quarta-feira, abril 08, 2009

A política nossa de cada dia


Quando Chirac disputou sua reeleição à presidência francesa, pôs como uma de suas cinco metas a redução do número de acidentes de carro. Não me lembro das outras quatro, mas o fato que uma das metas fosse a redução do número de acidentes de carro me causou um impacto impressionante. Era a política chegando ao dia-a-dia das pessoas.

Num primeiro momento pode parecer que uma meta como a redução do número de acidentes de carro seja uma meta simplista e pequeno-burguesa, no entanto, sua efetivação produz transformações imensas em toda a sociedade, desde a criação de carros mais seguros até uma nova política de educação no trânsito. Implica na sociedade aceitar seu alto grau de motorização, provoca reflexões sobre os aspectos ambientais disso tudo. O mais interessante é que o todo o processo começa numa coisa corriqueira, muito mais assimilável que superávit primário ou responsabilidade social, e por ser corriqueira pode abranger um número bem maior de pessoas que convivem com este problema. Provoca discussão na sociedade que empenhada acompanha como seus representantes se portaram perante esta discussão.

A lei antifumo é um destes casos que merecem ser analisados sob essa ótica. Além de ser um assunto mobilizador, é alvo de lobbies fortíssimos, seja da associação de bares, seja da indústria do fumo. Provoca uma discussão acalorada sobre o peso do tabagismo na saúde pública e suas implicações orçamentárias, mas também abre um espaço fantástico para se discutir a liberdade individual que é pilar da democracia. Não é uma simples lei, a partir dela, essa tênue linha entre a saúde pública e a liberdade individual começará a ser traçada. A própria discussão da lei é um exercício fantástico de democracia.

Não foi à toa que comparei Chirac e o Serra. Acho que ambos representam um movimento onde a ação nasce não de vanguardas e construções políticas idealizadas, mas sim de uma relação entre Estado e sociedade que se media pela política. É muito claro, pelo menos para mim, que somente pela política e pelo envolvimento da sociedade na política que se poderão conduzir as demandas difusas da sociedade moderna.

Apóio a lei, e acho que deveríamos discutir mais leis deste tipo.

terça-feira, abril 07, 2009

Tempo Livre


Será esse o tal ócio criativo?

As vezes fico um pouco envergonhado de dizer que tenho tempo livre. Tenho muito tempo livre. Acho que isso é minha maior contradição neste tal mundo globalizado. Como num mundo com tanto acesso à informação, com novas formas de comunicação e vivendo numa cidade global pode se queixar de tempo livre?

Eu me queixo, mas em silêncio. Ninguém tem tempo livre, todos correm contra o tempo enquanto eu passeio pelo tempo, matando tempo.

Tempo livre é um tabu com o qual tenho lutado. Primeiro para reconhecer que isso não seja um problema, depois para que as pessoas não me vejam como uma aberração e principalmente para aprender a desfrutá-lo.

Tomo um banho demorado, leio livros que outros indicam, escrevo cartas, telefono e penso na vida. Muitas vezes tudo isso gera uma vontade de mundo e aí nem sempre os outros estão com tempo para gastarmos um tempo junto. Então escrevo posts, outras cartas e tomo mais um banho.

É preciso paciência e serenidade para lidar com o tempo, mas acho que este tabu está sendo quebrado.

sexta-feira, abril 03, 2009

Pergunte ao Pó – John Fante

Descobri o livro lendo outro livro. Li Caio Fernando Abreu comentando dele em várias cartas e resolvi lê-lo para saber porque ele se impressionou tanto pelo livro. Acabei eu bem impressionado.

Boa essa sensação de entender um personagem, de percebê-lo, de senti-lo, e assim me tornei amigo do Arturo Bandini e pude entender toda sua vaidade e ao mesmo tempo toda sua entrega, misericórdia em relação à Camila. Ao mesmo tempo se sentir e viver como se fosse um grande escritor para depois deixar tudo de lado para servi-la, cuidar dela. Sem antes passar por toda espécie de contradição de sentimento. Contradições católicas enraizadas, seja no personagem, seja no autor. A transformação de um flaneur num bom samaritano.

Fiquei impressionado com os diálogos internos e devaneios, como a gente pensa, e como a gente pensa coisas tão irreais, atos falhos no nosso consciente que o autor conseguiu captar muito bem.

Não tem como não pensar no “Quem ama a sua vida não terá a vida verdadeira; mas quem não se apega à sua vida, neste mundo, ganhará para sempre a vida verdadeira” (Jo 12,25), mas também “Não sejais vagarosos no cuidado, mas sede fervorosos no espírito” (Ro 12,11). Enfim, estas contradições que movem o mundo e movem Arturo Bandini.

Amanhã vou pegar o DVD, embora todo mundo tenha criticado a história, enquanto lia só conseguia ver o Colin Farrell e a Salma Hayek.

quarta-feira, abril 01, 2009

Qué se doble, pero no se rompa!

