sexta-feira, maio 08, 2009
Maio de 68
segunda-feira, maio 04, 2009
Direita Difusa
Hoje no almoço surgiu o comentário de que não existe um partido de direita no Brasil. Na hora lembrei-me dos Democratas, no entanto, se pensarmos bem, o “poder de fogo” dos Democratas não se compara com a Democracia Cristã alemã ou a União por um Movimento Popular francês. (Não vou pôr aqui o Partido Popular espanhol, não ponho por causa de Raroy, se estivéssemos na era Aznar, poria).
A sequência lógica seria tentar definir aqui o que é Direita, o que torna a coisa mais difícil. Uma vez li numa enciclopédia que a direita se apoiava em quatro pontos: autoridade, comunidade, liberdade e hierarquia. Alguns se apoiando mais em um do que nos outros, mas todos se baseando nesses. Então começamos a delimitar o espaço que eu quero atingir. Temos quatro princípios: autoridade, comunidade, liberdade e hierarquia, e temos dois exemplos: a Democracia Cristã e a UMP.
Se pensarmos em tudo que a Esquerda brasileira chama de direita, vamos encontrar os sociaisdemocratas do PSDB, que não compartilham nem de todos os princípios nem pode ser comparado à UMP, acredito que a maior diferença seja na questão de regulação (não confuda público com estatal), na defesa de mecanismos de inclusão e por não ser tão duro com as questões das liberdades individuais. Fora os tucanos, encontramos um amontoado de partidos paroquiais sem expressão nacional, com algumas figuras carismáticas, atuação fisiológica e sem um projeto de poder e de país (PP, PR entre outros).
Aí entra o poder catalisador dos Democratas. Ao liberar-se do carlismo, na renovação dos seus quadros, tais como Rodrigo Maia, Kátia Abreu, Ônix Lorenzoni, Paulo Bornhausen, Ronaldo Caiado, Solange Amaral, Mendonça Filho e principalmente Gilberto Kassab, os democratas podem preencher esse vácuo à direita. Não duvido que, dentro de um programa coerente e nacional, os Democratas não consigam se viabilizar como uma opção tal qual a UMP.
A defesa da democracia (“o preço da liberdade é a eterna vigilância”), a busca da eficiência na administração pública, a redução do Estado e dos cargos comissionados, a busca pelo empreendedorismo, maior abertura econômica, defesa do agronegócio (com todas as ressalvas ambientais), e principalmente um discurso moderno de liberdades individuais (liberados de influências religiosas ou outros lobbies) podem dar aos Democratas um campo que não é explorado pelos partidos no Brasil. Pelo menos não nacionalmente.
Claro que ainda há resquícios do velho PFL, mas a própria renovação trata de depurá-los. Além do mais, essa história de partido da ditadura já se tornou um pouco chavão demais, não acredito que, fora alguns saudosos da Ditadura, alguém se comovam com esse discurso (que a Marta Suplicy quis aplicar aqui em São Paulo). Afinal, das eleições livres para governador de 1982 para cá, já se foram 27 anos. E no final das contas, quem viabilizou a eleição de Tancredo, foi o PFL.
Um pólo a direita, num país onde falar que uma pessoa é de direita é xingamento, pode reequilibrar as forças políticas nacionais. Afinal, o PSDB no governo, rompeu com os clientelismos e permitiu a eleição de Lula, completando a transição democrática. No final, os dois partidos acabaram tão parecidos que é necessário se diferenciar. Para mim, é claro que o PSDB não quer as bandeiras que citei; mas pelo que a gente lê em jornal, ou nestas pesquisas que vez em quando saem, estes temas são temas a serem discutidos e podem aumentar a força deste partido.
Sem contar que com os Democratas fortes, o PSDB voltaria para seu lugar de origem, deslocado que foi pelo vácuo à direita, e teríamos uma grande surpresa ao ver o quanto o PT teria que se reposicionar.
A democracia brasileira ganharia com um partido mais orgânico e organizado neste campo.
domingo, maio 03, 2009
Virada Cultural 2009
Geraldo Azevedo
Fui num show de um cantor que para mim era desconhecido e saí de lá com muita vontade de escutar tudo que ele já fez. O show foi fantástico, uma platéia que aproveitou cada instante, todo mundo escutando, cantando. A letras das músicas muito simples, mas muito precisas. Para mim foi o grande acontecimento
Escoamento em meios porosos
Parece nerd este tópico, mas não parava de pensar nisso. Acho que dá para fazer um modelinho matemático para verificar o comportamento das pessoas na multidão. É incrível como se vê os fluxos preferenciais que vão se formando, o fenômeno da capilaridade. No final dos shows, acontecia quase como a fluidificação da areia, a multidão se tornava uma areia movediça, você afundava nela.
Lógico que existem sempre os sem noção que não seguiam nem os fluxos preferenciais nem toda a lógica humana que acaba sendo afetada pelo excesso de vinho barato do local, mas considerando que ser ou não ser sem noção é uma questão de estatística, esse modelinho pode até ser feito considerando esta variável!
