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domingo, julho 25, 2010

Lenine

A ideia não é nova, mas realmente eu acho que se existe um cantor que simboliza a cidade de São Paulo é o Lenine. Em nenhum momento ele nega que é pernambucano, ele é um símbolo do Recife, e aí torna mais simbólico o fato que para mim ele lembra a cidade de São Paulo. Acho que ele decifra seus habitantes e a cidade muito mais que Sampa do Caetano (embora não roube um certo ar romântico de Ronda ou de Adoniran Barbosa).

Eu sou um pessimista sobre os anos que vivemos, acho que perdemos o tom da modernidade que entrou avassaladoramente nos nossos discursos nos anos 90, anos em que forjei minha identidade (ainda a forjo, mas o grosso foi feito no segundo mandato de Fernando Henrique, sou produto do segundo mandato do Fernando Henrique). E aí que entra o Lenine com letras modernas, urbanas, facilmente assimilável por quem habita a cidade, por quem vive a cidade. Cantando coisas da cidade.

Hoje no show no shopping Anália Franco, onde a cidade está se forjando sobre o signo dos 2000, onde a modernidade sai de cena para o progresso descomprometido ideologicamente, foi muito bom encontrar-me com meu espírito de modernidade comprometida (mesmo que o comprometimento seja diametralmente oposto).

Valeu o show, me diverti muito.

sábado, maio 29, 2010

Eu li Madame Bovary

Transformei alguns livros em ícones, o que deixou mais difícil ainda lê-los, já que ganharam uma aura de especial, de clássico, de difícil. Madame Bovary era um deles e consegui transpô-lo.

No fim, fiquei maravilhado com o livro. Madame Bovary não tem nada a ver com Luísa. Madame Bovary é maldosa, engenhosa, além de se mover pelas paixões, ela tem uma razão nos seus movimentos que deixa Luísa no chinelo. Madame Bovary é capaz de enganar o marido dizendo que vai ter aula de piano em outra cidade para se encontrar com o amante, enquanto Luísa no máximo foge para o Paraíso com Basílio.

Além do mais, Madame Bovary teve dois amantes e ainda fez amor numa charrete! Madame Bovary quis morrer e se matou; continuou enganando Charles desde o túmulo. Luísa, simplesmente morreu louca e careca. Emma foi para o túmulo mais bonita do que quando era viva, mesmo se suicidando com arsênico. Sem contar que Emma não se deixou nem chantagear, nem se prostituir, se suicidou porque estava endividada, claro que tinha remorso, mas não foi só o remorso que a matou, como matou Luísa.

Agora a descrição de Charles é fantástica, talvez ela valha mais do que a da própria Emma. Acho que a grande crítica nem seja o Romantismo em si, mas sim o que leva as pessoas aos ardores Românticos.

No fim, talvez a burguesia portuguesa fosse mais pudica e menos cosmopolita que a francesa (tese bem trabalhada em Os Maias), mesmo que ainda seja este retrato da burguesia francesa seja a de uma burguesia de província. Mas é fantástico como o dinheiro vai entrando em todos os detalhes e como a ausência de comentários pode insinuar uma conduta moral forte.

Foi uma pena ter lido conto do Woody Allen em que ele traz Emma para Nova York antes de ter lido Madame Bovary. Se tivesse feito na sequência certa o conto seria ainda mais engraçado.

O livro merece ser lido, de alguma coisa serviu andar tanto de ônibus.

terça-feira, maio 18, 2010

À Rita Cadillac

Não é lá muito cultural e eu não estava perto do palco, eu só escutei e desconfiei que era ela, depois fiquei sabendo que era mesmo.

De qualquer maneira, deixo a música aí


A praça! A praça é do povo!


