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terça-feira, novembro 02, 2010

Como se vive sem Smartphone?

Eu não sei como se pode viver sem um smartphone. A necessidade é mãe de virtudes, estive num ambiente totalmente isolado, há meses estou numa empresa de internet restrita, eis que como um raio surgiu uma vontade incontrolável de voltar ao mundo e acabei comprando um smartphone que foi minha salvação e será minha ruína.

Claro, que não conhecendo lhufas de nada de tecnologia acabei comprando um plano onde a navegação é cara, mas é um prazer tão bom que o caro é compensado. Caí num mundo de Android, tomei uma decisão pró-Google, sem saber se devia, somente na confiança da marca e de que eles são uns caras legais contra a Apple que me parecia do mal (embora mais charmosa). Entre a decisão e a digitação da senha do cartão foram dois dias de profundos pensamentos e acabei com um novo brinquedo.

O problema de chegar aos trinta é que nossos brinquedos se tornam caros demais, mas igual aos brinquedos das crianças, além do próprio prazer intrínseco ao brinquedo, a gente se torna igual entre nossos pares. Eu que não ando de carro, agora já posso dar informação sobre trânsito!

terça-feira, maio 18, 2010

À Rita Cadillac

Não é lá muito cultural e eu não estava perto do palco, eu só escutei e desconfiei que era ela, depois fiquei sabendo que era mesmo.

De qualquer maneira, deixo a música aí


terça-feira, abril 20, 2010

Ainda assim Engenheiro


Nestes últimos dias tive a sensação que realmente sou um engenheiro civil pleno. Não que antes não fosse, ainda acho que engenharia é uma maneira pragmática de solucionar problemas, racionalizando e simplificando pela técnica problemas complexos. Fazia isso quando estava no PCP do vidro float e quando fazia muitas observações e avaliações a respeito de um grande número de assuntos na CPTM.

Considerando, porém, que a cidade é o elemento mais complexo que nossa civilização (ocidental, pelo menos na concepção de cidade que estou falando) já construiu; morar nela é um problema complexo que implica inúmeros sistemas de abastecimento e de recolhimento de dejetos, bem como locomoção, aspirações e bem estar que somente um engenheiro pode tentar racionalizar sem perder a realidade, sem ser fascista impondo uma o solução artificial como as cidades-jardim, villa radieuse e outros experimentos; e ainda assim, pela técnica, fazer com que os problemas desse aglomerado sejam minorados.

Ao encarar um condomínio produzido de maneira industrial (racional e ocidental, portanto), me envolvo com um gigantesco número de normas e procedimentos que englobam outro gigantesco número de ciências que com pragmatismo pode dar respostas satisfatórias a toda complexidade envolvida.

O interessante disso, é que a técnica não priva ninguém de decisões, sonhos e aspirações; a engenharia não é fascista. A sociedade decide seus desejos e a engenharia dá uma resposta. Às vezes ela é mais cara que a sociedade pode ou está disposta a pagar, mas sempre dá uma resposta.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

O tempo de Maringá não é o tempo de São Paulo

Com certeza o tempo de Maringá não é o tempo de São Paulo, sempre fico com a impressão que a ação lá demora mais para acontecer. Até o imprevisto e o temporal tem sua formação mais demorada e quando ocorrem, ocorrem numa intensidade maior que aqui em São Paulo.

Lá em Maringá não existe a urgência daqui, o que permite que tudo se encaixe no seu devido tempo. A chuva aqui tem que cair e cairá com o arranjo que estiver disponível, com o que for possível, enquanto lá, ela acontece, quando todos seus elementos se encaixarem naturalmente.

Quando chego em Maringá minhas urgências não encontram circunstâncias e quando surgem as circunstâncias não há mais urgência e me sinto acelerado, um pouco angustiado por não interferir nas circunstâncias, já que estas simplesmente acontecem e me levam. Existe uma inércia do tempo que se sobrepõe ao banco que fecha, à loja que abre ou ao dia que rende.

