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sábado, maio 15, 2010

Ainda assim o transporte público vale a pena

É incrível como existe um condicionamento das pessoas sobre a necessidade de carro. Por mais que eu tenha vindo trabalhar no fim do mundo, racionalmente, é inviável pensar em fazer isso de carro. Não só no aspecto econômico, mas até na questão do tempo.

Economicamente, se eu precisar, num dia de chuva ou de pressa, pegar um táxi, esse valor não chegará ao preço mensalizado do IPVA, do seguro e do estacionamento. Trabalhando no fim do mundo, eu gasto com transporte menos que os 6% de renda que é o limite do vale transporte, isso considerando os deslocamentos que não estão ligados ao trabalho. Acho inadmissível, pelo menos no meu orçamento, gastar 12% da minha renda líquida em transporte, como gastam o segundo e o terceiro tercil de renda da região metropolitana (segundo o DIEESE) para manterem seus carros.

Agora o que me impressiona é a questão do tempo. Quando eu comecei a trabalhar aqui, achava um absurdo tremendo perder uma hora e meia de viagem do centro até aqui. No entanto, conversando com as pessoas que trabalham aqui, às vezes, para deslocamentos mais curtos, as pessoas gastam a mesma quantidade de tempo. Ouço relatos de gente que demora meia hora para atravessar a ponte João Dias! Lanço um desafio, quem consegue fazer, às 7 horas da noite, o trajeto Estação Giovanni Gronchi - Estação Santa Cecília em 1 hora e meia? Pois eu, em média, faço!


Uma das coisas que achava besteira quando trabalhava na CPTM era o fator de impedância do transbordo. Hoje, poria um valor enorme nesta impedância. Realmente, eu fujo de qualquer transferência de meios de transporte, isso cansa, é irritante, mesmo sendo transferências livres como entre a CPTM e o Metrô, ou entre os ônibus.


Logicamente surgirá um questionamento sobre o conforto e a individualidade. Pois bem, eu sou o contrafluxo! Sento em Osasco (operação embarque sentado) e levanto na Estação Giovanni Gronchi. Com os fones de ouvido, é possível ler, dormir ou escutar música.

O resultado é: não importa onde você trabalha, morando no Centro, você está bem e usufrui de transporte público confortável e barato. Basta morar no Centro! Claro que se houvesse a mesma capilaridade de vias, corredores ou outros sistemas, novos lugares seriam tão bons como o centro, assim, a própria descentralização da produção seria acompanhada de uma descentralização de lugares bons para morar, mas aí teríamos o risco de vivermos em Los Angeles. Então, fortaleçamos os centros, isso é o que eu desejo para esta cidade.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

O tempo de Maringá não é o tempo de São Paulo

Com certeza o tempo de Maringá não é o tempo de São Paulo, sempre fico com a impressão que a ação lá demora mais para acontecer. Até o imprevisto e o temporal tem sua formação mais demorada e quando ocorrem, ocorrem numa intensidade maior que aqui em São Paulo.

Lá em Maringá não existe a urgência daqui, o que permite que tudo se encaixe no seu devido tempo. A chuva aqui tem que cair e cairá com o arranjo que estiver disponível, com o que for possível, enquanto lá, ela acontece, quando todos seus elementos se encaixarem naturalmente.

Quando chego em Maringá minhas urgências não encontram circunstâncias e quando surgem as circunstâncias não há mais urgência e me sinto acelerado, um pouco angustiado por não interferir nas circunstâncias, já que estas simplesmente acontecem e me levam. Existe uma inércia do tempo que se sobrepõe ao banco que fecha, à loja que abre ou ao dia que rende.

O primeiro dia depois de Maringá é a afirmação do ser paulista. Volto a pelejar com o dia, a tentar extrair o máximo dele, a otimizar caminhos e intenções, a me admirar do quanto fiz render o dia; é uma mudança frenética das circunstâncias forçando seu encaixe. Vendo a chuva acontecer.