(tópico idiota, mas eu pensei nisso em vários momentos!)
Não poderia ser em outra data?
Dois motivos para se mexer na data da virada: a interrupção do tráfego de trens do metrô sob a República e o Dia do Trabalho.
A interrupção do tráfego causou um caos no sábado que eles reviram no domingo. Sem contar que ao acionar os ônibus da Sptrans para fazer o trajeto Santa Cecília – Anhangabaú, esqueceram de combinar com a CET. Demorei 40 minutos para ir de Santa Cecília ao Anhangabaú no sábado às 6 da tarde.
Quanto ao Dia do Trabalho, acho misturou as duas festas perdendo o simbólico de ambas, parecia que a cidade estava em festa nos três dias, no primeiro, graças às centrais sindicais, nos outros dois pela virada.
Shows Bregas
Interessante porem um palco só para shows bregas, afinal a virada tem que atingir a todos.
No fim, descobre-se verdadeiramente porque são populares: as letras fáceis faziam com que a gente aprendesse a música durante a própria música. E no final, todo mundo sabia pelo menos o refrão. O show do Wando foi engraçadíssimo, principalmente com a questão das calcinhas voando e das baixarias que ele falo, mas infelizmente ele não tem repertório pra tocar uma hora toda não. O do Reginaldo Rossi foi muito chato, ele mais falou do que cantou, acabei saindo no meio.
Zeca Baleiro
Bem, esse é um show que ainda vou pagar pra ver, escutar com mais atenção, curtir mais o show. Foi ótimo, num horário melhor ainda.
sábado, maio 02, 2009
Pré-Campanha (artigo de César Maia)
sexta-feira, maio 01, 2009
Compromisso com o trabalho
Afinal, mesmo com taxas decrescentes do índice de desemprego de 2003 pra cá, temos uma contradição no rendimento médio do pessoal ocupado. Resolvi por os dois governos Fernando Henrique e os dois governos Lula para não me acusarem de parcialidade. Vamos aos dados, para evitar a sazonalidade, considerei para comparação de agosto/98 à agosto/08, uma vez que no site no DIEESE, a série histórica só ia até agosto de 2008 (que me evitaria abrir todos os relatórios para conseguir fazer a conta, afinal hoje é feriado e não é dia de ter tanto trabalho assim).
Em agosto de 1995 a taxa de desemprego na Região Metropolitana de São Paulo era de 12,9% e em agosto de 2008, 14,0%. A princípio, pouca variação. Se pegarmos a taxa de agosto de 2002 (final do governo Fernando Henrique), a taxa foi de 18,3%, um crescimento de 41% na taxa de desemprego, um crescimento bastante alto. Em agosto de 2003 chegamos a 20%, sendo que aí já tínhamos 8 meses de governo Lula. De agosto de 2003 à agosto de 2008, temos uma redução de 30%. O que corrigiu uma taxa de desemprego já alta. Nesta taxa de desemprego, considerei o emprego total (com carteira e sem carteira).
No entanto, se olharmos os rendimentos, defletidos pelo IPCA na cidade de São Paulo, com base em agosto de 2008, temos o seguinte quadro: Em agosto de 1995, o rendimento médio das pessoas ocupadas eram de R$ 1.773,58, em agosto de 2002, R$ 1.264,93, uma redução de 28,7 % do rendimento médio. Em agosto de 2003 o rendimento foi de R$ 1.181,35 (redução de 6%), enquanto em agosto de 2008, o rendimento foi de R$ 1.215,72, com um acréscimo na renda do governo Lula de 3%.
O que quis pôr acima foi que: no governo Fernando Henrique, a reestruturação econômica e principalmente a crise de 1999, tirou do mercado 6% da População Economicamente Ativa ({[(100-18,3)/(100-12,9)]-1}x100}) e houve um arroucho de 28,7% no seu rendimento médio. No governo Lula, foi posto de novo no mercado 7,5% da População Economicamente Ativa, mas o acréscimo de renda foi de somente 3%. O que pode significar empregos com baixos rendimentos ou uma alta taxa de inflação.
Na verdade todos esses números servem para voltar no primeiro parágrafo. Será que todo esse aumento nos postos de trabalho foram feitos para que esses trabalhadores tivessem seus sonhos como trabalhador realizado? Talvez por isso nesse 1º de maio, ao invés de glorificarmos taxa de desemprego e renda, deveríamos pensar em que formas conseguiremos pôr o trabalho em primeiro lugar na nossa sociedade, ao invés do capital, (princípio da socialdemocracia) e que esse trabalho também seja fruto do melhor das pessoas, que elas possam se realizar neles. Construir com o trabalho não somente o fruto deste trabalho, o rendimento, mas também a realização pessoal.
Talvez com essa crise, os números piorem, e aí surja uma grande oportunidade (é um clichê total essa história de crise e oportunidade, mas enfim) de conseguirmos pensar em melhores formas de se trabalhar, para que o trabalhador se sinta realizado nos seus trabalhos, que consigam sobreviver aos custos e às tentações do consumismo. Como isso pode acontecer eu não sei. Antes era contra a história de economia solidária, mas por quê não? Talvez quando este trabalho for feito realizando os anseios de todos, podemos construir uma sociedade mais justa, mais tranqüila (só a justiça gera a paz, lema da campanha da fraternidade deste ano) e mais ecológica.