O primeiro dia depois de Maringá é a afirmação do ser paulista. Volto a pelejar com o dia, a tentar extrair o máximo dele, a otimizar caminhos e intenções, a me admirar do quanto fiz render o dia; é uma mudança frenética das circunstâncias forçando seu encaixe. Vendo a chuva acontecer.

Chegando em casa, telefono para Maringá e o tempo da chamada se sobrepõe às duas realidades, tudo se encaixa naturalmente e com urgência, abarcando os dois mundos. É hora de dormir.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Risadas Impróprias

Não deveria rir disso, eu sei, mas não consigo parar de rir. Então vai em homenagem às velhinhas campineiras que andam de ônibus com o Carlos, aos participantes da Marcha para Jesus e a todos aqueles que gostam de um axé (de Jesus, claro).

Sem contar a homenagem especial à Baby Consuelo que em Alô Alô Terezinha, cantou: "Menino do Rio, sabor que provoca arrepio, Jesus forever tatuado no braço...." sic.


sexta-feira, outubro 30, 2009

O que é felicidade?

Péssima pergunta a ser feita no último dia útil antes de voltar ao trabalho. Boa pergunta pós-filme Na Natureza Selvagem.

Hoje para mim, é poder ler e ouvir boas coisas (e algumas más também); observar cidades, esquadrinhando-las, tentando entendê-las. Ter boas companhias para falar alguma besteira, piadas bobas e discutir algum assunto sério (e polêmico por que não?). Ter uma ótima companhia para fazer essas mesmas coisas com mais intimidade e carinho, permitindo um ponto de fuga Romântico ou uma ilusão e tentar não levar um estilo de vida Romântico. Ter algum contato com o divino também é importante, não importando a natureza deste contato.

Considerando que vivo, trabalho e tiro férias pensando e observando cidades e tenho as boas e a ótima companhia, apesar de me acharem triste, eu acho que tenho um potencial latente de felicidade, ou melhor acho que muitas vezes a alcanço.

O que me falta é constância!

Na Natureza Selvagem

Talvez a tenacidade e a capacidade de reorganização deste imenso clichê chamado capitalismo trouxe consigo não a revolução que seria sua superação, mas uma força com igual tenacidade e capacidade de reorganização que é o Romantismo e seus mitos antigos e reformados.

Não há como não pensar em Romantismo ao ver uma história de um jovem que foge de sua vida a procura da “verdade” e da “felicidade” na natureza selvagem. Mesmo que coloquemos neste jovem uma crítica social mais bem construída, problemas familiares e psicológicos, comunidades hippies, camisas xadrez e Pearl Jam, podemos ver nada mais que uma atualização do ideal Romântico, não à toa que o filme se inicia com uma citação de Byron.

Como filme, não se pode negar a beleza dos cenários selvagens e dos personagens em suas buscas, que mesmo fluídas são bem construídas. Mas a valorização extremada do jovem que rompeu com o mundo da um ar cansativo ao filme. Achei ótima a cena em que o jovem volta a uma cidade grande e já não consegue se adaptar a ela.

Agora como tema, não dá pra não ligar ao filme essa epopéia de ONGs e protestos anti-globalização e anti-capitalismo que para mim nada mais é que Romantismo revisitado, revisado e atualizado. Assim como a vida do jovem do filme, estes protestos podem causar uma mudança radical na vida dos que dele fazem parte, mas em nada muda a natureza da fuga. O protesto e as ONGs pelo menos tem a vantagem de permitir uma consciência coletiva (difusa) enquanto a vida de ermitão só pode levar a uma epifania que é um sentimento religioso que deve ser combatido pelos anti-tudo.

O engraçado desta história toda é que mesmo com sua ineficácia ao atacar a vontade da fuga, ela é irresistível e acredito que não há uma alma viva que não a procurou, seja na natureza, no passado, na infância, no amor, na morte ou também na futilidade, que carrega em si também um grande espírito Romântico.

Poderia haver uma Conferência do Cassino Lisboeta mundial que rompesse com esta brisa do Romantismo encanado, que talvez seja o mal da minha geração?

terça-feira, outubro 20, 2009

Maringá, Maringá...

Eu sabia que conhecia a música....rs, e a ouvi ao vivo num show da Inezita Barroso!

