quarta-feira, maio 27, 2009

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

Há pelo menos uns dez anos tenho vivido sob um paradigma de que existiam dois pólos: a hipocrisia e o cinismo; onde cada um se graduava entre eles nas suas posturas e ações. Aconteceram muitas coisas nestes dez anos e hoje percebo que o mundo só poderia estar entre estes dois pólos se estivéssemos trabalhando com valores fixos e complicados a ponto de não conseguirmos segui-los e fingirmos (hipocrisia) ou aceitarmos que eram intangíveis e começássemos a apontar que tampouco os outros conseguiam (cinismo). O mundo seria de uma realidade brutal e embora não fosse maniqueísta (já que haveria graduações), partiria de valores e conceitos absolutos.

Quando nos tornamos adultos e conforme vivemos, começamos a ver que os conceitos e valores, por abstratos, não são rígidos e nos amoldamos a eles, definindo-os por superposições de metáforas e experiências, não de uma maneira cínica, mas sim humana. Uma vez que a própria realidade nos traz sensibilidade e tolerância que não combinam com o esquema rígido da hipocrisia-cinismo.

Neste ponto posso dizer que “A Insuportável Leveza do Ser” me achou e não o contrário, já que me alcançou exatamente no processo de relativização dos meus valores.

O livro é de um realismo cru, psicológico, descritivo e que de maneira nenhuma foge ao lirismo; ao invés de querer provar uma tese ou desconstruir o humano, expõe a realidade com o olhar humano, nas poucas certezas e na irracionalidade delas. Talvez pela questão do tempo-espaço, Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, onde não havia mais espaço para as nuances, as nuances dos personagens se acentuam ainda mais.

Tirando toda a questão da leveza e do peso que vai permear toda a história, bem menos rígida que minha proposição da hipocrisia-cinismo, as histórias são belas e bem contadas, montadas de maneira a acentuar a realidade, que muitos autores ao tentarem captá-las acabam por deformá-la.

Se tivesse capacidade de fazer um filme, o faria sobre a relação entre Franz e Sabina, que são secundários, mas representam muito mais este aspecto que me encantou do que o casal Tomas e Tereza. Deu-me uma sensação conhecida, familiar, ao ler esta parte, sem contar que as imagens se formavam rapidamente me minha mente.

Além disso, existe Karenin, que talvez seja a Baleia (a cachorrinha de Vidas Secas) eslava.

Adorei o livro, aposto que será relido e ainda assim ficarei encantado por ele.

terça-feira, maio 26, 2009

gabriela + mauricio + francisco = vos

Mauricio Macri pode ser bem o exemplo sobre a questão da direita difusa que escrevi e de como um grupo político pode reunir este espírito de uma maneira moderna e democrática. Para que isso não ocorresse, nem lá na Argentina nem aqui, os ideais de direita não deveriam estar presentes na sociedade. Mas estão. O que talvez exista é uma associação com os políticos de direita com os movimentos antidemocráticos, só que a restauração democrática no continente já é fato consolidado.

Pois bem, faltou explicar o título e os personagens. Mauricio Macri é o chefe de governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires (um prefeito com mais poder ou um governador com menos), Gabriela Michetti é a primeira candidata a deputada federal na lista do PRO para as eleições legislativas, Francisco de Narvaez é o primeiro candidato a deputado federal na lista do PRO + peronismo dissidente na Província de Buenos Aires. O PRO é o partido que Macri fundou e que acabou reunindo boa parte da direita difusa, da UCR dissidente, dos apoiadores de Ricardo López Murphy (3º colocado na eleição de Nestor Kirchner) e agora o peronismo dissidente. Peronismo dissidente é a parte do Partido Justicialista que não está alinhada com o casal Kirchner e que na Província de Buenos Aires é representado pelo ex-governador Felipe Solá e pelo ex-presidente Eduardo Duhalde e que tem quase o mesmo número de prefeitos que os prefeitos-K no conurbano. Prefeitos-K são os prefeitos peronistas ou radicais alinhados ao casal Kirchner e conurbano é a região metropolitana da cidade de Buenos Aires que está dentro da Província de Buenos Aires, e é onde estão os distritos eleitorais mais densos.

O título é tema da campanha que aparece na cidade de Buenos Aires e conseqüentemente em toda região metropolitana de Buenos Aires (que está na Província de Buenos Aires). A idéia é que frente a fórmula “ou minha eleição ou o fim da democracia” que o casal Kirchner quer imprimir na campanha, existe uma maneira pragmática e de defesa da democracia em jogo, e esta está no título.

Segundo as pesquisas é quase certo que Michetti ganhe as eleições porteñas e De Narvaez tem chance de ganhar, mas se não ganhar, conseguirá um bom número de deputados para o bloco nas eleições bonaerenses. De qualquer maneira, este novo partido sairá das eleições maior do que entrou e se posicionará como um pólo opositor ao casal Kirchner, num grupo muito mais coeso que a aliança à esquerda (Elisa Carrió, UCR, Socialistas e Partido Obrero), que como esquerda em todo lugar é sempre desunida.

O que quero deixar claro aqui é que existe um sentimento, que talvez seja predominante nas classes médias, que está sendo negligenciado pelos dois pólos de poder no Brasil (PT x PSDB) e deveria ser reunido por alguém. Este alguém na minha opinião seriam os Democratas, numa roupagem nova. No entanto é preciso ter a visão estratégica de Macri para conseguir se firmar como tal. Bem, as eleições de 2010 são legislativas e todo bom partido deve ter uma boa bancada, começa por aí.

Política argentina é emocionante. A questão das listas da uma dimensão partidária tremenda sobre as eleições legislativas, que falta no Brasil. Existem as peculiaridades locais, como não há propaganda gratuita, os únicos comerciais que se vê na tv são dos partidos que tem dinheiro como o PRO e os do governo (que manterá a fama de não ganhar na Capital). No entanto, a cidade já está no clima de eleição, mesmo faltando 34 dias.
A propósito. Até hoje não consegui descobrir o que significa PRO, talvez passe anos sem saber, assim como até hoje não sei ao certo o que é o partido ARI da Elisa Carrió.

quinta-feira, maio 21, 2009

Tempestades e Calmarias

De repente você sente uma calmaria estranha no ar, barômetros caem, a pressão abaixa, quem tem malícia sabe que estamos perto da Tempestade, e ela vem, vem em forma de trabalho, de amores, de amizades mal discutidas, de contas a pagar e a receber não planejadas. Um turbilhão lhe envolve e isso é uma das coisas mais interessantes que existe. Você acaba entrando neste turbilhão e luta com ele, contra ele, usa dele com astúcia, e às vezes é enganado por ele. Se sente o próprio Ulisses na Odisséia.

A Tempestade acaba, seja naturalmente, seja por uma intervenção radical e divina; você se sente num desassossego incrível, como se não pudesse viver sem o turbilhão de coisas acontecendo, e vai desacelerando, olhando para o turbilhão passado e vendo coisas que poderia ter feito diferente, lendo outras coisas, vendo outras paisagens. Quando a calmaria vem, você olha a paisagem, a entende, a interpreta e se prepara para quando os barômetros apitarem novamente você entrar no turbilhão com mais malícia.

Pois bem, do último post até esse, houve a calmaria sinistra, a tempestade e começaram minhas férias e estou olhando a paisagem. Sem pretensões de olhar para frente, nem de reviver nenhum passado. Estou observando e me surpreendendo. As férias são a quaresma do trabalho, não no sentido trágico, mas no sentido da reflexão. Confesso que estou adorando tanto essa reflexão que acabo nem escrevendo muito aqui.

Há muitas coisas que queria falar: de como é fantástico ler Milan Kundera, de como O Leitor é um filme ótimo, como a Adriana Calcanhotto pode fazer um show engraçado e up. Queria falar sobre listas abertas e fechadas, sobre o saco que é fazer mala, sobre o câncer da Dilma, sobre como é gostoso andar na Linha 9 a noite. Infelizmente a paisagem não me permite escrever muito. Acho que nas tempestades encontro mais facilidade de escrever.

Homenagem ao 11o. andar

O mar não é o mar e a cerveja não é cerveja, mas a sensação é igual

Privilégio do Mar
(Carlos Drummond de Andrade)

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.

sexta-feira, maio 08, 2009

Maio de 68

"Então esses seres jovens, inteligentes e radicais tiveram subitamente a estranha sensação de ter lançado no vasto mundo a ação que começava a viver por conta própria, deixando de se parecer com a idéia que eles haviam concebido, deixando de se importar com os que tinham lhe dado origem. Esses seres jovens e inteligentes puseram-se a gritar por sua ação, a chamá-la, a culpá-la, a persegui-la, a caçá-la. Se eu escrevesse um romance sobre a geração destes seres dotados e radicais, eu lhe daria o título de A caça à ação perdida"
O conto da onde eu extraí o texto acima é "Cartas Perdidas" e está em "O livro do riso e do esquecimento" de Milan Kundera. O conto é uma ótima alegoria do maio de 68, mas achei esse texto muito perfeito!

segunda-feira, maio 04, 2009

Direita Difusa

O preço da liberdade é a eterna vigilância

Hoje no almoço surgiu o comentário de que não existe um partido de direita no Brasil. Na hora lembrei-me dos Democratas, no entanto, se pensarmos bem, o “poder de fogo” dos Democratas não se compara com a Democracia Cristã alemã ou a União por um Movimento Popular francês. (Não vou pôr aqui o Partido Popular espanhol, não ponho por causa de Raroy, se estivéssemos na era Aznar, poria).

A sequência lógica seria tentar definir aqui o que é Direita, o que torna a coisa mais difícil. Uma vez li numa enciclopédia que a direita se apoiava em quatro pontos: autoridade, comunidade, liberdade e hierarquia. Alguns se apoiando mais em um do que nos outros, mas todos se baseando nesses. Então começamos a delimitar o espaço que eu quero atingir. Temos quatro princípios: autoridade, comunidade, liberdade e hierarquia, e temos dois exemplos: a Democracia Cristã e a UMP.

Se pensarmos em tudo que a Esquerda brasileira chama de direita, vamos encontrar os sociaisdemocratas do PSDB, que não compartilham nem de todos os princípios nem pode ser comparado à UMP, acredito que a maior diferença seja na questão de regulação (não confuda público com estatal), na defesa de mecanismos de inclusão e por não ser tão duro com as questões das liberdades individuais. Fora os tucanos, encontramos um amontoado de partidos paroquiais sem expressão nacional, com algumas figuras carismáticas, atuação fisiológica e sem um projeto de poder e de país (PP, PR entre outros).

Aí entra o poder catalisador dos Democratas. Ao liberar-se do carlismo, na renovação dos seus quadros, tais como Rodrigo Maia, Kátia Abreu, Ônix Lorenzoni, Paulo Bornhausen, Ronaldo Caiado, Solange Amaral, Mendonça Filho e principalmente Gilberto Kassab, os democratas podem preencher esse vácuo à direita. Não duvido que, dentro de um programa coerente e nacional, os Democratas não consigam se viabilizar como uma opção tal qual a UMP.

A defesa da democracia (“o preço da liberdade é a eterna vigilância”), a busca da eficiência na administração pública, a redução do Estado e dos cargos comissionados, a busca pelo empreendedorismo, maior abertura econômica, defesa do agronegócio (com todas as ressalvas ambientais), e principalmente um discurso moderno de liberdades individuais (liberados de influências religiosas ou outros lobbies) podem dar aos Democratas um campo que não é explorado pelos partidos no Brasil. Pelo menos não nacionalmente.