Na verdade não foi uma praça, foram várias praças e ruas para vários povos. Um espetáculo de gente. A virada cultural me encanta exatamente por pôr gente em praças e ruas onde não andariam em dias normais. Discute-se se isso é revitalização do centro, não só isso, mas isso também. Como você pode trazer pessoas para o Centro se elas nem o conhecem? Então façamos viradas culturais onde menos as pessoas querem ir de forma a que elas se apropriem da cidade que é delas, e que muitas vezes não reconhecem como delas.

Essa mistura forçada de pessoas do centro expandido, da periferia e dos moradores degradados do centro degradado dá noção de cidade. O rico se espanta com o mendigo e com o suburbano, que por sua vez aproveita uma noite cheia de atividades gratuitas, tangenciando "artes" por ele ainda experimentadas. O rico, se não for demófobo (infelizmente não é só o rico que pode ser demófobo, geralmente as vanguardas também são, principalmente as medianas e medíocres) toma contato com um mundo que não é o dele. E isso gera laço, gera convivência e gera uma adoção do espaço, que só assim pode ser público. E sendo público, a sociedade difusa pode reclamar por seu melhor uso, por ver sua cultura exposta no evento.

Numa entrevista no Estadão de sexta-feira, antes da virada, uma mulher de teatro reclamava do alto valor da festa e que este dinheiro poderia ser investido em atividades (como a dela, claro, a boquinha é cultural) que tivessem duração maior e que por isso, mesmo tendo um público menor, atingiria, segundo ela, níveis tão altos da população. Duvido, a dita mulher despreza o povo que não quer ver o espetáculo dela, quer decidir pelo povo. Aliás, não que isso seja critério para utilização de recursos do Estado, mas nunca uma renúncia fiscal poderia (ou deveria) ser utilizada num espetáculo onde não se busca o público e sim a satisfação do artista. (Nunca a Lei Rouanet poderia ser utilizada para um filme do Godard ou do David Lynch, p.ex.).

Enfim, a festa tem problemas. Tem; até conceituais. A presença dos CEUs deve aumentar, falta o hip hop, que é um elemento cultural importante, que é parte da identidade de grande parte da população que não pode ser punida por causa de um show que não deu certo. Falta a presença de chavões como Calypso ou bandas sertanejas como Bruno e Marrone (alguém vai negá-los como cultura?). Faltam palcos alternativos e outros projetos cujo fim seja apresentar-se na Virada Cultural.

A Virada Cultural é onde a cidade se torna mais cosmopolita, não um cosmopolitismo Zona Oeste, mas um evento que a une em todas suas contradições, um evento com Metrô, CPTM e SPTrans atuando para levar Centro para periferia e trazer a periferia para o Centro.

Agora, por que existem tão poucos patrocinadores privados? Duvido que num evento destes não existam interessados. Será o medo que o privado possa estragar o cultural? Se for esse o medo, a Lei Rouanet já quebrou este paradigma. Será que ainda persiste a confusão entre o estatal e o público? Bem, no mínimo, a festa poderia ter mais recursos (e também há de ter uma compensação financeira pelos estragos que o vinho São Tomé faz na cidade...hehe).

P.S. Está se tornando chato, mas sempre que vejo uma praça com gente eu digo o título.

sábado, abril 10, 2010

Mr. America – Andy Warhol

Adorei a exposição do Andy Warhol na Estação Pinacoteca. Talvez ele tenha compreendido o espírito do capitalismo de uma maneira crítica, mas não hipócrita. Ao definir-se como americano por excelência, trouxe para si toda sua cultura, cultura real. Acabou levando o popular para a vanguarda. Quando igualou os ícones de Marilyn com a foice e o martelo, mostrou a massificação dos dois lados daquele mundo bipolar que viveu.

No entanto, o que mais gostei foram as cores, as oportunidades de representação, as experimentações e brincadeiras com coisas sérias. Representou todo o fascínio de Kennedy, criticou Nixon de uma maneira engraçada; seria interessante fazer um paralelo dele com Reagan, as poucas imagens de Reagan já permitiria esse caminho, afinal, Reagan foi um Warhol da política. (ok, tenho um fascínio por Reagan, confesso e não nego).