Maringá
(Inezita Barroso - comp. Joubert de Carvalho)

Foi numa leva que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante que mais dava o que falar
E junto dela veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse de um caboclo que ficou

Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar

Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar

Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar

Antigamente uma alegria sem igual
Dominava aquela gente da cidade de Pombal
Mas veio a seca, toda água foi embora
Só restando então a mágoa
Do caboclo quando chora


sexta-feira, setembro 04, 2009

No tan Buenos Aires

Ayer miré a una película argentina antigua, del inicio de la decadencia argentina pos-Perón. Pues bien, lo que más me impresionó en ella fue cómo se puede mirar Buenos Aires desde allí con los mismo ojos con que la miré en julio cuanto estuve allá. Tanto el Kavanagh, la Plaza San Martín, la Torre de los Ingleses, las baldosas rotas en las veredas, estaban todos allá en la película, cómo si no hubiera pasado casi cincuenta años entre las dos miradas.

Así como en las otras películas que he mirado, no sólo en la Muestra, como en los pocos filmes que llegan desde Argentina hacia acá, se consigue hacer un contorno del significado de ser argentino, que quizás sea más homogéneo do que el ser brasileño. No que homogéneo acá signifique más sencillo, porque lo único que no se puede decir del argentino es que sean un pueblo sencillo, pero que su complejidad sea más radical y esto por si sólo nos permite mirar a los detalles.

Si en él parágrafo arriba lo puse de un modo amplío, ahora lo puedo hablar de estas contradicciones que hacen la complejidad de los argentinos que están presentes tanto en las películas de los sesenta (algo como una nouvelle vague argentina) como en el nuevo cine argentino. Así como se hacen una autocrítica brutal, dejando clarísimo la naturaleza de un país de oficinas y jubilados, una clase media con valores un poco conservadores y hasta al límite reaccionaria, pueden traer también temas muy delicados como el aborto, el divorcio, la eutanasia y las discusiones familiares que no podrían venir al telón se no hubieran sido puesto bajo a la luz de la autocrítica.

Por ser así, a mí, me parece mucho más realista una película argentina de los sesenta que habla del aborto bajo esta mirada sobre la sociedad que una brasileña que quizás no tenga la misma radicalidad en su complejidad. De ser así, nuestras películas traen consigo algo de artificial, que puede ser resultado del facto de hacer falta esta crítica que es cara a los argentinos o, lo que sería más lastimoso, quizás porque no hago parte del universo de los temas de las películas brasileñas.

No puedo negar que mismo en la crisis, como en las luchas, los piquetes y con la ya famosa decadencia de Argentina, todavía es un país que me encanta. Puede ser que el castellano de este texto sea tan trucho como mi análisis del cine argentino, pero al mirar las películas, lo quise escribir algo en castellano, un homenaje a uno de los lugares que más me siento bien.

sábado, agosto 29, 2009

Isabella Rossellini

Acabei de assistir um filme ótimo. O filme em si merecia um texto longo, com detalhes, tentando abrir metáforas perdidas, explorando toda a psiquê, etc. No entanto, não conseguia tirar os olhos da Isabella Rossellini no papel de uma mãe judia.

Como o tempo é triste. Para mim a Isabella Rossellini vai ser sempre aquela mulher um pouco sapeca de “Um toque de infidelidade”. Acho que uma das sessões da tarde mais inteligentes que a Globo já passou.

No entanto, a garota Isabella Rossellini agora é uma mamãe judia. É praticamente um ícone de juventude que se perdeu. Saí do cinema me sentindo velho.

domingo, agosto 02, 2009

Instantâneo

Eu sou assim, pelo menos por agora. Ando a procura de paixões, ancorado em algumas poucas certezas e em busca de novas dúvidas. Há dez anos não sabia falar inglês e continuo sem saber. Fui bom em matemática e hoje não sei cálculo. Quis aprender francês e agora quero aprender fotografia. Engenheiro por acidente, observador de nascimento e católico por persistência. Sou assim, agora.