Claro que ainda há resquícios do velho PFL, mas a própria renovação trata de depurá-los. Além do mais, essa história de partido da ditadura já se tornou um pouco chavão demais, não acredito que, fora alguns saudosos da Ditadura, alguém se comovam com esse discurso (que a Marta Suplicy quis aplicar aqui em São Paulo). Afinal, das eleições livres para governador de 1982 para cá, já se foram 27 anos. E no final das contas, quem viabilizou a eleição de Tancredo, foi o PFL.

Um pólo a direita, num país onde falar que uma pessoa é de direita é xingamento, pode reequilibrar as forças políticas nacionais. Afinal, o PSDB no governo, rompeu com os clientelismos e permitiu a eleição de Lula, completando a transição democrática. No final, os dois partidos acabaram tão parecidos que é necessário se diferenciar. Para mim, é claro que o PSDB não quer as bandeiras que citei; mas pelo que a gente lê em jornal, ou nestas pesquisas que vez em quando saem, estes temas são temas a serem discutidos e podem aumentar a força deste partido.

Sem contar que com os Democratas fortes, o PSDB voltaria para seu lugar de origem, deslocado que foi pelo vácuo à direita, e teríamos uma grande surpresa ao ver o quanto o PT teria que se reposicionar.

A democracia brasileira ganharia com um partido mais orgânico e organizado neste campo.

domingo, maio 03, 2009

Virada Cultural 2009

Geraldo Azevedo

Fui num show de um cantor que para mim era desconhecido e saí de lá com muita vontade de escutar tudo que ele já fez. O show foi fantástico, uma platéia que aproveitou cada instante, todo mundo escutando, cantando. A letras das músicas muito simples, mas muito precisas. Para mim foi o grande acontecimento

Escoamento em meios porosos

Parece nerd este tópico, mas não parava de pensar nisso. Acho que dá para fazer um modelinho matemático para verificar o comportamento das pessoas na multidão. É incrível como se vê os fluxos preferenciais que vão se formando, o fenômeno da capilaridade. No final dos shows, acontecia quase como a fluidificação da areia, a multidão se tornava uma areia movediça, você afundava nela.

Lógico que existem sempre os sem noção que não seguiam nem os fluxos preferenciais nem toda a lógica humana que acaba sendo afetada pelo excesso de vinho barato do local, mas considerando que ser ou não ser sem noção é uma questão de estatística, esse modelinho pode até ser feito considerando esta variável!

(tópico idiota, mas eu pensei nisso em vários momentos!)

Não poderia ser em outra data?

Dois motivos para se mexer na data da virada: a interrupção do tráfego de trens do metrô sob a República e o Dia do Trabalho.

A interrupção do tráfego causou um caos no sábado que eles reviram no domingo. Sem contar que ao acionar os ônibus da Sptrans para fazer o trajeto Santa Cecília – Anhangabaú, esqueceram de combinar com a CET. Demorei 40 minutos para ir de Santa Cecília ao Anhangabaú no sábado às 6 da tarde.

Quanto ao Dia do Trabalho, acho misturou as duas festas perdendo o simbólico de ambas, parecia que a cidade estava em festa nos três dias, no primeiro, graças às centrais sindicais, nos outros dois pela virada.

Shows Bregas

Interessante porem um palco só para shows bregas, afinal a virada tem que atingir a todos.

No fim, descobre-se verdadeiramente porque são populares: as letras fáceis faziam com que a gente aprendesse a música durante a própria música. E no final, todo mundo sabia pelo menos o refrão. O show do Wando foi engraçadíssimo, principalmente com a questão das calcinhas voando e das baixarias que ele falo, mas infelizmente ele não tem repertório pra tocar uma hora toda não. O do Reginaldo Rossi foi muito chato, ele mais falou do que cantou, acabei saindo no meio.

Zeca Baleiro

Bem, esse é um show que ainda vou pagar pra ver, escutar com mais atenção, curtir mais o show. Foi ótimo, num horário melhor ainda.

sábado, maio 02, 2009

Pré-Campanha (artigo de César Maia)

Vou pôr na íntegra o artigo de César Maia, publicado na Folha de hoje, concordo com ele em tudo e estava na minha cabeça escrever algo sobre isso, mas achei perfeito o que falava que me abstenho deste tema por enquanto.

PAUL LAZARSFELD -fundador das pesquisas de opinião e tendências do eleitorado-, nos anos 30, na Universidade de Columbia, dizia que as campanhas eleitorais eram como a fotografia da época: dividiam-se em duas fases. Na primeira -a pré-campanha-, a foto era tirada e impressa no celuloide. Na segunda -a campanha-, a foto era revelada na câmara escura. Sem a pré-campanha não havia foto a revelar, e a campanha seria uma loteria de impressões, ensinava.
Esta é a lógica das primárias nos EUA. Os pré-candidatos se apresentam nacionalmente. Mostram propostas, criticam os adversários, durante meses, até a convenção. Todas as imagens estão amplamente registradas no "celuloide" dos eleitores. Depois, a campanha exibe os detalhes, os compromissos e críticas, que complementam o básico. Sem pré-campanha, Obama nunca teria tido a chance de ser o candidato democrata.
No Brasil, o complexo eleitoral, composto pelos partidos e pela Justiça, fixou a ideia de que a pré-campanha é ilegal. Desta forma, enquanto os partidos denunciam seus adversários por fazerem pré-campanha, a Justiça Eleitoral os inibe com proibições e punições. Mas esse é um processo torto.
Todos têm espaço partidário igual para a propaganda autorizada, mas quem está no governo tem todo o tempo que entender para contratar publicidade na mídia.
Não pôr o nome na publicidade de quem está na mídia espontânea todos os dias é risível. Nos Estados e grandes capitais, trata-se de gastos anuais, em publicidade político-governamental, de R$ 50 milhões a R$ 200 milhões. No nível federal, os gastos chegam a R$ 2 bilhões, incluindo patrocínios e promoções. O exagero chega a tal ponto que o próprio uso da internet -meio democrático, barato e acessível a todos- passou a ter regras limitativas, antes e até durante as eleições.
Se o que se quer com o processo eleitoral é dar ao eleitor o máximo de informações, para que ele possa decidir politicamente, em vez de apenas reagir a estímulos publicitários, o processo atual aponta para o contrário disso.
Os partidos não têm tempo para amadurecer suas decisões em torno de seus pré-candidatos. As convenções fazem o jogo do "convencimento" dos delegados. As pesquisas de opinião pré-eleitorais só favorecem os mais conhecidos ou expostos, o que torna as oposições mais dependentes da mídia.
A democracia sofre um grave desvio, na medida em que não há condições de igualdade na disputa. Governo e oposição atuam politicamente, visando às próximas eleições, com instrumentos totalmente desproporcionais.
Essa é uma grave distorção que os partidos políticos -que legislam- e o TSE -que regulamenta- precisam rever com a máxima urgência

sexta-feira, maio 01, 2009

Compromisso com o trabalho

Não é o trabalho que dignifica o homem, mas o homem que dignifica o trabalho. Quando falo em compromisso com o trabalho, muito além de desemprego e renda gostaria que entrasse em pauta também a necessidade de se poder realizar um trabalho onde o homem consiga criar, se expor, pensar; entregando-se plenamente e com vontade ao trabalho.

Afinal, mesmo com taxas decrescentes do índice de desemprego de 2003 pra cá, temos uma contradição no rendimento médio do pessoal ocupado. Resolvi por os dois governos Fernando Henrique e os dois governos Lula para não me acusarem de parcialidade. Vamos aos dados, para evitar a sazonalidade, considerei para comparação de agosto/98 à agosto/08, uma vez que no site no DIEESE, a série histórica só ia até agosto de 2008 (que me evitaria abrir todos os relatórios para conseguir fazer a conta, afinal hoje é feriado e não é dia de ter tanto trabalho assim).

Em agosto de 1995 a taxa de desemprego na Região Metropolitana de São Paulo era de 12,9% e em agosto de 2008, 14,0%. A princípio, pouca variação. Se pegarmos a taxa de agosto de 2002 (final do governo Fernando Henrique), a taxa foi de 18,3%, um crescimento de 41% na taxa de desemprego, um crescimento bastante alto. Em agosto de 2003 chegamos a 20%, sendo que aí já tínhamos 8 meses de governo Lula. De agosto de 2003 à agosto de 2008, temos uma redução de 30%. O que corrigiu uma taxa de desemprego já alta. Nesta taxa de desemprego, considerei o emprego total (com carteira e sem carteira).

No entanto, se olharmos os rendimentos, defletidos pelo IPCA na cidade de São Paulo, com base em agosto de 2008, temos o seguinte quadro: Em agosto de 1995, o rendimento médio das pessoas ocupadas eram de R$ 1.773,58, em agosto de 2002, R$ 1.264,93, uma redução de 28,7 % do rendimento médio. Em agosto de 2003 o rendimento foi de R$ 1.181,35 (redução de 6%), enquanto em agosto de 2008, o rendimento foi de R$ 1.215,72, com um acréscimo na renda do governo Lula de 3%.

O que quis pôr acima foi que: no governo Fernando Henrique, a reestruturação econômica e principalmente a crise de 1999, tirou do mercado 6% da População Economicamente Ativa ({[(100-18,3)/(100-12,9)]-1}x100}) e houve um arroucho de 28,7% no seu rendimento médio. No governo Lula, foi posto de novo no mercado 7,5% da População Economicamente Ativa, mas o acréscimo de renda foi de somente 3%. O que pode significar empregos com baixos rendimentos ou uma alta taxa de inflação.

Na verdade todos esses números servem para voltar no primeiro parágrafo. Será que todo esse aumento nos postos de trabalho foram feitos para que esses trabalhadores tivessem seus sonhos como trabalhador realizado? Talvez por isso nesse 1º de maio, ao invés de glorificarmos taxa de desemprego e renda, deveríamos pensar em que formas conseguiremos pôr o trabalho em primeiro lugar na nossa sociedade, ao invés do capital, (princípio da socialdemocracia) e que esse trabalho também seja fruto do melhor das pessoas, que elas possam se realizar neles. Construir com o trabalho não somente o fruto deste trabalho, o rendimento, mas também a realização pessoal.

Talvez com essa crise, os números piorem, e aí surja uma grande oportunidade (é um clichê total essa história de crise e oportunidade, mas enfim) de conseguirmos pensar em melhores formas de se trabalhar, para que o trabalhador se sinta realizado nos seus trabalhos, que consigam sobreviver aos custos e às tentações do consumismo. Como isso pode acontecer eu não sei. Antes era contra a história de economia solidária, mas por quê não? Talvez quando este trabalho for feito realizando os anseios de todos, podemos construir uma sociedade mais justa, mais tranqüila (só a justiça gera a paz, lema da campanha da fraternidade deste ano) e mais ecológica.

São apenas divagações sobre o Dia do Trabalho, que assim como o Dia Internacional da Mulher, deve ser comemorado e principalmente refletido. Afinal, se ganharás o pão com o suor do seu trabalho, que esse suor não seja somente o suor da dor, mas também o suor bom do esforço para atingir algo que se quer.

domingo, abril 26, 2009

A difícil opção pelos pobres


Fazer a opção pelos pobres exige um exercício de olhar, e conseguir encontrar esse pobre que a gente tenta buscar. A pobreza pode marginalizar tanto, que se torna impossível perceber o marginalizado, ele se reificou, se tornou coisa nas calçadas e nas ruas da cidade. Sua presença só se torna visível no grito, no grotesco, como que somente pelo absurdo pudéssemos notá-los.

O termo pobre, assim como termo elite, é tão amplo e subjetivo, que acaba por nos confundir, talvez esta questão até seja dicotômica e simples desse jeito, mas as nuances do pobre e da elite, acaba por marginalizar mais uma parte do “pobre” e esconder muito mais o que é “elite”.

