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sábado, maio 29, 2010

Eu li Madame Bovary

Transformei alguns livros em ícones, o que deixou mais difícil ainda lê-los, já que ganharam uma aura de especial, de clássico, de difícil. Madame Bovary era um deles e consegui transpô-lo.

No fim, fiquei maravilhado com o livro. Madame Bovary não tem nada a ver com Luísa. Madame Bovary é maldosa, engenhosa, além de se mover pelas paixões, ela tem uma razão nos seus movimentos que deixa Luísa no chinelo. Madame Bovary é capaz de enganar o marido dizendo que vai ter aula de piano em outra cidade para se encontrar com o amante, enquanto Luísa no máximo foge para o Paraíso com Basílio.

Além do mais, Madame Bovary teve dois amantes e ainda fez amor numa charrete! Madame Bovary quis morrer e se matou; continuou enganando Charles desde o túmulo. Luísa, simplesmente morreu louca e careca. Emma foi para o túmulo mais bonita do que quando era viva, mesmo se suicidando com arsênico. Sem contar que Emma não se deixou nem chantagear, nem se prostituir, se suicidou porque estava endividada, claro que tinha remorso, mas não foi só o remorso que a matou, como matou Luísa.

Agora a descrição de Charles é fantástica, talvez ela valha mais do que a da própria Emma. Acho que a grande crítica nem seja o Romantismo em si, mas sim o que leva as pessoas aos ardores Românticos.

No fim, talvez a burguesia portuguesa fosse mais pudica e menos cosmopolita que a francesa (tese bem trabalhada em Os Maias), mesmo que ainda seja este retrato da burguesia francesa seja a de uma burguesia de província. Mas é fantástico como o dinheiro vai entrando em todos os detalhes e como a ausência de comentários pode insinuar uma conduta moral forte.

Foi uma pena ter lido conto do Woody Allen em que ele traz Emma para Nova York antes de ter lido Madame Bovary. Se tivesse feito na sequência certa o conto seria ainda mais engraçado.

O livro merece ser lido, de alguma coisa serviu andar tanto de ônibus.

terça-feira, dezembro 29, 2009

5+ - 2009

Sempre que escrevo isso no fim de ano chego a duas conclusões:

1a. Fazer lista é mais um exercício de memória que de gosto;
2a. Eu sempre vejo as coisas defasadas, sou um atrasado.

5+ - Filmes:

  1. Amantes: Assisti 3 vezes no cinema e adorei as 3. O filme é meio sombrio, o tema é tabu, mas acho tão bem retratado, tão verdadeiro e tão honesto nos seus defeitos que talvez seja o filme que mais marcou este ano para mim.
  2. É proibido fumar: Estava na dúvida da posição, mas como é brasileiro ganhou um ponto (hehe). Na verdade é uma resposta a minha frustração de não me sentir representado em filmes nacionais. Gostei do filme exatamente porque todos os personagens ali podem ser meus conhecidos e seu drama é factível. Glória Pires está ótima e o Paulo Miklos mais ainda, filme que funciona.
  3. Bastardos Inglórios: Não gosto do Tarantino, da "estética da violência" (soou conceitual...hehe), mas o filme é interessante, gostei da liberdade de mexer com a história, meio dessacralizando-a. Até no insulto bobo e caricato ao nazismo ele foi bem humorado. Interessante brincar com a história.
  4. 500 dias com ela: Entrei no cinema achando que veria um filme bobinho e achei um filme bem mais complexo. Talvez ao brincar com o esse mito que nos persegue, esse romantismo que se renova a cada dia, ele nos ponha na defensiva e no fim o restaura de uma maneira não exagerada.
  5. Aconteceu em Woodstock: Filme bonito, interessante, história bem contada e por ter gostado de um filme do Ang Lee, merece ser citado.
  • Simplesmente Alice: Assisti com mais de 10 anos de atraso, mas gostei muito do filme, achei extremamente perspicaz, vou ser categórico: foi o melhor filme do Woody Allen.
5+ Músicas:

Está relacionado com os shows que fui...

