quarta-feira, junho 09, 2010
Músicas Italianas
sábado, maio 29, 2010
Eu li Madame Bovary
Transformei alguns livros em ícones, o que deixou mais difícil ainda lê-los, já que ganharam uma aura de especial, de clássico, de difícil. Madame Bovary era um deles e consegui transpô-lo.
No fim, fiquei maravilhado com o livro. Madame Bovary não tem nada a ver com Luísa. Madame Bovary é maldosa, engenhosa, além de se mover pelas paixões, ela tem uma razão nos seus movimentos que deixa Luísa no chinelo. Madame Bovary é capaz de enganar o marido dizendo que vai ter aula de piano em outra cidade para se encontrar com o amante, enquanto Luísa no máximo foge para o Paraíso com Basílio.
Além do mais, Madame Bovary teve dois amantes e ainda fez amor numa charrete! Madame Bovary quis morrer e se matou; continuou enganando Charles desde o túmulo. Luísa, simplesmente morreu louca e careca. Emma foi para o túmulo mais bonita do que quando era viva, mesmo se suicidando com arsênico. Sem contar que Emma não se deixou nem chantagear, nem se prostituir, se suicidou porque estava endividada, claro que tinha remorso, mas não foi só o remorso que a matou, como matou Luísa.
Agora a descrição de Charles é fantástica, talvez ela valha mais do que a da própria Emma. Acho que a grande crítica nem seja o Romantismo em si, mas sim o que leva as pessoas aos ardores Românticos.
No fim, talvez a burguesia portuguesa fosse mais pudica e menos cosmopolita que a francesa (tese bem trabalhada em Os Maias), mesmo que ainda seja este retrato da burguesia francesa seja a de uma burguesia de província. Mas é fantástico como o dinheiro vai entrando em todos os detalhes e como a ausência de comentários pode insinuar uma conduta moral forte.
Foi uma pena ter lido conto do Woody Allen em que ele traz Emma para Nova York antes de ter lido Madame Bovary. Se tivesse feito na sequência certa o conto seria ainda mais engraçado.
O livro merece ser lido, de alguma coisa serviu andar tanto de ônibus.
terça-feira, maio 18, 2010
À Rita Cadillac
De qualquer maneira, deixo a música aí
A praça! A praça é do povo!
Na verdade não foi uma praça, foram várias praças e ruas para vários povos. Um espetáculo de gente. A virada cultural me encanta exatamente por pôr gente em praças e ruas onde não andariam em dias normais. Discute-se se isso é revitalização do centro, não só isso, mas isso também. Como você pode trazer pessoas para o Centro se elas nem o conhecem? Então façamos viradas culturais onde menos as pessoas querem ir de forma a que elas se apropriem da cidade que é delas, e que muitas vezes não reconhecem como delas.
Essa mistura forçada de pessoas do centro expandido, da periferia e dos moradores degradados do centro degradado dá noção de cidade. O rico se espanta com o mendigo e com o suburbano, que por sua vez aproveita uma noite cheia de atividades gratuitas, tangenciando "artes" por ele ainda experimentadas. O rico, se não for demófobo (infelizmente não é só o rico que pode ser demófobo, geralmente as vanguardas também são, principalmente as medianas e medíocres) toma contato com um mundo que não é o dele. E isso gera laço, gera convivência e gera uma adoção do espaço, que só assim pode ser público. E sendo público, a sociedade difusa pode reclamar por seu melhor uso, por ver sua cultura exposta no evento.
Numa entrevista no Estadão de sexta-feira, antes da virada, uma mulher de teatro reclamava do alto valor da festa e que este dinheiro poderia ser investido em atividades (como a dela, claro, a boquinha é cultural) que tivessem duração maior e que por isso, mesmo tendo um público menor, atingiria, segundo ela, níveis tão altos da população. Duvido, a dita mulher despreza o povo que não quer ver o espetáculo dela, quer decidir pelo povo. Aliás, não que isso seja critério para utilização de recursos do Estado, mas nunca uma renúncia fiscal poderia (ou deveria) ser utilizada num espetáculo onde não se busca o público e sim a satisfação do artista. (Nunca a Lei Rouanet poderia ser utilizada para um filme do Godard ou do David Lynch, p.ex.).