Afinal, um trabalhador, um operário, um desempregado pobre, é pobre, mas está dentro do nosso sistema. Possui valor definido, podemos até ter preconceito de classe, mas a todos ocorre uma solução para o problema desta pobreza. É um pobre dentro do sistema, que compartilha os mesmos valores, as mesmas ambições e o mesmo desejo de consumo.

Aí que chego onde a opção pelos pobres se torna mais difícil, quando estamos falando de pessoas tão marginalizadas, cujos valores não são por nós reconhecidos, são estranhos dentro do nosso corpo social, acabam se passando por coisas, porque nos incomoda tentar entendê-los. Transformamos eles em coisas, porque não podemos entender como se transformaram como tal. Estou me referindo aos mendigos que dormem pelas ruas e calçadas desta cidade.

Para mim é tão difícil pensar em uma solução para eles simplesmente porque praticamente não compartilhamos o mesmo mundo; porém, como morador da subprefeitura da Sé, é impossível passar incólume por eles, mesmo que não entendamos sua lógica, sua opção (ou falta dela).

Sua própria existência põe em xeque todo um sistema de valores no qual acreditamos e sua marginalização nos mostra que existe um outro conjunto que também é a nossa sociedade. Se num primeiro momento, o absurdo nos assusta e se transforma num caso de polícia. Numa segunda reflexão, vemos que esta questão é uma questão crucial em vários pontos do nosso olhar para o mundo. Por quê sociologicamente eles se retiraram do “jogo”? Por quê psicologicamente eles não compartilham dos mesmos valores?

Penso que até a forma como ocupamos esta cidade pode ser causa da existência do mendigo. Como morador de uma subprefeitura onde esse problema grita e nos pede pelo menos uma explicação, me sinto somente confuso e tento imaginar teorias mil para que a opção pelos pobres possa alcançá-los também. Ou que eles se deixem alcançar por ela.

sábado, abril 25, 2009

São Francisco pregando aos pássaros

Sempre foi uma mulher católica. Desde os tempos da Campanha Gaúcha até ser esposa de fazendeiro em Rondônia. Já teve recaídas, um tarô, uns búzios, em sua juventude quando tivera mais dúvidas. Hoje, com a idade, tinha mais certezas que dúvidas. Mesmo porque Vilhena não era um lugar que lhe permitia ter tantas dúvidas assim, e suas certezas aumentavam sua fé.

Quando se casou e logo depois migrou, imaginou que poderia dar aos filhos uma vida diferente da que teve. Rondônia era uma terra de oportunidades e seu marido soube aproveitá-las. Orgulhava-se de ter feito sua América, mesmo que esta América fosse tão pequenina como sua São Gabriel natal, ali havia oportunidades, pelo menos para seus filhos. E o que não é um casamento do que poder proporcionar aos filhos o melhor dos mundos? Sentia-se realizada por ser uma mãe que podia dar-se ao luxo de prover o sonho dos seus filhos.

Cláudia nasceu na fase próspera, a menina estudiosa era o orgulho da mãe. Com a mãe aprendera a gostar de ler, o que em Vilhena era a descoberta do mundo. Decidiu ser advogada e para orgulho de toda cidade veio fazer Direito no Largo São Francisco. Faculdade que já havia formado cinco presidentes, segundo lhe contaram.

Para ajudar na adaptação da filha, veio a São Paulo. Procurar apartamento, deixá-lo habitável, permitir que Cláudia conseguisse se sentir em casa e disfarçar seu espanto pela cidade que a envolvia. Maravilhava-se ao observar o trânsito, alguns prédios imponentes; até a decadência lhe parecia bonita, estava num lugar com uma história que era maior que ela, não onde ela fizera a história.

A imagem da faculdade de Direito foi encantadora. Junto à filha conheceu a sala de defesas, majestosa, lembrou-se dos livros que lera no colegial, da glória de se estudar Direito em São Paulo. A faculdade era um ponto que sobrevivia a decadência do lugar, era um lugar que a história não havia abandonado e isso a impressionava.

Domingo é dia de missa. Não importa onde você esteja, é dia de missa. Lembrou-se da Igreja de São Francisco ao lado da faculdade, e com sua roupa de missa foi até lá, Cláudia tinha saído com suas novas amigas e decidiu que enfrentaria a cidade sozinha. Informaram-na o horário errado, e ela acabou chegando muito cedo. Sorte. Pôde ver toda a Igreja, se sentia numa igreja barroca mineira. Anjos, santos com olhares penetrantes, uma Nossa Senhora das Dores tão linda e dolorida como jamais vira. Ajoelhou-se e rezou. Andou pela Igreja e percebeu que o número de mendigos que dormiam sob as arcadas era muito grande, assustou-se e voltou à Igreja, era quase a hora da missa e nunca tinha visto tão poucas pessoas numa celebração.

Sentou-se incomodada num banco vazio, estava inconformada de ter feito esta opção. Aquele domingo não era um domingo bonito, mas deveria ter ficado em casa, ou ido a uma Igreja num lugar menos decadente. Sentiu-se caipira por ter ido a missa e por ter medo dos mendigos.

Um frei bem simples entrou na Igreja sob o canto solitário de um ajudante. A missa começou e de repente, com a chuva fina que caiu sobre a cidade, a Igreja, como por um milagre, começou a encher. Antes do ato penitencial já estava tomada pelos mendigos das arcadas. Alguns rezavam junto com o frei, outros conversavam, alguns embriagados diziam palavras que ela não conseguia entender. Vieram as leituras e tentava se concentrar nas leituras, mas tinha medo, medo inconsciente, medo do desconhecido, da enrascada que se metera.

A homilia foi sobre a recusa de Tomé em acreditar na ressurreição sem ver as chagas de Cristo, o frei insistiu que bem-aventurados aqueles que creram sem ter visto, e pediu para que todos meditassem sobre o tamanho de sua fé. Perguntou até onde sua fé seria capaz de os levar. Veridiana não conseguia tirar o olhar de um mendigo com um colete militar que, embriagado, soltava palavras como respondendo ao frei. Quando o padre disse que a fé é a vacina do medo, sentiu-se sem fé, estava amedrontada.

No ofertório sentiu-se constrangida ao entregar seus dez reais habituais à Igreja enquanto a multidão de mendigos fazia comentários sobre a coleta. “Receba o Senhor por suas mãos este sacrifício, para a glória do Seu nome, para o nosso bem e de toda santa Igreja”. Teve vergonha em dizer esta frase que sempre lhe saiu automática. Afinal, qual era seu sacrifício? Estar junto aos mendigos? Mas essa era uma obrigação e não um sacrifício. Durante a consagração, o bêbado de colete militar comentou sarcástico que agora sim todos eram irmãos.

O canto de comunhão era um dos mais bonitos que já ouvira, já o havia cantado no coro da sua Igreja, e, no entanto, cantado pelo ajudante parecia uma ladainha de procissão. Falava sobre a vinda gloriosa e a ressurreição dos que creram. Na comunhão, partilhou a fila e a hóstia com os mendigos que agora lhe pareciam como parte integrante da Igreja. No abraço da paz, desejou-lhes a paz de Cristo e deu-lhes a mão, automaticamente.

Quando a missa acabou, pôs a bolsa embaixo do braço e atravessou o campo de refugiados com que se assemelhava o Largo de São Francisco, por sorte havia um ponto de táxi na praça e logo conseguiu um carro. Dizia a si mesma que jamais voltaria àquela Igreja. Mas sua fé era incapaz de levá-la a uma igreja como aquela? Quando o táxi parou num sinal fechado, um menino de rua conseguiu abrir a porta do carro e levar sua bolsa. Seu medo se concretizou. Como era fácil ser católica em Vilhena!

domingo, abril 19, 2009

Caminhemos


Sabe quando você escuta uma música e não consegue se desligar dela? Pois é, aconteceu comigo na quinta-feira e não consigo parar de ouvir uma música. Embora a música seja interessante do jeito que é, adoraria trocar-lhe duas palavras, e acho que aí sim ela ficaria bem interessante.

É desnecessário saber que ouvi essa música na voz da Vanusa, e que sabe-se lá como eu cheguei nela, mas não julguem a música pela cantora, depois descobri que a música é até bem velhinha, até o Nelson Gonçalves gravou em dueto com a Maria Bethânia, mas eu ainda prefiro ouvi-la na voz da Vanusa.

Caminhemos
(Herivelto Martins)

Não, eu não posso lembrar que te amei,
Não, eu preciso esquecer que sofri,
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois!

Vida comprida, estrada alongada.
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada...
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Te encontre no mesmo lugar!

Do jeito que a música está, me dá a idéia de alguém infeliz numa relação, mesmo assim inseguro se deve ir ou não, perdido no mundo, e o “quem sabe na volta te encontre no mesmo lugar”, pode parecer que a pessoa decidiu que a volta era a melhor das opções (que seria um final muito Alcione para a Vanusa) ou que o sujeito da canção evoluiu, cresceu e o que ficou estagnou (que seria uma vingança bem executada).

No entanto, ao escutar a música, depois de algumas vezes, eu trocaria duas palavras:

Caminhemos

Não, eu não posso lembrar que te amei,
Não, eu preciso esquecer que sorri,
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois!

Vida comprida, estrada alongada.
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada...
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Me encontre no mesmo lugar!

Com as duas alterações acho que seria uma crise existencial muito bem cantada. O sujeito da música está numa relação boa, no entanto precisa repensar a sua vida e parte “à procura de alguém ou a procura de nada”, ou de algo, e quem sabe posteriormente a toda esta busca perceba que estava tudo bem.

Afinal, quem nunca teve dúvidas desta natureza, e percebeu que estava tudo ok depois?

A propósito, estava num bar meio decadente onde uma dupla sertaneja fazia cover de outras duplas sertanejas, quando eles tocaram Borboletas de Vitor e Leo que diz coisa bem parecida, mas sobre a ótica de quem ficou. Acho a parte de quem foi mais corajosa, mas no final fiquei com as duas músicas na cabeça!

quinta-feira, abril 16, 2009

Lula, FHC e a relação Estado-Sociedade.

No discurso de despedida ao Senado, o ex-presidente Fernando Henrique diagnosticava o fim de um ciclo de desenvolvimento econômico, baseado no Estado provedor de infra-estrutura e monopolista deixando às empresas privadas a industrialização por substituição de importações. Este ciclo econômico, característico da Era Vargas, era marcado pelo intervencionismo do Estado em setores estratégicos e um controle sobre as tarifas e câmbio que criava a condição propícia para a industrialização. E esse controle, não era só sobre a economia, mas transpassava toda a sociedade, já que a estrutura sindical era (e ainda é) controlada pelo Estado, e na maior parte do período onde vigorou este pacto desenvolvimentista estávamos sobre regimes de exceção, o Estado Novo e o Regime Militar.

Neste discurso, o ex-presidente afirmava que este ciclo havia se encerrado e era necessário superar a Era Vargas, já que o intervencionismo estava sufocando a eficiência de setores que viriam a ser estratégicos num novo modelo de desenvolvimento. Além disso era necessário superar o autoritarismo do período. Reforçando as instituições e transferindo o dinamismo da atividade econômica dos planos do governo para a iniciativa privada, inaugurando uma nova fase da relação Estado-Sociedade.

“No ciclo de desenvolvimento que se inaugura, o eixo dinâmico da atividade produtiva passa decididamente do setor estatal para o setor privado. Tenho repetido à exaustão, mas não custa insistir: isto não significa que a ação do Estado deixe de ser relevante para o desenvolvimento econômico. Ela continuará sendo fundamental. Mas mudando de natureza”.

