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segunda-feira, dezembro 21, 2009

Aconteceu em Woodstock

Interessante quando um diretor famoso se propõe a fazer um filme “sessão da tarde”. Quando isso acontece, afasta-se da ideia de que para ser um filme bom há que subverter a narrativa, fugir de alguns esquemas consagrados de filmagem e de alguns personagens que beiram o estereótipo. E tendo uma saga sem grandes surpresas, num filme normal, se pode ter um bom filme, que diverte e põe algumas questões interessantes à plateia caso ela queira comprá-las ou discuti-las.

O que eu gostei em “Aconteceu em Woodstock” foi a simplicidade do enredo, como os personagens são exagerados e o roteiro simples, alguns aspectos que poderiam passar desapercebidos se mostram mais. Assim a questão do movimento hippie como uma conseqüência do capitalismo e não uma reação a ele surge muito claramente no filme, já que existe a procura pelo lucro, porque sabemos que dez anos depois todos eles votarão Reagan e que é possível combinar a felicidade com tudo isso, sem necessariamente refugiar-se numa fuga nas drogas ou numa comunidade hippie, como é o caso do protagonista. No entanto, mostra como certas experiências místicas podem realmente modificar a trajetória de uma pessoa, e acredito que Woodstoock foi pedra angular da vida de muita gente.

Fico tentando imaginar o que é a sociedade norte-americana na cabeça do Ang Lee, na verdade existe uma dualidade entre a repressão moral e a liberdade individual que não são conceitos orientais. Talvez por isso a questão do desejo sempre apareça nos filmes, e nesse, dentro de uma experiência mística coletiva permite também a discussão do desejo em suas diversas formas, do casamento-tipo à homossexualidade. Também é interessante algumas inversões de valores como a velhinhas progressistas e os jovens racistas. No fim eu sempre acho que existe um elogio da liberdade individual frente a repressão moral, neste filme isso é celebrado mais ainda!

Ah, não se pode esquecer que as imagens são maravilhosas, nunca fui muito de fixar-me nas imagens, mas elas são um elemento fundamental da narrativa. Se o filme tivesse meia-hora menos, seria um filme muito melhor, mas mesmo longo, ainda é uma ótima diversão.

Saí do cinema como quem viu uma sessão da tarde. Ri dos estereótipos, adorei as imagens, gostei dos conflitos e principalmente das suas soluções.

Hippies e Romantismo

Não consigo não pensar no movimento hippie como uma forma moderna de romantismo no contexto da fuga e da contestação dos tais valores burgueses. Assim como o Romantismo nos permitiu tornar heroicas as revoluções liberais, o movimento hippie legitimou o meu grande clichê de todos os textos, os interesses difusos coletivos, dali ganhou força o ambientalismo, permitiu uma radicalização do feminismo e do movimento gay.

Mas e Ronald Reagan?

E agora José? Pois é, todos os caminhos levaram a Ronald Reagan e enquanto este fenômeno não for explicado, mantém-se uma grande interrogação sobre o que foram os anos 70.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

As mulheres e a crise financeira

A Revista Cláudia é realmente uma revista feminista: neste mês saiu uma matéria mostrando como a solução para a crise financeira mundial pode estar não num lugar geográfico como a China e a Índia, e sim, num gênero em abundância no Ocidente (e em todo lugar), mas que ainda não possui nem igualdade de renda nem de poder. Sim, a solução está na mulher.

A matéria mostra três faces de como a mulher pode comandar uma verdadeira revolução econômica capaz de superar a crise. Na primeira, explora o fato de que elas são decisivas na escolha dos gastos das famílias e chefiam a maioria delas, portanto, uma empresa ou um governo que conta com as mulheres na produção de suas “mercadorias” e políticas sociais atingiria mais facilmente o mercado principal, garantindo uma retomada mais rápida do crescimento. A segunda face está no fato de que uma organização (empresa ou Estado) que conta com uma maior participação da mulher e também com um maior empoderamento (a palavra é empowerment) delas, contaria com um maior capital humano, combinando o melhor dos gêneros e promovendo um ambiente de tolerância fundamental num mundo de interesses difusos e coletivos. O terceiro argumento foi o que mais me intrigou, na verdade ele baseava a crise econômica como a decadência de uma economia baseada no mundo dos homens e que a crise onde a igualdade era maior, foi menos intensa.