Se tenho uma certeza na vida é a que se fosse argentino seria radical. A Unión Cívica Radical é um dos partidos que enxergo mais coerente na defesa da democracia. Não é a toa que é Radical e não é a toa que um dia já se chamou Unión Cívica Radical Intransigente.

Nasceu junto com a Revolução do Parque, que é para a Argentina o que foi todo o tenentismo no Brasil, só que ao invés de acabar na Ditadura Vargas, trouxe a democracia para a Argentina, uma democracia radical, que depois acabou eclipsada por vários golpes militares e pela ascensão do Peronismo e todas suas vertentes. No entanto, sempre que se pretendia a normalidade no país, os Radicais chegavam ao poder. Quando as revoluções libertadoras e as voltas sebastianistas levavam o país à ruína, lá estavam os radicais em defesa da democracia. Pode até ser uma democracia burguesa, partidária. Não é a toa que é, ou foi, conhecida como o partido das classes médias.

Insurgiu-se pelo voto secreto e fez de Yrigoyen o primeiro presidente eleito em eleições secretas. Pode-se dizer que foi o primeiro presidente não aristocrático.

Num governo radical conseguiu-se uma das experiências mais radicais e democráticas da gestão da universidade pública. A Reforma Universitária por Alvear, deu acesso a todos os argentinos a universidades. Tanto que na Argentina não existe vestibular, somente em algumas escolas onde o grande número de alunos prejudica o ensino é estabelecido um exame, que ao contrário daqui, admite todos os que passam pela nota limite, e não somente preenche vagas pré-estabelecidas.

Governou a Argentina por seis vezes, sendo que cinco vezes foi derrubada do poder por golpes militares (Yrigoyen, Frondizi e Ilia) ou por tumultos e crise (Alfonsín e De la Rua). Ganhou a fama de nunca terminar um mandato.

Estou escrevendo hoje por causa da morte de Alfonsín. Após o violento golpe que se seguiu ao desastre da volta de Perón ao poder, depois da radicalização e do terrorismo que assolou o país, ao assumir criou o juízo das juntas e uma comissão para unificar o país. Não usou o golpe militar como maneira de manobra para seu governo. Aproximou-se do Brasil e criou e embrião do Mercosul. Infelizmente pela crise econômica e pela oposição ferrenha dos peronistas, numa saída para pacificar o país, renunciou seis meses antes de terminar o mandato passando o poder a Ménem e era Menem, cuja política econômica se baseou na mesma plata dulce dos tempos da ditadura.

Talvez até pela intransigência, hoje a UCR se dividiu, sobrevive como legenda, mas dela surgiram outros partidos, a direita e a esquerda. Mas a UCR sim é um partido que está ligado a democracia, a legalidade e principalmente a um espírito desenvolvimentista.
O título é a frase da carta de suicídio do fundador da UCR, Leandro Além; que talvez tenha sido levada a ferro e fogo por Alfonsín, que atuava no partido até sua doença e morte

sábado, março 28, 2009

Nova Brasil FM

Depois de quase 1 ano de São Paulo descobri a Nova Brasil FM. Está tocando agora no rádio, e já tocou o dia todo enquanto estive em casa. Que sensação estranha, meio nostálgica da vida campineira. Essa rádio não combina com São Paulo, combina com Campinas, seja a Campinas no climinha Unicamp, seja a Campinas do Cambuí. Aquela coisa meio apartamento de solteiro ou recém-casado, nível universitário, na labuta do dia-a-dia, classe média, ordinary people!

Acho estranho falar de vida campineira. Na verdade são alguns precipitados de fatos, acontecimentos, sentimentos, emoções e omissões boas, combinadas numa cidade sui generis que dá uma sensação boa de ter vivido lá. Conheci tanta coisa nessa fase! Fase transformadora, assim é a vida campineira que me refiro: uma mistura de Panetteria di Capri com a Luísa, lagoa da Unicamp, trevos super-rápidos, parati do Alfredo, biblioteca do IEL e Cine Paradiso. Discussões acaloradas sobre política, educação e música. Li o Quarup, o Crepúsculo do Macho, conheci F.Scott Fitzgerald, aprendi a ouvir Beatles e Legião Urbana.

Mas Nova Brasil FM é um acontecimento, merece um post! E o mais incrível: enquanto escrevi este post, já tocou “O dia em que a Terra parou” e a Ana Carolina já cantou duas vezes!

É isso aí, moderna e brasileira!

quarta-feira, março 25, 2009

Cordilheira - Daniel Galera

Pode parecer um motivo bem absurdo o porquê de que peguei este livro na biblioteca. Na verdade foram dois motivos. O primeiro é que o autor tem minha idade e não costumo ler gente viva. O segundo é mais banal ainda, o romance se passa em Buenos Aires, o que me fez lembrar muito um gallego muito engraçado que conheci no albergue e me fez percorrer um circuito Borges e terminei num show de tango fantástico no Café Tortoni.

Na verdade a graça do livro está em mostrar a facilidade com que incorporamos personagens. Sempre lembro de uma frase que diz que o homem em sua história percorre por si só todos os caminhos de sua civilização. Numa civilização que criou e cultivou o individualismo (sim, somos ocidentais, periféricos, mas ocidentais) e principalmente após o Romantismo, temos uma gama enorme de personagens para nos guiar, nos fazer refletir, para absorver e absolver.