Enfim, a festa tem problemas. Tem; até conceituais. A presença dos CEUs deve aumentar, falta o hip hop, que é um elemento cultural importante, que é parte da identidade de grande parte da população que não pode ser punida por causa de um show que não deu certo. Falta a presença de chavões como Calypso ou bandas sertanejas como Bruno e Marrone (alguém vai negá-los como cultura?). Faltam palcos alternativos e outros projetos cujo fim seja apresentar-se na Virada Cultural.
A Virada Cultural é onde a cidade se torna mais cosmopolita, não um cosmopolitismo Zona Oeste, mas um evento que a une em todas suas contradições, um evento com Metrô, CPTM e SPTrans atuando para levar Centro para periferia e trazer a periferia para o Centro.
Agora, por que existem tão poucos patrocinadores privados? Duvido que num evento destes não existam interessados. Será o medo que o privado possa estragar o cultural? Se for esse o medo, a Lei Rouanet já quebrou este paradigma. Será que ainda persiste a confusão entre o estatal e o público? Bem, no mínimo, a festa poderia ter mais recursos (e também há de ter uma compensação financeira pelos estragos que o vinho São Tomé faz na cidade...hehe).
P.S. Está se tornando chato, mas sempre que vejo uma praça com gente eu digo o título.
Área Livre de Crianças
Pode parecer meio intolerante pensar em ambientes livre de crianças, mas eu realmente acho um absurdo que uma pessoa que não gosta de crianças, que não terá filhos, seja obrigado a conviver com crianças. Assim como o não-fumante tem o direito de não ser incomodado pela fumaça do fumante, porque alguém que não gosta de criança tem que agüentar choro, manha, grito, falta de educação de uma criança?
A idéia de uma área livre de crianças não é uma restrição às crianças, é simplesmente fazer valer o direito de quem não ser incomodado por elas. Por exemplo. No caso de viagens de ônibus e aviões, pelo menos um horário é livre de crianças. Os pais podem viajar em todos os outros. Quem não quer viajar com crianças, se não quiser esse contato, limitar-se-á ao horário “livre de crianças”. A mesma coisa com cinemas, teatros, passeios turísticos.
Poria aqui a idéia de uma missa sem crianças; embora o reino dos céus seja para aqueles que como na parábola são como elas, é praticamente impossível transcender com choro e manha. Mas como a Igreja é um lugar de tolerâncias, não faz sentido esta regra. Exatamente por isso que adoro Santa Cecília, porque talvez eu seja a pessoa mais nova ali!
Na verdade, sempre penso nesta coisa de uma área livre de crianças quando viajo. Eu nem acho tão absurdo as atitudes das crianças, mas sim a dos pais, que acham que as outras pessoas têm que entender o show de seus filhos simplesmente porque são crianças. Não, as pessoas não têm que aturar nada, senhores pais, vocês sim têm que educar seus filhos a viver em sociedade. Afinal, a escolha de ter filhos foi dos senhores, não minha, a minha foi exatamente contrária a isso!
Eu realmente acho que é uma coisa a ser pensada. Tenho certeza que se a ANTT ou ANAC permitissem viagens livres de crianças, essas viagens seriam as mais rentáveis. A mesma coisa se um prédio decidisse em condomínio que não fosse permitido crianças.
Quero só deixar claro que não sou nenhum psicopata ou assassino de crianças. Tenho meu sobrinho, ganharei uma sobrinha, gosto de brincar com eles, me emociono quando ele me chama de Tio Renato, acho legal quando um casal decide ter filhos. O que eu não quero é ter meu direito ao silêncio, meu direito ao sono numa viagem ou a prestar atenção num passeio turístico negado porque um pai sem noção de civilidade não consegue controlar seu filho!
É isso, quem sabe um dia essa idéia cresce! Oxalá!
sábado, maio 15, 2010
Ainda assim o transporte público vale a pena
É incrível como existe um condicionamento das pessoas sobre a necessidade de carro. Por mais que eu tenha vindo trabalhar no fim do mundo, racionalmente, é inviável pensar em fazer isso de carro. Não só no aspecto econômico, mas até na questão do tempo.
Economicamente, se eu precisar, num dia de chuva ou de pressa, pegar um táxi, esse valor não chegará ao preço mensalizado do IPVA, do seguro e do estacionamento. Trabalhando no fim do mundo, eu gasto com transporte menos que os 6% de renda que é o limite do vale transporte, isso considerando os deslocamentos que não estão ligados ao trabalho. Acho inadmissível, pelo menos no meu orçamento, gastar 12% da minha renda líquida em transporte, como gastam o segundo e o terceiro tercil de renda da região metropolitana (segundo o DIEESE) para manterem seus carros.
