sábado, junho 27, 2009

Um caminho para a paz

Escolher o título do que pretendo escrever talvez seja mais difícil do que o que vou escrever. Assim como no começo do mês escrevi sobre uma série de livros de Revoluções do século 20, no final do mês terminarei com uma série interminável de cartas e livros que, apesar de seu conteúdo religioso, procuram entender o mundo. Assim como as Revoluções do século 20 partiam de uma análise da situação para criar as mudanças, as encíclicas Paz na Terra de João XXIII e Caminho da Igreja de Paulo VI tentam fazer esta análise situacional da humanidade no seu tempo. Tempo este que é intrigante já que produziu tanto as Revoluções como a própria Revolução da Igreja que é acusada de ser a reação a qualquer Revolução.

Assim, ao ler ambas encíclicas, além de documentos falando do modus operandis da Igreja num mundo que lhe é estranho; ambas oferecem ao mundo um caminho para resolver as contradições deste mundo que geraram os conflitos destes tempos revolucionários. Afinal, a consciência civil nos anos 60 modificou toda a sociedade ocidental onde a Igreja estava apoiada, sociedade esta, que por sua vez foi intimamente influenciada pela Igreja desde seu tempo medieval.

Desta forma, os dois papas “revolucionários” propunham que somente no exame de consciência de sua ação como Igreja e como humano, poderiam encontrar a tolerância que seria produtora da paz. Então olhando para o outro como portador dos mesmos direitos e deveres, seria possível a construção da Paz Mundial. Parece-me um pouco ingênuo pensar que a construção da Paz Mundial partiria de uma iniciativa individual. No entanto, a individualidade é o maior tesouro ocidental, e se essa individualidade ocidental causara o desequilíbrio do mundo quando se afirmava contra a sociedade constituída produzindo um choque geracional até hoje pouco explicado na sua busca do impossível como o maio de 1968; esta própria individualidade, ao reconhecer a individualidade alheia poderia trazer de volta um mundo de tolerância, que por cadeia, através das associações entre os homens, dos países e dos dois blocos que existiam no mundo de então (três, se contarmos os países subdesenvolvidos que ajudarão na transformação da Igreja), poderia conduzir à um mundo de tolerância e paz.

O Papa Paulo VI, no entanto, na encíclica caminho da Igreja, talvez tenha sido mais incisivo ao mostrar a Igreja como um caminho para a “questão” dos anos 60. Propunha que a Igreja se interiorizasse tomando consciência de seu papel de Igreja e dos mistérios que ela portava, para num segundo momento olhar-se e ver seus desvios, considerando que nunca seria perfeita como Cristo, mas que na fé deste deveria se transformar e propunha que ao vivenciar o mundo (tudo que é fora da Igreja), ela dialogasse com ele, mantendo-se firme em princípios “cristãos”, que numa extrapolação minha, seriam os próprios princípios do Ocidente. Esse diálogo se basearia na tolerância, no conhecimento e na fraternidade, mas não poderia nunca fugir de princípios bem estabelecidos verificados na primeira ação, a da consciência, a do exame de consciência. Somente sobre estes princípios que o diálogo com o mundo (sem ser mundo) poderia ser estruturado, sendo a Igreja uma fonte de mistérios de fé que poderiam infundir não só no ocidente, como no mundo todo a tolerância e o respeito aos direitos do indivíduo.

Sem entrar no mérito dos mistérios o fato é que ambas encíclicas buscavam dentro da Igreja possíveis caminhos para uma sociedade de tolerância e diálogo.

Porém, ao olhar a proposta de Igreja de Paulo VI, não tem como não notar como esse processo, interiorização, tomada de consciência e diálogo é o mesmo processo que nós passamos por nossa vida (seja ela com os mistérios da Igreja ou não). Talvez seja a forma ocidental de tornar-nos adultos. Afinal, num primeiro momento precisamos desta individualização a fim de nos conhecer, e conhecer nosso potencial. No nosso contato com o mundo verificamos nossa imperfeição, nossas falhas, saímos do mundo ideal da individualização. Estas imperfeições serão absorvidas, interiorizadas, ou até gerarão nossos traumas e neuroses. E na vivência do mundo, no contato do outro, nas nossas relações, teremos que nos confrontar a todo instante com o nosso “eu” e as nossas imperfeições.

Acho que desagradei a teólogos, psicólogos e sociólogos com o que escrevi. No entanto, vejo e reforço como a Igreja imprimiu no Ocidente a questão da individualidade, e nós, ocidentais, na nossa individualidade, passamos por processos semelhantes ao da experiência mística da Igreja, que mesmo para aqueles que não acreditam nos mistérios da fé, passam por situações iguais. No final, até acredito que a Igreja, se não pôde dar a resposta para uma sociedade menos brutal, teve ferramentas e as utilizou para isso.

sábado, junho 20, 2009

Rua Piauí


é lá onde eu moro,

que eu me sinto bem!

(risos)

Perguntaram no meu trabalho qual era o meu grande sonho e eu simplesmente não soube responder. Entrei em crise, afinal o que é um homem sem um sonho? Pois bem, hoje andando pela cidade tive a certeza que meu sonho, que eu tinha vergonha de contar, que poderia parecer pedante, estava mais claro e mais vivo do que imaginava: quero morar na Rua Piauí!

Higienópolis é meu ideal de cidade. Prédios, consultórios, parques, avenidas com semáforos sincronizados para o pedestre, calçadas largas e bem arrumadas, árvores podadas e prédios modernistas. Se morasse em Higienópolis provavelmente sairia pouco de lá. Quando o metrô chegar ali, adeus meus sonhos motorizados. Serei um pedestre convicto e dono de um dálmata que passearia feliz pela Praça Buenos Aires.

Mais que um bairro, Higienópolis é um projeto político, modernizador, arrojado, tal qual o Edifício Louveira. E aí a Rua Piauí é fantástica, ela liga este projeto político da Praça Vilaboin ao projeto de vida da Praça Buenos Aires.
Mas e o dinheiro? Não me perguntaram qual era o sonho? Eis o sonho! A exeqüibilidade nunca é sonhada!

Apenas o Fim

E a classe média vai ao paraíso...

Assisti a Apenas o Fim e saí com a sensação de que não participei da festa. Me negaram um convite, talvez não seja tão dourado quanto àquela juventude, nem tão cult para entender as referências musicais e culturais. Num dos poucos filmes brasileiros urbanos, eu não estava lá. Rompeu-se o mito da classe média, classe média são os outros, são eles! Não conhecia as bandas que eles falavam, nunca estive acostumado com seu humor neurótico nem tampouco com o paradigma de amor de que tratavam.