São apenas divagações sobre o Dia do Trabalho, que assim como o Dia Internacional da Mulher, deve ser comemorado e principalmente refletido. Afinal, se ganharás o pão com o suor do seu trabalho, que esse suor não seja somente o suor da dor, mas também o suor bom do esforço para atingir algo que se quer.
domingo, abril 26, 2009
A difícil opção pelos pobres
Fazer a opção pelos pobres exige um exercício de olhar, e conseguir encontrar esse pobre que a gente tenta buscar. A pobreza pode marginalizar tanto, que se torna impossível perceber o marginalizado, ele se reificou, se tornou coisa nas calçadas e nas ruas da cidade. Sua presença só se torna visível no grito, no grotesco, como que somente pelo absurdo pudéssemos notá-los.
O termo pobre, assim como termo elite, é tão amplo e subjetivo, que acaba por nos confundir, talvez esta questão até seja dicotômica e simples desse jeito, mas as nuances do pobre e da elite, acaba por marginalizar mais uma parte do “pobre” e esconder muito mais o que é “elite”.
Afinal, um trabalhador, um operário, um desempregado pobre, é pobre, mas está dentro do nosso sistema. Possui valor definido, podemos até ter preconceito de classe, mas a todos ocorre uma solução para o problema desta pobreza. É um pobre dentro do sistema, que compartilha os mesmos valores, as mesmas ambições e o mesmo desejo de consumo.
Aí que chego onde a opção pelos pobres se torna mais difícil, quando estamos falando de pessoas tão marginalizadas, cujos valores não são por nós reconhecidos, são estranhos dentro do nosso corpo social, acabam se passando por coisas, porque nos incomoda tentar entendê-los. Transformamos eles em coisas, porque não podemos entender como se transformaram como tal. Estou me referindo aos mendigos que dormem pelas ruas e calçadas desta cidade.
Para mim é tão difícil pensar em uma solução para eles simplesmente porque praticamente não compartilhamos o mesmo mundo; porém, como morador da subprefeitura da Sé, é impossível passar incólume por eles, mesmo que não entendamos sua lógica, sua opção (ou falta dela).
Sua própria existência põe em xeque todo um sistema de valores no qual acreditamos e sua marginalização nos mostra que existe um outro conjunto que também é a nossa sociedade. Se num primeiro momento, o absurdo nos assusta e se transforma num caso de polícia. Numa segunda reflexão, vemos que esta questão é uma questão crucial em vários pontos do nosso olhar para o mundo. Por quê sociologicamente eles se retiraram do “jogo”? Por quê psicologicamente eles não compartilham dos mesmos valores?
Penso que até a forma como ocupamos esta cidade pode ser causa da existência do mendigo. Como morador de uma subprefeitura onde esse problema grita e nos pede pelo menos uma explicação, me sinto somente confuso e tento imaginar teorias mil para que a opção pelos pobres possa alcançá-los também. Ou que eles se deixem alcançar por ela.
sábado, abril 25, 2009
São Francisco pregando aos pássaros
Quando se casou e logo depois migrou, imaginou que poderia dar aos filhos uma vida diferente da que teve. Rondônia era uma terra de oportunidades e seu marido soube aproveitá-las. Orgulhava-se de ter feito sua América, mesmo que esta América fosse tão pequenina como sua São Gabriel natal, ali havia oportunidades, pelo menos para seus filhos. E o que não é um casamento do que poder proporcionar aos filhos o melhor dos mundos? Sentia-se realizada por ser uma mãe que podia dar-se ao luxo de prover o sonho dos seus filhos.
Cláudia nasceu na fase próspera, a menina estudiosa era o orgulho da mãe. Com a mãe aprendera a gostar de ler, o que em Vilhena era a descoberta do mundo. Decidiu ser advogada e para orgulho de toda cidade veio fazer Direito no Largo São Francisco. Faculdade que já havia formado cinco presidentes, segundo lhe contaram.
Para ajudar na adaptação da filha, veio a São Paulo. Procurar apartamento, deixá-lo habitável, permitir que Cláudia conseguisse se sentir em casa e disfarçar seu espanto pela cidade que a envolvia. Maravilhava-se ao observar o trânsito, alguns prédios imponentes; até a decadência lhe parecia bonita, estava num lugar com uma história que era maior que ela, não onde ela fizera a história.
A imagem da faculdade de Direito foi encantadora. Junto à filha conheceu a sala de defesas, majestosa, lembrou-se dos livros que lera no colegial, da glória de se estudar Direito em São Paulo. A faculdade era um ponto que sobrevivia a decadência do lugar, era um lugar que a história não havia abandonado e isso a impressionava.