O Estado produtor direto passa para segundo plano. Entra o Estado regulador, não no sentido de espalhar regras e favores especiais a torto e a direito, mas de criar o marco institucional que assegure plena eficácia ao sistema de preços relativos, incentivando assim os investimentos privados na atividade produtiva. Em vez de substituir o mercado, trata-se, portanto, de garantir a eficiência do mercado como princípio geral de regulação”.
Este era o norte do governo Fernando Henrique, ao buscar eficiência, buscou-se na iniciativa privada sua eficiência, e trouxe para o governo, representante da sociedade, o papel de regulador. Não só da atividade econômica, mas também como marco de estabilidade jurídica e fiscal.

O projeto que venceu as eleições em 1994 e 1998 foi derrotado nas urnas em 2002 por uma sombra de projeto nacional, que volta à Era Vargas nos seus abusos, e por não abandonar de vez o plano de 1994 e não traçar outro, ficou no meio do caminho, incapaz de exigir a eficiência dos serviços públicos concedidos, já que os cargos nas agências de regulação, foram partidarizados e enfraquecidos pelo governo que se pretende ser forte como outrora.
Quem fica no meio do caminho, saiu da estabilidade do começo e não atingiu o que se pretendia no fim, nem houve uma rediscussão deste processo, já que para algumas platéias (encontros de esquerda, trabalhadores e palanques) se evoca a Era Vargas, e enquanto em outros (empresários, reuniões internacionais) se lembra o novo marco instaurado em 1994.

O resultado final é o que a gente pode ver na greve da Supervia no Rio de Janeiro. Temos uma greve por melhores condições de trabalho num dos pontos mais sensíveis daquela cidade, deixando ilhados usuários que precisam do serviço e pagam por ele, sendo mal tratados pelos grevistas, que não conseguem enxergar que esses usuários são seus aliados, não inimigos.
Esse é o retrato do governo Lula e dos seus alinhados. O Estado do Rio de Janeiro, quando concedeu o serviço, criou uma agência reguladora, que provavelmente deve estar lotada de indicações do amplo espectro político retrógrado que representa o governador Sérgio Cabral. Esta agência não fez o dever de casa de fiscalizar a concessão, nem tampouco puniu a concessionária pela não-execução do serviço. Também não punirá os grevistas. Já que para ambos há um tipo de discurso, contraditório, que deve ser mantido para garantir as eleições de 2010.

quarta-feira, abril 08, 2009

A política nossa de cada dia


Quando Chirac disputou sua reeleição à presidência francesa, pôs como uma de suas cinco metas a redução do número de acidentes de carro. Não me lembro das outras quatro, mas o fato que uma das metas fosse a redução do número de acidentes de carro me causou um impacto impressionante. Era a política chegando ao dia-a-dia das pessoas.

Num primeiro momento pode parecer que uma meta como a redução do número de acidentes de carro seja uma meta simplista e pequeno-burguesa, no entanto, sua efetivação produz transformações imensas em toda a sociedade, desde a criação de carros mais seguros até uma nova política de educação no trânsito. Implica na sociedade aceitar seu alto grau de motorização, provoca reflexões sobre os aspectos ambientais disso tudo. O mais interessante é que o todo o processo começa numa coisa corriqueira, muito mais assimilável que superávit primário ou responsabilidade social, e por ser corriqueira pode abranger um número bem maior de pessoas que convivem com este problema. Provoca discussão na sociedade que empenhada acompanha como seus representantes se portaram perante esta discussão.

A lei antifumo é um destes casos que merecem ser analisados sob essa ótica. Além de ser um assunto mobilizador, é alvo de lobbies fortíssimos, seja da associação de bares, seja da indústria do fumo. Provoca uma discussão acalorada sobre o peso do tabagismo na saúde pública e suas implicações orçamentárias, mas também abre um espaço fantástico para se discutir a liberdade individual que é pilar da democracia. Não é uma simples lei, a partir dela, essa tênue linha entre a saúde pública e a liberdade individual começará a ser traçada. A própria discussão da lei é um exercício fantástico de democracia.

Não foi à toa que comparei Chirac e o Serra. Acho que ambos representam um movimento onde a ação nasce não de vanguardas e construções políticas idealizadas, mas sim de uma relação entre Estado e sociedade que se media pela política. É muito claro, pelo menos para mim, que somente pela política e pelo envolvimento da sociedade na política que se poderão conduzir as demandas difusas da sociedade moderna.

Apóio a lei, e acho que deveríamos discutir mais leis deste tipo.

terça-feira, abril 07, 2009

Tempo Livre


Será esse o tal ócio criativo?

As vezes fico um pouco envergonhado de dizer que tenho tempo livre. Tenho muito tempo livre. Acho que isso é minha maior contradição neste tal mundo globalizado. Como num mundo com tanto acesso à informação, com novas formas de comunicação e vivendo numa cidade global pode se queixar de tempo livre?

Eu me queixo, mas em silêncio. Ninguém tem tempo livre, todos correm contra o tempo enquanto eu passeio pelo tempo, matando tempo.

Tempo livre é um tabu com o qual tenho lutado. Primeiro para reconhecer que isso não seja um problema, depois para que as pessoas não me vejam como uma aberração e principalmente para aprender a desfrutá-lo.

Tomo um banho demorado, leio livros que outros indicam, escrevo cartas, telefono e penso na vida. Muitas vezes tudo isso gera uma vontade de mundo e aí nem sempre os outros estão com tempo para gastarmos um tempo junto. Então escrevo posts, outras cartas e tomo mais um banho.

É preciso paciência e serenidade para lidar com o tempo, mas acho que este tabu está sendo quebrado.

sexta-feira, abril 03, 2009

Pergunte ao Pó – John Fante

Descobri o livro lendo outro livro. Li Caio Fernando Abreu comentando dele em várias cartas e resolvi lê-lo para saber porque ele se impressionou tanto pelo livro. Acabei eu bem impressionado.

Boa essa sensação de entender um personagem, de percebê-lo, de senti-lo, e assim me tornei amigo do Arturo Bandini e pude entender toda sua vaidade e ao mesmo tempo toda sua entrega, misericórdia em relação à Camila. Ao mesmo tempo se sentir e viver como se fosse um grande escritor para depois deixar tudo de lado para servi-la, cuidar dela. Sem antes passar por toda espécie de contradição de sentimento. Contradições católicas enraizadas, seja no personagem, seja no autor. A transformação de um flaneur num bom samaritano.

Fiquei impressionado com os diálogos internos e devaneios, como a gente pensa, e como a gente pensa coisas tão irreais, atos falhos no nosso consciente que o autor conseguiu captar muito bem.

Não tem como não pensar no “Quem ama a sua vida não terá a vida verdadeira; mas quem não se apega à sua vida, neste mundo, ganhará para sempre a vida verdadeira” (Jo 12,25), mas também “Não sejais vagarosos no cuidado, mas sede fervorosos no espírito” (Ro 12,11). Enfim, estas contradições que movem o mundo e movem Arturo Bandini.

Amanhã vou pegar o DVD, embora todo mundo tenha criticado a história, enquanto lia só conseguia ver o Colin Farrell e a Salma Hayek.

quarta-feira, abril 01, 2009

Qué se doble, pero no se rompa!

Se tenho uma certeza na vida é a que se fosse argentino seria radical. A Unión Cívica Radical é um dos partidos que enxergo mais coerente na defesa da democracia. Não é a toa que é Radical e não é a toa que um dia já se chamou Unión Cívica Radical Intransigente.

Nasceu junto com a Revolução do Parque, que é para a Argentina o que foi todo o tenentismo no Brasil, só que ao invés de acabar na Ditadura Vargas, trouxe a democracia para a Argentina, uma democracia radical, que depois acabou eclipsada por vários golpes militares e pela ascensão do Peronismo e todas suas vertentes. No entanto, sempre que se pretendia a normalidade no país, os Radicais chegavam ao poder. Quando as revoluções libertadoras e as voltas sebastianistas levavam o país à ruína, lá estavam os radicais em defesa da democracia. Pode até ser uma democracia burguesa, partidária. Não é a toa que é, ou foi, conhecida como o partido das classes médias.

Insurgiu-se pelo voto secreto e fez de Yrigoyen o primeiro presidente eleito em eleições secretas. Pode-se dizer que foi o primeiro presidente não aristocrático.

Num governo radical conseguiu-se uma das experiências mais radicais e democráticas da gestão da universidade pública. A Reforma Universitária por Alvear, deu acesso a todos os argentinos a universidades. Tanto que na Argentina não existe vestibular, somente em algumas escolas onde o grande número de alunos prejudica o ensino é estabelecido um exame, que ao contrário daqui, admite todos os que passam pela nota limite, e não somente preenche vagas pré-estabelecidas.

Governou a Argentina por seis vezes, sendo que cinco vezes foi derrubada do poder por golpes militares (Yrigoyen, Frondizi e Ilia) ou por tumultos e crise (Alfonsín e De la Rua). Ganhou a fama de nunca terminar um mandato.

Estou escrevendo hoje por causa da morte de Alfonsín. Após o violento golpe que se seguiu ao desastre da volta de Perón ao poder, depois da radicalização e do terrorismo que assolou o país, ao assumir criou o juízo das juntas e uma comissão para unificar o país. Não usou o golpe militar como maneira de manobra para seu governo. Aproximou-se do Brasil e criou e embrião do Mercosul. Infelizmente pela crise econômica e pela oposição ferrenha dos peronistas, numa saída para pacificar o país, renunciou seis meses antes de terminar o mandato passando o poder a Ménem e era Menem, cuja política econômica se baseou na mesma plata dulce dos tempos da ditadura.

Talvez até pela intransigência, hoje a UCR se dividiu, sobrevive como legenda, mas dela surgiram outros partidos, a direita e a esquerda. Mas a UCR sim é um partido que está ligado a democracia, a legalidade e principalmente a um espírito desenvolvimentista.
O título é a frase da carta de suicídio do fundador da UCR, Leandro Além; que talvez tenha sido levada a ferro e fogo por Alfonsín, que atuava no partido até sua doença e morte

sábado, março 28, 2009

Nova Brasil FM

Depois de quase 1 ano de São Paulo descobri a Nova Brasil FM. Está tocando agora no rádio, e já tocou o dia todo enquanto estive em casa. Que sensação estranha, meio nostálgica da vida campineira. Essa rádio não combina com São Paulo, combina com Campinas, seja a Campinas no climinha Unicamp, seja a Campinas do Cambuí. Aquela coisa meio apartamento de solteiro ou recém-casado, nível universitário, na labuta do dia-a-dia, classe média, ordinary people!

Acho estranho falar de vida campineira. Na verdade são alguns precipitados de fatos, acontecimentos, sentimentos, emoções e omissões boas, combinadas numa cidade sui generis que dá uma sensação boa de ter vivido lá. Conheci tanta coisa nessa fase! Fase transformadora, assim é a vida campineira que me refiro: uma mistura de Panetteria di Capri com a Luísa, lagoa da Unicamp, trevos super-rápidos, parati do Alfredo, biblioteca do IEL e Cine Paradiso. Discussões acaloradas sobre política, educação e música. Li o Quarup, o Crepúsculo do Macho, conheci F.Scott Fitzgerald, aprendi a ouvir Beatles e Legião Urbana.

Mas Nova Brasil FM é um acontecimento, merece um post! E o mais incrível: enquanto escrevi este post, já tocou “O dia em que a Terra parou” e a Ana Carolina já cantou duas vezes!

É isso aí, moderna e brasileira!

quarta-feira, março 25, 2009

Cordilheira - Daniel Galera

Pode parecer um motivo bem absurdo o porquê de que peguei este livro na biblioteca. Na verdade foram dois motivos. O primeiro é que o autor tem minha idade e não costumo ler gente viva. O segundo é mais banal ainda, o romance se passa em Buenos Aires, o que me fez lembrar muito um gallego muito engraçado que conheci no albergue e me fez percorrer um circuito Borges e terminei num show de tango fantástico no Café Tortoni.