Estava out, não era hype o suficiente para compreender a profundidade do universo cult do Baixo Gávea. A grande crise foi perceber que os que os personagens eram, foi o que um dia eu quis ser. Até um certo ponto fiquei feliz em ter fracassado nesta missão. Afinal transfigurações são experiências místicas não sociais.

Não estou tirando o mérito do filme, acho que da mesma maneira que a Zona Sul carioca assitiu à Linha de Passe tateando o diferente, a Zona Leste paulistana que verá Apenas o Fim poderá sentir ao vê-lo as diferenças gritantes no modus vivendi destes personagens. Pode soar um pouco preconceituoso, principalmente para meu único leitor, mas a diferenciação de classe neste filme ultrapassa o tema universal e principal do filme que é o fim do relacionamento.

Embora pareça que esteja criticando, é um filme que deve ser visto. É um filme diferente desta onda de comédias de massa com ritmo de novela, tem seu charme, busca o novo. Pena que esta vanguarda talvez só pôde ser absorvida em parte por mim pelo meu total estranhamento com o mundo dos personagens.

A cereja do bolo porém é saber que entre os cults e os descolados deste mundo (e do mundo do filme) há aqueles que trocariam todos os filmes do Godard por um filme dos Transformers! Foi o grande momento de interseção entre mim, o filme e a platéia do Espaço Unibanco!

Sem querer criar um bairrismo desnecessário, mas imagino a glória de assistir este filme no Espaço Unibanco Botafogo!

quarta-feira, junho 10, 2009

Revoluções do Século 20

Estou viciando na coleção Revoluções do Século 20 (gravado assim mesmo, em arábico!) da Editora da Unesp. São pequenos livrinhos contando a história de revoluções nos mais diferentes lugares do mundo. Acabei lendo três nos últimos três meses, a Revolução Iraniana, a Guatemalteca e agora a Alemã. Bem, existem os livrinhos das clássicas como a Russa, a Cubana, a Chinesa, mas talvez o inusitado das não-clássicas que me atraem tanto para estes livros.

O conceito de revolução em si já é um conceito bem complexo, afinal, ele foi totalmente apropriado numa perspectiva marxista de luta de classes e também traz em seu bojo o conceito de nação. Há muito tempo atrás li “O que é Revolução?” de Florestan Fernandes e ele ressaltava muito estes dois aspectos. Os livros também ressaltam e também apresentam estas revoluções não como um “raio que caiu num dia de sol” assim como Marx fez no 18 Brumário de Luis Bonaparte. Exatamente esta análise à la 18 Brumário que dá toda a graça dos livros. Afinal, ao descrever a sociedade guatemalteca, iraniana e alemã para poder mostrar o conflito que gerou a revolução, encontramos sociedades totalmente diferentes, onde existia o elemento capitalista, mas principalmente a singularidade local. O que em si, dificultaria a criação objetiva de um conceito de Revolução.

Além disso, é engraçado notar como este conceito, talvez aí resultado direto da vitória de uma historiografia marxista cujo 18 Brumário é paradigmático, ganha o sublime, a aura da justiça, principalmente porque traz consigo também o conceito de povo. E mesmo nas sociedades que deveriam ser revolucionadas pelos teóricos da Revolução, estes dois conceitos ganharam ideologias diversas e são apropriados até por contra-revolucionários. Não é à toa que existe toda uma discussão sobre a “Revolução de 64” ou a “Revolução Libertadora” que derrubou Perón, e também não achamos estranhos colocarmos o adjetivo de revolucionário à ascensão de Reagan e Thatcher nos anos 80. Também não podemos esquecer que na queda do socialismo real no final dos 80, a “libertação” dos países do regime comunista foi considerada Revolução, como a Revolução de Veludo. No entanto nenhuma destas revoluções poderiam ser tratadas na coleção Revoluções do Século 20, já que não trouxeram (ou tentaram trazer) consigo o socialismo, embora o conflito de classes permeiem, as retratadas e as não retratadas.

A contradição é notar que a revolução iraniana influenciou a ascensão de Reagan, e que talvez a diferença entre o Xá e Khomeini fosse tão grande quanto a diferença entre Reagan e Carter (embora no livro da guatemalteca o autor coloca uma pequena sombra na minha admiração ao Carter).

Talvez o conceito que engendre todas estas revoluções seja o conceito de crise, afinal é ele que provoca o lugar comum de todos estes acontecimentos maravilhosos; afinal uma revolução (à direita ou à esquerda) é um desprendimento brutal de energia humana. E mesmo com a toda a tecnologia diferente, com a “democracia” bem consolidada, ainda Revoluções (talvez já fora do sentido que Marx deu a elas) aconteçam ainda no nosso mundo. Afinal, quando um Evo Morales assume o poder na Bolívia, não podemos deixar de colocar o quão revolucionário isso é, bem como a volta de um Berlusconi.

quarta-feira, maio 27, 2009

A minha Buenos Aires

Quando fui a Buenos Aires a primeira vez, não era moda ir para lá, de tal maneira que quando voltei, tinha feito uma viagem até certo ponto exótica, diferente. Gostei tanto que absorvi a cidade, era minha cidade. Quando virou moda, quis morrer de ciúme, quase enlouqueci!

Sete anos depois eu voltei e vi que continua a minha cidade, mais que uma foto, um lugar, a graça de Buenos Aires é vivê-la e como viver é uma experiência singular, subjetiva, lá encontrei uma Buenos Aires inacessível aos outros, era a minha Buenos Aires restaurada.

Confesso que ela se alargou um pouco e novas percepções foram captadas e ainda serão reveladas.

O ciclo porteño ainda não acabou!

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

Há pelo menos uns dez anos tenho vivido sob um paradigma de que existiam dois pólos: a hipocrisia e o cinismo; onde cada um se graduava entre eles nas suas posturas e ações. Aconteceram muitas coisas nestes dez anos e hoje percebo que o mundo só poderia estar entre estes dois pólos se estivéssemos trabalhando com valores fixos e complicados a ponto de não conseguirmos segui-los e fingirmos (hipocrisia) ou aceitarmos que eram intangíveis e começássemos a apontar que tampouco os outros conseguiam (cinismo). O mundo seria de uma realidade brutal e embora não fosse maniqueísta (já que haveria graduações), partiria de valores e conceitos absolutos.

Quando nos tornamos adultos e conforme vivemos, começamos a ver que os conceitos e valores, por abstratos, não são rígidos e nos amoldamos a eles, definindo-os por superposições de metáforas e experiências, não de uma maneira cínica, mas sim humana. Uma vez que a própria realidade nos traz sensibilidade e tolerância que não combinam com o esquema rígido da hipocrisia-cinismo.