Domingo é dia de missa. Não importa onde você esteja, é dia de missa. Lembrou-se da Igreja de São Francisco ao lado da faculdade, e com sua roupa de missa foi até lá, Cláudia tinha saído com suas novas amigas e decidiu que enfrentaria a cidade sozinha. Informaram-na o horário errado, e ela acabou chegando muito cedo. Sorte. Pôde ver toda a Igreja, se sentia numa igreja barroca mineira. Anjos, santos com olhares penetrantes, uma Nossa Senhora das Dores tão linda e dolorida como jamais vira. Ajoelhou-se e rezou. Andou pela Igreja e percebeu que o número de mendigos que dormiam sob as arcadas era muito grande, assustou-se e voltou à Igreja, era quase a hora da missa e nunca tinha visto tão poucas pessoas numa celebração.
Sentou-se incomodada num banco vazio, estava inconformada de ter feito esta opção. Aquele domingo não era um domingo bonito, mas deveria ter ficado em casa, ou ido a uma Igreja num lugar menos decadente. Sentiu-se caipira por ter ido a missa e por ter medo dos mendigos.
Um frei bem simples entrou na Igreja sob o canto solitário de um ajudante. A missa começou e de repente, com a chuva fina que caiu sobre a cidade, a Igreja, como por um milagre, começou a encher. Antes do ato penitencial já estava tomada pelos mendigos das arcadas. Alguns rezavam junto com o frei, outros conversavam, alguns embriagados diziam palavras que ela não conseguia entender. Vieram as leituras e tentava se concentrar nas leituras, mas tinha medo, medo inconsciente, medo do desconhecido, da enrascada que se metera.
A homilia foi sobre a recusa de Tomé em acreditar na ressurreição sem ver as chagas de Cristo, o frei insistiu que bem-aventurados aqueles que creram sem ter visto, e pediu para que todos meditassem sobre o tamanho de sua fé. Perguntou até onde sua fé seria capaz de os levar. Veridiana não conseguia tirar o olhar de um mendigo com um colete militar que, embriagado, soltava palavras como respondendo ao frei. Quando o padre disse que a fé é a vacina do medo, sentiu-se sem fé, estava amedrontada.
No ofertório sentiu-se constrangida ao entregar seus dez reais habituais à Igreja enquanto a multidão de mendigos fazia comentários sobre a coleta. “Receba o Senhor por suas mãos este sacrifício, para a glória do Seu nome, para o nosso bem e de toda santa Igreja”. Teve vergonha em dizer esta frase que sempre lhe saiu automática. Afinal, qual era seu sacrifício? Estar junto aos mendigos? Mas essa era uma obrigação e não um sacrifício. Durante a consagração, o bêbado de colete militar comentou sarcástico que agora sim todos eram irmãos.
O canto de comunhão era um dos mais bonitos que já ouvira, já o havia cantado no coro da sua Igreja, e, no entanto, cantado pelo ajudante parecia uma ladainha de procissão. Falava sobre a vinda gloriosa e a ressurreição dos que creram. Na comunhão, partilhou a fila e a hóstia com os mendigos que agora lhe pareciam como parte integrante da Igreja. No abraço da paz, desejou-lhes a paz de Cristo e deu-lhes a mão, automaticamente.
Quando a missa acabou, pôs a bolsa embaixo do braço e atravessou o campo de refugiados com que se assemelhava o Largo de São Francisco, por sorte havia um ponto de táxi na praça e logo conseguiu um carro. Dizia a si mesma que jamais voltaria àquela Igreja. Mas sua fé era incapaz de levá-la a uma igreja como aquela? Quando o táxi parou num sinal fechado, um menino de rua conseguiu abrir a porta do carro e levar sua bolsa. Seu medo se concretizou. Como era fácil ser católica em Vilhena!
domingo, abril 19, 2009
Caminhemos
Sabe quando você escuta uma música e não consegue se desligar dela? Pois é, aconteceu comigo na quinta-feira e não consigo parar de ouvir uma música. Embora a música seja interessante do jeito que é, adoraria trocar-lhe duas palavras, e acho que aí sim ela ficaria bem interessante.
É desnecessário saber que ouvi essa música na voz da Vanusa, e que sabe-se lá como eu cheguei nela, mas não julguem a música pela cantora, depois descobri que a música é até bem velhinha, até o Nelson Gonçalves gravou em dueto com a Maria Bethânia, mas eu ainda prefiro ouvi-la na voz da Vanusa.
Caminhemos
(Herivelto Martins)
Não, eu não posso lembrar que te amei,
Não, eu preciso esquecer que sofri,
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois!
Vida comprida, estrada alongada.
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada...
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Te encontre no mesmo lugar!
Do jeito que a música está, me dá a idéia de alguém infeliz numa relação, mesmo assim inseguro se deve ir ou não, perdido no mundo, e o “quem sabe na volta te encontre no mesmo lugar”, pode parecer que a pessoa decidiu que a volta era a melhor das opções (que seria um final muito Alcione para a Vanusa) ou que o sujeito da canção evoluiu, cresceu e o que ficou estagnou (que seria uma vingança bem executada).
No entanto, ao escutar a música, depois de algumas vezes, eu trocaria duas palavras:
Caminhemos
Não, eu não posso lembrar que te amei,
Não, eu preciso esquecer que sorri,
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois!