Podemos trocar de personagens ao sabor dos acontecimentos e num mundo de pacotes CVC, Azul e Bed and Breakfast até podemos trocar de cenários possíveis.

E assim o universal se dissolve em personagens, alguns bens construídos e outros clichês, alguns trágicos e outros dramáticos; arquétipos de inúmeras teorias. Tão diversos e tão difusos que até podem se reduzir ao indivíduo. Nosso próprio personagem que construímos.

Há momentos que o charme do livro está na previsibilidade. O personagem mais autêntico é aquele que a gente pode encontrar no trabalho, no metrô e que por não se envolver em nenhuma trama sinistra ou intelectualóide, se apresenta sem máscaras, ou somente com a máscara da modernidade.

Sou um péssimo crítico. Analiso sem estrutura, sem prestar atenção nas frases. O livro vale ser lido e o título é fantástico já que Buenos Aires não tem Cordilheira e a Cordilheira é também um personagem a ser incorporado.

segunda-feira, março 23, 2009

Subúrbios

É mais ou menos o que me acontece quando vou a Jundiaí de trem!

Revelação do subúrbio
Carlos Drummond de Andrade

Quando vou pra Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa pra ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil

Bem, não chego lá de manhã nem vejo laranjais, e ai de quem falar que Jundiaí é subúrbio! É urbe, com seus próprios subúrbios!

domingo, março 22, 2009

Feliz Dia Internacional das Mulheres (atrasado)

"O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas eu sei o que ele quer
Se deitou na minha cama
Me chamava de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração"


Numa das das conversas de bar mais interessante que já tive, afirmei com tanta convicção que esta parte de Terezinha era a maior expressão de feminilidade, e que isso reforçaria ainda mais o papel a Maria Bethânia como um símbolo do feminismo (eu sei, a letra é de Chico Buarque, mas ela cantar é simbólico). A terceira parte é a mulher plena, superada o pai e o irmão (agora fiz uma ligação com a cantiga). A terceira parte é a mulher real, realizada.


Adoro esses conceitos dicotômicos, e como o feminino e o masculino são pólos que se completam e complementam, mostrar a mulher dentro da relação com um homem é de um feminismo fantástico porque não passa pela masculinização da mulher que muitas feministas querem.


A mulher tem que ser mulher, e recriar seu espaço no trabalho, no amor, no sexo, no mundo moderno, na diferneça entre outras mulheres, na igualdade entre elas, em toda sua difusão e todo o seu coletivo.


Então no dia internacional das mulheres eu desejo a todas elas que sejam mulheres com toda sua plenitude, buscando todos seus direitos mas sem deixar de serem mulheres. Quero vê-las ganhando igual aos homens, trabalhando em casa o mesmo que eles, modificando jornadas e regras para que exerçam a maternidade como mulheres modernas.

Feliz Dia Internacional das Mulheres!

Como transformar Franco da Rocha em Puerto Madero

A proposta é simples. Como para tudo, basta um bom projeto e uma boa intenção. É necessário focar nas semelhanças, adaptar as diferenças e consegue-se uma reprodução de um projeto sucesso.

Franco da Rocha foi fundada ao redor de uma estação centenária. A estação precisa ser reconstruída para atender a demanda e adaptar-se a lei de acessibilidade; enquanto a estação centenária precisa ser preservada, uma vez que é patrimônio histórico do período áureo do café.

A relação entre ambas é evidente: o porto abandonado que trouxe o boom imobiliário a uma cidade tida como decadente também era do período áureo da Argentina exportadora de carne e, assim como Franco da Rocha, também estava próximo do centro da capital argentina.

A boa intenção se uniria com o bom projeto numa passarela Calatrava atravessando a faixa ferroviária com harmonia, no lado norte da estação, num prédio restaurado poríamos um Outback, no lado sul, um ateliê de xilografias. Num segundo momento o mercado imobiliário de Franco da Rocha iria inflar. As casas seriam substituídas por lofts e apartamentos com varandas gigantescas. Seria cool morar em Franco da Rocha. Em frente a estação uma escultura da Tomie Othaka.

Estaria aberto o círculo virtuoso, em menos de 10 anos Franco da Rocha seria um Tatuapé mais sofisticado, com um shopping ainda mais bonito que o Anália Franco.

Como é bom saber que a modificação do espaço urbano, requalifica as pessoas, suas atividades, seus deslocamentos. Uns chamam isso de progresso, outros de fascismo, muita gente chama de planejamento.

Onde vamos adaptar o transmilênio?

terça-feira, março 10, 2009

Frost/Nixon e como a política pode ser interessante

As discussões são racionais num ambiente de escolhas irracionais. As leis regulam a vida de cidadãos que cada dia mais interferem, por suas ações e omissões, na vida dos outros. Inúmeros interesses difusos em pessoas cada vez mais diferenciadas e a resolução destas inúmeras variáveis se dá em eleições onde uma música, uma gota de suor ou uma frase decidem tudo.