  1. Bellisimo così: Foi a música mais ouvida por mim em 2009. Começou como obrigação para me preparar para o show da Laura Pausini, e quando vi, estava escutando mais do que deveria.
  2. Desormais: Está aqui só para constar que fui no show do Charles Aznavour, acho que 2009 foi o ano que menos ouvi Charles Aznavour, mas foi o ano que fui vê-lo, e talvez isso represente um fim de uma época.
  3. Viagem: Comprei um cd da Vanessa da Mata nas Americana e fiquei fã e ele ainda virou trilha sonora! Mas essa música é realmente interessante, desde que comprei, encano em uma música, mas nessa encanei por mais tempo.
  4. Prima che esci: Mais uma da Laura Pausini, pena que não cantou no show.
  5. Poker Face: Momento divertido ao som de Lady Gaga.

5+ Livros.

Eu não tenho memória!

  1. Poemas completos de Alberto Caeiro: comecei a gostar de poesia no ano passado e esse ano foi o livro que mais gostei, que mais carreguei depois de ter lido, e que vez em quando ainda releio. (não sou crítico, não sei comentar).
  2. Golpe de Ar - Romance jovem, achei interessante por ser exatamente jovem, acho que precisava ler coisas mais joviais e achei um escritor que quando lançar mais um livro, vou querer ler. Gostei da forma que escreve e achei a história, embora simples, muito bem contada.
  3. O livro do Riso e do Esquecimento - Como é gostoso ler um bom contador de história, que consegue alinhavar vários pensamentos ao longo de contos e que por meio de metáforas bem construídas consegue universalizar um tempo e um espaço bem definido. No começo do ano entrei numa ondinha Milan Kundera por causa deste livro.
  4. Cordilheira - A mesma coisa do 2o., só que um pouco mais clichê.
  5. Cartas de Caio Fernando Abreu: É meio voyeur ler cartas dos outros, mas as cartas de Caio F. eram tão divertidas, inspiradas, adorei lê-las e comecei até a escrever mais cartas. Daria este livro para o Gabriel Chalita e para o Padre Fábio!

terça-feira, dezembro 22, 2009

O Grande Gatsby

Se um dia eu fosse escrever uma novela para TV eu adaptaria O Grande Gatsby. Sem entrar naquela discussão sobre a contemporaneidade dos clássicos, a grande virtude do livro é que os personagens, embora descritos na Era do Jazz, não são datados, então tanto podemos enxergar Gatsbys em muitos lugares, um pouco menos de Nicks e um número crescente de Toms e Dayses.

Lógico que o retrato da Era do Jazz deixa o livro fabuloso, afinal tenho impressão que foi um dos períodos mais fantásticos que nossa civilização já viveu. Entre o Fim da Primeira Guerra e o Crash de 29 a modernidade deve ter atingido seu ápice. O bom do livro é que de uma maneira enviesada ele até zomba um pouco da modernidade.

A primeira vez que o li fiquei tão fissurado nas festas que não percebi a beleza do fim. Pois no fim, mesmo numa sociedade aberta para o sucesso, o berço dá uma segurança extra. Embora queiramos sempre acreditar que isso não existe, haverá sempre a diferenciação da elite e dos emergentes e ela se imporá na hora certa, como no livro.

Gostei de ter relido!

quarta-feira, dezembro 02, 2009

O Americano Tranquilo - Graham Greene

Não há grandes pirotecnias lingüísticas, nem uma revolução na narrativa. No entanto a história sustenta o livro numa novela convencional, mas interessante. Talvez ser convencional não seja uma coisa tão problemática quando você consegue construir personagens verdadeiros em situações extremas.

O Americano Tranquilo é um livro fantástico sobre a guerra dos franceses na Indochina que nos deixa até uma pista sobre como será a guerra dos norte-americanos no mesmo lugar. Quando o mundo se volta num antiamericanismo infantil, ele nos mostra uma face diferente do neocolonialismo. Achei fantástico como o americano tranquilo do título se fundamenta numa visão de mundo, que é totalmente diferente da francesa/inglesa do século XIX e talvez é esta visão de mundo que precisa ser analisada e não palavras de ordem.