Vida comprida, estrada alongada.
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada...
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Me encontre no mesmo lugar!
Com as duas alterações acho que seria uma crise existencial muito bem cantada. O sujeito da música está numa relação boa, no entanto precisa repensar a sua vida e parte “à procura de alguém ou a procura de nada”, ou de algo, e quem sabe posteriormente a toda esta busca perceba que estava tudo bem.
Afinal, quem nunca teve dúvidas desta natureza, e percebeu que estava tudo ok depois?
A propósito, estava num bar meio decadente onde uma dupla sertaneja fazia cover de outras duplas sertanejas, quando eles tocaram Borboletas de Vitor e Leo que diz coisa bem parecida, mas sobre a ótica de quem ficou. Acho a parte de quem foi mais corajosa, mas no final fiquei com as duas músicas na cabeça!
quinta-feira, abril 16, 2009
Lula, FHC e a relação Estado-Sociedade.
Neste discurso, o ex-presidente afirmava que este ciclo havia se encerrado e era necessário superar a Era Vargas, já que o intervencionismo estava sufocando a eficiência de setores que viriam a ser estratégicos num novo modelo de desenvolvimento. Além disso era necessário superar o autoritarismo do período. Reforçando as instituições e transferindo o dinamismo da atividade econômica dos planos do governo para a iniciativa privada, inaugurando uma nova fase da relação Estado-Sociedade.
“No ciclo de desenvolvimento que se inaugura, o eixo dinâmico da atividade produtiva passa decididamente do setor estatal para o setor privado. Tenho repetido à exaustão, mas não custa insistir: isto não significa que a ação do Estado deixe de ser relevante para o desenvolvimento econômico. Ela continuará sendo fundamental. Mas mudando de natureza”.
O Estado produtor direto passa para segundo plano. Entra o Estado regulador, não no sentido de espalhar regras e favores especiais a torto e a direito, mas de criar o marco institucional que assegure plena eficácia ao sistema de preços relativos, incentivando assim os investimentos privados na atividade produtiva. Em vez de substituir o mercado, trata-se, portanto, de garantir a eficiência do mercado como princípio geral de regulação”.
O projeto que venceu as eleições em 1994 e 1998 foi derrotado nas urnas em 2002 por uma sombra de projeto nacional, que volta à Era Vargas nos seus abusos, e por não abandonar de vez o plano de 1994 e não traçar outro, ficou no meio do caminho, incapaz de exigir a eficiência dos serviços públicos concedidos, já que os cargos nas agências de regulação, foram partidarizados e enfraquecidos pelo governo que se pretende ser forte como outrora.
quarta-feira, abril 08, 2009
A política nossa de cada dia
Quando Chirac disputou sua reeleição à presidência francesa, pôs como uma de suas cinco metas a redução do número de acidentes de carro. Não me lembro das outras quatro, mas o fato que uma das metas fosse a redução do número de acidentes de carro me causou um impacto impressionante. Era a política chegando ao dia-a-dia das pessoas.
Num primeiro momento pode parecer que uma meta como a redução do número de acidentes de carro seja uma meta simplista e pequeno-burguesa, no entanto, sua efetivação produz transformações imensas em toda a sociedade, desde a criação de carros mais seguros até uma nova política de educação no trânsito. Implica na sociedade aceitar seu alto grau de motorização, provoca reflexões sobre os aspectos ambientais disso tudo. O mais interessante é que o todo o processo começa numa coisa corriqueira, muito mais assimilável que superávit primário ou responsabilidade social, e por ser corriqueira pode abranger um número bem maior de pessoas que convivem com este problema. Provoca discussão na sociedade que empenhada acompanha como seus representantes se portaram perante esta discussão.
A lei antifumo é um destes casos que merecem ser analisados sob essa ótica. Além de ser um assunto mobilizador, é alvo de lobbies fortíssimos, seja da associação de bares, seja da indústria do fumo. Provoca uma discussão acalorada sobre o peso do tabagismo na saúde pública e suas implicações orçamentárias, mas também abre um espaço fantástico para se discutir a liberdade individual que é pilar da democracia. Não é uma simples lei, a partir dela, essa tênue linha entre a saúde pública e a liberdade individual começará a ser traçada. A própria discussão da lei é um exercício fantástico de democracia.
Não foi à toa que comparei Chirac e o Serra. Acho que ambos representam um movimento onde a ação nasce não de vanguardas e construções políticas idealizadas, mas sim de uma relação entre Estado e sociedade que se media pela política. É muito claro, pelo menos para mim, que somente pela política e pelo envolvimento da sociedade na política que se poderão conduzir as demandas difusas da sociedade moderna.
Apóio a lei, e acho que deveríamos discutir mais leis deste tipo.
terça-feira, abril 07, 2009
Tempo Livre
Será esse o tal ócio criativo?
As vezes fico um pouco envergonhado de dizer que tenho tempo livre. Tenho muito tempo livre. Acho que isso é minha maior contradição neste tal mundo globalizado. Como num mundo com tanto acesso à informação, com novas formas de comunicação e vivendo numa cidade global pode se queixar de tempo livre?
