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quinta-feira, setembro 02, 2010

Filho Pródigo ou Pai Misericordioso

Acho que a religiosidade tem fases. Consigo imaginar a minha como várias delas, já houve a da passagem Marta-Maria, já houve uma fase de Sermão da Montanha, acho que hoje é uma fase da Parábola do Filho Pródigo.

Na verdade, acho que a parábola do filho pródigo para mim, responde a uma possível incoerência entre minha vida e meu catolicismo. Considerando que a vida é uma peregrinação e que a gente anda por ela, muitas vezes errantes, acho a parábola uma ótima metáfora. Trabalha alguns pontos importantes na minha fé.
Num primeiro momento a saída do filho pródigo que é um desejo totalmente humano, assim como a própria prodigalidade do filho pródigo é esperada de nós. O grande acontecimento, porém, é a percepção da volta para casa, uma volta modificada, pensada, de livre-arbítrio, sem orgulho que é recompensada com um pai que vai buscar o filho na porta de casa e não deixa que o filho seja servo e sim permite a volta da condição de filho.
Antigamente, não me conformava com esta parábola, achava uma injustiça com o filho que ficou, e aí que entra a misericórdia do pai, que assim como buscou o filho que volta, busca o filho que ficou lembrando que o filho que foi estava perdido e agora voltou.
Bem, acho que a resposta ao meu catolicismo vem destas idas e vindas que assim como o tempo da Igreja que sempre se repete e sempre se renova, assim como o filho pródigo que vai ao mundo.
A ideia do post era pôr uma musica desta parábola que ficou na minha cabeça desde ontem, mas não achei um vídeo bom no youtube para ela... fica para uma outra vez

sábado, junho 27, 2009

Síndrome de Higienópolis

De como se acha um Centro de Cultura Judaica

Depois de três finais de semana seguidos onde todos os meus sábados terminavam de alguma maneira em Higienópolis, não era de se estranhar que eu acabasse este sábado na 2ª mostra de audiovisual israelense do Centro de Cultura Judaica de São Paulo. Acho a construção do Estado de Israel uma das coisas mais fascinantes do século 20, uma verdadeira odisséia. Criou-se um Estado do nada e as questões que são postas a este Estado hoje serão as questões que terão impacto nos nossos Estados num futuro que acredito ser bem próximo.

O filme que assisti chama-se Irmãos, que até parece uma novelinha pela filmagem e linearidade da história. A partir de um tema batido das diferenças entre irmãos acaba mostrando uma novidade interessante. Um dos irmãos vive num kibutz em Israel, que também é uma experiência social fantástica; enquanto o outro é um judeu ortodoxo que vive nos Estados Unidos e volta à Israel para defender o direito dos ortodoxos de não se alistarem no exército.

O cotidiano faz do habitante do kibutz um cidadão israelense enquanto o outro, ao ser judeu nos Estados Unidos se sente um judeu, não um israelense. Assume-se israelense por causa da Lei do Retorno, mas antes de tudo ele é um judeu.

Então do clichê previsível do combate entre os irmãos, surge o grande tema do filme, que é se Israel é um Estado ou um Estado Judeu. E isso tem toda uma diferença na forma de organizar o Estado. O filme acaba chegando a conclusão que o Estado de Israel hoje é um equilíbrio entre estas tendências, e a cada radicalização de um lado, ou de outro, sempre existe o risco de um confronto. Que cada dia se torna mais latente, já que a Lei do Retorno hoje acaba favorecendo os ortodoxos.

A questão torna-se mais séria, afinal a Lei do Retorno implica que o israelense é judeu, mas se ele for só judeu poderíamos ter um novo Irã, mas se for só israelense, é um Estado absurdo, já que a construção de sua identidade de estado calcou-se na sua origem judaica.

O bom é saber que política é processo, e com certeza a forma que Israel resolver isso trará uma luz para questões deste tipo que hoje já se põe em países como a França, onde para alguns os imigrantes acabam eclipsando as características que tornaram a França um Estado.

Bom filme para refletir.

Da platéia e do Centro de Cultura Judaica

O Centro de Cultura Judaica é um lugar maravilhoso. Se não fosse o Guia Folha nem saberia que existia, e que fica ao lado do metrô Sumaré. É um prédio moderno, em concreto aparente, com a máxima segurança. Para assistir o filme tive que passar por um detector de metais.

O engraçado foi como a platéia interagia com o filme o que deu a entender que essa divisão entre seculares e ortodoxos existe também na comunidade judaica daqui. Quando os costumes do ortodoxo o colocavam em situações embaraçosas frente ao mundo normal, a platéia ria muito e achava um absurdo (como por exemplo, numa cena em que ele fica em dúvida se atende ou não atende o celular durante shabat).

E o Irã?

Será que essa onda de protesto também não reflete no Irã essa questão crucial entre o secular e o religioso?