Neste ponto posso dizer que “A Insuportável Leveza do Ser” me achou e não o contrário, já que me alcançou exatamente no processo de relativização dos meus valores.

O livro é de um realismo cru, psicológico, descritivo e que de maneira nenhuma foge ao lirismo; ao invés de querer provar uma tese ou desconstruir o humano, expõe a realidade com o olhar humano, nas poucas certezas e na irracionalidade delas. Talvez pela questão do tempo-espaço, Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, onde não havia mais espaço para as nuances, as nuances dos personagens se acentuam ainda mais.

Tirando toda a questão da leveza e do peso que vai permear toda a história, bem menos rígida que minha proposição da hipocrisia-cinismo, as histórias são belas e bem contadas, montadas de maneira a acentuar a realidade, que muitos autores ao tentarem captá-las acabam por deformá-la.

Se tivesse capacidade de fazer um filme, o faria sobre a relação entre Franz e Sabina, que são secundários, mas representam muito mais este aspecto que me encantou do que o casal Tomas e Tereza. Deu-me uma sensação conhecida, familiar, ao ler esta parte, sem contar que as imagens se formavam rapidamente me minha mente.

Além disso, existe Karenin, que talvez seja a Baleia (a cachorrinha de Vidas Secas) eslava.

Adorei o livro, aposto que será relido e ainda assim ficarei encantado por ele.

terça-feira, maio 26, 2009

gabriela + mauricio + francisco = vos

Mauricio Macri pode ser bem o exemplo sobre a questão da direita difusa que escrevi e de como um grupo político pode reunir este espírito de uma maneira moderna e democrática. Para que isso não ocorresse, nem lá na Argentina nem aqui, os ideais de direita não deveriam estar presentes na sociedade. Mas estão. O que talvez exista é uma associação com os políticos de direita com os movimentos antidemocráticos, só que a restauração democrática no continente já é fato consolidado.

Pois bem, faltou explicar o título e os personagens. Mauricio Macri é o chefe de governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires (um prefeito com mais poder ou um governador com menos), Gabriela Michetti é a primeira candidata a deputada federal na lista do PRO para as eleições legislativas, Francisco de Narvaez é o primeiro candidato a deputado federal na lista do PRO + peronismo dissidente na Província de Buenos Aires. O PRO é o partido que Macri fundou e que acabou reunindo boa parte da direita difusa, da UCR dissidente, dos apoiadores de Ricardo López Murphy (3º colocado na eleição de Nestor Kirchner) e agora o peronismo dissidente. Peronismo dissidente é a parte do Partido Justicialista que não está alinhada com o casal Kirchner e que na Província de Buenos Aires é representado pelo ex-governador Felipe Solá e pelo ex-presidente Eduardo Duhalde e que tem quase o mesmo número de prefeitos que os prefeitos-K no conurbano. Prefeitos-K são os prefeitos peronistas ou radicais alinhados ao casal Kirchner e conurbano é a região metropolitana da cidade de Buenos Aires que está dentro da Província de Buenos Aires, e é onde estão os distritos eleitorais mais densos.

O título é tema da campanha que aparece na cidade de Buenos Aires e conseqüentemente em toda região metropolitana de Buenos Aires (que está na Província de Buenos Aires). A idéia é que frente a fórmula “ou minha eleição ou o fim da democracia” que o casal Kirchner quer imprimir na campanha, existe uma maneira pragmática e de defesa da democracia em jogo, e esta está no título.

Segundo as pesquisas é quase certo que Michetti ganhe as eleições porteñas e De Narvaez tem chance de ganhar, mas se não ganhar, conseguirá um bom número de deputados para o bloco nas eleições bonaerenses. De qualquer maneira, este novo partido sairá das eleições maior do que entrou e se posicionará como um pólo opositor ao casal Kirchner, num grupo muito mais coeso que a aliança à esquerda (Elisa Carrió, UCR, Socialistas e Partido Obrero), que como esquerda em todo lugar é sempre desunida.

O que quero deixar claro aqui é que existe um sentimento, que talvez seja predominante nas classes médias, que está sendo negligenciado pelos dois pólos de poder no Brasil (PT x PSDB) e deveria ser reunido por alguém. Este alguém na minha opinião seriam os Democratas, numa roupagem nova. No entanto é preciso ter a visão estratégica de Macri para conseguir se firmar como tal. Bem, as eleições de 2010 são legislativas e todo bom partido deve ter uma boa bancada, começa por aí.

Política argentina é emocionante. A questão das listas da uma dimensão partidária tremenda sobre as eleições legislativas, que falta no Brasil. Existem as peculiaridades locais, como não há propaganda gratuita, os únicos comerciais que se vê na tv são dos partidos que tem dinheiro como o PRO e os do governo (que manterá a fama de não ganhar na Capital). No entanto, a cidade já está no clima de eleição, mesmo faltando 34 dias.
A propósito. Até hoje não consegui descobrir o que significa PRO, talvez passe anos sem saber, assim como até hoje não sei ao certo o que é o partido ARI da Elisa Carrió.

quinta-feira, maio 21, 2009

Tempestades e Calmarias

De repente você sente uma calmaria estranha no ar, barômetros caem, a pressão abaixa, quem tem malícia sabe que estamos perto da Tempestade, e ela vem, vem em forma de trabalho, de amores, de amizades mal discutidas, de contas a pagar e a receber não planejadas. Um turbilhão lhe envolve e isso é uma das coisas mais interessantes que existe. Você acaba entrando neste turbilhão e luta com ele, contra ele, usa dele com astúcia, e às vezes é enganado por ele. Se sente o próprio Ulisses na Odisséia.

A Tempestade acaba, seja naturalmente, seja por uma intervenção radical e divina; você se sente num desassossego incrível, como se não pudesse viver sem o turbilhão de coisas acontecendo, e vai desacelerando, olhando para o turbilhão passado e vendo coisas que poderia ter feito diferente, lendo outras coisas, vendo outras paisagens. Quando a calmaria vem, você olha a paisagem, a entende, a interpreta e se prepara para quando os barômetros apitarem novamente você entrar no turbilhão com mais malícia.

Pois bem, do último post até esse, houve a calmaria sinistra, a tempestade e começaram minhas férias e estou olhando a paisagem. Sem pretensões de olhar para frente, nem de reviver nenhum passado. Estou observando e me surpreendendo. As férias são a quaresma do trabalho, não no sentido trágico, mas no sentido da reflexão. Confesso que estou adorando tanto essa reflexão que acabo nem escrevendo muito aqui.