Não tem como não achar política uma das coisas mais interessantes de nossa sociedade. Num discurso choroso, Alceni Guerra aprovou a licença-paternidade, mudando o voto de um congresso todo que achava ridícula a idéia, indo contra economistas que previam perdas astronômicas com a medida que achavam populista. Ganhou a batalha parlamentar e as ruas. Transformou a licença-paternidade em cláusula pétrea que nunca mais sairá da lei.

Nem tanta sorte teve Fernando Henrique que em sua despedida do Senado fez uma profunda reflexão sobre o país, seus desafios, os vícios autoritários e sebastianistas que tínhamos e que deveríamos enfrentar para alcançar o desenvolvimento pleno e acabou eclipsado por seu sucessor sebastianista, autoritário, herdeiro por opção da Era Vargas que Fernando Henrique pretendia encerrar no país.

Embora a corrupção e os desmandos deixem a sensação de um desprezo geral pela política. As diferenciações entre as classes, as novas demandas que surgem todo dia vindas de uma nova forma de sociedade que se reconstrói sobre antigos tabus e novas tecnologias, não deixam outra arena possível para a equalização destas demandas se não a política representativa e partidária.

Gabeira já alertava isso há algum tempo, desde “O que é isso companheiro?”, sobre como estas demandas surgem e têm que ser conduzidas dentro de uma vida política cada vez mais participativa e igualitária.

Sou muito otimista em ver como a sociedade reage. Abortos, divórcios, diversidade sexual, machismo, feminismo e a crise influenciam a vida de todos e tornam parte dos discursos dos políticos que nos representam. Com mais transparência e mais movimentos sociais voluntários conseguiremos construir cada vez mais uma democracia plena, que entre idas e vindas, mostra-se cada dia mais forte desde a redemocratização.

Não há espaços para maniqueísmos. Neste ponto entra Frost/Nixon. Ali está representado um duelo de emoções sobre razões. Se Nixon se envolveu até a alma em Watergate e transgrediu a lei em busca de seus objetivos, foi punido, pois levou sua razão além dos limites das razões alheias. Mas cabe lembrar que dois anos antes fora eleito em votação incontestável e seis anos depois da renúncia, Reagan, com outra carga de emoção (emoção que Nixon não tinha) e somando outros interesses (religiosos), trouxe de volta, revisitadas, as razões que levou Nixon ao poder em 72 e que o tirou dele em 74.

Isso quer dizer que os americanos são estúpidos? Somente os autoritários e os que se consideram vanguarda podem afirmar isso. As demandas são móveis e reais, se unem e se separam ao sabor dos acontecimentos da vida real. Ao bom político cabe canalizá-las, conduzi-las, convencendo seus eleitores que estas demandas móveis estarão ali bem representadas. Para fazer isso, muitas vezes será utilizada a emoção, mas quem participa da emoção a vive, tem demandas e a aceita. Não existe o povo estúpido que não sabe escolher. (idéia esta que alguns têm que me deixa receoso)

Adorei o filme!

Qual é a próxima rua?

O menino adorava mapas. Ficava fascinado quando via um, era capaz de identificar qualquer lugar num mapa certo. Quando não podia, mentia. Mentia com critério, como depois aprendeu a justificar. O vínculo com o pai passou a ser geográfico. Um estimulava o outro sobre o nome das cidades, dos rios, das ruas. Enquanto as ausências sempre foram próximas, as proximidades eram bem distantes. Conheciam-se mais por saberem como chegar a qualquer lugar do que sobre o que acontecia na vida de cada um.

Eram os únicos que se mantinham acordados em todas as viagens. Enquanto um dirigia, o outro se orientava; em qualquer estrada, em qualquer cidade. A cumplicidade só poderia acontecer quando os outros adormeciam. Neste momento adormeciam também todos os fatores de estranhamento.

Qual o nome da próxima rua? Um provocava o outro e se sentiam felizes ao saber que o outro saberia a resposta. Além do sono dos outros, naquele momento não havia superação edipiana ou qualquer forma de conflito de gerações. Eram cúmplices.
As viagens diminuíram, assim como o sono dos outros. Os papéis no carro mudaram e os meios de transporte também. O menino cresceu e mesmo em cidades onde o pai jamais esteve, quando acerta o nome de uma rua ou estrada, reforça a lembrança. Vínculo que talvez não seja mais geográfico, não freqüentam mais a mesma geografia. Os nomes das ruas agora são o confronto das gerações.

sábado, janeiro 31, 2009

Como fazer amigos e influenciar pessoas

O bom das férias são os cursos de férias. É a possibilidade perfeita de se romper toda uma série de impedimentos que limitam a pessoa da sua ascensão. O sucesso não ocorre por acaso, a gente precisa construir nosso network, um bom círculo de amizades, mentalizar o sucesso, esse é o segredo.