Na verdade a graça do livro está em mostrar a facilidade com que incorporamos personagens. Sempre lembro de uma frase que diz que o homem em sua história percorre por si só todos os caminhos de sua civilização. Numa civilização que criou e cultivou o individualismo (sim, somos ocidentais, periféricos, mas ocidentais) e principalmente após o Romantismo, temos uma gama enorme de personagens para nos guiar, nos fazer refletir, para absorver e absolver.

Podemos trocar de personagens ao sabor dos acontecimentos e num mundo de pacotes CVC, Azul e Bed and Breakfast até podemos trocar de cenários possíveis.

E assim o universal se dissolve em personagens, alguns bens construídos e outros clichês, alguns trágicos e outros dramáticos; arquétipos de inúmeras teorias. Tão diversos e tão difusos que até podem se reduzir ao indivíduo. Nosso próprio personagem que construímos.

Há momentos que o charme do livro está na previsibilidade. O personagem mais autêntico é aquele que a gente pode encontrar no trabalho, no metrô e que por não se envolver em nenhuma trama sinistra ou intelectualóide, se apresenta sem máscaras, ou somente com a máscara da modernidade.

Sou um péssimo crítico. Analiso sem estrutura, sem prestar atenção nas frases. O livro vale ser lido e o título é fantástico já que Buenos Aires não tem Cordilheira e a Cordilheira é também um personagem a ser incorporado.

segunda-feira, março 23, 2009

Subúrbios

É mais ou menos o que me acontece quando vou a Jundiaí de trem!

Revelação do subúrbio
Carlos Drummond de Andrade

Quando vou pra Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa pra ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil

Bem, não chego lá de manhã nem vejo laranjais, e ai de quem falar que Jundiaí é subúrbio! É urbe, com seus próprios subúrbios!

domingo, março 22, 2009

Feliz Dia Internacional das Mulheres (atrasado)

"O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas eu sei o que ele quer
Se deitou na minha cama
Me chamava de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração"


Numa das das conversas de bar mais interessante que já tive, afirmei com tanta convicção que esta parte de Terezinha era a maior expressão de feminilidade, e que isso reforçaria ainda mais o papel a Maria Bethânia como um símbolo do feminismo (eu sei, a letra é de Chico Buarque, mas ela cantar é simbólico). A terceira parte é a mulher plena, superada o pai e o irmão (agora fiz uma ligação com a cantiga). A terceira parte é a mulher real, realizada.


Adoro esses conceitos dicotômicos, e como o feminino e o masculino são pólos que se completam e complementam, mostrar a mulher dentro da relação com um homem é de um feminismo fantástico porque não passa pela masculinização da mulher que muitas feministas querem.


A mulher tem que ser mulher, e recriar seu espaço no trabalho, no amor, no sexo, no mundo moderno, na diferneça entre outras mulheres, na igualdade entre elas, em toda sua difusão e todo o seu coletivo.


Então no dia internacional das mulheres eu desejo a todas elas que sejam mulheres com toda sua plenitude, buscando todos seus direitos mas sem deixar de serem mulheres. Quero vê-las ganhando igual aos homens, trabalhando em casa o mesmo que eles, modificando jornadas e regras para que exerçam a maternidade como mulheres modernas.

Feliz Dia Internacional das Mulheres!

Como transformar Franco da Rocha em Puerto Madero

A proposta é simples. Como para tudo, basta um bom projeto e uma boa intenção. É necessário focar nas semelhanças, adaptar as diferenças e consegue-se uma reprodução de um projeto sucesso.

Franco da Rocha foi fundada ao redor de uma estação centenária. A estação precisa ser reconstruída para atender a demanda e adaptar-se a lei de acessibilidade; enquanto a estação centenária precisa ser preservada, uma vez que é patrimônio histórico do período áureo do café.

A relação entre ambas é evidente: o porto abandonado que trouxe o boom imobiliário a uma cidade tida como decadente também era do período áureo da Argentina exportadora de carne e, assim como Franco da Rocha, também estava próximo do centro da capital argentina.

A boa intenção se uniria com o bom projeto numa passarela Calatrava atravessando a faixa ferroviária com harmonia, no lado norte da estação, num prédio restaurado poríamos um Outback, no lado sul, um ateliê de xilografias. Num segundo momento o mercado imobiliário de Franco da Rocha iria inflar. As casas seriam substituídas por lofts e apartamentos com varandas gigantescas. Seria cool morar em Franco da Rocha. Em frente a estação uma escultura da Tomie Othaka.

Estaria aberto o círculo virtuoso, em menos de 10 anos Franco da Rocha seria um Tatuapé mais sofisticado, com um shopping ainda mais bonito que o Anália Franco.

Como é bom saber que a modificação do espaço urbano, requalifica as pessoas, suas atividades, seus deslocamentos. Uns chamam isso de progresso, outros de fascismo, muita gente chama de planejamento.

Onde vamos adaptar o transmilênio?

terça-feira, março 10, 2009

Frost/Nixon e como a política pode ser interessante

As discussões são racionais num ambiente de escolhas irracionais. As leis regulam a vida de cidadãos que cada dia mais interferem, por suas ações e omissões, na vida dos outros. Inúmeros interesses difusos em pessoas cada vez mais diferenciadas e a resolução destas inúmeras variáveis se dá em eleições onde uma música, uma gota de suor ou uma frase decidem tudo.

Não tem como não achar política uma das coisas mais interessantes de nossa sociedade. Num discurso choroso, Alceni Guerra aprovou a licença-paternidade, mudando o voto de um congresso todo que achava ridícula a idéia, indo contra economistas que previam perdas astronômicas com a medida que achavam populista. Ganhou a batalha parlamentar e as ruas. Transformou a licença-paternidade em cláusula pétrea que nunca mais sairá da lei.

Nem tanta sorte teve Fernando Henrique que em sua despedida do Senado fez uma profunda reflexão sobre o país, seus desafios, os vícios autoritários e sebastianistas que tínhamos e que deveríamos enfrentar para alcançar o desenvolvimento pleno e acabou eclipsado por seu sucessor sebastianista, autoritário, herdeiro por opção da Era Vargas que Fernando Henrique pretendia encerrar no país.

Embora a corrupção e os desmandos deixem a sensação de um desprezo geral pela política. As diferenciações entre as classes, as novas demandas que surgem todo dia vindas de uma nova forma de sociedade que se reconstrói sobre antigos tabus e novas tecnologias, não deixam outra arena possível para a equalização destas demandas se não a política representativa e partidária.

Gabeira já alertava isso há algum tempo, desde “O que é isso companheiro?”, sobre como estas demandas surgem e têm que ser conduzidas dentro de uma vida política cada vez mais participativa e igualitária.

Sou muito otimista em ver como a sociedade reage. Abortos, divórcios, diversidade sexual, machismo, feminismo e a crise influenciam a vida de todos e tornam parte dos discursos dos políticos que nos representam. Com mais transparência e mais movimentos sociais voluntários conseguiremos construir cada vez mais uma democracia plena, que entre idas e vindas, mostra-se cada dia mais forte desde a redemocratização.

Não há espaços para maniqueísmos. Neste ponto entra Frost/Nixon. Ali está representado um duelo de emoções sobre razões. Se Nixon se envolveu até a alma em Watergate e transgrediu a lei em busca de seus objetivos, foi punido, pois levou sua razão além dos limites das razões alheias. Mas cabe lembrar que dois anos antes fora eleito em votação incontestável e seis anos depois da renúncia, Reagan, com outra carga de emoção (emoção que Nixon não tinha) e somando outros interesses (religiosos), trouxe de volta, revisitadas, as razões que levou Nixon ao poder em 72 e que o tirou dele em 74.

Isso quer dizer que os americanos são estúpidos? Somente os autoritários e os que se consideram vanguarda podem afirmar isso. As demandas são móveis e reais, se unem e se separam ao sabor dos acontecimentos da vida real. Ao bom político cabe canalizá-las, conduzi-las, convencendo seus eleitores que estas demandas móveis estarão ali bem representadas. Para fazer isso, muitas vezes será utilizada a emoção, mas quem participa da emoção a vive, tem demandas e a aceita. Não existe o povo estúpido que não sabe escolher. (idéia esta que alguns têm que me deixa receoso)

Adorei o filme!

Qual é a próxima rua?

O menino adorava mapas. Ficava fascinado quando via um, era capaz de identificar qualquer lugar num mapa certo. Quando não podia, mentia. Mentia com critério, como depois aprendeu a justificar. O vínculo com o pai passou a ser geográfico. Um estimulava o outro sobre o nome das cidades, dos rios, das ruas. Enquanto as ausências sempre foram próximas, as proximidades eram bem distantes. Conheciam-se mais por saberem como chegar a qualquer lugar do que sobre o que acontecia na vida de cada um.

Eram os únicos que se mantinham acordados em todas as viagens. Enquanto um dirigia, o outro se orientava; em qualquer estrada, em qualquer cidade. A cumplicidade só poderia acontecer quando os outros adormeciam. Neste momento adormeciam também todos os fatores de estranhamento.

Qual o nome da próxima rua? Um provocava o outro e se sentiam felizes ao saber que o outro saberia a resposta. Além do sono dos outros, naquele momento não havia superação edipiana ou qualquer forma de conflito de gerações. Eram cúmplices.
As viagens diminuíram, assim como o sono dos outros. Os papéis no carro mudaram e os meios de transporte também. O menino cresceu e mesmo em cidades onde o pai jamais esteve, quando acerta o nome de uma rua ou estrada, reforça a lembrança. Vínculo que talvez não seja mais geográfico, não freqüentam mais a mesma geografia. Os nomes das ruas agora são o confronto das gerações.

sábado, janeiro 31, 2009

Como fazer amigos e influenciar pessoas

O bom das férias são os cursos de férias. É a possibilidade perfeita de se romper toda uma série de impedimentos que limitam a pessoa da sua ascensão. O sucesso não ocorre por acaso, a gente precisa construir nosso network, um bom círculo de amizades, mentalizar o sucesso, esse é o segredo.

Pensando em sua vida, Lucas deixou sua casa às 6 da manhã vestindo sua melhor roupa. Estagiava na área de controle orçamentário de uma empresa de autopeças. E pensar que o governo lhe tirou duas horas de trabalho, e de salário. Estaria acordando mais cedo se ainda fizesse as 8 horas, mas ganharia mais, muito mais. O trem estava cheio como sempre, se posicionou ao lado da porta, onde ficava escondido do fluxo e tinha uma visão geral do carro. Olhava para as pessoas com ar de superioridade.

Era um rapaz bonito, a musculação tinha lhe dado um porte mais altivo. Como era alto, chamava a atenção dentro do trem. Suas roupas também se destacavam pela forma de dobrar as mangas da camisa, a calça ajustada, os sapatos. Embora nunca tivesse morado em outro local, não se sentia parte dali. Talvez o contato diário com a cidade cosmopolita lhe fazia refletir sobre o tipo de vida que queria e comparar com a que levava.

A ascensão era uma questão de tempo. Tinha porte, era bonito, inteligente. Fazia faculdade, conseguia economizar para ter roupas melhores, cortes de cabelo modernos, era uma questão de oportunidade e ele estava pronto para quando ela surgisse. Empenhou-se e seu inglês estava melhorando. Se fosse efetivado na fábrica, ganharia uma bolsa para fazer inglês numa escola melhor. Triste era pensar que poucos estagiários foram efetivados. Sentia-se pressionado pelas estatísticas das efetivações e por isso tentava ser o melhor dentro do seu departamento. Controle Orçamentário. Triste pensar que o sucesso passasse por lugar tão desanimador. Contadores aposentando lhe mostravam as planilhas do orçamento, e Lucas lera que a gestão de custos era a chave do sucesso das empresas. Sabia que estava no lugar certo!