Há muitas coisas que queria falar: de como é fantástico ler Milan Kundera, de como O Leitor é um filme ótimo, como a Adriana Calcanhotto pode fazer um show engraçado e up. Queria falar sobre listas abertas e fechadas, sobre o saco que é fazer mala, sobre o câncer da Dilma, sobre como é gostoso andar na Linha 9 a noite. Infelizmente a paisagem não me permite escrever muito. Acho que nas tempestades encontro mais facilidade de escrever.

Homenagem ao 11o. andar

O mar não é o mar e a cerveja não é cerveja, mas a sensação é igual

Privilégio do Mar
(Carlos Drummond de Andrade)

Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.

sexta-feira, maio 08, 2009

Maio de 68

"Então esses seres jovens, inteligentes e radicais tiveram subitamente a estranha sensação de ter lançado no vasto mundo a ação que começava a viver por conta própria, deixando de se parecer com a idéia que eles haviam concebido, deixando de se importar com os que tinham lhe dado origem. Esses seres jovens e inteligentes puseram-se a gritar por sua ação, a chamá-la, a culpá-la, a persegui-la, a caçá-la. Se eu escrevesse um romance sobre a geração destes seres dotados e radicais, eu lhe daria o título de A caça à ação perdida"
O conto da onde eu extraí o texto acima é "Cartas Perdidas" e está em "O livro do riso e do esquecimento" de Milan Kundera. O conto é uma ótima alegoria do maio de 68, mas achei esse texto muito perfeito!

segunda-feira, maio 04, 2009

Direita Difusa

O preço da liberdade é a eterna vigilância

Hoje no almoço surgiu o comentário de que não existe um partido de direita no Brasil. Na hora lembrei-me dos Democratas, no entanto, se pensarmos bem, o “poder de fogo” dos Democratas não se compara com a Democracia Cristã alemã ou a União por um Movimento Popular francês. (Não vou pôr aqui o Partido Popular espanhol, não ponho por causa de Raroy, se estivéssemos na era Aznar, poria).

A sequência lógica seria tentar definir aqui o que é Direita, o que torna a coisa mais difícil. Uma vez li numa enciclopédia que a direita se apoiava em quatro pontos: autoridade, comunidade, liberdade e hierarquia. Alguns se apoiando mais em um do que nos outros, mas todos se baseando nesses. Então começamos a delimitar o espaço que eu quero atingir. Temos quatro princípios: autoridade, comunidade, liberdade e hierarquia, e temos dois exemplos: a Democracia Cristã e a UMP.

Se pensarmos em tudo que a Esquerda brasileira chama de direita, vamos encontrar os sociaisdemocratas do PSDB, que não compartilham nem de todos os princípios nem pode ser comparado à UMP, acredito que a maior diferença seja na questão de regulação (não confuda público com estatal), na defesa de mecanismos de inclusão e por não ser tão duro com as questões das liberdades individuais. Fora os tucanos, encontramos um amontoado de partidos paroquiais sem expressão nacional, com algumas figuras carismáticas, atuação fisiológica e sem um projeto de poder e de país (PP, PR entre outros).

Aí entra o poder catalisador dos Democratas. Ao liberar-se do carlismo, na renovação dos seus quadros, tais como Rodrigo Maia, Kátia Abreu, Ônix Lorenzoni, Paulo Bornhausen, Ronaldo Caiado, Solange Amaral, Mendonça Filho e principalmente Gilberto Kassab, os democratas podem preencher esse vácuo à direita. Não duvido que, dentro de um programa coerente e nacional, os Democratas não consigam se viabilizar como uma opção tal qual a UMP.

A defesa da democracia (“o preço da liberdade é a eterna vigilância”), a busca da eficiência na administração pública, a redução do Estado e dos cargos comissionados, a busca pelo empreendedorismo, maior abertura econômica, defesa do agronegócio (com todas as ressalvas ambientais), e principalmente um discurso moderno de liberdades individuais (liberados de influências religiosas ou outros lobbies) podem dar aos Democratas um campo que não é explorado pelos partidos no Brasil. Pelo menos não nacionalmente.

Claro que ainda há resquícios do velho PFL, mas a própria renovação trata de depurá-los. Além do mais, essa história de partido da ditadura já se tornou um pouco chavão demais, não acredito que, fora alguns saudosos da Ditadura, alguém se comovam com esse discurso (que a Marta Suplicy quis aplicar aqui em São Paulo). Afinal, das eleições livres para governador de 1982 para cá, já se foram 27 anos. E no final das contas, quem viabilizou a eleição de Tancredo, foi o PFL.

Um pólo a direita, num país onde falar que uma pessoa é de direita é xingamento, pode reequilibrar as forças políticas nacionais. Afinal, o PSDB no governo, rompeu com os clientelismos e permitiu a eleição de Lula, completando a transição democrática. No final, os dois partidos acabaram tão parecidos que é necessário se diferenciar. Para mim, é claro que o PSDB não quer as bandeiras que citei; mas pelo que a gente lê em jornal, ou nestas pesquisas que vez em quando saem, estes temas são temas a serem discutidos e podem aumentar a força deste partido.

Sem contar que com os Democratas fortes, o PSDB voltaria para seu lugar de origem, deslocado que foi pelo vácuo à direita, e teríamos uma grande surpresa ao ver o quanto o PT teria que se reposicionar.

A democracia brasileira ganharia com um partido mais orgânico e organizado neste campo.

domingo, maio 03, 2009

Virada Cultural 2009

Geraldo Azevedo

Fui num show de um cantor que para mim era desconhecido e saí de lá com muita vontade de escutar tudo que ele já fez. O show foi fantástico, uma platéia que aproveitou cada instante, todo mundo escutando, cantando. A letras das músicas muito simples, mas muito precisas. Para mim foi o grande acontecimento

Escoamento em meios porosos

Parece nerd este tópico, mas não parava de pensar nisso. Acho que dá para fazer um modelinho matemático para verificar o comportamento das pessoas na multidão. É incrível como se vê os fluxos preferenciais que vão se formando, o fenômeno da capilaridade. No final dos shows, acontecia quase como a fluidificação da areia, a multidão se tornava uma areia movediça, você afundava nela.

Lógico que existem sempre os sem noção que não seguiam nem os fluxos preferenciais nem toda a lógica humana que acaba sendo afetada pelo excesso de vinho barato do local, mas considerando que ser ou não ser sem noção é uma questão de estatística, esse modelinho pode até ser feito considerando esta variável!

(tópico idiota, mas eu pensei nisso em vários momentos!)

Não poderia ser em outra data?

Dois motivos para se mexer na data da virada: a interrupção do tráfego de trens do metrô sob a República e o Dia do Trabalho.

A interrupção do tráfego causou um caos no sábado que eles reviram no domingo. Sem contar que ao acionar os ônibus da Sptrans para fazer o trajeto Santa Cecília – Anhangabaú, esqueceram de combinar com a CET. Demorei 40 minutos para ir de Santa Cecília ao Anhangabaú no sábado às 6 da tarde.