Eu me queixo, mas em silêncio. Ninguém tem tempo livre, todos correm contra o tempo enquanto eu passeio pelo tempo, matando tempo.
Tempo livre é um tabu com o qual tenho lutado. Primeiro para reconhecer que isso não seja um problema, depois para que as pessoas não me vejam como uma aberração e principalmente para aprender a desfrutá-lo.
Tomo um banho demorado, leio livros que outros indicam, escrevo cartas, telefono e penso na vida. Muitas vezes tudo isso gera uma vontade de mundo e aí nem sempre os outros estão com tempo para gastarmos um tempo junto. Então escrevo posts, outras cartas e tomo mais um banho.
É preciso paciência e serenidade para lidar com o tempo, mas acho que este tabu está sendo quebrado.
sexta-feira, abril 03, 2009
Pergunte ao Pó – John Fante
Boa essa sensação de entender um personagem, de percebê-lo, de senti-lo, e assim me tornei amigo do Arturo Bandini e pude entender toda sua vaidade e ao mesmo tempo toda sua entrega, misericórdia em relação à Camila. Ao mesmo tempo se sentir e viver como se fosse um grande escritor para depois deixar tudo de lado para servi-la, cuidar dela. Sem antes passar por toda espécie de contradição de sentimento. Contradições católicas enraizadas, seja no personagem, seja no autor. A transformação de um flaneur num bom samaritano.
Fiquei impressionado com os diálogos internos e devaneios, como a gente pensa, e como a gente pensa coisas tão irreais, atos falhos no nosso consciente que o autor conseguiu captar muito bem.
Não tem como não pensar no “Quem ama a sua vida não terá a vida verdadeira; mas quem não se apega à sua vida, neste mundo, ganhará para sempre a vida verdadeira” (Jo 12,25), mas também “Não sejais vagarosos no cuidado, mas sede fervorosos no espírito” (Ro 12,11). Enfim, estas contradições que movem o mundo e movem Arturo Bandini.
Amanhã vou pegar o DVD, embora todo mundo tenha criticado a história, enquanto lia só conseguia ver o Colin Farrell e a Salma Hayek.
quarta-feira, abril 01, 2009
Qué se doble, pero no se rompa!
Nasceu junto com a Revolução do Parque, que é para a Argentina o que foi todo o tenentismo no Brasil, só que ao invés de acabar na Ditadura Vargas, trouxe a democracia para a Argentina, uma democracia radical, que depois acabou eclipsada por vários golpes militares e pela ascensão do Peronismo e todas suas vertentes. No entanto, sempre que se pretendia a normalidade no país, os Radicais chegavam ao poder. Quando as revoluções libertadoras e as voltas sebastianistas levavam o país à ruína, lá estavam os radicais em defesa da democracia. Pode até ser uma democracia burguesa, partidária. Não é a toa que é, ou foi, conhecida como o partido das classes médias.
Insurgiu-se pelo voto secreto e fez de Yrigoyen o primeiro presidente eleito em eleições secretas. Pode-se dizer que foi o primeiro presidente não aristocrático.
Num governo radical conseguiu-se uma das experiências mais radicais e democráticas da gestão da universidade pública. A Reforma Universitária por Alvear, deu acesso a todos os argentinos a universidades. Tanto que na Argentina não existe vestibular, somente em algumas escolas onde o grande número de alunos prejudica o ensino é estabelecido um exame, que ao contrário daqui, admite todos os que passam pela nota limite, e não somente preenche vagas pré-estabelecidas.
Governou a Argentina por seis vezes, sendo que cinco vezes foi derrubada do poder por golpes militares (Yrigoyen, Frondizi e Ilia) ou por tumultos e crise (Alfonsín e De la Rua). Ganhou a fama de nunca terminar um mandato.
Estou escrevendo hoje por causa da morte de Alfonsín. Após o violento golpe que se seguiu ao desastre da volta de Perón ao poder, depois da radicalização e do terrorismo que assolou o país, ao assumir criou o juízo das juntas e uma comissão para unificar o país. Não usou o golpe militar como maneira de manobra para seu governo. Aproximou-se do Brasil e criou e embrião do Mercosul. Infelizmente pela crise econômica e pela oposição ferrenha dos peronistas, numa saída para pacificar o país, renunciou seis meses antes de terminar o mandato passando o poder a Ménem e era Menem, cuja política econômica se baseou na mesma plata dulce dos tempos da ditadura.
Talvez até pela intransigência, hoje a UCR se dividiu, sobrevive como legenda, mas dela surgiram outros partidos, a direita e a esquerda. Mas a UCR sim é um partido que está ligado a democracia, a legalidade e principalmente a um espírito desenvolvimentista.