O mais marcante, porém, foi um vídeo chamado Boquete (Blow Job). È impossível assistir inteiro porque são mais de 40 minutos de repetição. A câmera fica parada no rosto de um cara que se presume está recebendo o boquete. No começo, a sensação de prazer é muito incômoda, tanto que passei pela sala e rapidamente saí. Fiquei olhando depois as outras pessoas e vi que a maioria fazia o mesmo. Mas, depois que você passa pela sala, vai até o fim da exposição, fica a vontade de rever a cena. Entrando na sala pela segunda vez, mesmo que o filme esteja no mesmo ponto que você viu quando passou pela primeira vez, o prazer do homem não é mais um incômodo, vira uma curiosidade em ver, e é incrível como o prazer tem horas que se parece com a dor, e como a câmera é fixa no rosto do cara, você fica vendo expressões gravadas que nos remetem tanto ao prazer e a dor e acaba imaginando seu rosto nisso. No fim, a cena fica meio hipnotizante, passei pela sala um monte de vezes. Não é pornografia, já que não é prazeroso ver o prazer daquele cara, sei lá o que é!

Como boa pop art, no fim, tive vontade de comprar alguma coisa, o catálogo era muito caro e desisti, comprei dois lápis, pus no meu estojo, e comprei algo que lembra o Andy Warhol. Ainda volto lá antes do fim da exposição.

sábado, março 06, 2010

Cada coisa em seu lugar e a seu tempo

Conversando com Guilherme sobre como gosto de escutar um disco na sequencia em que as músicas foram postas no álbum, lembrei-me de uma entrevista do Truffaut sobre Domicílio Conjugal, onde ele diz:


"Quando Jean-Pierre Léaud vive uma aventura com uma japonesa, sua mulher toma conhecimento, e quando ele volta à casa, abre a porta e sua mulher está no fundo do apartamento vestida de japonesa. Eu sabia que as pessoas ririam, então faço-o avançar no cômodo, faço um travelling sobre ela e, quando passo a um close sobre ela, o público percebe que há uma lágrima no seu rosto, então o riso é bloqueado e as pessoas sentem vergonha de ter rido (...)"


Pois bem, guardei a ideia porque achei tão fantástico que um diretor pensasse nisso, que comecei a respeitar mais as sequências. Talvez a maioria das vezes não tenham tanto significado, mas lembrar-me do quanto me senti mal com a cena e saber que o diretor do filme pensou microscopicamente nesse sentimento que eu teria, me deixou mais fissurado pelo Truffaut.

Aliás, sabendo que a cena é sobre adultério e lendo que ele quis que as pessoas que riram se sentissem mal, pode parecer uma posição muito conservadora para quem foi personagem no maio de 68, no entanto, na mesma entrevista, ele fala sobre o adultério.


"... quando falamos de adultério, não conseguimos ser engraçados, a não ser que mintamos, como em certas comédias americanas. Tratado com um certo realismo, o adultério é forçosamente triste"


Lembrando do baque que é assistir "Um só pecado", esta questão talvez não seja conservadorismo, e sim um ato extremamente revolucionário ao recuperar um valor não pela sua tradição, mas pelo seu humanismo.

Fiquei com estas duas coisas na cabeça, a importância da sequencia e a tristeza do adultério. Enfim, acho que com a meia-idade chegando, considero muito ambas.

terça-feira, julho 21, 2009

A difícil questão de dizer o que é Arte!

Será que existe alguma função social na arte? Será que essa função é transmitir algum significado, mesmo que seja um significado inconsciente do artista para o espectador/observador. Será que ela é uma experiência única do artista ou é coletiva? Ela é uma forma de comunicação entre o artista e seu púbico?