Um caminho para a paz

Escolher o título do que pretendo escrever talvez seja mais difícil do que o que vou escrever. Assim como no começo do mês escrevi sobre uma série de livros de Revoluções do século 20, no final do mês terminarei com uma série interminável de cartas e livros que, apesar de seu conteúdo religioso, procuram entender o mundo. Assim como as Revoluções do século 20 partiam de uma análise da situação para criar as mudanças, as encíclicas Paz na Terra de João XXIII e Caminho da Igreja de Paulo VI tentam fazer esta análise situacional da humanidade no seu tempo. Tempo este que é intrigante já que produziu tanto as Revoluções como a própria Revolução da Igreja que é acusada de ser a reação a qualquer Revolução.

Assim, ao ler ambas encíclicas, além de documentos falando do modus operandis da Igreja num mundo que lhe é estranho; ambas oferecem ao mundo um caminho para resolver as contradições deste mundo que geraram os conflitos destes tempos revolucionários. Afinal, a consciência civil nos anos 60 modificou toda a sociedade ocidental onde a Igreja estava apoiada, sociedade esta, que por sua vez foi intimamente influenciada pela Igreja desde seu tempo medieval.

Desta forma, os dois papas “revolucionários” propunham que somente no exame de consciência de sua ação como Igreja e como humano, poderiam encontrar a tolerância que seria produtora da paz. Então olhando para o outro como portador dos mesmos direitos e deveres, seria possível a construção da Paz Mundial. Parece-me um pouco ingênuo pensar que a construção da Paz Mundial partiria de uma iniciativa individual. No entanto, a individualidade é o maior tesouro ocidental, e se essa individualidade ocidental causara o desequilíbrio do mundo quando se afirmava contra a sociedade constituída produzindo um choque geracional até hoje pouco explicado na sua busca do impossível como o maio de 1968; esta própria individualidade, ao reconhecer a individualidade alheia poderia trazer de volta um mundo de tolerância, que por cadeia, através das associações entre os homens, dos países e dos dois blocos que existiam no mundo de então (três, se contarmos os países subdesenvolvidos que ajudarão na transformação da Igreja), poderia conduzir à um mundo de tolerância e paz.

O Papa Paulo VI, no entanto, na encíclica caminho da Igreja, talvez tenha sido mais incisivo ao mostrar a Igreja como um caminho para a “questão” dos anos 60. Propunha que a Igreja se interiorizasse tomando consciência de seu papel de Igreja e dos mistérios que ela portava, para num segundo momento olhar-se e ver seus desvios, considerando que nunca seria perfeita como Cristo, mas que na fé deste deveria se transformar e propunha que ao vivenciar o mundo (tudo que é fora da Igreja), ela dialogasse com ele, mantendo-se firme em princípios “cristãos”, que numa extrapolação minha, seriam os próprios princípios do Ocidente. Esse diálogo se basearia na tolerância, no conhecimento e na fraternidade, mas não poderia nunca fugir de princípios bem estabelecidos verificados na primeira ação, a da consciência, a do exame de consciência. Somente sobre estes princípios que o diálogo com o mundo (sem ser mundo) poderia ser estruturado, sendo a Igreja uma fonte de mistérios de fé que poderiam infundir não só no ocidente, como no mundo todo a tolerância e o respeito aos direitos do indivíduo.

Sem entrar no mérito dos mistérios o fato é que ambas encíclicas buscavam dentro da Igreja possíveis caminhos para uma sociedade de tolerância e diálogo.

Porém, ao olhar a proposta de Igreja de Paulo VI, não tem como não notar como esse processo, interiorização, tomada de consciência e diálogo é o mesmo processo que nós passamos por nossa vida (seja ela com os mistérios da Igreja ou não). Talvez seja a forma ocidental de tornar-nos adultos. Afinal, num primeiro momento precisamos desta individualização a fim de nos conhecer, e conhecer nosso potencial. No nosso contato com o mundo verificamos nossa imperfeição, nossas falhas, saímos do mundo ideal da individualização. Estas imperfeições serão absorvidas, interiorizadas, ou até gerarão nossos traumas e neuroses. E na vivência do mundo, no contato do outro, nas nossas relações, teremos que nos confrontar a todo instante com o nosso “eu” e as nossas imperfeições.

Acho que desagradei a teólogos, psicólogos e sociólogos com o que escrevi. No entanto, vejo e reforço como a Igreja imprimiu no Ocidente a questão da individualidade, e nós, ocidentais, na nossa individualidade, passamos por processos semelhantes ao da experiência mística da Igreja, que mesmo para aqueles que não acreditam nos mistérios da fé, passam por situações iguais. No final, até acredito que a Igreja, se não pôde dar a resposta para uma sociedade menos brutal, teve ferramentas e as utilizou para isso.