Saía as 4 e meia. Maldita Lei de Estágios que o fazia enrolar pela cidade por quase duas horas e meia para ir a faculdade ou ao curso de férias. Sua faculdade ficava perto da estação de trem, o caminho do trabalho para a faculdade era feio, mas em compensação sua volta era facilitada. Estava adorando o curso de férias porque fazia com que freqüentasse um lado da cidade que jamais freqüentou. Curso de férias em escola de bacana. Era exatamente isso que precisava para achar as oportunidades. Até o caminho inspirava sucesso. Uma seqüência de prédios maravilhosos, bares, restaurantes. Lera que nesta subprefeitura existia a maior taxa de solteiros da cidade. Eram pessoas como ele, era o lar dos bem-sucedidos.

Entrou na faculdade para o curso “O pensamento estratégico”. Que ótimo estar aqui, pensou. Sentou-se, riu-se do lanche patrocinado. Ninguém ali estava pra brincadeira. Puxou papo, e uma a uma as pessoas foram falando suas origens e suas aspirações. Estava radiante. Pena ter esquecido seus cartões de apresentação. Podia se orgulhar, como alguns ali, morava em um bairro distante, estudava numa escola que não era como aquela, mas também não era das piores e ainda trabalhava numa grande empresa, com possibilidades de efetivação. Olhou para o lado e viu Arnaldo, que como ele também se preparava para o sucesso. Nesta semana de curso de férias tornou-se amigo de Arnaldo, e de maneira bem cúmplice combinaram a baladinha de sexta que seria o encerramento de uma semana de glória. Que bom que o trem funciona a partir das 4, pensou.

Comentando notícias

A escolha do PSDB

Sabe quando você lê uma notícia e fica feliz? Aconteceu comigo nesta sexta-feira quando li que o PSDB desembarcara da campanha de Sarney para presidente do Senado. A opção Sarney seria mais uma decepção que não gostaria de passar. Por sorte, o bom senso dos 13 senadores do PSDB (embora tenha alguns senadores neste grupo onde não consigo ver bom senso e que por mim deveriam estar fora do partido, como Álvaro Dias e Papaléo Paes) prevaleceu.

Votar em Tião Viana, embora seja do PT, não é nenhum descalabro. O PT de Tião Viana, não é o PT de Ideli Salvatti. Perde-se mais ao ficar ao lado de Sarney. Sem contar que é uma opção pragmática fantástica. No momento que o governo Lula tentava esconder a candidatura Tião Viana para apoiar Sarney. Mostra-se o lado incoerente do governo Lula que simplesmente deixou a candidatura Tião Viana a míngua.

Considerando o histórico desta legislatura, duvido que Sarney não ganhe. Agora veja um outro ponto. O PSDB decide apoiar a candidatura do PT para presidência da casa, acredito que somente haverá uma traição, no máximo duas, entregará 11 votos na pior das hipóteses, e o PT? Haverá uma disputa interessante na comissão de relações exteriores. Fernando Collor (PTB-AL) versus Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Em quem o PT votará? O voto da Ideli Salvatti eu arrisco!

Aos amigos tudo, ao inimigo, a Lei!

Não entro no mérito da discussão do asilo de Cesare Battisti. Mas veja bem, o governo se negou a dar ao asilo no CONARE (sim, o governo Lula votou a favor da extradição). Tivesse feito isso na época, Battisti estaria livre. Não fez, o caso foi parar no Supremo. Numa canetada, o ministro Tarso Genro deu-lhe o asilo. Muito bem, o ministro está em Belém, ganhou honras de herói no Fórum Social Mundial, mas Battisti está preso sob o risco do Supremo extraditá-lo. Que dificuldade em ser coerente!

Quando pus ao inimigo, a lei, pus para lembrar a extradição dos cubanos. Que foi um caso muito mal contado, tal qual a volta atrás no caso Cesare Battisti. Mas aqueles não tiveram um Luiz Eduardo Greenhalgh para que o caso chegasse ao Supremo.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Um argumento pró-Israel

Não é fácil, dentro de tudo que se é noticiado, principalmente pelas imagens da guerra, defender a ofensiva ampla de Israel na faixa de Gaza. No entanto, quando todos os interessados tentam manipular a história para se justificar em suas posições, somente uma dose de pragmatismo e de percepção da realidade, pode construir uma estratégia eficiente para pacificar a região.

Esse pragmatismo necessário não passa de maneira nenhuma pela acusação de um holocausto palestino, nem em culpar a criação do Estado de Israel pela instabilidade do Oriente Médio. Israel é um Estado consolidado e isso é fato, lá moram quase 8 milhões de pessoas, árabes e judeus, e pensar numa nova diáspora não é factível, embora o Hamas, o presidente do Irã e da Venezuela pensem que isso seja possível. Da mesma forma, a construção de um Estado Palestino e existência dos palestinos não pode ser ignorada.

Desta forma, considerando a existência dos dois povos, a paz só pode vir por reconhecimento mútuo. Aí entra o Mapa da Paz proposto pelos Estados Unidos, onde a paz seria alcançada por vários pontos como a retirada dos assentamentos judeus nos territórios ocupados, reforma do Estado Palestino, criando um ambiente de confiança mútua para que se avance sobre os temas mais espinhosos como o status de Jerusalém, os refugiados, entre outros assuntos.

Não existe essa paz sebastianista que Lula deseja, existe sim uma série de compromissos que podem vir a terminar com as hostilidades, nada mais. Para que seja alcançado, deve ser referendado pelos dois povos.

Considerando que a paz no Oriente Médio passa pelo reconhecimento mútuo e por avanços em alguns pontos que possa trazer o entendimento, a estratégia do Hamas é contra o Mapa da Paz. Ao não reconhecer o Estado de Israel, rompe com o pragmatismo necessário; ao atacar o Estado de Israel com foguetes e suicidas, impede a construção das pontes necessárias para se avançar no plano. Sobre esta ótica, a ação de Israel, enfraquecendo o Hamas pode trazer novamente as condições necessárias para que se siga um cronograma necessário de ações para o fim da violência.

Parece contraditório que uma ação tão violenta possa abrir o caminho novamente das negociações, no entanto, o impasse gerado pelo Hamas significava o abandono total deste caminho. A estratégia é arriscada, mas se executada com outras aberturas frente aos palestinos da Cisjordânia e um fortalecimento do ANP, podemos voltar ao caminho.

Deve-se lembrar sempre que Israel é uma democracia, assim como os Estados Unidos, e que o contraditório ali é aceito, inclusive com deputados árabes no Knesset (infelizmente, acabei de ler a notícia que os partidos árabes estão fora das eleições legislativas de fevereiro, mas os árabes nos partidos tradicionais podem concorrer). O que se deve evitar a todo custo, é que a radicalização dos palestinos provoque a saída de Israel do caminho da paz.

Nenhuma outra nação aceitaria ser bombardeada tal qual Israel se submeteu frente aos palestinos de Gaza e do Líbano, se não estivesse no caminho da paz. No entanto, a hora de agir aconteceu, e aconteceu para evitar o pior que seria a radicalização do Knesset, fazendo retroceder os acordos numa etapa pré-Oslo.

E a esquerda latina??

Veja bem, é vergonhosa a expulsão do embaixador de Israel de Caracas. Chavez cada dia mais fica longe da realidade, joga para a platéia, num antiamericanismo irresponsável, causando a alegria de outros alienados no continente todo, incluindo aí o PT. Talvez, esta neoesquerda latina veja com bons olhos os fundamentalistas, afinal, assim como o Irã e o Hamas não aceitam o contraditório. O PT gosta tanto da Era Vargas, que talvez queira seguir pelo antissemitismo do mesmo.

sábado, dezembro 20, 2008

Sábado a la mañana

Acordou. Por causa do feriado de Natal que praticamente o deixará sem faxina até o Ano Novo, passou roupa para ter roupa para viajar. Enquanto isso, aproveitou para lavar outras roupas. Charles Aznavour tocando. A trilha sonora não combina com serviços domésticos, mas a música e os serviços domésticos até são um bom paradigma da vida que leva. Até pensou que essa cena caberia num filme do Truffaut. A trilha sonora era deslocada no tempo, acabou rindo ao pensar que passar roupa na virada de 2008 para 2009 também não é lá uma coisa muito contemporânea.

Que modernidade é essa que ainda faz as pessoas serem escravas de um ferro de passar? Talvez aí a trilha sonora faria sentido. Imaginou a série de compromissos natalinos e nos presentes que ainda faltavam. Odeio Natal, já havia repetido isso na fila da livraria e esperando mesa num bar. Acabaram-se as roupas, a máquina ainda estava funcionando, e as 40 canções de ouro do Aznavour acabaram também. Se não enfrentasse o sábado, não daria tempo de fazer tudo que se propusera no último sábado antes do Natal.

No entanto, a vontade era aprofundar ainda mais o lapso temporal da manhã e tomar um drink. O que tomaria Danuza Leão? Um Ricard? Uma vodka-au-poivre? Que belo nome para um Bloody Mary! Se a tivesse em casa, abriria uma garrafinha de Malzbier que é sua referência etílica a almoço em casa. Se pelo menos tivesse o que comer em casa, manteria o clima de sábado em casa. Ao relembrar dos compromissos do Natal teve vontade de sair para comprar algumas coisas no mercado, fazer um bom almoço e tomar sua Malzbier e depois ler um livro, dormir e curtir a casa.

Ficou com tanta vontade de ficar só em casa. Faz tanto tempo que não fazia isso.

A pichadora da Bienal

Esta história sobre a pichadora da Bienal é bem emblemática da falta de conceito nas discussões nacionais. Como em todo o assunto existe um deslocamento dos fatos, e uma mistura de argumentos que só servem para encobrir e mascarar o imenso cinismo que é típico destes anos Lula.

A menina é pichadora e ponto. Uma menina que conforme noticia a Folha hoje gosta de pichar prédios altos para olhar a cidade, sentir o vento e enganar porteiros e moradores, é criminosa e deve ser punida com a Lei. Mas ela não só pichou um simples prédio, pichou um prédio público que é símbolo da cidade e como tal deve ser punida de modo simbólico, exemplar.

Concordo que a Bienal do vazio tinha alguns problemas conceituais, que a arte é elitista e marginaliza e tudo mais. O problema não é a Bienal, não é o elitismo das artes, não é a falta de financiamento a novas formas de artes. O problema chama-se vandalismo, não é uma discussão sobre a política de arte, que até pode ser feita num segundo momento, depois de punida a pichadora de maneira exemplar.

Quando o ministro da cultura do governo federal pede ao governador do Estado que interceda pela menina, além de mostrar que não entende o funcionamento do Estado, pede um jeitinho, e é aí que se mostra toda a face do governo Lula. É um governo que despreza o Estado formal e governa com jeitinhos, com platéia e palanque. Um governo que está acostumado a falar uma coisa em público e fazer outra em privado (como no caso da MP da crise, que foi mandada ao congresso no mesmo dia que o presidente falava a petroleiros que não é um governo de pacote). O ministro achou que uma simples ligação camarada ao governador poderia livrar a pichadora, que se transfigurava numa artista marginal, apagando seu passado vândalo. Provavelmente ganhará uma bolsa artista marginal e receberá do governo federal para continuar espalhando sua arte. O que vai totalmente ao contrário da cidade que apóia e referendou na eleição municipal: a Lei Cidade Limpa.