Pensando em sua vida, Lucas deixou sua casa às 6 da manhã vestindo sua melhor roupa. Estagiava na área de controle orçamentário de uma empresa de autopeças. E pensar que o governo lhe tirou duas horas de trabalho, e de salário. Estaria acordando mais cedo se ainda fizesse as 8 horas, mas ganharia mais, muito mais. O trem estava cheio como sempre, se posicionou ao lado da porta, onde ficava escondido do fluxo e tinha uma visão geral do carro. Olhava para as pessoas com ar de superioridade.

Era um rapaz bonito, a musculação tinha lhe dado um porte mais altivo. Como era alto, chamava a atenção dentro do trem. Suas roupas também se destacavam pela forma de dobrar as mangas da camisa, a calça ajustada, os sapatos. Embora nunca tivesse morado em outro local, não se sentia parte dali. Talvez o contato diário com a cidade cosmopolita lhe fazia refletir sobre o tipo de vida que queria e comparar com a que levava.

A ascensão era uma questão de tempo. Tinha porte, era bonito, inteligente. Fazia faculdade, conseguia economizar para ter roupas melhores, cortes de cabelo modernos, era uma questão de oportunidade e ele estava pronto para quando ela surgisse. Empenhou-se e seu inglês estava melhorando. Se fosse efetivado na fábrica, ganharia uma bolsa para fazer inglês numa escola melhor. Triste era pensar que poucos estagiários foram efetivados. Sentia-se pressionado pelas estatísticas das efetivações e por isso tentava ser o melhor dentro do seu departamento. Controle Orçamentário. Triste pensar que o sucesso passasse por lugar tão desanimador. Contadores aposentando lhe mostravam as planilhas do orçamento, e Lucas lera que a gestão de custos era a chave do sucesso das empresas. Sabia que estava no lugar certo!

Saía as 4 e meia. Maldita Lei de Estágios que o fazia enrolar pela cidade por quase duas horas e meia para ir a faculdade ou ao curso de férias. Sua faculdade ficava perto da estação de trem, o caminho do trabalho para a faculdade era feio, mas em compensação sua volta era facilitada. Estava adorando o curso de férias porque fazia com que freqüentasse um lado da cidade que jamais freqüentou. Curso de férias em escola de bacana. Era exatamente isso que precisava para achar as oportunidades. Até o caminho inspirava sucesso. Uma seqüência de prédios maravilhosos, bares, restaurantes. Lera que nesta subprefeitura existia a maior taxa de solteiros da cidade. Eram pessoas como ele, era o lar dos bem-sucedidos.

Entrou na faculdade para o curso “O pensamento estratégico”. Que ótimo estar aqui, pensou. Sentou-se, riu-se do lanche patrocinado. Ninguém ali estava pra brincadeira. Puxou papo, e uma a uma as pessoas foram falando suas origens e suas aspirações. Estava radiante. Pena ter esquecido seus cartões de apresentação. Podia se orgulhar, como alguns ali, morava em um bairro distante, estudava numa escola que não era como aquela, mas também não era das piores e ainda trabalhava numa grande empresa, com possibilidades de efetivação. Olhou para o lado e viu Arnaldo, que como ele também se preparava para o sucesso. Nesta semana de curso de férias tornou-se amigo de Arnaldo, e de maneira bem cúmplice combinaram a baladinha de sexta que seria o encerramento de uma semana de glória. Que bom que o trem funciona a partir das 4, pensou.

Comentando notícias

A escolha do PSDB

Sabe quando você lê uma notícia e fica feliz? Aconteceu comigo nesta sexta-feira quando li que o PSDB desembarcara da campanha de Sarney para presidente do Senado. A opção Sarney seria mais uma decepção que não gostaria de passar. Por sorte, o bom senso dos 13 senadores do PSDB (embora tenha alguns senadores neste grupo onde não consigo ver bom senso e que por mim deveriam estar fora do partido, como Álvaro Dias e Papaléo Paes) prevaleceu.

Votar em Tião Viana, embora seja do PT, não é nenhum descalabro. O PT de Tião Viana, não é o PT de Ideli Salvatti. Perde-se mais ao ficar ao lado de Sarney. Sem contar que é uma opção pragmática fantástica. No momento que o governo Lula tentava esconder a candidatura Tião Viana para apoiar Sarney. Mostra-se o lado incoerente do governo Lula que simplesmente deixou a candidatura Tião Viana a míngua.

Considerando o histórico desta legislatura, duvido que Sarney não ganhe. Agora veja um outro ponto. O PSDB decide apoiar a candidatura do PT para presidência da casa, acredito que somente haverá uma traição, no máximo duas, entregará 11 votos na pior das hipóteses, e o PT? Haverá uma disputa interessante na comissão de relações exteriores. Fernando Collor (PTB-AL) versus Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Em quem o PT votará? O voto da Ideli Salvatti eu arrisco!

Aos amigos tudo, ao inimigo, a Lei!

Não entro no mérito da discussão do asilo de Cesare Battisti. Mas veja bem, o governo se negou a dar ao asilo no CONARE (sim, o governo Lula votou a favor da extradição). Tivesse feito isso na época, Battisti estaria livre. Não fez, o caso foi parar no Supremo. Numa canetada, o ministro Tarso Genro deu-lhe o asilo. Muito bem, o ministro está em Belém, ganhou honras de herói no Fórum Social Mundial, mas Battisti está preso sob o risco do Supremo extraditá-lo. Que dificuldade em ser coerente!