Amanhã posso ser fotógrafo, talvez demógrafo. Oxalá aprenda o maldito inglês. Quiçá seja católico ou vire astrólogo. Enquanto não decido, continuo um engenheiro observador e católico que não sabe mais cálculo, nem tirar fotografias, à procura paixões, ancorado na certeza de que não sabe falar inglês e que precisa aprendê-lo, mesmo tendo vontade de aprender francês e fotografia.

terça-feira, julho 28, 2009

Timing

Hoje eu cheguei adiantado no tempo. Corri para que o tempo passasse correndo, corri tanto que o ultrapassei, sem olhar para o lado, como se fosse a luz, num caminho reto e certeiro corri e passei do ponto. Não consegui achar nada que me difratasse, que me multiplicasse em outros espectros que conseguissem dar conta desta ansiedade que me fez passar do tempo. Cheguei adiantado. Ganhei do tempo e perdi tempo.

Sensação estranha para quem sempre se sentiu atrasado. Cheguei adiantado no tempo e isso não me trouxe nada mais que uma trajetória perfeita como a da luz, que corre o ultrapassando; talvez um espelho me fizesse retroceder, mas aí seria um retrocesso no espaço, não mais no tempo. Cheguei adiantado, poderia mudar o meio; a trajetória se tornaria mais lenta e o mundo me alcançaria. Talvez, novos meios, novos ares, novas analogias que não sejam tão rígidas como a luz e o tempo.

quarta-feira, maio 27, 2009

A minha Buenos Aires

Quando fui a Buenos Aires a primeira vez, não era moda ir para lá, de tal maneira que quando voltei, tinha feito uma viagem até certo ponto exótica, diferente. Gostei tanto que absorvi a cidade, era minha cidade. Quando virou moda, quis morrer de ciúme, quase enlouqueci!

Sete anos depois eu voltei e vi que continua a minha cidade, mais que uma foto, um lugar, a graça de Buenos Aires é vivê-la e como viver é uma experiência singular, subjetiva, lá encontrei uma Buenos Aires inacessível aos outros, era a minha Buenos Aires restaurada.

Confesso que ela se alargou um pouco e novas percepções foram captadas e ainda serão reveladas.

O ciclo porteño ainda não acabou!

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

Há pelo menos uns dez anos tenho vivido sob um paradigma de que existiam dois pólos: a hipocrisia e o cinismo; onde cada um se graduava entre eles nas suas posturas e ações. Aconteceram muitas coisas nestes dez anos e hoje percebo que o mundo só poderia estar entre estes dois pólos se estivéssemos trabalhando com valores fixos e complicados a ponto de não conseguirmos segui-los e fingirmos (hipocrisia) ou aceitarmos que eram intangíveis e começássemos a apontar que tampouco os outros conseguiam (cinismo). O mundo seria de uma realidade brutal e embora não fosse maniqueísta (já que haveria graduações), partiria de valores e conceitos absolutos.

Quando nos tornamos adultos e conforme vivemos, começamos a ver que os conceitos e valores, por abstratos, não são rígidos e nos amoldamos a eles, definindo-os por superposições de metáforas e experiências, não de uma maneira cínica, mas sim humana. Uma vez que a própria realidade nos traz sensibilidade e tolerância que não combinam com o esquema rígido da hipocrisia-cinismo.

Neste ponto posso dizer que “A Insuportável Leveza do Ser” me achou e não o contrário, já que me alcançou exatamente no processo de relativização dos meus valores.

O livro é de um realismo cru, psicológico, descritivo e que de maneira nenhuma foge ao lirismo; ao invés de querer provar uma tese ou desconstruir o humano, expõe a realidade com o olhar humano, nas poucas certezas e na irracionalidade delas. Talvez pela questão do tempo-espaço, Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, onde não havia mais espaço para as nuances, as nuances dos personagens se acentuam ainda mais.

Tirando toda a questão da leveza e do peso que vai permear toda a história, bem menos rígida que minha proposição da hipocrisia-cinismo, as histórias são belas e bem contadas, montadas de maneira a acentuar a realidade, que muitos autores ao tentarem captá-las acabam por deformá-la.