Os dois argumentos acabam sempre numa lógica de um direito da mulher por ser uma consumidora como os homens e me desagrada um pouco a idéia de que a igualdade entre os sexos seja uma apenas uma relação de troca econômica, acredito que tenha uma questão moral aí importante a ser discutida. O segundo argumento ainda conta com a diferença entre os gêneros, o que é bem interessante quando a gente vê, principalmente no mercado de trabalho e na política, uma masculinização da mulher, que abandona sua feminilidade para entrar num mundo masculino.

No entanto o terceiro argumento faz pensar. Afinal, não é o mundo realmente um lugar muito masculino. Não foram a jornada de trabalho, as leis trabalhistas, os códigos sociais todos feitos para o homem? Não é a competitividade e a agressividade o elemento mais destacado nas revistas de negócios e não são estas mesmas categorias totalmente associadas à masculinidade? Dá até pra pensar se não tem fundamento mesmo o fato de que o desequilíbrio entre homens e mulheres possa ter causado um desequilíbrio maior.

Abstrações a parte, achei interessante o fato de pôr a questão do gênero num assunto onde a universalidade não permite verificar as diferenças gritantes que esta questão tem no mercado de hoje. Afinal, por que a mulher continua ganhando menos que os homens? Por que a jornada de trabalho não respeita as diferenças entre os gêneros? Por que a maternidade não é mais protegida no mercado de trabalho e é até uma barreira para o sucesso profissional das mulheres?

Acho que é um bom tema para se pensar, afinal, no meio dos outros interesses difusos, parece que o feminismo tem sido eclipsado pelo ambientalismo, pela questão da raça e da diversidade sexual. Esta semana passou no Senado a lei do divórcio imediato e nem foi muito noticiada, e pensar que nos anos 70 esta foi uma bandeira feminista e onde talvez elas tiveram mais sucesso. Ainda há outros temas importantes a serem discutidos como a igualdade no serviço doméstico, a maior representação política e o grande tema do aborto a ser confrontado. Se a economia está em crise, uma sociedade em ebulição geralmente dá boas respostas econômicas.

sábado, novembro 14, 2009

A Revista Piauí e a Rua Piauí

Tinha dois exemplares da revista Piauí fechados e agora que acabei outras leituras me pus a lê-los e tenho que admitir que realmente eu acho a revista Piauí uma das melhores revistas que você pode comprar numa banca. É uma revista de análise. Num tempo onde as informações são tão rápidas, as versões e os fatos mudam a todo instante, lendo a Piauí você tem o tempo a seu favor.

Como hoje nenhum fato é novidade já que tudo acontece em tempo real, acho que o futuro de um jornal e de uma revista está nos colunistas, que são pessoas que podem interpretar o mundo de informações publicadas a exaustão dando a elas um cenário, compondo um quadro onde as notícias são elementos. E aí entra a Piauí compondo o mundo atual sem nenhum furo ou novidade, e sim, conectando as notícias que passaram, que foram importantes e que pela enxurrada de notícias acabaram despercebidas.

Na verdade, no título eu quis pôr uma das maiores críticas que ouço da Revista Piauí: ela é elitista, trata o mundo como se o mundo fosse Higienópolis (por isso da Rua Piauí). Rememorando as cinco últimas reportagens que li: Serra na hora da decisão (revista 37), Vidas Paralisadas, O setembro negro da Sadia, A longa guerra de Stanley McChrystal e Ilusões de Obama (revista 38); com certeza não são reportagens que possam ser resumidas numa metáfora de futebol, numa frase de efeito ou num grito de ordem.

A infelicidade do meu tempo e da minha geração é que a discussão, a discordância, a análise e o conhecimento viraram elitismo. O problema da Revista Piauí não é a Rua Piauí e sim o fato que o que ela tem de qualidade (que para mim são virtudes) não é simbolicamente apropriado por grande parte da população e o mais triste é que a parte do think tank nacional que a acusa de elitismo não considere estas qualidades como necessárias.