Embora essa questão do americano possa ser o mote principal, acho que o tema da inevitabilidade do engajamento é o melhor do livro. Estranho pensar de que a neutralidade não é um fato possível, ainda mais quando o mundo se divide cada vez mais (mais uma vez a questão dos interesses difusos coletivos...). E no fim, todo mundo se posiciona de alguma maneira, talvez nos anos 50 em situações extremas como a guerra e hoje em qualquer situação.

O livro dá uma descrição tão fantástica de Saigon que pela primeira vez fiquei com vontade de conhecer um lugar no Oriente. Fiquei morrendo de vontade de ler “Nosso Homem em Havana” do mesmo autor.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Golpe de Ar

Golpe de ar
Fabrício Corsaletti

Se havia uma coisa que me encucava era o fato de não ler nenhum autor da minha idade. Não conhecia nenhum, e esse fato gerava em mim a sensação de que minha geração fiara imune ao choque geracional que outros escritores de outras gerações conseguiram mostrar em seus livros como o Quarup ou Gracias por el fuego.

No entanto, graça à Revista Bravo, que eu achava insuportavelmente chata, tenho descoberto escritores, até mais jovens do que eu que já não sou tão jovem assim, que talvez sintetizem um pouco minha geração; que não é mais a da luta de classes como em Gracias por el fuego, mas que pertence a era dos interesses difusos e coletivos como em Cordilheira e Golpe de Ar.

O bom de Golpe de Ar é que em nenhum momento você precisa imaginar situações já que o que está escrito lá, todo mundo com vinte e muitos anos já passou. Como a narrativa é cortada, as frases curtas, o texto se fragmenta como nosso tempo, sem perder a coerência. Achei fantástico o fato do livro deixar alguns segredos em aberto e esses segredos não atrapalharem a narrativa e sim tornarem-se símbolo da individualidade que não nega o coletivo (frase meio clichê, mas se pode encontrar algumas verdades nos clichês também).

Nosso mal estar geracional não está exposto ali, mas você o sente a medida que lê. Terminei o livro pensando que talvez a futilidade que todos reclamam é realmente futilidade, mas o incômodo com ela pode ser a porta para o entendimento e a resolução deste mal tão pouco explícito, tão difuso, tão coletivo.

O livro se passa em Buenos Aires que com vinte e poucos anos também foi minha fuga, talvez por isso a identificação seja maior (ou não). Gostei do livro!

terça-feira, setembro 22, 2009

Livros

5 livros que eu vou ler antes de morrer:
  1. A Montanha Mágica;
  2. O Tempo e o Vento (completo);
  3. Em busca do tempo perdido (este eu ainda vou ler em francês);
  4. O Segundo Sexo (acho melhor ler este em português mesmo);
  5. Dom Quixote (foi um dos presentes mais bonitos que já ganhei, mas ainda não li);

5 livros que eu vou reler antes de morrer:

  1. Quarup;
  2. Este lado do Paraíso;
  3. São Bernardo;
  4. Os Maias;
  5. O Primo Basílio.

5 livros que eu tenho certeza que não lerei até morrer:

  1. Ensaio sobre a cegueira;
  2. Grande Sertão: veredas;
  3. Veias Abertas da América Latina;
  4. O Ateneu;
  5. Amor de Perdição.

5 livros que eu me arrependo até a morte de ter lido:

  1. O terceiro travesseiro;
  2. Lucíola;
  3. Enquanto a Inglaterra dorme;
  4. Sonetos de Bocage;
  5. Minutos de Sabedoria (na verdade não sabia o que por no quinto item)

quarta-feira, junho 10, 2009

Revoluções do Século 20

Estou viciando na coleção Revoluções do Século 20 (gravado assim mesmo, em arábico!) da Editora da Unesp. São pequenos livrinhos contando a história de revoluções nos mais diferentes lugares do mundo. Acabei lendo três nos últimos três meses, a Revolução Iraniana, a Guatemalteca e agora a Alemã. Bem, existem os livrinhos das clássicas como a Russa, a Cubana, a Chinesa, mas talvez o inusitado das não-clássicas que me atraem tanto para estes livros.