Quando pus ao inimigo, a lei, pus para lembrar a extradição dos cubanos. Que foi um caso muito mal contado, tal qual a volta atrás no caso Cesare Battisti. Mas aqueles não tiveram um Luiz Eduardo Greenhalgh para que o caso chegasse ao Supremo.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Um argumento pró-Israel

Não é fácil, dentro de tudo que se é noticiado, principalmente pelas imagens da guerra, defender a ofensiva ampla de Israel na faixa de Gaza. No entanto, quando todos os interessados tentam manipular a história para se justificar em suas posições, somente uma dose de pragmatismo e de percepção da realidade, pode construir uma estratégia eficiente para pacificar a região.

Esse pragmatismo necessário não passa de maneira nenhuma pela acusação de um holocausto palestino, nem em culpar a criação do Estado de Israel pela instabilidade do Oriente Médio. Israel é um Estado consolidado e isso é fato, lá moram quase 8 milhões de pessoas, árabes e judeus, e pensar numa nova diáspora não é factível, embora o Hamas, o presidente do Irã e da Venezuela pensem que isso seja possível. Da mesma forma, a construção de um Estado Palestino e existência dos palestinos não pode ser ignorada.

Desta forma, considerando a existência dos dois povos, a paz só pode vir por reconhecimento mútuo. Aí entra o Mapa da Paz proposto pelos Estados Unidos, onde a paz seria alcançada por vários pontos como a retirada dos assentamentos judeus nos territórios ocupados, reforma do Estado Palestino, criando um ambiente de confiança mútua para que se avance sobre os temas mais espinhosos como o status de Jerusalém, os refugiados, entre outros assuntos.

Não existe essa paz sebastianista que Lula deseja, existe sim uma série de compromissos que podem vir a terminar com as hostilidades, nada mais. Para que seja alcançado, deve ser referendado pelos dois povos.

Considerando que a paz no Oriente Médio passa pelo reconhecimento mútuo e por avanços em alguns pontos que possa trazer o entendimento, a estratégia do Hamas é contra o Mapa da Paz. Ao não reconhecer o Estado de Israel, rompe com o pragmatismo necessário; ao atacar o Estado de Israel com foguetes e suicidas, impede a construção das pontes necessárias para se avançar no plano. Sobre esta ótica, a ação de Israel, enfraquecendo o Hamas pode trazer novamente as condições necessárias para que se siga um cronograma necessário de ações para o fim da violência.

Parece contraditório que uma ação tão violenta possa abrir o caminho novamente das negociações, no entanto, o impasse gerado pelo Hamas significava o abandono total deste caminho. A estratégia é arriscada, mas se executada com outras aberturas frente aos palestinos da Cisjordânia e um fortalecimento do ANP, podemos voltar ao caminho.

Deve-se lembrar sempre que Israel é uma democracia, assim como os Estados Unidos, e que o contraditório ali é aceito, inclusive com deputados árabes no Knesset (infelizmente, acabei de ler a notícia que os partidos árabes estão fora das eleições legislativas de fevereiro, mas os árabes nos partidos tradicionais podem concorrer). O que se deve evitar a todo custo, é que a radicalização dos palestinos provoque a saída de Israel do caminho da paz.

Nenhuma outra nação aceitaria ser bombardeada tal qual Israel se submeteu frente aos palestinos de Gaza e do Líbano, se não estivesse no caminho da paz. No entanto, a hora de agir aconteceu, e aconteceu para evitar o pior que seria a radicalização do Knesset, fazendo retroceder os acordos numa etapa pré-Oslo.

E a esquerda latina??

Veja bem, é vergonhosa a expulsão do embaixador de Israel de Caracas. Chavez cada dia mais fica longe da realidade, joga para a platéia, num antiamericanismo irresponsável, causando a alegria de outros alienados no continente todo, incluindo aí o PT. Talvez, esta neoesquerda latina veja com bons olhos os fundamentalistas, afinal, assim como o Irã e o Hamas não aceitam o contraditório. O PT gosta tanto da Era Vargas, que talvez queira seguir pelo antissemitismo do mesmo.

sábado, dezembro 20, 2008

Sábado a la mañana

Acordou. Por causa do feriado de Natal que praticamente o deixará sem faxina até o Ano Novo, passou roupa para ter roupa para viajar. Enquanto isso, aproveitou para lavar outras roupas. Charles Aznavour tocando. A trilha sonora não combina com serviços domésticos, mas a música e os serviços domésticos até são um bom paradigma da vida que leva. Até pensou que essa cena caberia num filme do Truffaut. A trilha sonora era deslocada no tempo, acabou rindo ao pensar que passar roupa na virada de 2008 para 2009 também não é lá uma coisa muito contemporânea.