Quanto ao Dia do Trabalho, acho misturou as duas festas perdendo o simbólico de ambas, parecia que a cidade estava em festa nos três dias, no primeiro, graças às centrais sindicais, nos outros dois pela virada.

Shows Bregas

Interessante porem um palco só para shows bregas, afinal a virada tem que atingir a todos.

No fim, descobre-se verdadeiramente porque são populares: as letras fáceis faziam com que a gente aprendesse a música durante a própria música. E no final, todo mundo sabia pelo menos o refrão. O show do Wando foi engraçadíssimo, principalmente com a questão das calcinhas voando e das baixarias que ele falo, mas infelizmente ele não tem repertório pra tocar uma hora toda não. O do Reginaldo Rossi foi muito chato, ele mais falou do que cantou, acabei saindo no meio.

Zeca Baleiro

Bem, esse é um show que ainda vou pagar pra ver, escutar com mais atenção, curtir mais o show. Foi ótimo, num horário melhor ainda.

sábado, maio 02, 2009

Pré-Campanha (artigo de César Maia)

Vou pôr na íntegra o artigo de César Maia, publicado na Folha de hoje, concordo com ele em tudo e estava na minha cabeça escrever algo sobre isso, mas achei perfeito o que falava que me abstenho deste tema por enquanto.

PAUL LAZARSFELD -fundador das pesquisas de opinião e tendências do eleitorado-, nos anos 30, na Universidade de Columbia, dizia que as campanhas eleitorais eram como a fotografia da época: dividiam-se em duas fases. Na primeira -a pré-campanha-, a foto era tirada e impressa no celuloide. Na segunda -a campanha-, a foto era revelada na câmara escura. Sem a pré-campanha não havia foto a revelar, e a campanha seria uma loteria de impressões, ensinava.
Esta é a lógica das primárias nos EUA. Os pré-candidatos se apresentam nacionalmente. Mostram propostas, criticam os adversários, durante meses, até a convenção. Todas as imagens estão amplamente registradas no "celuloide" dos eleitores. Depois, a campanha exibe os detalhes, os compromissos e críticas, que complementam o básico. Sem pré-campanha, Obama nunca teria tido a chance de ser o candidato democrata.
No Brasil, o complexo eleitoral, composto pelos partidos e pela Justiça, fixou a ideia de que a pré-campanha é ilegal. Desta forma, enquanto os partidos denunciam seus adversários por fazerem pré-campanha, a Justiça Eleitoral os inibe com proibições e punições. Mas esse é um processo torto.
Todos têm espaço partidário igual para a propaganda autorizada, mas quem está no governo tem todo o tempo que entender para contratar publicidade na mídia.
Não pôr o nome na publicidade de quem está na mídia espontânea todos os dias é risível. Nos Estados e grandes capitais, trata-se de gastos anuais, em publicidade político-governamental, de R$ 50 milhões a R$ 200 milhões. No nível federal, os gastos chegam a R$ 2 bilhões, incluindo patrocínios e promoções. O exagero chega a tal ponto que o próprio uso da internet -meio democrático, barato e acessível a todos- passou a ter regras limitativas, antes e até durante as eleições.
Se o que se quer com o processo eleitoral é dar ao eleitor o máximo de informações, para que ele possa decidir politicamente, em vez de apenas reagir a estímulos publicitários, o processo atual aponta para o contrário disso.
Os partidos não têm tempo para amadurecer suas decisões em torno de seus pré-candidatos. As convenções fazem o jogo do "convencimento" dos delegados. As pesquisas de opinião pré-eleitorais só favorecem os mais conhecidos ou expostos, o que torna as oposições mais dependentes da mídia.
A democracia sofre um grave desvio, na medida em que não há condições de igualdade na disputa. Governo e oposição atuam politicamente, visando às próximas eleições, com instrumentos totalmente desproporcionais.
Essa é uma grave distorção que os partidos políticos -que legislam- e o TSE -que regulamenta- precisam rever com a máxima urgência

sexta-feira, maio 01, 2009

Compromisso com o trabalho

Não é o trabalho que dignifica o homem, mas o homem que dignifica o trabalho. Quando falo em compromisso com o trabalho, muito além de desemprego e renda gostaria que entrasse em pauta também a necessidade de se poder realizar um trabalho onde o homem consiga criar, se expor, pensar; entregando-se plenamente e com vontade ao trabalho.

Afinal, mesmo com taxas decrescentes do índice de desemprego de 2003 pra cá, temos uma contradição no rendimento médio do pessoal ocupado. Resolvi por os dois governos Fernando Henrique e os dois governos Lula para não me acusarem de parcialidade. Vamos aos dados, para evitar a sazonalidade, considerei para comparação de agosto/98 à agosto/08, uma vez que no site no DIEESE, a série histórica só ia até agosto de 2008 (que me evitaria abrir todos os relatórios para conseguir fazer a conta, afinal hoje é feriado e não é dia de ter tanto trabalho assim).

Em agosto de 1995 a taxa de desemprego na Região Metropolitana de São Paulo era de 12,9% e em agosto de 2008, 14,0%. A princípio, pouca variação. Se pegarmos a taxa de agosto de 2002 (final do governo Fernando Henrique), a taxa foi de 18,3%, um crescimento de 41% na taxa de desemprego, um crescimento bastante alto. Em agosto de 2003 chegamos a 20%, sendo que aí já tínhamos 8 meses de governo Lula. De agosto de 2003 à agosto de 2008, temos uma redução de 30%. O que corrigiu uma taxa de desemprego já alta. Nesta taxa de desemprego, considerei o emprego total (com carteira e sem carteira).

No entanto, se olharmos os rendimentos, defletidos pelo IPCA na cidade de São Paulo, com base em agosto de 2008, temos o seguinte quadro: Em agosto de 1995, o rendimento médio das pessoas ocupadas eram de R$ 1.773,58, em agosto de 2002, R$ 1.264,93, uma redução de 28,7 % do rendimento médio. Em agosto de 2003 o rendimento foi de R$ 1.181,35 (redução de 6%), enquanto em agosto de 2008, o rendimento foi de R$ 1.215,72, com um acréscimo na renda do governo Lula de 3%.

O que quis pôr acima foi que: no governo Fernando Henrique, a reestruturação econômica e principalmente a crise de 1999, tirou do mercado 6% da População Economicamente Ativa ({[(100-18,3)/(100-12,9)]-1}x100}) e houve um arroucho de 28,7% no seu rendimento médio. No governo Lula, foi posto de novo no mercado 7,5% da População Economicamente Ativa, mas o acréscimo de renda foi de somente 3%. O que pode significar empregos com baixos rendimentos ou uma alta taxa de inflação.

