No artigo do Gabeira hoje na Folha ele comentava sobre uma segunda onda democrática, superando esta primeira onda que se esgota com o fim do governo Lula. Se na primeira onda tivemos a consolidação da democracia com eleições diretas regulares, “uma política econômica realista, uma generosa política social”. A próxima onda será a da responsabilidade diante da transparência, além das demandas sociais que cresceram (com a economia e com a democracia) e com uma nova abordagem de como os políticos irão absorver e dirigir essas novas demandas.
Ponho aqui também uma questão de liderança, e talvez de espírito. Afinal, acho que esta nova onda deve vir com um propósito, seja ela bolivariano ou extremamente liberal, acho interessante que ele tenha uma meta e não viva do dia a dia. Acho importante caminharmos numa direção, não decidir no dia a dia. Não que uma idéia prevalecerá, mas termos líderes com propósitos e ideais pode gerar um debate interessante que falta hoje em nossa democracia.
Neste ponto entra o link com o filme que eu acabei de assistir. O filme é “Baader Meinhof” e é sobre o grupo terrorista que surgiu no seio de uma das nações com um estado de bem estar social mais bem desenvolvido e que nem por isso surgiu dentro de sua juventude uma geração contestadora que acabou indo para a luta armada em torno de uma revolução cujos motivos eram tão fluídos que se torna um mistério.
Na verdade todos os acontecimentos de 68 parecem para mim como um delírio coletivo do ocidente. Uma contestação de tudo e da própria ocidentalidade (engraçado, acho que durante todo o século passado todos os intelectuais só enxergavam a decadência do Ocidente). Ao fim, num misto de sonho, de uma utopia difusa que negava a individualidade em busca de uma liberdade não muito explicada.
Acho que os filmes tratam esses acontecimentos de 68 com um certo romantismo, afinal a juventude é uma coisa bela de se observar e em 1968 eles tomaram conta do mundo, subvertendo valores, mas foram pouco eficientes nos seus objetivos. Afinal, todas as revoltas impediram a implantação de um governo do Willy Brandt de tentar um governo que conseguisse implantar uma forma de representação que incluísse os jovens, impediu o PCI de chegar ao governo, reforçou o gaullismo na França e de rasteira destruiu a socialdemocracia nos Estados Unidos e na Inglaterra trazendo a Era Reagan e Teatcher.
Sobre o filme....
Bem, filmes alemães são ótimos sempre, eles não oscilam como os franceses, então se você vir em cartaz um filme alemão, assiste. Mal não vai lhe fazer! Sem contar que o final dos 60 e começo dos 70 são fantásticos, de música, de estética. Vale a pena o filme.
sexta-feira, julho 31, 2009
Segunda Onda e Baader-Meinhof
terça-feira, julho 28, 2009
Timing
Sensação estranha para quem sempre se sentiu atrasado. Cheguei adiantado no tempo e isso não me trouxe nada mais que uma trajetória perfeita como a da luz, que corre o ultrapassando; talvez um espelho me fizesse retroceder, mas aí seria um retrocesso no espaço, não mais no tempo. Cheguei adiantado, poderia mudar o meio; a trajetória se tornaria mais lenta e o mundo me alcançaria. Talvez, novos meios, novos ares, novas analogias que não sejam tão rígidas como a luz e o tempo.
domingo, julho 26, 2009
Zona de Máxima Restrição aos Fretados
Segundo as pesquisa OD 2007, o perfil de renda e escolaridade dos usuários do fretado é igual a do usuário do transporte coletivo, o que desmonta o argumento que está na faixa dos fretados, que a partir de amanhã serão proibidos, que o fretado substitui 20 carros. Bem, somente se o usuário do fretado for um louco ou estiver na rabeira da distribuição estatística. Afinal, com a renda média dos usuários de fretado, se eles fizerem esta viagem de automóvel, o peso do transporte individual em seus orçamentos aumentará muito.