Neste ponto posso ser um pouco saudosista e pessimista. Mas acho que a capacidade de análise e reflexão não é mais uma virtude e ao considerá-las uma faculdade da elite, termo vago sem análise e reflexão, se faz com que o efêmero seja a grande virtude do meu tempo. Esta efemeridade ao invés de provocar a reflexão de um projeto nacional (coletivo), de classe (difuso) ou individual, abre espaço para a apropriação parcial da realidade ou da fuga da realidade (uma fuga romântica, por que não?)

Considerando o aumento do número de vagas nas universidades públicas, o Pró-Uni (virtudes do governo Lula), a internet que democratiza o pensamento (e a efemeridade), e hoje vivendo numa cidade como São Paulo, onde o acesso a cultura e ao conhecimento, gratuito ou com baixo custo é gigantesco, as reflexões da Piauí não deveriam só fazer eco na Rua Piauí e sim em qualquer rua.

sexta-feira, julho 31, 2009

Segunda Onda e Baader-Meinhof

No artigo do Gabeira hoje na Folha ele comentava sobre uma segunda onda democrática, superando esta primeira onda que se esgota com o fim do governo Lula. Se na primeira onda tivemos a consolidação da democracia com eleições diretas regulares, “uma política econômica realista, uma generosa política social”. A próxima onda será a da responsabilidade diante da transparência, além das demandas sociais que cresceram (com a economia e com a democracia) e com uma nova abordagem de como os políticos irão absorver e dirigir essas novas demandas.

Ponho aqui também uma questão de liderança, e talvez de espírito. Afinal, acho que esta nova onda deve vir com um propósito, seja ela bolivariano ou extremamente liberal, acho interessante que ele tenha uma meta e não viva do dia a dia. Acho importante caminharmos numa direção, não decidir no dia a dia. Não que uma idéia prevalecerá, mas termos líderes com propósitos e ideais pode gerar um debate interessante que falta hoje em nossa democracia.

Neste ponto entra o link com o filme que eu acabei de assistir. O filme é “Baader Meinhof” e é sobre o grupo terrorista que surgiu no seio de uma das nações com um estado de bem estar social mais bem desenvolvido e que nem por isso surgiu dentro de sua juventude uma geração contestadora que acabou indo para a luta armada em torno de uma revolução cujos motivos eram tão fluídos que se torna um mistério.

Na verdade todos os acontecimentos de 68 parecem para mim como um delírio coletivo do ocidente. Uma contestação de tudo e da própria ocidentalidade (engraçado, acho que durante todo o século passado todos os intelectuais só enxergavam a decadência do Ocidente). Ao fim, num misto de sonho, de uma utopia difusa que negava a individualidade em busca de uma liberdade não muito explicada.

Acho que os filmes tratam esses acontecimentos de 68 com um certo romantismo, afinal a juventude é uma coisa bela de se observar e em 1968 eles tomaram conta do mundo, subvertendo valores, mas foram pouco eficientes nos seus objetivos. Afinal, todas as revoltas impediram a implantação de um governo do Willy Brandt de tentar um governo que conseguisse implantar uma forma de representação que incluísse os jovens, impediu o PCI de chegar ao governo, reforçou o gaullismo na França e de rasteira destruiu a socialdemocracia nos Estados Unidos e na Inglaterra trazendo a Era Reagan e Teatcher.

Sobre o filme....

Bem, filmes alemães são ótimos sempre, eles não oscilam como os franceses, então se você vir em cartaz um filme alemão, assiste. Mal não vai lhe fazer! Sem contar que o final dos 60 e começo dos 70 são fantásticos, de música, de estética. Vale a pena o filme.

sábado, junho 27, 2009

Um caminho para a paz

Escolher o título do que pretendo escrever talvez seja mais difícil do que o que vou escrever. Assim como no começo do mês escrevi sobre uma série de livros de Revoluções do século 20, no final do mês terminarei com uma série interminável de cartas e livros que, apesar de seu conteúdo religioso, procuram entender o mundo. Assim como as Revoluções do século 20 partiam de uma análise da situação para criar as mudanças, as encíclicas Paz na Terra de João XXIII e Caminho da Igreja de Paulo VI tentam fazer esta análise situacional da humanidade no seu tempo. Tempo este que é intrigante já que produziu tanto as Revoluções como a própria Revolução da Igreja que é acusada de ser a reação a qualquer Revolução.