O título é a frase da carta de suicídio do fundador da UCR, Leandro Além; que talvez tenha sido levada a ferro e fogo por Alfonsín, que atuava no partido até sua doença e morte
sábado, março 28, 2009
Nova Brasil FM
Acho estranho falar de vida campineira. Na verdade são alguns precipitados de fatos, acontecimentos, sentimentos, emoções e omissões boas, combinadas numa cidade sui generis que dá uma sensação boa de ter vivido lá. Conheci tanta coisa nessa fase! Fase transformadora, assim é a vida campineira que me refiro: uma mistura de Panetteria di Capri com a Luísa, lagoa da Unicamp, trevos super-rápidos, parati do Alfredo, biblioteca do IEL e Cine Paradiso. Discussões acaloradas sobre política, educação e música. Li o Quarup, o Crepúsculo do Macho, conheci F.Scott Fitzgerald, aprendi a ouvir Beatles e Legião Urbana.
Mas Nova Brasil FM é um acontecimento, merece um post! E o mais incrível: enquanto escrevi este post, já tocou “O dia em que a Terra parou” e a Ana Carolina já cantou duas vezes!
É isso aí, moderna e brasileira!
quarta-feira, março 25, 2009
Cordilheira - Daniel Galera
Pode parecer um motivo bem absurdo o porquê de que peguei este livro na biblioteca. Na verdade foram dois motivos. O primeiro é que o autor tem minha idade e não costumo ler gente viva. O segundo é mais banal ainda, o romance se passa em Buenos Aires, o que me fez lembrar muito um gallego muito engraçado que conheci no albergue e me fez percorrer um circuito Borges e terminei num show de tango fantástico no Café Tortoni.
Na verdade a graça do livro está em mostrar a facilidade com que incorporamos personagens. Sempre lembro de uma frase que diz que o homem em sua história percorre por si só todos os caminhos de sua civilização. Numa civilização que criou e cultivou o individualismo (sim, somos ocidentais, periféricos, mas ocidentais) e principalmente após o Romantismo, temos uma gama enorme de personagens para nos guiar, nos fazer refletir, para absorver e absolver.
Podemos trocar de personagens ao sabor dos acontecimentos e num mundo de pacotes CVC, Azul e Bed and Breakfast até podemos trocar de cenários possíveis.
E assim o universal se dissolve em personagens, alguns bens construídos e outros clichês, alguns trágicos e outros dramáticos; arquétipos de inúmeras teorias. Tão diversos e tão difusos que até podem se reduzir ao indivíduo. Nosso próprio personagem que construímos.
Há momentos que o charme do livro está na previsibilidade. O personagem mais autêntico é aquele que a gente pode encontrar no trabalho, no metrô e que por não se envolver em nenhuma trama sinistra ou intelectualóide, se apresenta sem máscaras, ou somente com a máscara da modernidade.
Sou um péssimo crítico. Analiso sem estrutura, sem prestar atenção nas frases. O livro vale ser lido e o título é fantástico já que Buenos Aires não tem Cordilheira e a Cordilheira é também um personagem a ser incorporado.
segunda-feira, março 23, 2009
Subúrbios
Revelação do subúrbio
Carlos Drummond de Andrade
Quando vou pra Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
vendo o subúrbio passar.
O subúrbio todo se condensa pra ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil
Bem, não chego lá de manhã nem vejo laranjais, e ai de quem falar que Jundiaí é subúrbio! É urbe, com seus próprios subúrbios!
domingo, março 22, 2009
Feliz Dia Internacional das Mulheres (atrasado)
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas eu sei o que ele quer
Se deitou na minha cama
Me chamava de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração"
Numa das das conversas de bar mais interessante que já tive, afirmei com tanta convicção que esta parte de Terezinha era a maior expressão de feminilidade, e que isso reforçaria ainda mais o papel a Maria Bethânia como um símbolo do feminismo (eu sei, a letra é de Chico Buarque, mas ela cantar é simbólico). A terceira parte é a mulher plena, superada o pai e o irmão (agora fiz uma ligação com a cantiga). A terceira parte é a mulher real, realizada.
Adoro esses conceitos dicotômicos, e como o feminino e o masculino são pólos que se completam e complementam, mostrar a mulher dentro da relação com um homem é de um feminismo fantástico porque não passa pela masculinização da mulher que muitas feministas querem.
A mulher tem que ser mulher, e recriar seu espaço no trabalho, no amor, no sexo, no mundo moderno, na diferneça entre outras mulheres, na igualdade entre elas, em toda sua difusão e todo o seu coletivo.
Então no dia internacional das mulheres eu desejo a todas elas que sejam mulheres com toda sua plenitude, buscando todos seus direitos mas sem deixar de serem mulheres. Quero vê-las ganhando igual aos homens, trabalhando em casa o mesmo que eles, modificando jornadas e regras para que exerçam a maternidade como mulheres modernas.
Feliz Dia Internacional das Mulheres!
Como transformar Franco da Rocha em Puerto Madero
Franco da Rocha foi fundada ao redor de uma estação centenária. A estação precisa ser reconstruída para atender a demanda e adaptar-se a lei de acessibilidade; enquanto a estação centenária precisa ser preservada, uma vez que é patrimônio histórico do período áureo do café.