Olhando as pesquisas do DIEESE a participação do item transporte nas famílias do terceiro tercil de renda da RMSP já é quase igual ao de alimentação. Claro que eles tem maior mobilidade que os dos outros tercis, mas se optarem por usar seus carros, aumentarão este peso, o que é meio impossível. Logo os usuários do fretado não serão tão incoerentes para substituir sua viagem pelo carro, se ele pudesse, já estaria fazendo e não andando de fretado.
Além do mais, não é justo que os usuários do transporte coletivo dos ônibus da capital sejam prejudicados pelas barbaridades que os fretados fazem nas ruas, que diminui a velocidade dos ônibus. Não posso falar para vocês olharem a Berrini, a São Carlos do Pinhal e a Alameda Santos já que a partir de amanhã elas estarão livres, mas quem já as viu, se escandalizou com as barbaridades cometidas pelos fretados.
O que se vê é uma minoria que se acha melhor do que os usuários de transporte coletivo que se sente detentora de um direito que prejudica uma maioria de pessoas que são iguais a elas diminuindo a velocidade do trânsito na cidade.
Como transporte é máfia, amanhã será um dia de tumulto geral, praticamente com os fretados tentando sabotar o plano, tomara que a CET consiga pôr ordem na casa.
Vou fazer um exercício de futurologia, eu realmente acho que daqui uns dois meses as coisas estarão estabilizadas, e aí teremos mais 40.000 usuários que estão nos segundos e terceiros tercis de renda usando o transporte coletivo e discutindo-o politicamente. Afinal, o transporte público pode ser superlotado ou ineficiente, mas o é pela dinâmica da cidade e pressões de grupos como os usuários do fretado.
A construção da cidade passa pela identificação dos interesses e principalmente pela ponderação das suas forças motrizes, acho que neste caso o interesse foi detectado e a cidade ganhará com a medida.
quarta-feira, julho 22, 2009
Mas afinal: você é a favor do quê?
No blog do Marcelo Coelho ele comentou o quão fascinante é a política norte-americana a partir da análise de Milk. Não deixo de concordar com ele, não que conheça muito da política norte-americana, mas sim no argumento de que os interesses no Brasil não são muito claros. Na verdade, não há temas e não há lados.
Tente pensar num tema nacional que esteja sendo discutido no Congresso ou pela sociedade. Não há! Não se discute juros, não se discute superávit, não se discute um plano educacional, simplesmente não se discute. As coisas são aprovadas sem discussão, sem necessidade das pessoas se mostrarem.
Mesmo nesta crise do Senado, há um vai e volta, uma escamoteada de idéias. Uma névoa entre o dito e o feito que chega ser torturante.
O presidente Lula fala coisas contraditórias dependendo da platéia, fala de austeridade fiscal e equilíbrio para empresários e fala de gastos públicos e bolsas para a platéia. A oposição faz o mesmo, ao mesmo tempo em que bate no governo por causa da farra do dinheiro público, não faz absolutamente nada para impedir isso, aliás, aprova, dá voto. Governo negocia posição, oposição negocia posição, governo pressiona, oposição obstrui. Agora negociar e obstruir o que se não há nada para negociar? As discussões são cosméticas, não envolvem a sociedade, são para a propaganda política e só.
Vou mirar na oposição agora. Não era o caso de obstruir a aprovação da LDO para preservar os antigos critérios de superávit e impedir o aumento do gasto público? Afinal, quem quer eficiência e equilíbrio fiscal, deveria obstruir qualquer iniciativa do governo neste sentido! Não é impedir o governo, é ter coerência entre programa e voto!