Na verdade todos esses números servem para voltar no primeiro parágrafo. Será que todo esse aumento nos postos de trabalho foram feitos para que esses trabalhadores tivessem seus sonhos como trabalhador realizado? Talvez por isso nesse 1º de maio, ao invés de glorificarmos taxa de desemprego e renda, deveríamos pensar em que formas conseguiremos pôr o trabalho em primeiro lugar na nossa sociedade, ao invés do capital, (princípio da socialdemocracia) e que esse trabalho também seja fruto do melhor das pessoas, que elas possam se realizar neles. Construir com o trabalho não somente o fruto deste trabalho, o rendimento, mas também a realização pessoal.

Talvez com essa crise, os números piorem, e aí surja uma grande oportunidade (é um clichê total essa história de crise e oportunidade, mas enfim) de conseguirmos pensar em melhores formas de se trabalhar, para que o trabalhador se sinta realizado nos seus trabalhos, que consigam sobreviver aos custos e às tentações do consumismo. Como isso pode acontecer eu não sei. Antes era contra a história de economia solidária, mas por quê não? Talvez quando este trabalho for feito realizando os anseios de todos, podemos construir uma sociedade mais justa, mais tranqüila (só a justiça gera a paz, lema da campanha da fraternidade deste ano) e mais ecológica.

São apenas divagações sobre o Dia do Trabalho, que assim como o Dia Internacional da Mulher, deve ser comemorado e principalmente refletido. Afinal, se ganharás o pão com o suor do seu trabalho, que esse suor não seja somente o suor da dor, mas também o suor bom do esforço para atingir algo que se quer.

domingo, abril 26, 2009

A difícil opção pelos pobres


Fazer a opção pelos pobres exige um exercício de olhar, e conseguir encontrar esse pobre que a gente tenta buscar. A pobreza pode marginalizar tanto, que se torna impossível perceber o marginalizado, ele se reificou, se tornou coisa nas calçadas e nas ruas da cidade. Sua presença só se torna visível no grito, no grotesco, como que somente pelo absurdo pudéssemos notá-los.

O termo pobre, assim como termo elite, é tão amplo e subjetivo, que acaba por nos confundir, talvez esta questão até seja dicotômica e simples desse jeito, mas as nuances do pobre e da elite, acaba por marginalizar mais uma parte do “pobre” e esconder muito mais o que é “elite”.

Afinal, um trabalhador, um operário, um desempregado pobre, é pobre, mas está dentro do nosso sistema. Possui valor definido, podemos até ter preconceito de classe, mas a todos ocorre uma solução para o problema desta pobreza. É um pobre dentro do sistema, que compartilha os mesmos valores, as mesmas ambições e o mesmo desejo de consumo.

Aí que chego onde a opção pelos pobres se torna mais difícil, quando estamos falando de pessoas tão marginalizadas, cujos valores não são por nós reconhecidos, são estranhos dentro do nosso corpo social, acabam se passando por coisas, porque nos incomoda tentar entendê-los. Transformamos eles em coisas, porque não podemos entender como se transformaram como tal. Estou me referindo aos mendigos que dormem pelas ruas e calçadas desta cidade.

Para mim é tão difícil pensar em uma solução para eles simplesmente porque praticamente não compartilhamos o mesmo mundo; porém, como morador da subprefeitura da Sé, é impossível passar incólume por eles, mesmo que não entendamos sua lógica, sua opção (ou falta dela).

Sua própria existência põe em xeque todo um sistema de valores no qual acreditamos e sua marginalização nos mostra que existe um outro conjunto que também é a nossa sociedade. Se num primeiro momento, o absurdo nos assusta e se transforma num caso de polícia. Numa segunda reflexão, vemos que esta questão é uma questão crucial em vários pontos do nosso olhar para o mundo. Por quê sociologicamente eles se retiraram do “jogo”? Por quê psicologicamente eles não compartilham dos mesmos valores?

Penso que até a forma como ocupamos esta cidade pode ser causa da existência do mendigo. Como morador de uma subprefeitura onde esse problema grita e nos pede pelo menos uma explicação, me sinto somente confuso e tento imaginar teorias mil para que a opção pelos pobres possa alcançá-los também. Ou que eles se deixem alcançar por ela.

sábado, abril 25, 2009

São Francisco pregando aos pássaros

Sempre foi uma mulher católica. Desde os tempos da Campanha Gaúcha até ser esposa de fazendeiro em Rondônia. Já teve recaídas, um tarô, uns búzios, em sua juventude quando tivera mais dúvidas. Hoje, com a idade, tinha mais certezas que dúvidas. Mesmo porque Vilhena não era um lugar que lhe permitia ter tantas dúvidas assim, e suas certezas aumentavam sua fé.

Quando se casou e logo depois migrou, imaginou que poderia dar aos filhos uma vida diferente da que teve. Rondônia era uma terra de oportunidades e seu marido soube aproveitá-las. Orgulhava-se de ter feito sua América, mesmo que esta América fosse tão pequenina como sua São Gabriel natal, ali havia oportunidades, pelo menos para seus filhos. E o que não é um casamento do que poder proporcionar aos filhos o melhor dos mundos? Sentia-se realizada por ser uma mãe que podia dar-se ao luxo de prover o sonho dos seus filhos.

Cláudia nasceu na fase próspera, a menina estudiosa era o orgulho da mãe. Com a mãe aprendera a gostar de ler, o que em Vilhena era a descoberta do mundo. Decidiu ser advogada e para orgulho de toda cidade veio fazer Direito no Largo São Francisco. Faculdade que já havia formado cinco presidentes, segundo lhe contaram.

Para ajudar na adaptação da filha, veio a São Paulo. Procurar apartamento, deixá-lo habitável, permitir que Cláudia conseguisse se sentir em casa e disfarçar seu espanto pela cidade que a envolvia. Maravilhava-se ao observar o trânsito, alguns prédios imponentes; até a decadência lhe parecia bonita, estava num lugar com uma história que era maior que ela, não onde ela fizera a história.

A imagem da faculdade de Direito foi encantadora. Junto à filha conheceu a sala de defesas, majestosa, lembrou-se dos livros que lera no colegial, da glória de se estudar Direito em São Paulo. A faculdade era um ponto que sobrevivia a decadência do lugar, era um lugar que a história não havia abandonado e isso a impressionava.