O conceito de revolução em si já é um conceito bem complexo, afinal, ele foi totalmente apropriado numa perspectiva marxista de luta de classes e também traz em seu bojo o conceito de nação. Há muito tempo atrás li “O que é Revolução?” de Florestan Fernandes e ele ressaltava muito estes dois aspectos. Os livros também ressaltam e também apresentam estas revoluções não como um “raio que caiu num dia de sol” assim como Marx fez no 18 Brumário de Luis Bonaparte. Exatamente esta análise à la 18 Brumário que dá toda a graça dos livros. Afinal, ao descrever a sociedade guatemalteca, iraniana e alemã para poder mostrar o conflito que gerou a revolução, encontramos sociedades totalmente diferentes, onde existia o elemento capitalista, mas principalmente a singularidade local. O que em si, dificultaria a criação objetiva de um conceito de Revolução.

Além disso, é engraçado notar como este conceito, talvez aí resultado direto da vitória de uma historiografia marxista cujo 18 Brumário é paradigmático, ganha o sublime, a aura da justiça, principalmente porque traz consigo também o conceito de povo. E mesmo nas sociedades que deveriam ser revolucionadas pelos teóricos da Revolução, estes dois conceitos ganharam ideologias diversas e são apropriados até por contra-revolucionários. Não é à toa que existe toda uma discussão sobre a “Revolução de 64” ou a “Revolução Libertadora” que derrubou Perón, e também não achamos estranhos colocarmos o adjetivo de revolucionário à ascensão de Reagan e Thatcher nos anos 80. Também não podemos esquecer que na queda do socialismo real no final dos 80, a “libertação” dos países do regime comunista foi considerada Revolução, como a Revolução de Veludo. No entanto nenhuma destas revoluções poderiam ser tratadas na coleção Revoluções do Século 20, já que não trouxeram (ou tentaram trazer) consigo o socialismo, embora o conflito de classes permeiem, as retratadas e as não retratadas.

A contradição é notar que a revolução iraniana influenciou a ascensão de Reagan, e que talvez a diferença entre o Xá e Khomeini fosse tão grande quanto a diferença entre Reagan e Carter (embora no livro da guatemalteca o autor coloca uma pequena sombra na minha admiração ao Carter).

Talvez o conceito que engendre todas estas revoluções seja o conceito de crise, afinal é ele que provoca o lugar comum de todos estes acontecimentos maravilhosos; afinal uma revolução (à direita ou à esquerda) é um desprendimento brutal de energia humana. E mesmo com a toda a tecnologia diferente, com a “democracia” bem consolidada, ainda Revoluções (talvez já fora do sentido que Marx deu a elas) aconteçam ainda no nosso mundo. Afinal, quando um Evo Morales assume o poder na Bolívia, não podemos deixar de colocar o quão revolucionário isso é, bem como a volta de um Berlusconi.

quarta-feira, maio 27, 2009

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

Há pelo menos uns dez anos tenho vivido sob um paradigma de que existiam dois pólos: a hipocrisia e o cinismo; onde cada um se graduava entre eles nas suas posturas e ações. Aconteceram muitas coisas nestes dez anos e hoje percebo que o mundo só poderia estar entre estes dois pólos se estivéssemos trabalhando com valores fixos e complicados a ponto de não conseguirmos segui-los e fingirmos (hipocrisia) ou aceitarmos que eram intangíveis e começássemos a apontar que tampouco os outros conseguiam (cinismo). O mundo seria de uma realidade brutal e embora não fosse maniqueísta (já que haveria graduações), partiria de valores e conceitos absolutos.

Quando nos tornamos adultos e conforme vivemos, começamos a ver que os conceitos e valores, por abstratos, não são rígidos e nos amoldamos a eles, definindo-os por superposições de metáforas e experiências, não de uma maneira cínica, mas sim humana. Uma vez que a própria realidade nos traz sensibilidade e tolerância que não combinam com o esquema rígido da hipocrisia-cinismo.