Chegando em casa, telefono para Maringá e o tempo da chamada se sobrepõe às duas realidades, tudo se encaixa naturalmente e com urgência, abarcando os dois mundos. É hora de dormir.

domingo, janeiro 10, 2010

Vida Peregrina

Dia de nostalgia. Como foi bom reler meu blog. Escrevo aqui desde o final de 2006, completando três anos e alguns meses de postagens constantes. Foi um olhar para trás para se preparar para caminhar mais uns bons anos.

Uma das coisas mais curiosas que percebi foi que não deixei um Dia Internacional das Mulheres e um Dia do Trabalho passar em branco. Nos três anos escrevi sobre estas duas datas que acho importantíssimas. Nos três anos escrevi sobre a igualdade de gênero e sobre a beleza da feminilidade. Foi uma constante também a discussão do capital versus o trabalho e da busca do trabalho como fonte de realização pessoal.

Achei inacreditável o quanto reclamava antigamente do trabalho via blog e como isso mudou bastante, não que eu ainda não tenha meus problemas com ele, mas encontrei outros meios e passei a encarar o trabalho de outras formas, ou tirar dele muitas obrigações. Ainda não está tão leve como deve ser, mas caminhou muito.

O Catolicismo apareceu em todos os períodos, como dúvida, como certeza, como fonte e culminou no Crisma de dezembro de 2009, talvez como um processo de retomada de influencias passadas que foram trabalhadas e resolvidas.

Reler o blog deu uma sensação tão gostosa de reviver momentos fantásticos como minha primeira visita ao Rio de Janeiro, a primeira vez que fui ao Ritz, meu primeiro Truffaut, a febre de Maria Antonieta causada pelo filme; foi ótimo sentir as mesmas sensações e principalmente pensar no porque elas foram tão marcantes. Para quem se considerava inconstante, foi bom constatar que minhas paixões são constantes, às vezes elas saem de cena, mas sempre voltam e estas idas e vindas foram bem registradas. No entanto Buenos Aires foi constante, passou por todos os anos como a minha maior ilusão, meu sonho feliz de cidade.

Como vi filmes e li livros! Como revi filmes e reli livros! Sempre achando coisas diferentes, criando ídolos e ondas, que vinham, voltavam e modificaram muito minha linguagem. Quanta vírgula deixei de usar, quanto erro de português encontrei!

No blog está o começo de alguns amores, o fim de outros, as diferenças marcantes e como me modifiquei com tudo isso chegando à discrição de diminuir a freqüência destas citações para viver um amor maduro, sem as dúvidas e oscilações presentes em todos os outros.

Ali no blog esteve toda a vontade de pertencer a um grupo e todo a percepção da inutilidade desta tentativa, e principalmente a felicidade de libertar-me de qualquer amarra que um grupo poderia me trazer, amarras implícitas em comentários nem sempre muito agradáveis, fogo amigo que foi muito mais fogo que amigo e que hoje nem é fogo nem amigo.

Politicamente me tornei muito mais liberal, mas muito coerente. Dentro de todas as contradições possíveis, meus princípios atravessaram três anos muito bem preservados e me orgulhei disso. Paulista, engenheiro, católico, liberal e intuitivo. Acho que caminhei para rótulos de uma maneira bem refletida, bem discutida.

Passaram três anos e as circunstâncias mudaram e eu também, continuo sendo produto delas, elas me moldam, me carregam; fantástico constatar que o núcleo passou incólume e as circunstâncias também foram produtos de mim.

quarta-feira, maio 27, 2009

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

Há pelo menos uns dez anos tenho vivido sob um paradigma de que existiam dois pólos: a hipocrisia e o cinismo; onde cada um se graduava entre eles nas suas posturas e ações. Aconteceram muitas coisas nestes dez anos e hoje percebo que o mundo só poderia estar entre estes dois pólos se estivéssemos trabalhando com valores fixos e complicados a ponto de não conseguirmos segui-los e fingirmos (hipocrisia) ou aceitarmos que eram intangíveis e começássemos a apontar que tampouco os outros conseguiam (cinismo). O mundo seria de uma realidade brutal e embora não fosse maniqueísta (já que haveria graduações), partiria de valores e conceitos absolutos.