Essa discussão é tão interessante porque ela traz consigo outros elementos, como o legitimador da arte: o museu, o curador, o crítico, que são capazes de transformar uma coisa sem definição num conceito! E muitas vezes podemos não concordar com eles!

Mais difícil ainda quando estamos numa época onde é muito fácil fazer arte. É fácil pintar, fotografar. E sem querer pode-se dar a aura da arte.

Após o curso de fotografia que fiz no CCSP acho que estas questões se tornaram bem interessantes; a partir do momento que se tem uma individualização tremenda do artista, própria da modernidade, revela-se esta individualização é de massa e pode cair no kitsch. Sendo assim, acho que a grande discussão é o kitsch, como parâmetro de arte, como o diferencial estético. E como fazer isso sem cair numa teoria de vanguardas que deixam a arte elitista?

Pois bem, acredito que muito desta discussão seja totalmente bizantina, e a partir de algumas mostras que estão espalhadas pela cidade podemos ver que a arte é permeável a todos os estratos, desde que eles tenham acesso. (o que não deixa de ser uma vitória minha contra o elitismo das vanguardas), mas que também a picaretagem é muito bem percebida (mesmo com o aval das vanguardas).

A cidade está com algumas exposições ótimas que merecem ser vistas e isso faz São Paulo uma cidade fantástica. Listei algumas exposições que vi sem ter pretensão nenhuma de criticá-las nem de convencer ninguém. Mas como a pobreza faz a gente caminhar por lugares muitas vezes desconhecidos, um desses lugares pode ser uma das exposições abaixo;

Cuide bem de você (Sesc Pompéia): Se existe um fenômeno de exposição, é essa. A idéia fantástica de tentar compreender um fora por e-mail explicada por mais de 100 mulheres de diferentes formações é uma sacada de mestre. Quando você pensa que haverá um massacre do macho, você vê que existem muitas Camilles Paglias perdidas pelo mundo. É ótima a explicação da juíza e da advogada, mas a melhor de todas é da especialista em romances do século XVIII e da consultora de bons costumes. Acho que nunca me diverti tanto numa exposição!

Ser Jovem na França (Centro Cultural da Caixa): Mostra de fotografia com algumas fotografias bem interessantes, acho que ali é um lugar fantástico para descobrir a artisticidade ou documentalidade da fotografia. Existe um certo lirismo na exposição da juventude, da diversidade cultural. Interesses difusos e coletivos na mais bela idade! A exposição foi encomendada pelo governo francês e essa informação é importante para saber a motivação dos fotógrafos.

Argentina Hoy (Centro Cultural São Paulo): Bem, é interessante mostrar a ousadia dos nossos hermanos, embora muitas peças beirem a picaretagem. Adorei as fotografias, principalmente a do “quarto rosa”, mas também as paisagens desfocadas, que dão uma idéia de miniatura fantástica. As imagens épicas da época da independência mostrando os piqueteiros também são bem interessantes. Achei bem interessante a tapeçaria do campo de batalha.

Gravuras de Franz Post (BMF): Aqui a graça está em pensar como foi feita aquele quantidade de gravura em metal no século XVII. Achei legal rever Pernambuco nas gravuras encomendadas por Maurício de Nassau. Afinal, foi graças a Maurício de Nassau que me levou até o Recife. O mais engraçado desta exposição é que na minha aula de gravura em acetato eu desenhei um mapa, e o Franz Post também, está vendo como meu acetato é arte?

Pinacoteca – Acervo: Muito bem, é emocionante ficar ao lado de um Rodin, é a mesma emoção que tive em Curitiba ao ficar perto de um Renoir e de um Portinari. Afinal, se eles são mestres, deve ser por alguma coisa, e é legal ficar perto de uma obra famosa. No entanto, além do prédio que é a grande atração, a sala dos concretistas é fantástica. Ainda mais naquele prédio, e ao lado das esculturas. Há uma exposição de fotografia lá também.

Bom proveito e oxalá apareçam mais exposições gratuitas!