O pior de tudo isso, no entanto, é a postura de outro ministro, o dos Direitos Humanos, que ao se referir ao caso, disse que nem Daniel Dantas passou tanto tempo na cadeia. Veja bem, o ministro dos Direitos Humanos está condenando a priori um cidadão. O ministro entrou na onda de linchamento público que o próprio Dom Sebastião saído do mar, o delegado Protógenes, iniciou, rompendo qualquer vínculo com a legalidade. Senhor Ministro dos Direitos Humanos, talvez seja necessário o senhor rever quais são os objetivos da sua pasta! Se for para defender os direitos humanos, eles têm que ser universais, de Daniel Dantas à pichadora da Bienal, de torturados a torturadores, de terroristas a suas vítimas. Todos têm direito a julgamentos limpos e uma norma jurídica transparente. Feliz Daniel Dantas que têm advogados bons e policiais tão ruins, que não souberam instruir o inquérito de maneira legal. Pobre pichadora que não tem um advogado tão bom e que não pode contar com uma defensoria pública eficiente, e é ineficiente, porque está presa a guilda dos advogados que só quer o dinheiro fácil do Estado, sem se comprometer com resultados, como queria o governador Serra.

Enfim, criou-se uma celeuma numa cidade degradada pela ação dos vândalos. A menina é uma criminosa pega em flagra. E assim eu acredito que essa história deveria seguir.

Vou por uma frase bem jundiaiense para terminar essa história. Como faltou cinta na infância desta menina, agora o Estado tem que se mobilizar, prendendo, julgando. Triste é ver dois ministros envolvidos em uma história simples e com final feliz. Uma pichadora foi pega pela polícia, e a sociedade deve comemorar.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Odoiá Odum

Ó meu pai verdinho de Odum
Dai-me forças para abandonar o computador
Fazei com que eu entenda de Ecologia
E passe no concurso do Ibama!



A forma e o conteúdo


O Jornal Nacional acabou de mostrar uma reportagem sobre o julgamento no Supremo da demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol. Muito bem, foram 8 votos a favor, um pedido de vista do ministro Marco Aurélio de Mello e uma votação favorável com 18 condições do ministro Direito.

A reportagem foi até Roraima e mostrou lindos campos de arroz dentro da reserva, alguns campos a um mês da colheita (o lindo não carrega ironia, o arrozal é uma das plantações mais bonitas que eu já, só perde para a plantação de girassol) e mostrava o medo de não se poder colhê-lo. Mostrou depoimentos de indígenas que hoje trabalham nos arrozais, citou o número de empregos que podem deixar de existir com a medida.

Ao fim, mostrou um índio com um boné hediondo e com um sotaque ignóbil dizendo que as condições impostas pelo ministro Direito não estavam bem e que os índios iriam discuti-las, e o repórter insinuou que os índios podiam se rebelar.

Enfim, uma reportagem totalmente neutra (agora sim estou sendo irônico). Não falou que os arrozais são ilegais, não falou sobre a importância da demarcação contínua, se concentrou em tudo que tinha de negativo na proposta, e não foi capaz de citar nada a favor da demarcação.

Eu sei o nome dos 11 ministros do Supremo!

Confesso que não foi com nenhum orgulho que cheguei a afirmação acima. Vi uma foto do ministro Ricardo Lewandowsky dormindo na sessão sobre a demarcação da Reserva Raposa Serra do Sol e comecei a comentar mentalmente a sessão. Estava esperando o Beto para almoçar e tinha tempo. Fui citando um a um e me dei conta que sabia o nome dos 11!

Em outros tempos isso seria um orgulho pra mim. Na hora que me dei conta do título lembrei de uma coluna no blog do Josias de Souza onde ele dizia que ultimamente a política é feita para alguns apaixonados e para os comentaristas, passando ao largo da maioria da população. Talvez acompanhe política como quem acompanha uma novela, o que me deixa um pouco longe da população.

No fim vi que tudo era uma imensa besteira. Almocei, trabalhei muito e só fui lembrar da cara do Ricardo Lewandowsky quando abri o uol.

Acho que a Caras deveria cobrir a vida dos ministros, já pensou, ministra Carmem Lucia na Ilha de Caras, ministro Eros Grau no Castelo de Caras. Hoje, participação da ministra Ellen Gracie no Altas Horas. Isso aumentaria o número de pessoas que sabem o nome dos ministros, e eu me sentiria mais incluído!

Para variar, Lula escolheu o pior caminho...

Nunca é demais falar, embora o James me pinte como um reaganomic, eu sou um social-democrata. Que nas palavras críticas de Marx é uma pessoa que acredita poder conciliar o capital e o trabalho (o que é inconciliável na teoria marxista), prevalecendo o trabalho, dentro de um regime de democracia burguesa. Mas, o trabalho só prevalecerá pela ação do Estado, uns acham que essa ação tem que ser direta, através de Estatais e de boquinhas, outros, acham que essa ação pode ser feita de maneira bem mais diversa, e longe da ojeriza ao capital privado.

Considerando o momento de crise, e crise externa, cabe ao Estado aumentar sua ação de forma a prevalecer o nível de emprego, a movimentação da economia e pode fazer isso de maneira democrática e ambientalmente sustentável (o ambiente sustentável e a economia sustentável). Num momento de crise, onde a resolução se passa pelo aumento do investimento do Estado, Lula deu um sinal que ele sim é um bom adepto de Reagan.

Afinal, corte de imposto para a indústria automobilística num cenário de caos urbano em que vivemos, nada mais é do que o não-pensar na realidade brasileira. Mesmo que a indústria automobilística tenha uma cadeia produtiva que empregue consideravelmente, num Estado como o de São Paulo, onde Lula nunca ganhou uma eleição, existiriam outras formas de alavancar o investimento, sem ser a renúncia fiscal!

Renúncia fiscal num governo que é totalmente irresponsável fiscalmente é criar um monstro perigoso para o próximo presidente. Mesmo porque, vemos como a ação do Estado sob o governo Lula é débil, uma vez que o PAC está emperrado e o Estado inchado (o funcionalismo gasta hoje o que gastava em 1996, jogando por terra todo o esforço do governo Fernando Henrique para enxugá-lo, e convenhamos, este inchaço não é um inchaço de eficiência).

Não seria o caso de estimular uma revolução de transporte alternativo, de mobilizar a construção de moradia populares, de incentivar ainda mais o saneamento. O caminho que Lula escolheu de maneira nenhuma pensa no Brasil e sim em quem não votou no presidente em 2006, a classe média. Afinal, os funcionários da indústria automobilística são a “elite” do operariado e os beneficiados com a nova tabela do IR não são seus votos cativos. O presidente com esta medida abandonou os adeptos das bolsas e tenta atrair os adeptos da Bolsa.

Realmente Lula quer o voto de todos os brasileiros.

Argumento interessante

Vi num blog da folha um comentário de César Maia que me fez pensar muito. Considerando que a pobreza é medida em dólar, a pobreza no Brasil aumentou desde a desvalorização...

domingo, novembro 30, 2008

Decisão!

Em trânsito

É muito fácil andar em São Paulo. Tinha um objetivo e dois cartões. Precisava ir até a Paulista comprar um presente e levá-lo na casa de uma amiga em Perdizes e tinha a minha disposição um cartão fidelidade da STM e um cartão do bilhete único. Como não sou um usuário freqüente de ônibus entrei no metrô São Joaquim e quando fui passar o cartão tive uma dúvida cruel, usaria qual cartão?

O itinerário então teve que ser feito na minha cabeça para que pudesse fazer a escolha mais racional, entrei no metrô com o bilhete único e quando sentei no trem me convenci de que fizera a escolha correta. Afinal, depois de almoçar e comprar o presente na Avenida Paulista teria que pegar um ônibus até Perdizes, teria três horas de intervalo para pegar esse ônibus.

Assim foi feito, quando entrei no ônibus e vi que só haviam descontado R$ 1,25 fiquei com uma sensação de pessoa sábia (pessoa que nunca usa o ônibus!), de que havia feito a escolha correta. Tive alguma dificuldade para descobrir o ônibus, assim que o achei, embarquei e fui visitar Luísa.

Quando fui embora, surgiu novamente a dúvida, afinal, deveria escolher um caminho que fosse mais barato, e pensando bem seria ônibus, trocaria de ônibus indefinidamente até chegar perto de casa. No entanto, tinha uma carta na manga: como trabalho na CPTM, poderia entrar nas estações de trem metropolitano sem pagar, aí foi fácil a escolha, pegaria um ônibus até a Barra Funda e de lá, entraria pelo trem metropolitano e depois usaria a transferência gratuita da STM. Peguei o ônibus e para minha surpresa, por ser feriado ainda estava valendo meu bilhete único, cheguei na Barra Funda e entrei sem pagar pela CPTM transferindo gratuitamente para o metrô e chegando no metrô São Joaquim gastando apenas R$ 3,65. Poderia ter sido somente R$ 2,30 se tivesse utilizado o sistema de ônibus. Se tivesse utilizado o cartão fidelidade na entrada do metrô teria custado R$ 4,60 e se não fosse funcionário da CPTM e quisesse voltar para a casa de metrô a ida e a volta poderia ter custado R$ 7,00!

Em algum lugar do céu Adam Smith deve ter rido da minha preocupação com a escolha dos cartões!

sábado, novembro 29, 2008

10 anos

10 anos que saí do Colégio Técnico e 10 anos que entrei na Unicamp.

O problema nem é tanto a questão do tempo que passa, acho que com isso sou bem resolvido. Mas interessante vai ser encontrar pessoas que depois desse tempo todo, serão praticamente desconhecidas e cujo único laço é termos estudados juntos. São pessoas que têm outra vida, ou vidas muito distintas e que vão se encontrar para viver um passado que talvez não tenha sido nem tão bom assim; mas como somos Românticos (com R maiúsculo) transformamos tudo numa coisa idílica.

Não que não tenha trazido boas lembranças, as tenho e estão bem conservadas. Assim como trouxe alguns amigos que também estão muito bem guardados comigo.

Pois bem, pensando nisso, acordando com um pouco de ressaca depois de sair com amigos que não têm nenhum vínculo com nenhuma dessas comemoração, lembrei-me de uma música da Françoise Hardy que posto abaixo. (que fique bem claro que não acordei triste nem bêbado!)

L'Amitie

Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simples bagages
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la terre

Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
Et la fidélité des oiseaux de passage
Dans leurs cœurs est gravée une infinie tendresse
Mais parfois dans leurs yeux se glisse la tristesse

Alors, ils viennent se chauffer chez moi
Et toi aussi tu viendras
Tu pourras repartir au fin fond des nuages
Et de nouveau sourire à bien d'autres visages
Donner autour de toi un peu de ta tendresse
Lorsqu'un autre voudra te cacher sa tristesse

Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne
Il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne
S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne
J'oublierai à la fois mes larmes et mes peines

Alors, peut-être je viendrai chez toi
Chauffer mon cœur à ton bois

quarta-feira, novembro 26, 2008

Desodorante 48h!

Fui ao mercado hoje e fique pensando numa coisa: por que cargas d'água alguém inventou um desodorante 48h? Deveria ser proibido por lei.
Um desodorante que dura 48 h é um atentado a saúde pública. Indica que a pessoa pode, se quiser, não tomar banho por dois dias. Uma vez fiquei dois dias sem tomar banho (calma, calma, era uma viagem e realmente não dava pra tomar banho) e se eu ficasse uma hora além daquele limite, provavelmente, me atiraria na frente de um carro, não me aguentava mais!
Dois dias sem banho é um portal para a mendicância. É renunciar sua civilidade. Não deve ser incentivado! O pior é que observando as pessoas que pegavam esse desodorante na gôndola, tive quase certeza que eles tentariam o limite das 48 h.