Quando nos tornamos adultos e conforme vivemos, começamos a ver que os conceitos e valores, por abstratos, não são rígidos e nos amoldamos a eles, definindo-os por superposições de metáforas e experiências, não de uma maneira cínica, mas sim humana. Uma vez que a própria realidade nos traz sensibilidade e tolerância que não combinam com o esquema rígido da hipocrisia-cinismo.

Neste ponto posso dizer que “A Insuportável Leveza do Ser” me achou e não o contrário, já que me alcançou exatamente no processo de relativização dos meus valores.

O livro é de um realismo cru, psicológico, descritivo e que de maneira nenhuma foge ao lirismo; ao invés de querer provar uma tese ou desconstruir o humano, expõe a realidade com o olhar humano, nas poucas certezas e na irracionalidade delas. Talvez pela questão do tempo-espaço, Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, onde não havia mais espaço para as nuances, as nuances dos personagens se acentuam ainda mais.

Tirando toda a questão da leveza e do peso que vai permear toda a história, bem menos rígida que minha proposição da hipocrisia-cinismo, as histórias são belas e bem contadas, montadas de maneira a acentuar a realidade, que muitos autores ao tentarem captá-las acabam por deformá-la.

Se tivesse capacidade de fazer um filme, o faria sobre a relação entre Franz e Sabina, que são secundários, mas representam muito mais este aspecto que me encantou do que o casal Tomas e Tereza. Deu-me uma sensação conhecida, familiar, ao ler esta parte, sem contar que as imagens se formavam rapidamente me minha mente.

Além disso, existe Karenin, que talvez seja a Baleia (a cachorrinha de Vidas Secas) eslava.

Adorei o livro, aposto que será relido e ainda assim ficarei encantado por ele.

terça-feira, abril 07, 2009

Tempo Livre


Será esse o tal ócio criativo?

As vezes fico um pouco envergonhado de dizer que tenho tempo livre. Tenho muito tempo livre. Acho que isso é minha maior contradição neste tal mundo globalizado. Como num mundo com tanto acesso à informação, com novas formas de comunicação e vivendo numa cidade global pode se queixar de tempo livre?

Eu me queixo, mas em silêncio. Ninguém tem tempo livre, todos correm contra o tempo enquanto eu passeio pelo tempo, matando tempo.

Tempo livre é um tabu com o qual tenho lutado. Primeiro para reconhecer que isso não seja um problema, depois para que as pessoas não me vejam como uma aberração e principalmente para aprender a desfrutá-lo.

Tomo um banho demorado, leio livros que outros indicam, escrevo cartas, telefono e penso na vida. Muitas vezes tudo isso gera uma vontade de mundo e aí nem sempre os outros estão com tempo para gastarmos um tempo junto. Então escrevo posts, outras cartas e tomo mais um banho.

É preciso paciência e serenidade para lidar com o tempo, mas acho que este tabu está sendo quebrado.

terça-feira, agosto 19, 2008

Veranico Paulistano

Dias de calor. Noites deliciosas. Céu azul. Não tem brisa, não tem nuvens. Muita gente na rua. Cabe Jundiaí entre São Joaquim e Vergueiro. O festival de cinema russo no CCSP fica ainda mais exótico. Não havia reparado como existem casais neste canto da cidade. O asfalto ferve e o mundo de automóveis aumenta a sensação de calor. Faz 4 dias que as temperaturas estão em altas; a meteorologia já considera que estamos num veranico. Que calor!

Não me lembro de um dia tão bonito assim nesta cidade. Não é dia típico, o que deixa tudo isso mais raro. Se tivesse música tema, seria Piazzolla. Se fosse cenário, o CCSP. Eu que não gosto de verão, me converti. E pensar que São Paulo não combina com verão, muito menos com veranico. Tomara que não venha nenhuma garoa!

Veranillo

(http://www.rae.es/)

1. m. Am. Mer. Tiempo breve de calor o de sequía que, en América del Sur, suele presentarse a fines de junio.
2. m. Arg. y Chile. Período corto de bienestar.