Assim, ao ler ambas encíclicas, além de documentos falando do modus operandis da Igreja num mundo que lhe é estranho; ambas oferecem ao mundo um caminho para resolver as contradições deste mundo que geraram os conflitos destes tempos revolucionários. Afinal, a consciência civil nos anos 60 modificou toda a sociedade ocidental onde a Igreja estava apoiada, sociedade esta, que por sua vez foi intimamente influenciada pela Igreja desde seu tempo medieval.

Desta forma, os dois papas “revolucionários” propunham que somente no exame de consciência de sua ação como Igreja e como humano, poderiam encontrar a tolerância que seria produtora da paz. Então olhando para o outro como portador dos mesmos direitos e deveres, seria possível a construção da Paz Mundial. Parece-me um pouco ingênuo pensar que a construção da Paz Mundial partiria de uma iniciativa individual. No entanto, a individualidade é o maior tesouro ocidental, e se essa individualidade ocidental causara o desequilíbrio do mundo quando se afirmava contra a sociedade constituída produzindo um choque geracional até hoje pouco explicado na sua busca do impossível como o maio de 1968; esta própria individualidade, ao reconhecer a individualidade alheia poderia trazer de volta um mundo de tolerância, que por cadeia, através das associações entre os homens, dos países e dos dois blocos que existiam no mundo de então (três, se contarmos os países subdesenvolvidos que ajudarão na transformação da Igreja), poderia conduzir à um mundo de tolerância e paz.

O Papa Paulo VI, no entanto, na encíclica caminho da Igreja, talvez tenha sido mais incisivo ao mostrar a Igreja como um caminho para a “questão” dos anos 60. Propunha que a Igreja se interiorizasse tomando consciência de seu papel de Igreja e dos mistérios que ela portava, para num segundo momento olhar-se e ver seus desvios, considerando que nunca seria perfeita como Cristo, mas que na fé deste deveria se transformar e propunha que ao vivenciar o mundo (tudo que é fora da Igreja), ela dialogasse com ele, mantendo-se firme em princípios “cristãos”, que numa extrapolação minha, seriam os próprios princípios do Ocidente. Esse diálogo se basearia na tolerância, no conhecimento e na fraternidade, mas não poderia nunca fugir de princípios bem estabelecidos verificados na primeira ação, a da consciência, a do exame de consciência. Somente sobre estes princípios que o diálogo com o mundo (sem ser mundo) poderia ser estruturado, sendo a Igreja uma fonte de mistérios de fé que poderiam infundir não só no ocidente, como no mundo todo a tolerância e o respeito aos direitos do indivíduo.

Sem entrar no mérito dos mistérios o fato é que ambas encíclicas buscavam dentro da Igreja possíveis caminhos para uma sociedade de tolerância e diálogo.

Porém, ao olhar a proposta de Igreja de Paulo VI, não tem como não notar como esse processo, interiorização, tomada de consciência e diálogo é o mesmo processo que nós passamos por nossa vida (seja ela com os mistérios da Igreja ou não). Talvez seja a forma ocidental de tornar-nos adultos. Afinal, num primeiro momento precisamos desta individualização a fim de nos conhecer, e conhecer nosso potencial. No nosso contato com o mundo verificamos nossa imperfeição, nossas falhas, saímos do mundo ideal da individualização. Estas imperfeições serão absorvidas, interiorizadas, ou até gerarão nossos traumas e neuroses. E na vivência do mundo, no contato do outro, nas nossas relações, teremos que nos confrontar a todo instante com o nosso “eu” e as nossas imperfeições.

Acho que desagradei a teólogos, psicólogos e sociólogos com o que escrevi. No entanto, vejo e reforço como a Igreja imprimiu no Ocidente a questão da individualidade, e nós, ocidentais, na nossa individualidade, passamos por processos semelhantes ao da experiência mística da Igreja, que mesmo para aqueles que não acreditam nos mistérios da fé, passam por situações iguais. No final, até acredito que a Igreja, se não pôde dar a resposta para uma sociedade menos brutal, teve ferramentas e as utilizou para isso.