Que modernidade é essa que ainda faz as pessoas serem escravas de um ferro de passar? Talvez aí a trilha sonora faria sentido. Imaginou a série de compromissos natalinos e nos presentes que ainda faltavam. Odeio Natal, já havia repetido isso na fila da livraria e esperando mesa num bar. Acabaram-se as roupas, a máquina ainda estava funcionando, e as 40 canções de ouro do Aznavour acabaram também. Se não enfrentasse o sábado, não daria tempo de fazer tudo que se propusera no último sábado antes do Natal.

No entanto, a vontade era aprofundar ainda mais o lapso temporal da manhã e tomar um drink. O que tomaria Danuza Leão? Um Ricard? Uma vodka-au-poivre? Que belo nome para um Bloody Mary! Se a tivesse em casa, abriria uma garrafinha de Malzbier que é sua referência etílica a almoço em casa. Se pelo menos tivesse o que comer em casa, manteria o clima de sábado em casa. Ao relembrar dos compromissos do Natal teve vontade de sair para comprar algumas coisas no mercado, fazer um bom almoço e tomar sua Malzbier e depois ler um livro, dormir e curtir a casa.

Ficou com tanta vontade de ficar só em casa. Faz tanto tempo que não fazia isso.

A pichadora da Bienal

Esta história sobre a pichadora da Bienal é bem emblemática da falta de conceito nas discussões nacionais. Como em todo o assunto existe um deslocamento dos fatos, e uma mistura de argumentos que só servem para encobrir e mascarar o imenso cinismo que é típico destes anos Lula.

A menina é pichadora e ponto. Uma menina que conforme noticia a Folha hoje gosta de pichar prédios altos para olhar a cidade, sentir o vento e enganar porteiros e moradores, é criminosa e deve ser punida com a Lei. Mas ela não só pichou um simples prédio, pichou um prédio público que é símbolo da cidade e como tal deve ser punida de modo simbólico, exemplar.

Concordo que a Bienal do vazio tinha alguns problemas conceituais, que a arte é elitista e marginaliza e tudo mais. O problema não é a Bienal, não é o elitismo das artes, não é a falta de financiamento a novas formas de artes. O problema chama-se vandalismo, não é uma discussão sobre a política de arte, que até pode ser feita num segundo momento, depois de punida a pichadora de maneira exemplar.

Quando o ministro da cultura do governo federal pede ao governador do Estado que interceda pela menina, além de mostrar que não entende o funcionamento do Estado, pede um jeitinho, e é aí que se mostra toda a face do governo Lula. É um governo que despreza o Estado formal e governa com jeitinhos, com platéia e palanque. Um governo que está acostumado a falar uma coisa em público e fazer outra em privado (como no caso da MP da crise, que foi mandada ao congresso no mesmo dia que o presidente falava a petroleiros que não é um governo de pacote). O ministro achou que uma simples ligação camarada ao governador poderia livrar a pichadora, que se transfigurava numa artista marginal, apagando seu passado vândalo. Provavelmente ganhará uma bolsa artista marginal e receberá do governo federal para continuar espalhando sua arte. O que vai totalmente ao contrário da cidade que apóia e referendou na eleição municipal: a Lei Cidade Limpa.

O pior de tudo isso, no entanto, é a postura de outro ministro, o dos Direitos Humanos, que ao se referir ao caso, disse que nem Daniel Dantas passou tanto tempo na cadeia. Veja bem, o ministro dos Direitos Humanos está condenando a priori um cidadão. O ministro entrou na onda de linchamento público que o próprio Dom Sebastião saído do mar, o delegado Protógenes, iniciou, rompendo qualquer vínculo com a legalidade. Senhor Ministro dos Direitos Humanos, talvez seja necessário o senhor rever quais são os objetivos da sua pasta! Se for para defender os direitos humanos, eles têm que ser universais, de Daniel Dantas à pichadora da Bienal, de torturados a torturadores, de terroristas a suas vítimas. Todos têm direito a julgamentos limpos e uma norma jurídica transparente. Feliz Daniel Dantas que têm advogados bons e policiais tão ruins, que não souberam instruir o inquérito de maneira legal. Pobre pichadora que não tem um advogado tão bom e que não pode contar com uma defensoria pública eficiente, e é ineficiente, porque está presa a guilda dos advogados que só quer o dinheiro fácil do Estado, sem se comprometer com resultados, como queria o governador Serra.

Enfim, criou-se uma celeuma numa cidade degradada pela ação dos vândalos. A menina é uma criminosa pega em flagra. E assim eu acredito que essa história deveria seguir.

Vou por uma frase bem jundiaiense para terminar essa história. Como faltou cinta na infância desta menina, agora o Estado tem que se mobilizar, prendendo, julgando. Triste é ver dois ministros envolvidos em uma história simples e com final feliz. Uma pichadora foi pega pela polícia, e a sociedade deve comemorar.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Odoiá Odum

Ó meu pai verdinho de Odum
Dai-me forças para abandonar o computador
Fazei com que eu entenda de Ecologia
E passe no concurso do Ibama!