Gin Tônica!

Pense numa coisa boa e ela combinará com Gin Tônica. Confesso que não sou um grande consumidor, mas o Gin é fascinante. É lindo observar aqueles copos longos com gin. É perfumado. Duvido que os perfumes não sejam feitos dele. O copo é servido e quando você o põe em suas mãos se torna uma outra pessoa.

Outra pessoa com mais estilo, mais integrada às coisas boas. Pode ser num bar barulhento, num restaurante fino. Um copo de gin lhe transforma. Abre possibilidades de conversas. Atrai uma certa curiosidade. Você pega um copo de gin tônica e a festa começa. Parece aqueles comerciais de Martini Bianco, as pessoas se tornam bonitas, as conversas interessantes, todos riem, até o som do ambiente melhora.

Gin lembra Aretha Franklin, Nina Simone, às vezes lembra Donna Summer; lembra cigarro. De maneira nenhuma é elitista. Um amigo meu diz que é bebida de puta. É a prova cabal de que gin tônica é transversal. Está além de classes, tem a ver com o íntimo da pessoa.

Sexta-feira é dia de Gin Tônica!

domingo, novembro 09, 2008

Felicidade é jogar buraco!

Dois casais se reúnem para conversar. Dois deles são amigos de faculdade e os outros dois são os “agregados”. Adoro quando recebo um convite onde se diz que podemos levar os agregados. E não deixam de ser agregados, mais do que uma boca agregada, agregam também o diferente, o inovador. Agregam a semelhança que os fizeram amigos na faculdade. Agregam uma certa dose de hábitos e costumes, uma certa repetição dos encontros dos pais com os tios e amigos.

Ser casal só é possível com um casal amigo. Numa mesa com dois casais se consegue perceber o significado social de ser casal, a existência comungada. Quatro garrafas de vinho depois surge a possibilidade de verificar como a felicidade de ser um casal é reunir-se com outros casais. Quando era criança, meus pais costumavam jogar buraco com alguns outros casais aos sábados; às crianças, cabia assistir televisão após a pizza enquanto os mais velhos jogavam baralho. Talvez venha daí meu fascínio por encontros de casais. Associei ser adulto com o baralho e a bebida, porei mais um vício, fumar, e teremos os três vícios fundamentais. Ser adulto é beber, fumar e jogar acompanhado e em companhia de outro casal.

Abandonarás teu pai e tua mãe e beberás, fumarás e jogarás baralho com seu agregado junto a outro casal! Com isso, poderás constituir família, se portar como um ser civilizado, e principalmente ser adulto. Não é uma felicidade burguesa, é uma felicidade transversal. Proletários ou burgueses, ricos ou pobres, só serão um casal de verdade quando visitarem um outro casal! Se jogarem buraco, melhor. Ali também aprenderam a trabalhar em equipe e aumentarão a chance de viverem felizes para sempre.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Um dia bom

Acordaram tarde. Estava um calor absurdo e ainda tinham que votar. O que era dever cívico (que clichê!) se tornara turismo. Embora deslocados da cidade, tomaram um café na rua e pegaram um ônibus. Nada como ter contato com os problemas da cidade em pleno dia de eleição. Demoraram um pouco, atravessaram algumas paisagens e desembarcaram num bairro bem simbólico. Petit bourgeoisie! Árvores nas calçadas, ruas calmas, algumas de paralelepípedo. Prédios antigos, petit bourgeoisie desde os anos 30. Feliz a cidade que teve uma City Light!

O voto foi até que rápido, teve lances de arrependimentos e confissões. Voltando para o centro, fizeram compras e tomaram uma cerveja em uma praça. Se fosse no Rio seria um chope, mas era em São Paulo e pediram uma Original. Na mesa ao lado, duas mulheres falando em inglês, na mesa de trás, uma família almoçando, alguns homens sem camisa bebiam a mesma cerveja e nem repararam que o copo não era um copo americano. Leram jornal, discutiram eleições, Mostra Internacional de Cinema, dálmatas, burocracia e o Gabeira.

Divagavam na mesa do bar. Um pensa alto:
- Até que a gente tem uma vida boa, né?
- Realmente, acho que merecemos!

segunda-feira, outubro 06, 2008

Alckmin e Kassab

Alckmin jamais cantaria, o Kassab é bem provável, mas não deixa de ser engraçado pensar no Alckmin falando isso pro Kassab...rs

Love Story

Eu realmente desconfio de casais que demoram muito tempo para viver plenamente uma relação. Alguns namoram 8, 10 anos. Não quer dizer que não tenham uma boa relação, com certeza devem ter. No entanto falta um algo mais, e esse algo mais não espera esse tempo todo. Quem busca tanta segurança antes de assumir uma relação, provavelmente nunca a assumirá no sentido do famoso “homem, abandonarás teu pai e tua mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formaram só um”.

É este se tornar só um que realmente me intriga. A beleza de ser ocidental está toda calcada na aceitação da individualidade. Foi ela que nos levou ao Romantismo e que permitiu criar todo o imaginário em torno do casamento e do amor. A experiência Romântica que permitiu a liberação do sexo, como forma de experimentar o amor sem preconceitos e aí a coisa se perdeu ao querermos ter a liberdade sexual, a possibilidade de vivermos amores sem renunciar na hora certa da individualidade.

O mais bonito da vida como casal é exatamente a comunhão do espírito, quando um passa a pensar nos dois, pensando no bem do casal. É uma renúncia ao individualismo para uma espécie de individualismo a dois. E esta experiência com certeza passa pela construção da intimidade, da segurança, bem como da vivência da paixão, como se ela fosse o elemento sobrenatural que permite criar esse laço. E de maneira nenhuma esse é um amor careta, ou reacionário, uma vez que esse se jogar é uma experiência totalmente libertadora, ao permitir surgir um laço maior de envolvimento, se conhece os próprios limites.

Por isso desconfio de quem não se entrega a uma relação (e também daqueles que se entregam em relações que não tem possibilidade futura nenhuma). Acho lindo quem se casa cedo e passa ter uma vida em casal. Acho que essas pessoas terão a possibilidade de ter uma entrega de maneira muito mais intensa que compensarão os benefícios financeiros do entregar-se numa relação com a vida estável.

Pra ser sincero, tudo isso aí de cima é porque ontem eu assisti Love Story, e realmente acho incrível que um filme feito pra ser a pieguice total, consiga expor a beleza da construção de uma relação. Bem, um dos pontos lá é uma frase que acaba sendo repetida algumas vezes que é: amar é jamais ter que pedir perdão. Tem lá o seu clichê, mas não é verdade? Se se está vivendo esta comunhão, é impossível que um faça o mal ao outro, fiquei com isso na cabeça. Com isso e com a música. Gostei muito do filme!

domingo, outubro 05, 2008

sábado, outubro 04, 2008

Sorria, meu bem!

Realmente política é como nuvem, você olha está de um jeito, olha de novo e mudou tudo. Concordo em gênero, número e grau com o Magalhães Pinto. Afinal, quem em sã consciência poderia afirmar em 1996 que o futuro do projeto político do Serra estaria nas mãos do Kassab?

Vou fazer minha interpretação deste acontecimento. Falta método e até imparcialidade. Acho que temos que analisar o que vem acontecendo no Estado desde 1982 e entenderemos como o Kassab e o Serra chegaram onde chegaram.

Pois bem, meu palpite histórico é que em 1982 subiu ao poder no Estado uma força que seria transformadora da política aqui, e devido a importância do Estado, transformadora até para o País. Quando Montoro assumiu, começou a derrocada da Arena no Estado, mas a Arena não era lá um corpo muito unido. A eleição de Montoro e principalmente a atuação de Quércia como vice-governador foi decisivo pra começar a criar uma consolidação de uma força hegemônica e este projeto começou a tomar forma no Estado. Não existia antes coerência política entre o local e o estadual. Falo da atuação de Quércia, porque ele, como defensor do municipalismo, ao estender sua influência por todo Estado, criou condições de impor sua candidatura a governador em 1986 e principalmente se eleger.

Essa consolidação se deu num momento fantástico que foi o da redemocratização. Assim, foi possível criar forças emergentes que começaram a derrotar os antigos líderes locais e que tinham certa coesão. (lógico que nos anos 70 já havia prefeituras do MDB como Piracicaba e Campinas que possuíam certa linha de pensamento macro; os autênticos do MDB, que depois viriam a ser prefeitos, também já demonstram certa articulação entre as cidades). Com a bandeira do municipalismo, Quércia conseguiu trazer uma renovação nos municípios e se elegeu por isso. Não só de renovação viveu essa consolidação, houve também alguns grupos locais que se precipitaram pra dentro do quercismo.

A oposição a essa nova força política, não era o PT, o PT era insignificante eleitoralmente (pero no mucho). Na divisão de forças no Estado, o PT aglutinava forças nas cidades grandes, onde essa transição pra uma forma mais orgânica de prefeituras já havia acontecido nos anos 70, como Campinas, em cuja prefeitura Quércia despontou, ou no ABC e Santos. No entanto, nas eleições de 82 e 86, o PT não tinha um peso político no Estado. A oposição era o que restou da Arena. Talvez pela posição de vanguarda do PMDB no Estado, essa tenha se mantido unida até praticamente 94, uma vez que sempre o PFL e PDS (PP, PPR e outras formas) saíram juntos nas eleições do Estado.

O elemento X da minha trajetória é a desintegração da força hegemônica criada por Quércia. Talvez seja personalismo, talvez seja os métodos meio fascistas que ele conseguiu suas indicações, mas esta força começou a dar sinal de desgaste já na eleição de 86, com o apoio de parte do PMDB a Antônio Ermírio de Moraes. A articulação do quercismo com outros movimentos dentro do PMDB que não eram de tão de vanguarda como este, fez com que a vanguarda paulista se separasse e criasse o PSDB.

Nesta evolução histórica, o PSDB continuou a consolidação do PMDB após o ocaso do governo Fleury, estimulando a substituição dos antigos governantes locais, e aglutinando forças que se descolavam do que sobrou da Arena. Lembrando que Maluf nunca exerceu uma influência tal qual Quércia ou Covas.

Uma destas forças que precipitaram para dentro desta força foi o PFL, e aí entra o Kassab, ao derrotar o Malufismo em 1998, o PFL foi totalmente incorporado neste processo, e agora sim, poderia surgir uma nova força hegemônica igualmente orgânica e complexa que viria a ser o PT. Lembrando, em 1998 o PT quase chegou ao segundo turno, e em 2002, conseguiu se tornar a segunda força política do Estado.

Lógico que aí entra uma figura que não acompanhou esse processo: Alckmin. É claro que ao surgir como força hegemônica no Estado, o PSDB se tornou um partido de centro, mas que tinha conexões tanto com o PFL como forças mais de esquerda como o PSB ou o PPS. No entanto, Alckmin se pôs mais a direita que essa força hegemônica, não é à toa que hoje ele se mostra um candidato mais reacionário que o próprio Kassab, e não estou falando do Kassab de 2008 e sim do Kassab de 1996!

Pois bem, hoje o Kassab já está totalmente integrado, e eu realmente acho que sempre existiram forças locais não integradas a estas forças hegemônicas, mas que o PSDB e o PT conseguem manter certa coerência em todo o Estado. Acredito que nas cidades do interior, o voto no PSDB acontece ainda como reflexo das derrotas impostas aos antigos governantes e desta sensação de fazer parte da política do Estado. Em muitas delas, o PT ainda é desorganizado, como em Jundiaí, Sorocaba, Itapetininga entre outras. Acho que a figura do Serra vai fazer com que o PT ainda não ameace essa hegemonia, nem agora, nem em 2010. A ver.