Se tivesse capacidade de fazer um filme, o faria sobre a relação entre Franz e Sabina, que são secundários, mas representam muito mais este aspecto que me encantou do que o casal Tomas e Tereza. Deu-me uma sensação conhecida, familiar, ao ler esta parte, sem contar que as imagens se formavam rapidamente me minha mente.

Além disso, existe Karenin, que talvez seja a Baleia (a cachorrinha de Vidas Secas) eslava.

Adorei o livro, aposto que será relido e ainda assim ficarei encantado por ele.

quinta-feira, maio 21, 2009

Homenagem ao 11o. andar

O mar não é o mar e a cerveja não é cerveja, mas a sensação é igual

Privilégio do Mar
(Carlos Drummond de Andrade)

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.

sábado, abril 25, 2009

São Francisco pregando aos pássaros

Sempre foi uma mulher católica. Desde os tempos da Campanha Gaúcha até ser esposa de fazendeiro em Rondônia. Já teve recaídas, um tarô, uns búzios, em sua juventude quando tivera mais dúvidas. Hoje, com a idade, tinha mais certezas que dúvidas. Mesmo porque Vilhena não era um lugar que lhe permitia ter tantas dúvidas assim, e suas certezas aumentavam sua fé.

Quando se casou e logo depois migrou, imaginou que poderia dar aos filhos uma vida diferente da que teve. Rondônia era uma terra de oportunidades e seu marido soube aproveitá-las. Orgulhava-se de ter feito sua América, mesmo que esta América fosse tão pequenina como sua São Gabriel natal, ali havia oportunidades, pelo menos para seus filhos. E o que não é um casamento do que poder proporcionar aos filhos o melhor dos mundos? Sentia-se realizada por ser uma mãe que podia dar-se ao luxo de prover o sonho dos seus filhos.

Cláudia nasceu na fase próspera, a menina estudiosa era o orgulho da mãe. Com a mãe aprendera a gostar de ler, o que em Vilhena era a descoberta do mundo. Decidiu ser advogada e para orgulho de toda cidade veio fazer Direito no Largo São Francisco. Faculdade que já havia formado cinco presidentes, segundo lhe contaram.

Para ajudar na adaptação da filha, veio a São Paulo. Procurar apartamento, deixá-lo habitável, permitir que Cláudia conseguisse se sentir em casa e disfarçar seu espanto pela cidade que a envolvia. Maravilhava-se ao observar o trânsito, alguns prédios imponentes; até a decadência lhe parecia bonita, estava num lugar com uma história que era maior que ela, não onde ela fizera a história.

A imagem da faculdade de Direito foi encantadora. Junto à filha conheceu a sala de defesas, majestosa, lembrou-se dos livros que lera no colegial, da glória de se estudar Direito em São Paulo. A faculdade era um ponto que sobrevivia a decadência do lugar, era um lugar que a história não havia abandonado e isso a impressionava.

Domingo é dia de missa. Não importa onde você esteja, é dia de missa. Lembrou-se da Igreja de São Francisco ao lado da faculdade, e com sua roupa de missa foi até lá, Cláudia tinha saído com suas novas amigas e decidiu que enfrentaria a cidade sozinha. Informaram-na o horário errado, e ela acabou chegando muito cedo. Sorte. Pôde ver toda a Igreja, se sentia numa igreja barroca mineira. Anjos, santos com olhares penetrantes, uma Nossa Senhora das Dores tão linda e dolorida como jamais vira. Ajoelhou-se e rezou. Andou pela Igreja e percebeu que o número de mendigos que dormiam sob as arcadas era muito grande, assustou-se e voltou à Igreja, era quase a hora da missa e nunca tinha visto tão poucas pessoas numa celebração.

Sentou-se incomodada num banco vazio, estava inconformada de ter feito esta opção. Aquele domingo não era um domingo bonito, mas deveria ter ficado em casa, ou ido a uma Igreja num lugar menos decadente. Sentiu-se caipira por ter ido a missa e por ter medo dos mendigos.