A forma e o conteúdo


O Jornal Nacional acabou de mostrar uma reportagem sobre o julgamento no Supremo da demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol. Muito bem, foram 8 votos a favor, um pedido de vista do ministro Marco Aurélio de Mello e uma votação favorável com 18 condições do ministro Direito.

A reportagem foi até Roraima e mostrou lindos campos de arroz dentro da reserva, alguns campos a um mês da colheita (o lindo não carrega ironia, o arrozal é uma das plantações mais bonitas que eu já, só perde para a plantação de girassol) e mostrava o medo de não se poder colhê-lo. Mostrou depoimentos de indígenas que hoje trabalham nos arrozais, citou o número de empregos que podem deixar de existir com a medida.

Ao fim, mostrou um índio com um boné hediondo e com um sotaque ignóbil dizendo que as condições impostas pelo ministro Direito não estavam bem e que os índios iriam discuti-las, e o repórter insinuou que os índios podiam se rebelar.

Enfim, uma reportagem totalmente neutra (agora sim estou sendo irônico). Não falou que os arrozais são ilegais, não falou sobre a importância da demarcação contínua, se concentrou em tudo que tinha de negativo na proposta, e não foi capaz de citar nada a favor da demarcação.

Eu sei o nome dos 11 ministros do Supremo!

Confesso que não foi com nenhum orgulho que cheguei a afirmação acima. Vi uma foto do ministro Ricardo Lewandowsky dormindo na sessão sobre a demarcação da Reserva Raposa Serra do Sol e comecei a comentar mentalmente a sessão. Estava esperando o Beto para almoçar e tinha tempo. Fui citando um a um e me dei conta que sabia o nome dos 11!

Em outros tempos isso seria um orgulho pra mim. Na hora que me dei conta do título lembrei de uma coluna no blog do Josias de Souza onde ele dizia que ultimamente a política é feita para alguns apaixonados e para os comentaristas, passando ao largo da maioria da população. Talvez acompanhe política como quem acompanha uma novela, o que me deixa um pouco longe da população.

No fim vi que tudo era uma imensa besteira. Almocei, trabalhei muito e só fui lembrar da cara do Ricardo Lewandowsky quando abri o uol.

Acho que a Caras deveria cobrir a vida dos ministros, já pensou, ministra Carmem Lucia na Ilha de Caras, ministro Eros Grau no Castelo de Caras. Hoje, participação da ministra Ellen Gracie no Altas Horas. Isso aumentaria o número de pessoas que sabem o nome dos ministros, e eu me sentiria mais incluído!

Para variar, Lula escolheu o pior caminho...

Nunca é demais falar, embora o James me pinte como um reaganomic, eu sou um social-democrata. Que nas palavras críticas de Marx é uma pessoa que acredita poder conciliar o capital e o trabalho (o que é inconciliável na teoria marxista), prevalecendo o trabalho, dentro de um regime de democracia burguesa. Mas, o trabalho só prevalecerá pela ação do Estado, uns acham que essa ação tem que ser direta, através de Estatais e de boquinhas, outros, acham que essa ação pode ser feita de maneira bem mais diversa, e longe da ojeriza ao capital privado.

Considerando o momento de crise, e crise externa, cabe ao Estado aumentar sua ação de forma a prevalecer o nível de emprego, a movimentação da economia e pode fazer isso de maneira democrática e ambientalmente sustentável (o ambiente sustentável e a economia sustentável). Num momento de crise, onde a resolução se passa pelo aumento do investimento do Estado, Lula deu um sinal que ele sim é um bom adepto de Reagan.

Afinal, corte de imposto para a indústria automobilística num cenário de caos urbano em que vivemos, nada mais é do que o não-pensar na realidade brasileira. Mesmo que a indústria automobilística tenha uma cadeia produtiva que empregue consideravelmente, num Estado como o de São Paulo, onde Lula nunca ganhou uma eleição, existiriam outras formas de alavancar o investimento, sem ser a renúncia fiscal!

Renúncia fiscal num governo que é totalmente irresponsável fiscalmente é criar um monstro perigoso para o próximo presidente. Mesmo porque, vemos como a ação do Estado sob o governo Lula é débil, uma vez que o PAC está emperrado e o Estado inchado (o funcionalismo gasta hoje o que gastava em 1996, jogando por terra todo o esforço do governo Fernando Henrique para enxugá-lo, e convenhamos, este inchaço não é um inchaço de eficiência).

Não seria o caso de estimular uma revolução de transporte alternativo, de mobilizar a construção de moradia populares, de incentivar ainda mais o saneamento. O caminho que Lula escolheu de maneira nenhuma pensa no Brasil e sim em quem não votou no presidente em 2006, a classe média. Afinal, os funcionários da indústria automobilística são a “elite” do operariado e os beneficiados com a nova tabela do IR não são seus votos cativos. O presidente com esta medida abandonou os adeptos das bolsas e tenta atrair os adeptos da Bolsa.

Realmente Lula quer o voto de todos os brasileiros.

Argumento interessante

Vi num blog da folha um comentário de César Maia que me fez pensar muito. Considerando que a pobreza é medida em dólar, a pobreza no Brasil aumentou desde a desvalorização...