Neste ponto posso dizer que “A Insuportável Leveza do Ser” me achou e não o contrário, já que me alcançou exatamente no processo de relativização dos meus valores.

O livro é de um realismo cru, psicológico, descritivo e que de maneira nenhuma foge ao lirismo; ao invés de querer provar uma tese ou desconstruir o humano, expõe a realidade com o olhar humano, nas poucas certezas e na irracionalidade delas. Talvez pela questão do tempo-espaço, Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, onde não havia mais espaço para as nuances, as nuances dos personagens se acentuam ainda mais.

Tirando toda a questão da leveza e do peso que vai permear toda a história, bem menos rígida que minha proposição da hipocrisia-cinismo, as histórias são belas e bem contadas, montadas de maneira a acentuar a realidade, que muitos autores ao tentarem captá-las acabam por deformá-la.

Se tivesse capacidade de fazer um filme, o faria sobre a relação entre Franz e Sabina, que são secundários, mas representam muito mais este aspecto que me encantou do que o casal Tomas e Tereza. Deu-me uma sensação conhecida, familiar, ao ler esta parte, sem contar que as imagens se formavam rapidamente me minha mente.

Além disso, existe Karenin, que talvez seja a Baleia (a cachorrinha de Vidas Secas) eslava.

Adorei o livro, aposto que será relido e ainda assim ficarei encantado por ele.

sexta-feira, maio 08, 2009

Maio de 68

"Então esses seres jovens, inteligentes e radicais tiveram subitamente a estranha sensação de ter lançado no vasto mundo a ação que começava a viver por conta própria, deixando de se parecer com a idéia que eles haviam concebido, deixando de se importar com os que tinham lhe dado origem. Esses seres jovens e inteligentes puseram-se a gritar por sua ação, a chamá-la, a culpá-la, a persegui-la, a caçá-la. Se eu escrevesse um romance sobre a geração destes seres dotados e radicais, eu lhe daria o título de A caça à ação perdida"
O conto da onde eu extraí o texto acima é "Cartas Perdidas" e está em "O livro do riso e do esquecimento" de Milan Kundera. O conto é uma ótima alegoria do maio de 68, mas achei esse texto muito perfeito!

sexta-feira, abril 03, 2009

Pergunte ao Pó – John Fante

Descobri o livro lendo outro livro. Li Caio Fernando Abreu comentando dele em várias cartas e resolvi lê-lo para saber porque ele se impressionou tanto pelo livro. Acabei eu bem impressionado.

Boa essa sensação de entender um personagem, de percebê-lo, de senti-lo, e assim me tornei amigo do Arturo Bandini e pude entender toda sua vaidade e ao mesmo tempo toda sua entrega, misericórdia em relação à Camila. Ao mesmo tempo se sentir e viver como se fosse um grande escritor para depois deixar tudo de lado para servi-la, cuidar dela. Sem antes passar por toda espécie de contradição de sentimento. Contradições católicas enraizadas, seja no personagem, seja no autor. A transformação de um flaneur num bom samaritano.

Fiquei impressionado com os diálogos internos e devaneios, como a gente pensa, e como a gente pensa coisas tão irreais, atos falhos no nosso consciente que o autor conseguiu captar muito bem.

Não tem como não pensar no “Quem ama a sua vida não terá a vida verdadeira; mas quem não se apega à sua vida, neste mundo, ganhará para sempre a vida verdadeira” (Jo 12,25), mas também “Não sejais vagarosos no cuidado, mas sede fervorosos no espírito” (Ro 12,11). Enfim, estas contradições que movem o mundo e movem Arturo Bandini.