Um frei bem simples entrou na Igreja sob o canto solitário de um ajudante. A missa começou e de repente, com a chuva fina que caiu sobre a cidade, a Igreja, como por um milagre, começou a encher. Antes do ato penitencial já estava tomada pelos mendigos das arcadas. Alguns rezavam junto com o frei, outros conversavam, alguns embriagados diziam palavras que ela não conseguia entender. Vieram as leituras e tentava se concentrar nas leituras, mas tinha medo, medo inconsciente, medo do desconhecido, da enrascada que se metera.

A homilia foi sobre a recusa de Tomé em acreditar na ressurreição sem ver as chagas de Cristo, o frei insistiu que bem-aventurados aqueles que creram sem ter visto, e pediu para que todos meditassem sobre o tamanho de sua fé. Perguntou até onde sua fé seria capaz de os levar. Veridiana não conseguia tirar o olhar de um mendigo com um colete militar que, embriagado, soltava palavras como respondendo ao frei. Quando o padre disse que a fé é a vacina do medo, sentiu-se sem fé, estava amedrontada.

No ofertório sentiu-se constrangida ao entregar seus dez reais habituais à Igreja enquanto a multidão de mendigos fazia comentários sobre a coleta. “Receba o Senhor por suas mãos este sacrifício, para a glória do Seu nome, para o nosso bem e de toda santa Igreja”. Teve vergonha em dizer esta frase que sempre lhe saiu automática. Afinal, qual era seu sacrifício? Estar junto aos mendigos? Mas essa era uma obrigação e não um sacrifício. Durante a consagração, o bêbado de colete militar comentou sarcástico que agora sim todos eram irmãos.

O canto de comunhão era um dos mais bonitos que já ouvira, já o havia cantado no coro da sua Igreja, e, no entanto, cantado pelo ajudante parecia uma ladainha de procissão. Falava sobre a vinda gloriosa e a ressurreição dos que creram. Na comunhão, partilhou a fila e a hóstia com os mendigos que agora lhe pareciam como parte integrante da Igreja. No abraço da paz, desejou-lhes a paz de Cristo e deu-lhes a mão, automaticamente.

Quando a missa acabou, pôs a bolsa embaixo do braço e atravessou o campo de refugiados com que se assemelhava o Largo de São Francisco, por sorte havia um ponto de táxi na praça e logo conseguiu um carro. Dizia a si mesma que jamais voltaria àquela Igreja. Mas sua fé era incapaz de levá-la a uma igreja como aquela? Quando o táxi parou num sinal fechado, um menino de rua conseguiu abrir a porta do carro e levar sua bolsa. Seu medo se concretizou. Como era fácil ser católica em Vilhena!

domingo, abril 19, 2009

Caminhemos


Sabe quando você escuta uma música e não consegue se desligar dela? Pois é, aconteceu comigo na quinta-feira e não consigo parar de ouvir uma música. Embora a música seja interessante do jeito que é, adoraria trocar-lhe duas palavras, e acho que aí sim ela ficaria bem interessante.

É desnecessário saber que ouvi essa música na voz da Vanusa, e que sabe-se lá como eu cheguei nela, mas não julguem a música pela cantora, depois descobri que a música é até bem velhinha, até o Nelson Gonçalves gravou em dueto com a Maria Bethânia, mas eu ainda prefiro ouvi-la na voz da Vanusa.

Caminhemos
(Herivelto Martins)

Não, eu não posso lembrar que te amei,
Não, eu preciso esquecer que sofri,
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois!

Vida comprida, estrada alongada.
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada...
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Te encontre no mesmo lugar!

Do jeito que a música está, me dá a idéia de alguém infeliz numa relação, mesmo assim inseguro se deve ir ou não, perdido no mundo, e o “quem sabe na volta te encontre no mesmo lugar”, pode parecer que a pessoa decidiu que a volta era a melhor das opções (que seria um final muito Alcione para a Vanusa) ou que o sujeito da canção evoluiu, cresceu e o que ficou estagnou (que seria uma vingança bem executada).

No entanto, ao escutar a música, depois de algumas vezes, eu trocaria duas palavras:

Caminhemos

Não, eu não posso lembrar que te amei,
Não, eu preciso esquecer que sorri,
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois!

