Marina Silva e do Gabeira para presidente e governador. Com suas campanhas mais abertas, discutindo, às vezes, temas periféricos para os ortodoxos, eles podem liberar atos falhos nesta consciência coletiva que pode ser muito mais reformista que o próprio discurso reformista.

Um discurso feminista de fato produziria discussões no mundo do trabalho, da assistência social, da saúde pública muito mais interessantes que discussões sobre o trabalho, a assistência social ou a saúde pública. O mesmo pelo movimento ambientalista, pela reforma universitária, pela progressão continuada na escola pública, para uma política energética. Somente fora do lugar comum poderemos encontrar a sociedade de fato em sua atividade, ávida por participar de discussões que a envolva e a motive. Longe do superávit, da estabilidade da moeda, da responsabilidade fiscal, do assistencialismo ou de quem fez mais ou cresceu mais.

Que sejamos vagarosos em incluir o povo no discurso, mas que sejamos fervorosos na defesa de uma democracia real e participativa, que favoreça o surgimento de movimentos sociais, não pelo financiamento do Estado, mas sim pela possibilidade de verem seus objetivos discutidos por todos.
Adoraria ver isso na República que estamos construindo!

quarta-feira, junho 09, 2010

Músicas Italianas

Tenho uma fixação por essas músicas italianas dos 60, é a breguice, é a riqueza, é toda essa contradição que é ser latino. Você pode ser do G8, mas jamais esquece suas origens!



sábado, maio 29, 2010

Eu li Madame Bovary

Transformei alguns livros em ícones, o que deixou mais difícil ainda lê-los, já que ganharam uma aura de especial, de clássico, de difícil. Madame Bovary era um deles e consegui transpô-lo.

No fim, fiquei maravilhado com o livro. Madame Bovary não tem nada a ver com Luísa. Madame Bovary é maldosa, engenhosa, além de se mover pelas paixões, ela tem uma razão nos seus movimentos que deixa Luísa no chinelo. Madame Bovary é capaz de enganar o marido dizendo que vai ter aula de piano em outra cidade para se encontrar com o amante, enquanto Luísa no máximo foge para o Paraíso com Basílio.

Além do mais, Madame Bovary teve dois amantes e ainda fez amor numa charrete! Madame Bovary quis morrer e se matou; continuou enganando Charles desde o túmulo. Luísa, simplesmente morreu louca e careca. Emma foi para o túmulo mais bonita do que quando era viva, mesmo se suicidando com arsênico. Sem contar que Emma não se deixou nem chantagear, nem se prostituir, se suicidou porque estava endividada, claro que tinha remorso, mas não foi só o remorso que a matou, como matou Luísa.

Agora a descrição de Charles é fantástica, talvez ela valha mais do que a da própria Emma. Acho que a grande crítica nem seja o Romantismo em si, mas sim o que leva as pessoas aos ardores Românticos.

No fim, talvez a burguesia portuguesa fosse mais pudica e menos cosmopolita que a francesa (tese bem trabalhada em Os Maias), mesmo que ainda seja este retrato da burguesia francesa seja a de uma burguesia de província. Mas é fantástico como o dinheiro vai entrando em todos os detalhes e como a ausência de comentários pode insinuar uma conduta moral forte.

Foi uma pena ter lido conto do Woody Allen em que ele traz Emma para Nova York antes de ter lido Madame Bovary. Se tivesse feito na sequência certa o conto seria ainda mais engraçado.

O livro merece ser lido, de alguma coisa serviu andar tanto de ônibus.

terça-feira, maio 18, 2010

À Rita Cadillac

Não é lá muito cultural e eu não estava perto do palco, eu só escutei e desconfiei que era ela, depois fiquei sabendo que era mesmo.

De qualquer maneira, deixo a música aí


A praça! A praça é do povo!


Na verdade não foi uma praça, foram várias praças e ruas para vários povos. Um espetáculo de gente. A virada cultural me encanta exatamente por pôr gente em praças e ruas onde não andariam em dias normais. Discute-se se isso é revitalização do centro, não só isso, mas isso também. Como você pode trazer pessoas para o Centro se elas nem o conhecem? Então façamos viradas culturais onde menos as pessoas querem ir de forma a que elas se apropriem da cidade que é delas, e que muitas vezes não reconhecem como delas.

Essa mistura forçada de pessoas do centro expandido, da periferia e dos moradores degradados do centro degradado dá noção de cidade. O rico se espanta com o mendigo e com o suburbano, que por sua vez aproveita uma noite cheia de atividades gratuitas, tangenciando "artes" por ele ainda experimentadas. O rico, se não for demófobo (infelizmente não é só o rico que pode ser demófobo, geralmente as vanguardas também são, principalmente as medianas e medíocres) toma contato com um mundo que não é o dele. E isso gera laço, gera convivência e gera uma adoção do espaço, que só assim pode ser público. E sendo público, a sociedade difusa pode reclamar por seu melhor uso, por ver sua cultura exposta no evento.