Agora o que me impressiona é a questão do tempo. Quando eu comecei a trabalhar aqui, achava um absurdo tremendo perder uma hora e meia de viagem do centro até aqui. No entanto, conversando com as pessoas que trabalham aqui, às vezes, para deslocamentos mais curtos, as pessoas gastam a mesma quantidade de tempo. Ouço relatos de gente que demora meia hora para atravessar a ponte João Dias! Lanço um desafio, quem consegue fazer, às 7 horas da noite, o trajeto Estação Giovanni Gronchi - Estação Santa Cecília em 1 hora e meia? Pois eu, em média, faço!
Uma das coisas que achava besteira quando trabalhava na CPTM era o fator de impedância do transbordo. Hoje, poria um valor enorme nesta impedância. Realmente, eu fujo de qualquer transferência de meios de transporte, isso cansa, é irritante, mesmo sendo transferências livres como entre a CPTM e o Metrô, ou entre os ônibus.
Logicamente surgirá um questionamento sobre o conforto e a individualidade. Pois bem, eu sou o contrafluxo! Sento em Osasco (operação embarque sentado) e levanto na Estação Giovanni Gronchi. Com os fones de ouvido, é possível ler, dormir ou escutar música.
O resultado é: não importa onde você trabalha, morando no Centro, você está bem e usufrui de transporte público confortável e barato. Basta morar no Centro! Claro que se houvesse a mesma capilaridade de vias, corredores ou outros sistemas, novos lugares seriam tão bons como o centro, assim, a própria descentralização da produção seria acompanhada de uma descentralização de lugares bons para morar, mas aí teríamos o risco de vivermos em Los Angeles. Então, fortaleçamos os centros, isso é o que eu desejo para esta cidade.
A mulher do lado
Num surto consumista acabei comprando uma caixa de filmes do Truffaut, talvez numa tentativa de acabar com ciclo Woody Allen meio que a força. Então veio, A mulher do lado, O último metrô e Um só pecado. Como realmente é legal assistir um filme com história, que foi pensado para você pensar na história, que não é só uma história, mas uma história filmada, onde cada objeto ou música é um elemento importante na forma de contar esta história.
Pois bem, A mulher do lado é um filme sobre um amor que volta. Um casal que teve uma paixão violenta com fim abrupto volta a se encontrar depois de oito anos como vizinhos numa vila, de maneira que não existe outra maneira se não restabelecer o contato. Mas qual o contato? Bem, acho que é isso o que o filme conta.
Achei interessante que se o filme fosse óbvio, a paixão voltaria, mas a vida real e o filme não é bem assim, e aí a forma com que ambos conduzem esta situação muda muito conforme o filme passa e também, na maioria das vezes, não coincide com a que o outro tenta conduzir.
Claro que se estamos falando de paixão, é nesse campo que a coisa vai se desenrolar. O desapaixonar-se é tão interessante quanto o apaixonar, também parte da mesma violência e acho que no filme esse apaixonar-desapaixonar-apaixonar é muito bem explorado. Deve ser uma coisa tão comum essa do filme e eu nunca tinha visto isso num filme.
Fiquei pensando depois do filme que talvez se o Truffaut fosse vivo, teria se tornado um Woody Allen e aí acabei vendo Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.
Comissões de fábrica (e de escritório)
quinta-feira, abril 22, 2010
Ídolos e Fãs
quarta-feira, abril 21, 2010
Tudo que você quis saber sobre sexo, mas tinha vergonha de perguntar
Não que o filme seja uma obra-prima, uma comédia extremamente engraçada; no entanto, deve-se considerar que se trata de um tema muito forte, tabu, realmente há cenas bem pesadas (e engraçadas) como o quadro “o que é uma perversão sexual” ou sobre o quanto são precisas as pesquisas sobre sexo. Tudo bem que o título é um best seller, mas mesmo assim, pensar que o filme esteve no cinema me faz pensar que em 1972 as pessoas estavam mais dispostas a verem tabus no cinema.