Amanhã vou pegar o DVD, embora todo mundo tenha criticado a história, enquanto lia só conseguia ver o Colin Farrell e a Salma Hayek.

quarta-feira, março 25, 2009

Cordilheira - Daniel Galera

Pode parecer um motivo bem absurdo o porquê de que peguei este livro na biblioteca. Na verdade foram dois motivos. O primeiro é que o autor tem minha idade e não costumo ler gente viva. O segundo é mais banal ainda, o romance se passa em Buenos Aires, o que me fez lembrar muito um gallego muito engraçado que conheci no albergue e me fez percorrer um circuito Borges e terminei num show de tango fantástico no Café Tortoni.

Na verdade a graça do livro está em mostrar a facilidade com que incorporamos personagens. Sempre lembro de uma frase que diz que o homem em sua história percorre por si só todos os caminhos de sua civilização. Numa civilização que criou e cultivou o individualismo (sim, somos ocidentais, periféricos, mas ocidentais) e principalmente após o Romantismo, temos uma gama enorme de personagens para nos guiar, nos fazer refletir, para absorver e absolver.

Podemos trocar de personagens ao sabor dos acontecimentos e num mundo de pacotes CVC, Azul e Bed and Breakfast até podemos trocar de cenários possíveis.

E assim o universal se dissolve em personagens, alguns bens construídos e outros clichês, alguns trágicos e outros dramáticos; arquétipos de inúmeras teorias. Tão diversos e tão difusos que até podem se reduzir ao indivíduo. Nosso próprio personagem que construímos.

Há momentos que o charme do livro está na previsibilidade. O personagem mais autêntico é aquele que a gente pode encontrar no trabalho, no metrô e que por não se envolver em nenhuma trama sinistra ou intelectualóide, se apresenta sem máscaras, ou somente com a máscara da modernidade.

Sou um péssimo crítico. Analiso sem estrutura, sem prestar atenção nas frases. O livro vale ser lido e o título é fantástico já que Buenos Aires não tem Cordilheira e a Cordilheira é também um personagem a ser incorporado.

quinta-feira, agosto 28, 2008

Desenvolvimento e Democracia

Passei duas semanas com duas figuras fantásticas, míticas, populistas. Semana passada arranhei meu espanhol com Las presidencias peronistas: Cámpora/Perón/Isabel de Horacio Maceyra, e esta semana com Getúlio: O poder e o sorriso de Boris Fausto.

A grande questão destas duas grandes histórias é: pode-se obter desenvolvimento econômico dentro de uma democracia? Esta pergunta se faz importante, porque ambos são conhecidos como os pais do desenvolvimento nos seus países e no entanto, este impulso para a industrialização, para a criação do mercado interno, a visão que somente uma classe trabalhadora forte (mas não tão forte assim) poderia sustentar esse mercado, só pode ser construído dentro de regimes quase fascistas. Pus o quase fascista. No livro de Perón, não existe essa palavra, mas se fala no grande pacto da sociedade, uma sociedade corporativa. No livro do Getúlio, nega-se o fascismo, falando de um autoritarismo moderno. Não gosto do Getúlio, mas concordei com a tese do Boris Fausto, e não ponho mais fascista.

Será que a industrialização do Brasil não poderia se dar sem o Estado Novo? Será que a industrialização da Argentina não poderia acontecer em um regime como acontecia no pré-Perón? Cabe lembrar que ambos os países já tinham indústrias e proletariado antes dos dois, mas o poder estava no campo. Considerando que o liberalismo dos anos 20 e 30, jamais permitiria uma desvalorização da moeda, pra proteger a indústria, o impulso industrial não aconteceria. Ao inverter a política econômica de antes do crash eles conseguiram impulsionar a burguesia nacional. Com uma política trabalhista, conseguiram um acordo entre capital e trabalho contra a agricultura, fazendo uma industrialização pela substituição de importações. Bem, infelizmente esse salto provavelmente não seria dado fora da estrutura da Era Vargas e do Peronismo.