Vida comprida, estrada alongada.
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada...
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Me encontre no mesmo lugar!

Com as duas alterações acho que seria uma crise existencial muito bem cantada. O sujeito da música está numa relação boa, no entanto precisa repensar a sua vida e parte “à procura de alguém ou a procura de nada”, ou de algo, e quem sabe posteriormente a toda esta busca perceba que estava tudo bem.

Afinal, quem nunca teve dúvidas desta natureza, e percebeu que estava tudo ok depois?

A propósito, estava num bar meio decadente onde uma dupla sertaneja fazia cover de outras duplas sertanejas, quando eles tocaram Borboletas de Vitor e Leo que diz coisa bem parecida, mas sobre a ótica de quem ficou. Acho a parte de quem foi mais corajosa, mas no final fiquei com as duas músicas na cabeça!

terça-feira, abril 07, 2009

Tempo Livre


Será esse o tal ócio criativo?

As vezes fico um pouco envergonhado de dizer que tenho tempo livre. Tenho muito tempo livre. Acho que isso é minha maior contradição neste tal mundo globalizado. Como num mundo com tanto acesso à informação, com novas formas de comunicação e vivendo numa cidade global pode se queixar de tempo livre?

Eu me queixo, mas em silêncio. Ninguém tem tempo livre, todos correm contra o tempo enquanto eu passeio pelo tempo, matando tempo.

Tempo livre é um tabu com o qual tenho lutado. Primeiro para reconhecer que isso não seja um problema, depois para que as pessoas não me vejam como uma aberração e principalmente para aprender a desfrutá-lo.

Tomo um banho demorado, leio livros que outros indicam, escrevo cartas, telefono e penso na vida. Muitas vezes tudo isso gera uma vontade de mundo e aí nem sempre os outros estão com tempo para gastarmos um tempo junto. Então escrevo posts, outras cartas e tomo mais um banho.

É preciso paciência e serenidade para lidar com o tempo, mas acho que este tabu está sendo quebrado.

sábado, dezembro 20, 2008

Sábado a la mañana

Acordou. Por causa do feriado de Natal que praticamente o deixará sem faxina até o Ano Novo, passou roupa para ter roupa para viajar. Enquanto isso, aproveitou para lavar outras roupas. Charles Aznavour tocando. A trilha sonora não combina com serviços domésticos, mas a música e os serviços domésticos até são um bom paradigma da vida que leva. Até pensou que essa cena caberia num filme do Truffaut. A trilha sonora era deslocada no tempo, acabou rindo ao pensar que passar roupa na virada de 2008 para 2009 também não é lá uma coisa muito contemporânea.

Que modernidade é essa que ainda faz as pessoas serem escravas de um ferro de passar? Talvez aí a trilha sonora faria sentido. Imaginou a série de compromissos natalinos e nos presentes que ainda faltavam. Odeio Natal, já havia repetido isso na fila da livraria e esperando mesa num bar. Acabaram-se as roupas, a máquina ainda estava funcionando, e as 40 canções de ouro do Aznavour acabaram também. Se não enfrentasse o sábado, não daria tempo de fazer tudo que se propusera no último sábado antes do Natal.

No entanto, a vontade era aprofundar ainda mais o lapso temporal da manhã e tomar um drink. O que tomaria Danuza Leão? Um Ricard? Uma vodka-au-poivre? Que belo nome para um Bloody Mary! Se a tivesse em casa, abriria uma garrafinha de Malzbier que é sua referência etílica a almoço em casa. Se pelo menos tivesse o que comer em casa, manteria o clima de sábado em casa. Ao relembrar dos compromissos do Natal teve vontade de sair para comprar algumas coisas no mercado, fazer um bom almoço e tomar sua Malzbier e depois ler um livro, dormir e curtir a casa.

Ficou com tanta vontade de ficar só em casa. Faz tanto tempo que não fazia isso.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Odoiá Odum

Ó meu pai verdinho de Odum
Dai-me forças para abandonar o computador
Fazei com que eu entenda de Ecologia
E passe no concurso do Ibama!