Domingo é dia de missa. Não importa onde você esteja, é dia de missa. Lembrou-se da Igreja de São Francisco ao lado da faculdade, e com sua roupa de missa foi até lá, Cláudia tinha saído com suas novas amigas e decidiu que enfrentaria a cidade sozinha. Informaram-na o horário errado, e ela acabou chegando muito cedo. Sorte. Pôde ver toda a Igreja, se sentia numa igreja barroca mineira. Anjos, santos com olhares penetrantes, uma Nossa Senhora das Dores tão linda e dolorida como jamais vira. Ajoelhou-se e rezou. Andou pela Igreja e percebeu que o número de mendigos que dormiam sob as arcadas era muito grande, assustou-se e voltou à Igreja, era quase a hora da missa e nunca tinha visto tão poucas pessoas numa celebração.

Sentou-se incomodada num banco vazio, estava inconformada de ter feito esta opção. Aquele domingo não era um domingo bonito, mas deveria ter ficado em casa, ou ido a uma Igreja num lugar menos decadente. Sentiu-se caipira por ter ido a missa e por ter medo dos mendigos.

Um frei bem simples entrou na Igreja sob o canto solitário de um ajudante. A missa começou e de repente, com a chuva fina que caiu sobre a cidade, a Igreja, como por um milagre, começou a encher. Antes do ato penitencial já estava tomada pelos mendigos das arcadas. Alguns rezavam junto com o frei, outros conversavam, alguns embriagados diziam palavras que ela não conseguia entender. Vieram as leituras e tentava se concentrar nas leituras, mas tinha medo, medo inconsciente, medo do desconhecido, da enrascada que se metera.

A homilia foi sobre a recusa de Tomé em acreditar na ressurreição sem ver as chagas de Cristo, o frei insistiu que bem-aventurados aqueles que creram sem ter visto, e pediu para que todos meditassem sobre o tamanho de sua fé. Perguntou até onde sua fé seria capaz de os levar. Veridiana não conseguia tirar o olhar de um mendigo com um colete militar que, embriagado, soltava palavras como respondendo ao frei. Quando o padre disse que a fé é a vacina do medo, sentiu-se sem fé, estava amedrontada.

No ofertório sentiu-se constrangida ao entregar seus dez reais habituais à Igreja enquanto a multidão de mendigos fazia comentários sobre a coleta. “Receba o Senhor por suas mãos este sacrifício, para a glória do Seu nome, para o nosso bem e de toda santa Igreja”. Teve vergonha em dizer esta frase que sempre lhe saiu automática. Afinal, qual era seu sacrifício? Estar junto aos mendigos? Mas essa era uma obrigação e não um sacrifício. Durante a consagração, o bêbado de colete militar comentou sarcástico que agora sim todos eram irmãos.

O canto de comunhão era um dos mais bonitos que já ouvira, já o havia cantado no coro da sua Igreja, e, no entanto, cantado pelo ajudante parecia uma ladainha de procissão. Falava sobre a vinda gloriosa e a ressurreição dos que creram. Na comunhão, partilhou a fila e a hóstia com os mendigos que agora lhe pareciam como parte integrante da Igreja. No abraço da paz, desejou-lhes a paz de Cristo e deu-lhes a mão, automaticamente.

Quando a missa acabou, pôs a bolsa embaixo do braço e atravessou o campo de refugiados com que se assemelhava o Largo de São Francisco, por sorte havia um ponto de táxi na praça e logo conseguiu um carro. Dizia a si mesma que jamais voltaria àquela Igreja. Mas sua fé era incapaz de levá-la a uma igreja como aquela? Quando o táxi parou num sinal fechado, um menino de rua conseguiu abrir a porta do carro e levar sua bolsa. Seu medo se concretizou. Como era fácil ser católica em Vilhena!

domingo, abril 19, 2009

Caminhemos


Sabe quando você escuta uma música e não consegue se desligar dela? Pois é, aconteceu comigo na quinta-feira e não consigo parar de ouvir uma música. Embora a música seja interessante do jeito que é, adoraria trocar-lhe duas palavras, e acho que aí sim ela ficaria bem interessante.

É desnecessário saber que ouvi essa música na voz da Vanusa, e que sabe-se lá como eu cheguei nela, mas não julguem a música pela cantora, depois descobri que a música é até bem velhinha, até o Nelson Gonçalves gravou em dueto com a Maria Bethânia, mas eu ainda prefiro ouvi-la na voz da Vanusa.

Caminhemos
(Herivelto Martins)

Não, eu não posso lembrar que te amei,
Não, eu preciso esquecer que sofri,
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois!

Vida comprida, estrada alongada.
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada...
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Te encontre no mesmo lugar!

Do jeito que a música está, me dá a idéia de alguém infeliz numa relação, mesmo assim inseguro se deve ir ou não, perdido no mundo, e o “quem sabe na volta te encontre no mesmo lugar”, pode parecer que a pessoa decidiu que a volta era a melhor das opções (que seria um final muito Alcione para a Vanusa) ou que o sujeito da canção evoluiu, cresceu e o que ficou estagnou (que seria uma vingança bem executada).

No entanto, ao escutar a música, depois de algumas vezes, eu trocaria duas palavras:

Caminhemos

Não, eu não posso lembrar que te amei,
Não, eu preciso esquecer que sorri,
Faça de conta que o tempo passou
E que tudo entre nós terminou
E que a vida não continuou pra nós dois
Caminhemos, talvez nos vejamos depois!

Vida comprida, estrada alongada.
Parto à procura de alguém
Ou à procura de nada...
Vou indo, caminhando
Sem saber onde chegar
Quem sabe na volta
Me encontre no mesmo lugar!

Com as duas alterações acho que seria uma crise existencial muito bem cantada. O sujeito da música está numa relação boa, no entanto precisa repensar a sua vida e parte “à procura de alguém ou a procura de nada”, ou de algo, e quem sabe posteriormente a toda esta busca perceba que estava tudo bem.

Afinal, quem nunca teve dúvidas desta natureza, e percebeu que estava tudo ok depois?

A propósito, estava num bar meio decadente onde uma dupla sertaneja fazia cover de outras duplas sertanejas, quando eles tocaram Borboletas de Vitor e Leo que diz coisa bem parecida, mas sobre a ótica de quem ficou. Acho a parte de quem foi mais corajosa, mas no final fiquei com as duas músicas na cabeça!

quinta-feira, abril 16, 2009

Lula, FHC e a relação Estado-Sociedade.

No discurso de despedida ao Senado, o ex-presidente Fernando Henrique diagnosticava o fim de um ciclo de desenvolvimento econômico, baseado no Estado provedor de infra-estrutura e monopolista deixando às empresas privadas a industrialização por substituição de importações. Este ciclo econômico, característico da Era Vargas, era marcado pelo intervencionismo do Estado em setores estratégicos e um controle sobre as tarifas e câmbio que criava a condição propícia para a industrialização. E esse controle, não era só sobre a economia, mas transpassava toda a sociedade, já que a estrutura sindical era (e ainda é) controlada pelo Estado, e na maior parte do período onde vigorou este pacto desenvolvimentista estávamos sobre regimes de exceção, o Estado Novo e o Regime Militar.