A relação entre ambas é evidente: o porto abandonado que trouxe o boom imobiliário a uma cidade tida como decadente também era do período áureo da Argentina exportadora de carne e, assim como Franco da Rocha, também estava próximo do centro da capital argentina.
A boa intenção se uniria com o bom projeto numa passarela Calatrava atravessando a faixa ferroviária com harmonia, no lado norte da estação, num prédio restaurado poríamos um Outback, no lado sul, um ateliê de xilografias. Num segundo momento o mercado imobiliário de Franco da Rocha iria inflar. As casas seriam substituídas por lofts e apartamentos com varandas gigantescas. Seria cool morar em Franco da Rocha. Em frente a estação uma escultura da Tomie Othaka.
Estaria aberto o círculo virtuoso, em menos de 10 anos Franco da Rocha seria um Tatuapé mais sofisticado, com um shopping ainda mais bonito que o Anália Franco.
Como é bom saber que a modificação do espaço urbano, requalifica as pessoas, suas atividades, seus deslocamentos. Uns chamam isso de progresso, outros de fascismo, muita gente chama de planejamento.
Onde vamos adaptar o transmilênio?
terça-feira, março 10, 2009
Frost/Nixon e como a política pode ser interessante
Não tem como não achar política uma das coisas mais interessantes de nossa sociedade. Num discurso choroso, Alceni Guerra aprovou a licença-paternidade, mudando o voto de um congresso todo que achava ridícula a idéia, indo contra economistas que previam perdas astronômicas com a medida que achavam populista. Ganhou a batalha parlamentar e as ruas. Transformou a licença-paternidade em cláusula pétrea que nunca mais sairá da lei.
Nem tanta sorte teve Fernando Henrique que em sua despedida do Senado fez uma profunda reflexão sobre o país, seus desafios, os vícios autoritários e sebastianistas que tínhamos e que deveríamos enfrentar para alcançar o desenvolvimento pleno e acabou eclipsado por seu sucessor sebastianista, autoritário, herdeiro por opção da Era Vargas que Fernando Henrique pretendia encerrar no país.
Embora a corrupção e os desmandos deixem a sensação de um desprezo geral pela política. As diferenciações entre as classes, as novas demandas que surgem todo dia vindas de uma nova forma de sociedade que se reconstrói sobre antigos tabus e novas tecnologias, não deixam outra arena possível para a equalização destas demandas se não a política representativa e partidária.
Gabeira já alertava isso há algum tempo, desde “O que é isso companheiro?”, sobre como estas demandas surgem e têm que ser conduzidas dentro de uma vida política cada vez mais participativa e igualitária.
Sou muito otimista em ver como a sociedade reage. Abortos, divórcios, diversidade sexual, machismo, feminismo e a crise influenciam a vida de todos e tornam parte dos discursos dos políticos que nos representam. Com mais transparência e mais movimentos sociais voluntários conseguiremos construir cada vez mais uma democracia plena, que entre idas e vindas, mostra-se cada dia mais forte desde a redemocratização.
Não há espaços para maniqueísmos. Neste ponto entra Frost/Nixon. Ali está representado um duelo de emoções sobre razões. Se Nixon se envolveu até a alma em Watergate e transgrediu a lei em busca de seus objetivos, foi punido, pois levou sua razão além dos limites das razões alheias. Mas cabe lembrar que dois anos antes fora eleito em votação incontestável e seis anos depois da renúncia, Reagan, com outra carga de emoção (emoção que Nixon não tinha) e somando outros interesses (religiosos), trouxe de volta, revisitadas, as razões que levou Nixon ao poder em 72 e que o tirou dele em 74.
Isso quer dizer que os americanos são estúpidos? Somente os autoritários e os que se consideram vanguarda podem afirmar isso. As demandas são móveis e reais, se unem e se separam ao sabor dos acontecimentos da vida real. Ao bom político cabe canalizá-las, conduzi-las, convencendo seus eleitores que estas demandas móveis estarão ali bem representadas. Para fazer isso, muitas vezes será utilizada a emoção, mas quem participa da emoção a vive, tem demandas e a aceita. Não existe o povo estúpido que não sabe escolher. (idéia esta que alguns têm que me deixa receoso)
Adorei o filme!
Qual é a próxima rua?
Eram os únicos que se mantinham acordados em todas as viagens. Enquanto um dirigia, o outro se orientava; em qualquer estrada, em qualquer cidade. A cumplicidade só poderia acontecer quando os outros adormeciam. Neste momento adormeciam também todos os fatores de estranhamento.
Qual o nome da próxima rua? Um provocava o outro e se sentiam felizes ao saber que o outro saberia a resposta. Além do sono dos outros, naquele momento não havia superação edipiana ou qualquer forma de conflito de gerações. Eram cúmplices.
As viagens diminuíram, assim como o sono dos outros. Os papéis no carro mudaram e os meios de transporte também. O menino cresceu e mesmo em cidades onde o pai jamais esteve, quando acerta o nome de uma rua ou estrada, reforça a lembrança. Vínculo que talvez não seja mais geográfico, não freqüentam mais a mesma geografia. Os nomes das ruas agora são o confronto das gerações.