A parte mais engraçada, sem dúvida, é “o que é sodomia”. É tão absurdo, mas o ator é tão bom, que acabei ficando em estado de riso durante todo o quadro. “Todo travesti é homossexual” também é muito engraçado. Quando você trata com realismo o absurdo, se consegue cenas impagáveis.
O quadro que mais se fala no livro, “toda mulher é capaz de atingir o orgasmo?”, que foi feito como uma sátira dos filmes do Antonioni não é o mais engraçado, mas dá alguns sinais sobre alguns filmes muito sérios que virão. Aqui também o absurdo é mais engraçado que o tema.
Terminar com “como funciona uma ereção” deu um final interessante para o filme, a ideia do corpo como máquina é levada ao extremo e é uma sacada interessante, acho que esse quadro também será tratado em alguns outros filmes.
Não é um filme que não se pode deixar de ver, acho que existe o risco de assisti-lo como o vi a primeira vez. Pode vir a ser um programa divertido. Não recomendaria a ninguém, como faço propaganda de outros filmes do Woody Allen, mas acho que para um feriado de Tiradentes numa quarta-feira, foi interessante.
terça-feira, abril 20, 2010
Ainda assim Engenheiro
Nestes últimos dias tive a sensação que realmente sou um engenheiro civil pleno. Não que antes não fosse, ainda acho que engenharia é uma maneira pragmática de solucionar problemas, racionalizando e simplificando pela técnica problemas complexos. Fazia isso quando estava no PCP do vidro float e quando fazia muitas observações e avaliações a respeito de um grande número de assuntos na CPTM.
Considerando, porém, que a cidade é o elemento mais complexo que nossa civilização (ocidental, pelo menos na concepção de cidade que estou falando) já construiu; morar nela é um problema complexo que implica inúmeros sistemas de abastecimento e de recolhimento de dejetos, bem como locomoção, aspirações e bem estar que somente um engenheiro pode tentar racionalizar sem perder a realidade, sem ser fascista impondo uma o solução artificial como as cidades-jardim, villa radieuse e outros experimentos; e ainda assim, pela técnica, fazer com que os problemas desse aglomerado sejam minorados.
Ao encarar um condomínio produzido de maneira industrial (racional e ocidental, portanto), me envolvo com um gigantesco número de normas e procedimentos que englobam outro gigantesco número de ciências que com pragmatismo pode dar respostas satisfatórias a toda complexidade envolvida.
O interessante disso, é que a técnica não priva ninguém de decisões, sonhos e aspirações; a engenharia não é fascista. A sociedade decide seus desejos e a engenharia dá uma resposta. Às vezes ela é mais cara que a sociedade pode ou está disposta a pagar, mas sempre dá uma resposta.
domingo, abril 18, 2010
Vinte e muitos anos
_ Depende, em algumas coisas sim e outras não.
_ Como assim?
_ Ah, acho que hoje eu tenho mais discernimento com as coisas, levaria a faculdade de uma maneira bem diferente, acho que passaria por ela de uma maneira muito mais agradável. Sofreria menos com alguns detalhes, prestaria mais atenção em algumas matérias.
_ Sei lá, quando ouço que a faculdade é a melhor parte da vida fico me perguntando se realmente para mim isso é verdade. Às vezes eu até esqueço que passei por ela. Mas concordo que hoje eu me sinto muito mais maduro do que quando saí de lá. Faço francês com um monte de piá que está na faculdade, olho pra eles e fico pensando se eu era tão bobo daquele jeito.
_ É, mas também eu acho que os que estão vindo estão cada vez mais bobos, mais jovens. Acho que como aumentou a concorrência, estão entrando um monte de gente “bolha”, que não têm nenhum contato com a realidade. Quando eu fiz estágio tinha uma menina que quando foi embora ela foi assaltada; se fosse minha mãe teria dito pra que eu tomasse cuidado; olhasse quando fosse passar por lá. No entanto a mãe dela deu um carro pra ela, olha que loucura! Veja o tipo de relação que esta menina vai ter com a vida.
_ Meus pais me chamariam de tonto por deixar-me ser assaltado! (risos). Mas é bem isso que eu estava falando: as pessoas não têm mais noção ao se relacionar com o mundo, ou melhor, o jeito que eles se relacionam é diferente.
_ Talvez essa seja o choque geracional da nossa era, ao invés de ser entre pais e filhos, talvez se dê entre primos mais velhos e primos mais novos. Mas lhe digo que eu me sinto muito bem com meus quase 30.