Na queda de ambos, tanto de Perón (no caso de Isabelita), tanto de Getúlio, as circunstâncias econômicas já são muito distintas. Existe uma complexidade maior na economia industrial destes países onde a fórmula não encaixava mais. Achei fantástica a descrição que no plano de governo de Cámpora estava o aumento da participação dos salários na renda da nação. Nunca ouvi isso nem do Lula! Nunca na história do nosso país alguém deve ter posto uma meta tão avançada como essa! No caso de Getúlio o contraste não foi tão grande assim. Afinal ele voltou ao poder 5 anos depois de ter caído, enquanto Cámpora assumiu 18 anos depois de Perón ter caído, pesou mais os fatores políticos, mesmo porque Vargas não era tão contra o capital estrangeiro, tal qual Perón. E isso me deixou mais intrigado, então, numa estrutura complexa, a fórmula populista está fadada ao fracasso?

Mas, em qual circunstância se dará o desenvolvimento? Acho que a pergunta principal é que tipo de desenvolvimento procuramos e em que circunstâncias podemos tê-lo? Adoraria ver uma análise bem marxista das forças da sociedade dizendo onde nossa democracia nos leva. Acho que seria um exercício bem interessante. Será que existe um consenso sobre esse desenvolvimento? Se valorizamos o campo e as commodities, a nossa âncora verde, a tal da doença holandesa freia a indústria por causa da valorização do câmbio, se seguramos o câmbio para valorizar a indústria, prejudicamos as exportações. Ao mesmo tempo, se valorizamos o mercado nacional para acelerar o desenvolvimento externo podemos ter inflação, se a combatemos acabamos por arrochar os salários. Como convergir todas as tendências?

Talvez a democracia seja um regime político sem grandes alterações nas estruturas das sociedades. Vou dar um tom moral e dizer que mesmo assim é um bem em si mesmo, podemos deixar as lutas mais claras para que todo mundo possa ter uma atuação política de acordo sua atuação econômica. Ou não.

sábado, julho 05, 2008

A Escrava Isaura


Se clássico, segundo Ítalo Calvino, é um livro que quando o relemos ele nos diz coisas completamente novas, nos apresenta novas nuances, e que, mesmo sendo de outras épocas, se mantém atual; A Escrava Isaura definitivamente não é um clássico. Na verdade, lê-lo me fez ver o porquê esse livro nunca foi citado numa aula de Romantismo, nunca caiu num vestibular. Não é um livro onde as características do Romantismo são apresentadas de maneira paradigmáticas, nem de maneira paradoxais. É um novelão.

O mais triste é que a história é boa. A própria contradição de existir uma escrava branca é um excelente tema para se discutir a escravidão. No entanto, quando o senhor de dita escrava vai à falência para caçá-la e quando ela se apaixona por um homem muito rico que, comprando a dívida do seu senhor, consegue a alforria da amada; estamos numa história que legitima a escravidão. Resolve-se o problema de Isaura e o restante, bem, o restante é escravo mesmo. Achei péssimo o racismo do livro, na verdade Isaura não merecia ser escrava porque não era como os negros, não porque a escravidão era uma coisa degradante. Mesmo que Álvaro, que o autor cita como liberal, republicano e quase socialista, tenha sempre um discurso anti-escravidão; a simples compra da alforria para liberá-la, legitima. Deveria ter fugido! Embora, Isaura jamais consentiria com a fuga, já que se achava merecedora do destino por ser escrava.

Ok, a literatura traz consigo a ideologia da classe dominante, ainda mais no romance, que é uma experiência individual, ainda mais no Romantismo brasileiro, que é a literatura de formação da imagem do país. Mas não era necessário tanto provincianismo para contar uma história!

A história em si é tão boa, que na TV fez muito sucesso, ainda bem que foi adaptada e foi jogada fora muita coisa dali, mesmo porque trazer o livro para a TV daria no máximo um episódio de uma hora.

Um lado ruim de ler A Escrava Isaura, foi sempre olhar Isaura e lembrar da Lucélia Santos e da musiquinha dos escravos, infelizmente, terminei o livro um pouco triste, mas morrendo de vontade de conhecer Campos dos Goytacazes. A melhor passagem do livro é quando ele descreve a paisagem de Campos. Agora, graças às novelas e ao Romantismo, existem duas cidades no Estado do Rio que eu preciso conhecer: Campos e Vassouras.