Neste discurso, o ex-presidente afirmava que este ciclo havia se encerrado e era necessário superar a Era Vargas, já que o intervencionismo estava sufocando a eficiência de setores que viriam a ser estratégicos num novo modelo de desenvolvimento. Além disso era necessário superar o autoritarismo do período. Reforçando as instituições e transferindo o dinamismo da atividade econômica dos planos do governo para a iniciativa privada, inaugurando uma nova fase da relação Estado-Sociedade.

“No ciclo de desenvolvimento que se inaugura, o eixo dinâmico da atividade produtiva passa decididamente do setor estatal para o setor privado. Tenho repetido à exaustão, mas não custa insistir: isto não significa que a ação do Estado deixe de ser relevante para o desenvolvimento econômico. Ela continuará sendo fundamental. Mas mudando de natureza”.

O Estado produtor direto passa para segundo plano. Entra o Estado regulador, não no sentido de espalhar regras e favores especiais a torto e a direito, mas de criar o marco institucional que assegure plena eficácia ao sistema de preços relativos, incentivando assim os investimentos privados na atividade produtiva. Em vez de substituir o mercado, trata-se, portanto, de garantir a eficiência do mercado como princípio geral de regulação”.
Este era o norte do governo Fernando Henrique, ao buscar eficiência, buscou-se na iniciativa privada sua eficiência, e trouxe para o governo, representante da sociedade, o papel de regulador. Não só da atividade econômica, mas também como marco de estabilidade jurídica e fiscal.

O projeto que venceu as eleições em 1994 e 1998 foi derrotado nas urnas em 2002 por uma sombra de projeto nacional, que volta à Era Vargas nos seus abusos, e por não abandonar de vez o plano de 1994 e não traçar outro, ficou no meio do caminho, incapaz de exigir a eficiência dos serviços públicos concedidos, já que os cargos nas agências de regulação, foram partidarizados e enfraquecidos pelo governo que se pretende ser forte como outrora.
Quem fica no meio do caminho, saiu da estabilidade do começo e não atingiu o que se pretendia no fim, nem houve uma rediscussão deste processo, já que para algumas platéias (encontros de esquerda, trabalhadores e palanques) se evoca a Era Vargas, e enquanto em outros (empresários, reuniões internacionais) se lembra o novo marco instaurado em 1994.

O resultado final é o que a gente pode ver na greve da Supervia no Rio de Janeiro. Temos uma greve por melhores condições de trabalho num dos pontos mais sensíveis daquela cidade, deixando ilhados usuários que precisam do serviço e pagam por ele, sendo mal tratados pelos grevistas, que não conseguem enxergar que esses usuários são seus aliados, não inimigos.
Esse é o retrato do governo Lula e dos seus alinhados. O Estado do Rio de Janeiro, quando concedeu o serviço, criou uma agência reguladora, que provavelmente deve estar lotada de indicações do amplo espectro político retrógrado que representa o governador Sérgio Cabral. Esta agência não fez o dever de casa de fiscalizar a concessão, nem tampouco puniu a concessionária pela não-execução do serviço. Também não punirá os grevistas. Já que para ambos há um tipo de discurso, contraditório, que deve ser mantido para garantir as eleições de 2010.

quarta-feira, abril 08, 2009

A política nossa de cada dia


Quando Chirac disputou sua reeleição à presidência francesa, pôs como uma de suas cinco metas a redução do número de acidentes de carro. Não me lembro das outras quatro, mas o fato que uma das metas fosse a redução do número de acidentes de carro me causou um impacto impressionante. Era a política chegando ao dia-a-dia das pessoas.

Num primeiro momento pode parecer que uma meta como a redução do número de acidentes de carro seja uma meta simplista e pequeno-burguesa, no entanto, sua efetivação produz transformações imensas em toda a sociedade, desde a criação de carros mais seguros até uma nova política de educação no trânsito. Implica na sociedade aceitar seu alto grau de motorização, provoca reflexões sobre os aspectos ambientais disso tudo. O mais interessante é que o todo o processo começa numa coisa corriqueira, muito mais assimilável que superávit primário ou responsabilidade social, e por ser corriqueira pode abranger um número bem maior de pessoas que convivem com este problema. Provoca discussão na sociedade que empenhada acompanha como seus representantes se portaram perante esta discussão.

A lei antifumo é um destes casos que merecem ser analisados sob essa ótica. Além de ser um assunto mobilizador, é alvo de lobbies fortíssimos, seja da associação de bares, seja da indústria do fumo. Provoca uma discussão acalorada sobre o peso do tabagismo na saúde pública e suas implicações orçamentárias, mas também abre um espaço fantástico para se discutir a liberdade individual que é pilar da democracia. Não é uma simples lei, a partir dela, essa tênue linha entre a saúde pública e a liberdade individual começará a ser traçada. A própria discussão da lei é um exercício fantástico de democracia.

Não foi à toa que comparei Chirac e o Serra. Acho que ambos representam um movimento onde a ação nasce não de vanguardas e construções políticas idealizadas, mas sim de uma relação entre Estado e sociedade que se media pela política. É muito claro, pelo menos para mim, que somente pela política e pelo envolvimento da sociedade na política que se poderão conduzir as demandas difusas da sociedade moderna.

Apóio a lei, e acho que deveríamos discutir mais leis deste tipo.

terça-feira, abril 07, 2009

Tempo Livre


Será esse o tal ócio criativo?

As vezes fico um pouco envergonhado de dizer que tenho tempo livre. Tenho muito tempo livre. Acho que isso é minha maior contradição neste tal mundo globalizado. Como num mundo com tanto acesso à informação, com novas formas de comunicação e vivendo numa cidade global pode se queixar de tempo livre?

Eu me queixo, mas em silêncio. Ninguém tem tempo livre, todos correm contra o tempo enquanto eu passeio pelo tempo, matando tempo.

Tempo livre é um tabu com o qual tenho lutado. Primeiro para reconhecer que isso não seja um problema, depois para que as pessoas não me vejam como uma aberração e principalmente para aprender a desfrutá-lo.

Tomo um banho demorado, leio livros que outros indicam, escrevo cartas, telefono e penso na vida. Muitas vezes tudo isso gera uma vontade de mundo e aí nem sempre os outros estão com tempo para gastarmos um tempo junto. Então escrevo posts, outras cartas e tomo mais um banho.

É preciso paciência e serenidade para lidar com o tempo, mas acho que este tabu está sendo quebrado.