_ Eu me sinto bem com 29 anos, acho que demorei bastante para ter essa sensação de adulto que eu tenho hoje. Me sinto bem adulto hoje, também, se não me sentisse adulto com 29 anos era um bom sinal que a terapia não está funcionando mesmo (risos)
_ Pois é, mas sabe que eu acho que está na hora da gente começar a cuidar mais do nosso corpo, não sei quanto a você, mas eu não sinto mais meu corpo como ele era antes. Sei lá, às vezes me vejo pesado, sem elasticidade. Comecei a pensar nisso, sei lá, não só em alimentação, mas a gente não faz nada né?
_ O engraçado é que eu sinto a mesma coisa e pensar que há uns 5, 6 anos atrás, a gente se orgulhava de não pensar nisso. (risos).
_ Mas eu quero realmente começar a fazer uma academia, sei lá.
_ Pra lhe falar a verdade eu vejo isso cada dia mais necessário: eu tenho dor nas costas! Não posso mais dormir em qualquer lugar não, não dá mais pra ser como era. Lembra-se daquela viagem que a gente fez naquele fim de ano, que a gente andou pra caramba, fez rappel, foi em cachoeira, acho que não faria isso hoje não. Não que não faria, mas talvez sem o mesmo pique. E não por não querer, por não agüentar!
_ Que horror!
_ Mas é verdade, a gente dá aquela disfarçada falando que agora que eu já tenho uma certa idade eu quero conforto, mas eu acho que é mais uma questão de corpo mesmo.
_ Você já pensou quando a gente fizer 40?
_ Putz, eu acho que fazer os 30 vai ser tranqüilo, os 40 vão ser bem foda. Porque ainda nos 30, a gente estava meio que se preparando para o jogo. Com 40, o que a gente fez está feito. Não dá mais pra fazer muita coisa não. A gente vai estar vivendo os resultados, e sei lá, tenho medo que entre os 30 e os 40 eu consiga muito mais coisa.
_ Mas de que tipo de coisa você está falando?
_ Sei lá, profissão, grana, família, amor. Acho que agora a gente já tem mais ou menos um desenho do que a gente quer, tá certo, a gente foi meio errático dos 20 aos 30 (risos), mas agora, a gente tem uma idéia. Nos 40, a gente vai ver se foi por um caminho bom, não dá pra ser errático mais como a gente foi até agora.
_ Credo, dá até medo de pensar.
_ Mas sério agora, eu acho que a gente deveria pensar mesmo em fazer alguma coisa com nossa saúde, vamos tentar fazer, agora que você está voltando pra São Paulo a gente pode tentar fazer alguma coisa junto, pode ser no estilo daquele lance do Tai Chi Chuan que a gente tentou na Unicamp, mas agora mais sério (risos), nem que seja pra fazer um alongamento, um pilates, uma ioga que seja...
_ O foda é a grana né? Mas eu topo, pelo menos a gente vence a preguiça junto, ou não né, a gente pode ser preguiçoso como a gente era com 20 e poucos. (risos)
_ Putz, não posso esquecer que agora eu trabalho no fim do mundo...
_ Ih, nem vem com conversinha não (risos).
_ Não, a gente vai fazer sim (risos), mas eu trabalho no fim do mundo mesmo!
_ Pára de reclamar, moleque!
_ Ei, vamos indo?
_ Vamos, pede a conta!
sábado, abril 10, 2010
Mr. America – Andy Warhol
Adorei a exposição do Andy Warhol na Estação Pinacoteca. Talvez ele tenha compreendido o espírito do capitalismo de uma maneira crítica, mas não hipócrita. Ao definir-se como americano por excelência, trouxe para si toda sua cultura, cultura real. Acabou levando o popular para a vanguarda. Quando igualou os ícones de Marilyn com a foice e o martelo, mostrou a massificação dos dois lados daquele mundo bipolar que viveu.
No entanto, o que mais gostei foram as cores, as oportunidades de representação, as experimentações e brincadeiras com coisas sérias. Representou todo o fascínio de Kennedy, criticou Nixon de uma maneira engraçada; seria interessante fazer um paralelo dele com Reagan, as poucas imagens de Reagan já permitiria esse caminho, afinal, Reagan foi um Warhol da política. (ok, tenho um fascínio por Reagan, confesso e não nego).