Pois bem, pretendo investigar mais os candidatos que votarei em 2010 e abaixo listei coisas que eu me moveria para defender:
Aborto;
Política de equiparação para mulheres;
Jornada de 36 horas semanais;
Fator previdenciário;
Criação de mais faixas de Imposto de Renda;
Que o Imposto de Renda seja o principal imposto do país;
Criação do Imposto sobre Herança e Grandes Fortunas;
Limite de 60% dos gastos públicos com pessoal, incluindo aposentados;
Superávit primário de 2,5% no orçamento da União;
Privatização dos Correios;
Privatização da Petrobrás;
Voto distrital misto;
Voto em legenda;
Vinculação orçamentária automática para Educação (Como em São Paulo);
Criação do Código Ambiental, consolidando a legislação ambiental dispersa;
Proibição de estímulo a indústria de automóveis e motos;
Que o trabalho corresponda a pelo menos 60% da Renda Nacional.
Bem, não sei onde vou acrescentar isso, mas eu acredito nisso e procuro isso, ou algo disso, em quem eu voto.
A propósito.
Neste ponto entra meu encantamento pela Soninha e pelo Gabeira. Acho que eles podem sim representar a discussão.
terça-feira, julho 21, 2009
A difícil questão de dizer o que é Arte!
Será que existe alguma função social na arte? Será que essa função é transmitir algum significado, mesmo que seja um significado inconsciente do artista para o espectador/observador. Será que ela é uma experiência única do artista ou é coletiva? Ela é uma forma de comunicação entre o artista e seu púbico?
Essa discussão é tão interessante porque ela traz consigo outros elementos, como o legitimador da arte: o museu, o curador, o crítico, que são capazes de transformar uma coisa sem definição num conceito! E muitas vezes podemos não concordar com eles!
Mais difícil ainda quando estamos numa época onde é muito fácil fazer arte. É fácil pintar, fotografar. E sem querer pode-se dar a aura da arte.
Após o curso de fotografia que fiz no CCSP acho que estas questões se tornaram bem interessantes; a partir do momento que se tem uma individualização tremenda do artista, própria da modernidade, revela-se esta individualização é de massa e pode cair no kitsch. Sendo assim, acho que a grande discussão é o kitsch, como parâmetro de arte, como o diferencial estético. E como fazer isso sem cair numa teoria de vanguardas que deixam a arte elitista?
Pois bem, acredito que muito desta discussão seja totalmente bizantina, e a partir de algumas mostras que estão espalhadas pela cidade podemos ver que a arte é permeável a todos os estratos, desde que eles tenham acesso. (o que não deixa de ser uma vitória minha contra o elitismo das vanguardas), mas que também a picaretagem é muito bem percebida (mesmo com o aval das vanguardas).
A cidade está com algumas exposições ótimas que merecem ser vistas e isso faz São Paulo uma cidade fantástica. Listei algumas exposições que vi sem ter pretensão nenhuma de criticá-las nem de convencer ninguém. Mas como a pobreza faz a gente caminhar por lugares muitas vezes desconhecidos, um desses lugares pode ser uma das exposições abaixo;
Cuide bem de você (Sesc Pompéia): Se existe um fenômeno de exposição, é essa. A idéia fantástica de tentar compreender um fora por e-mail explicada por mais de 100 mulheres de diferentes formações é uma sacada de mestre. Quando você pensa que haverá um massacre do macho, você vê que existem muitas Camilles Paglias perdidas pelo mundo. É ótima a explicação da juíza e da advogada, mas a melhor de todas é da especialista em romances do século XVIII e da consultora de bons costumes. Acho que nunca me diverti tanto numa exposição!
Ser Jovem na França (Centro Cultural da Caixa): Mostra de fotografia com algumas fotografias bem interessantes, acho que ali é um lugar fantástico para descobrir a artisticidade ou documentalidade da fotografia. Existe um certo lirismo na exposição da juventude, da diversidade cultural. Interesses difusos e coletivos na mais bela idade! A exposição foi encomendada pelo governo francês e essa informação é importante para saber a motivação dos fotógrafos.