Numa entrevista no Estadão de sexta-feira, antes da virada, uma mulher de teatro reclamava do alto valor da festa e que este dinheiro poderia ser investido em atividades (como a dela, claro, a boquinha é cultural) que tivessem duração maior e que por isso, mesmo tendo um público menor, atingiria, segundo ela, níveis tão altos da população. Duvido, a dita mulher despreza o povo que não quer ver o espetáculo dela, quer decidir pelo povo. Aliás, não que isso seja critério para utilização de recursos do Estado, mas nunca uma renúncia fiscal poderia (ou deveria) ser utilizada num espetáculo onde não se busca o público e sim a satisfação do artista. (Nunca a Lei Rouanet poderia ser utilizada para um filme do Godard ou do David Lynch, p.ex.).

Enfim, a festa tem problemas. Tem; até conceituais. A presença dos CEUs deve aumentar, falta o hip hop, que é um elemento cultural importante, que é parte da identidade de grande parte da população que não pode ser punida por causa de um show que não deu certo. Falta a presença de chavões como Calypso ou bandas sertanejas como Bruno e Marrone (alguém vai negá-los como cultura?). Faltam palcos alternativos e outros projetos cujo fim seja apresentar-se na Virada Cultural.

A Virada Cultural é onde a cidade se torna mais cosmopolita, não um cosmopolitismo Zona Oeste, mas um evento que a une em todas suas contradições, um evento com Metrô, CPTM e SPTrans atuando para levar Centro para periferia e trazer a periferia para o Centro.

Agora, por que existem tão poucos patrocinadores privados? Duvido que num evento destes não existam interessados. Será o medo que o privado possa estragar o cultural? Se for esse o medo, a Lei Rouanet já quebrou este paradigma. Será que ainda persiste a confusão entre o estatal e o público? Bem, no mínimo, a festa poderia ter mais recursos (e também há de ter uma compensação financeira pelos estragos que o vinho São Tomé faz na cidade...hehe).

P.S. Está se tornando chato, mas sempre que vejo uma praça com gente eu digo o título.

Área Livre de Crianças


Pode parecer meio intolerante pensar em ambientes livre de crianças, mas eu realmente acho um absurdo que uma pessoa que não gosta de crianças, que não terá filhos, seja obrigado a conviver com crianças. Assim como o não-fumante tem o direito de não ser incomodado pela fumaça do fumante, porque alguém que não gosta de criança tem que agüentar choro, manha, grito, falta de educação de uma criança?

A idéia de uma área livre de crianças não é uma restrição às crianças, é simplesmente fazer valer o direito de quem não ser incomodado por elas. Por exemplo. No caso de viagens de ônibus e aviões, pelo menos um horário é livre de crianças. Os pais podem viajar em todos os outros. Quem não quer viajar com crianças, se não quiser esse contato, limitar-se-á ao horário “livre de crianças”. A mesma coisa com cinemas, teatros, passeios turísticos.

Poria aqui a idéia de uma missa sem crianças; embora o reino dos céus seja para aqueles que como na parábola são como elas, é praticamente impossível transcender com choro e manha. Mas como a Igreja é um lugar de tolerâncias, não faz sentido esta regra. Exatamente por isso que adoro Santa Cecília, porque talvez eu seja a pessoa mais nova ali!

Na verdade, sempre penso nesta coisa de uma área livre de crianças quando viajo. Eu nem acho tão absurdo as atitudes das crianças, mas sim a dos pais, que acham que as outras pessoas têm que entender o show de seus filhos simplesmente porque são crianças. Não, as pessoas não têm que aturar nada, senhores pais, vocês sim têm que educar seus filhos a viver em sociedade. Afinal, a escolha de ter filhos foi dos senhores, não minha, a minha foi exatamente contrária a isso!

Eu realmente acho que é uma coisa a ser pensada. Tenho certeza que se a ANTT ou ANAC permitissem viagens livres de crianças, essas viagens seriam as mais rentáveis. A mesma coisa se um prédio decidisse em condomínio que não fosse permitido crianças.

Quero só deixar claro que não sou nenhum psicopata ou assassino de crianças. Tenho meu sobrinho, ganharei uma sobrinha, gosto de brincar com eles, me emociono quando ele me chama de Tio Renato, acho legal quando um casal decide ter filhos. O que eu não quero é ter meu direito ao silêncio, meu direito ao sono numa viagem ou a prestar atenção num passeio turístico negado porque um pai sem noção de civilidade não consegue controlar seu filho!

É isso, quem sabe um dia essa idéia cresce! Oxalá!