O mais marcante, porém, foi um vídeo chamado Boquete (Blow Job). È impossível assistir inteiro porque são mais de 40 minutos de repetição. A câmera fica parada no rosto de um cara que se presume está recebendo o boquete. No começo, a sensação de prazer é muito incômoda, tanto que passei pela sala e rapidamente saí. Fiquei olhando depois as outras pessoas e vi que a maioria fazia o mesmo. Mas, depois que você passa pela sala, vai até o fim da exposição, fica a vontade de rever a cena. Entrando na sala pela segunda vez, mesmo que o filme esteja no mesmo ponto que você viu quando passou pela primeira vez, o prazer do homem não é mais um incômodo, vira uma curiosidade em ver, e é incrível como o prazer tem horas que se parece com a dor, e como a câmera é fixa no rosto do cara, você fica vendo expressões gravadas que nos remetem tanto ao prazer e a dor e acaba imaginando seu rosto nisso. No fim, a cena fica meio hipnotizante, passei pela sala um monte de vezes. Não é pornografia, já que não é prazeroso ver o prazer daquele cara, sei lá o que é!
Como boa pop art, no fim, tive vontade de comprar alguma coisa, o catálogo era muito caro e desisti, comprei dois lápis, pus no meu estojo, e comprei algo que lembra o Andy Warhol. Ainda volto lá antes do fim da exposição.
terça-feira, abril 06, 2010
Cristianização de Mercadante
Esse é um termo que gosto muito em política, cristianizar: remete a candidatura de Cristiano Machado à presidência em 1950 pelo PSD, maior partido da época, e no meio da sua candidatura, o PSD apoiou Getúlio, que ganhou a eleição. A Cristiano Machado foi dada a embaixada no Vaticano como “serviço prestado”. O termo acabou sendo usado para os candidatos que são traídos por seus partidos (às vezes pelas bases, às vezes pelas cúpulas).
A candidatura Mercadante ao governo do Estado é mais um desmonte desta figura política. Já foi o formulador de políticas econômicas do PT e em 1994 resolveu atacar o Plano Real, sua certeza era tão grande que foi candidato a vice de Lula, perderam ambos. Em 1996 se lançou contra Erundina numa prévia para prefeito de São Paulo, perdeu as prévias e partiu para o tapetão fazendo com que o partido “cristianizasse” Erundina; o PT perdeu a eleição e a pressão sobre ela foi tão grande que Erundina deixou o partido. Em 1998 voltou para a câmara e em 2002 foi eleito o senador mais votado do País.
Em 2002 assisti uma palestra dele na Unicamp, não só ele, estavam também Luciano Coutinho e Maria da Conceição Tavares. Foi um festival desenvolvimentista: era preciso frear a política de FHC de desindustrialização do país, o agronegócio era um atentado a uma economia industrial como a nossa, era um absurdo um governo manter a balança comercial baseado na âncora verde. Paroles, paroles, paroles. Em 2002 Lula foi eleito, em 2003 aplicou as maiores ortodoxias existentes no país, trazendo até uma leve recessão que deve ter corado a todos aqueles que discursaram alegremente naquela sala frente à perspectiva da mudança, palavra doce que cabe na boca de qualquer oposicionista.
Mercadante foi líder do governo no Senado até 2006, líder mediano que como sua sucessora, não sabia se portar na tribuna, o não saber se portar o trouxe a disputa do governo de São Paulo, num embate de mágoas contra Marta Suplicy pela candidatura. A má educação do senador acabou com o caso dos Aloprados, onde tentara comprar um dossiê contra o governador José Serra. Calou-se, voltou ao Senado como presidente da CAE e líder da base governista, passando o cargo de líder do governo para Ideli Salvatti, senadora igualmente histérica e mal educada.
No caso Renan Calheiros, veio o eclipse de um homem. Votou contra a cassação de Renan e depois se arrependeu, parecia que o político perdera a vida própria e não mais controlava suas vontades, no caso Sarney, ameaçou renunciar à liderança devido à recusa de se investigar no conselho de ética o ex-presidente, segundo consta foi enquadrado de maneira violentíssima pelo partido e desistiu de desistir. Submergiu de cardeal e virou apenas baixo clero, mesmo sendo presidente da CAE e líder do governo. Não nos esqueçamos que como líder do governo viu a maioria parlamentar sumir e conduziu o governo à derrota na votação da CPMF (uma proposta que fora contra na oposição na câmara durante o governo FHC e que tivera que articular a favor no governo).
Pois bem, o senador mais votado da história não será candidato a reeleição, foi ungido pelo dedo presidencial candidato ao governo de São Paulo, enquanto sua inimiga no comando do partido no Estado, Marta Suplicy, será candidata à sua vaga. Vai ao sacrifício e não sabemos se é de livre vontade ou se pressão do governo. Se livre vontade, é um insensato, se por pressão, não é merecedor do Palácio dos Bandeirantes. São Paulo de qualquer maneira ganha ao perder um Senador tão opaco, tão sem brilho e sem vontades, tão arrependido de seus atos. Para a representação do Estado no Senado, antes uma histérica que um covarde!
quinta-feira, abril 01, 2010
O Bom Gerente
No entanto, após uma passagem marcante de Serra pelo governo do Estado, foram semeadas novas ideias e projetos que vão mudar radicalmente o Estado e estes projetos estão num ponto que ninguém, nem mesmo o Mercadante que é um insensato, pode mudar. Somente alguém muito inconsequente interromperia o plano de expansão do transporte metropolitano, de parceria com a iniciativa privada na saúde, a expansão do ensino técnico; projetos que estão fazendo com que surja a necessidade de uma autoridade metropolitana e a reafirmação do papel do Estado como coordenador, não lutando por protagonismo com os municípios.
Neste cenário, num panorama de um esquerdismo infantil que cresce, a austeridade de Alckmin e o liberalismo de Afif pode ser um contra-peso interessante tanto ao chavismo moreno de Dilma como a esquerda liberal (à la Partido Democrata) de Serra. De qualquer maneira, a eleição de Alckmin dará voz a uma minoria silenciosa que é bem mais conservadora que as siglas de nossos partidos e que a vanguarda acredita.
Chegou o momento de um bom gerente e de uma administração mais conservadora, os projetos estão traçados e é necessário certo conservadorismo em sua condução. Nunca estive tão convicto para votar em Alckmin.
domingo, março 07, 2010
Lugar de mulher é na Revolução!
sábado, março 06, 2010
Cada coisa em seu lugar e a seu tempo
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
Discussões no Congresso
terça-feira, fevereiro 23, 2010
O tempo de Maringá não é o tempo de São Paulo
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Bons Costumes
Pelo que eu entendi do título original, o filme poderia se chamar “Virtudes Fáceis” e aí ele faria bem mais sentido. Há virtudes que não são fáceis de se ter, que levam você a situações difíceis, que em determinadas situações são até condenáveis pelos outros, mas não são vícios, são virtudes. No entanto, há virtudes fáceis, que provocam tanto orgulho que acabam sendo utilizadas como vício.
Acho que é isso que eu entendi do filme, achei bem interessante como uma virtude que sempre admirei como o bom convívio social, se utilizado em demasia pode encobrir muita maldade, hipocrisia, tudo envolvido nos Bons Costumes da tradução para o português.
O filme se passa nos anos 20/30, entre guerras, que por si só já é um motivo para me levar ao cinema. Conta a história de um rapaz inglês que conhece uma americana “moderna”, casa-se com ela e a leva para a casa de seus pais numa propriedade rural na Inglaterra. Ali a modernidade da moça (e da sua origem) se contrasta com o conservadorismo da sua sogra e da comunidade. Bem, o fato de uma mulher urbana e moderna se sujeitar, por amor, a uma vida no campo num ambiente totalmente deslocado, já mostra que esse amor que a levou até lá não é uma virtude fácil. No entanto, o desenrolar da história é que num ambiente onde se presa o bom costume, ou a virtude fácil, virtudes maiores não são vistas com muita simpatia e se tornam presa do bom costume agora travestido em vício.
O interessante é o papel do pai da família, que, veterano de guerra, tem um choque radical com o mundo tal qual a moça americana, e interessante ver que talvez o background de bons costumes no qual fora criado, ao se ver em contato com outro mundo, só lhe trouxe a apatia, enquanto à moça, a ousadia.
Nossa, relendo parece que o filme é bem chato, não é. É uma comédia muito interessante, um humor inglês e tem a cena de tango mais bonita que eu já vi (muito melhor que Perfume de Mulher).