Argentina Hoy (Centro Cultural São Paulo): Bem, é interessante mostrar a ousadia dos nossos hermanos, embora muitas peças beirem a picaretagem. Adorei as fotografias, principalmente a do “quarto rosa”, mas também as paisagens desfocadas, que dão uma idéia de miniatura fantástica. As imagens épicas da época da independência mostrando os piqueteiros também são bem interessantes. Achei bem interessante a tapeçaria do campo de batalha.
Gravuras de Franz Post (BMF): Aqui a graça está em pensar como foi feita aquele quantidade de gravura em metal no século XVII. Achei legal rever Pernambuco nas gravuras encomendadas por Maurício de Nassau. Afinal, foi graças a Maurício de Nassau que me levou até o Recife. O mais engraçado desta exposição é que na minha aula de gravura em acetato eu desenhei um mapa, e o Franz Post também, está vendo como meu acetato é arte?
Pinacoteca – Acervo: Muito bem, é emocionante ficar ao lado de um Rodin, é a mesma emoção que tive em Curitiba ao ficar perto de um Renoir e de um Portinari. Afinal, se eles são mestres, deve ser por alguma coisa, e é legal ficar perto de uma obra famosa. No entanto, além do prédio que é a grande atração, a sala dos concretistas é fantástica. Ainda mais naquele prédio, e ao lado das esculturas. Há uma exposição de fotografia lá também.
Bom proveito e oxalá apareçam mais exposições gratuitas!
segunda-feira, julho 13, 2009
Feriado em Curitiba
Cidade sem afetações, sóbria, séria, fria. Como deve ser bom viver numa cidade onde os carros dão seta para virar! E como é fácil andar por Curitiba. Estive lá em dias de chuva, mas deve ser ótimo ir aos parques, ir pra rua.
Conheci um dos bares que entrou na minha lista dos 5 mais, Stuart bar, em pleno centro, um bar antigo, com chopp bom! E você vai andando pelo centro da cidade e se sente bem, mesmo sem ter polícia por perto (não sei a cor do uniforme da Polícia do Paraná, não vi um policial sequer!).
Ok, o Museu do Niemayer é um paradigma. Quando um museu ofusca o que está dentro dele, boa coisa não é. Mas no fim, a inserção radical de um olho de vidro suavizada por curvas deixa tudo mais normal, dá a sobriedade que Brasília não tem e que duvido que Niterói tenha. Deixa a coisa com uma cara de Curitiba!
Uma observação étnica
Beto Richa deveria declarar Glória Perez persona non grata na cidade, caso contrário teremos uma novela sobre ucranianos e esse povo tão simpático, tão alegre, tão trabalhador, não merece este castigo. Cheguei em Curitiba no auge do 48º Festival Folclórico e de Etnias do Paraná. Somente um Estado bem resolvido pode chegar a um festival destes! Vi uma apresentação de danças ucranianas e adoraria ser um ucraniano! O Teatro Guaíra estava cheio. Tinha até cambista vendendo ingressos. Na platéia, me senti um ET, a comunidade ucraniana em peso aplaudindo suas tradições em ucraniano. Pena que o restaurante ucraniano era tão caro e esta era uma viagem de poucos gastos!
Twittando
Adorei esta história do twitter. Como sempre tive um preconceito inicial, afinal, virou tão febrezinha que não dava vontade nem de conhecer. Mas uma vez tendo um, você percebe o quanto o tal do twitter é poderoso.
Ok. Em 140 caracteres não dá para você desenvolver uma tese, mas em 140 caracteres você consegue se comunicar, alertar, chamar a atenção. Uma boa intenção pode estar contida em 140 caracteres. Assim como a gente saca na hora um charlatão com até menos caracteres!
O engraçado é que você comentando seu dia, você acaba o personalizando. Mesmo com milhões de pessoas levando a mesma vida que você!
A política e o Twitter
O discurso é batido por causa do Obama, mas o twitter é realmente uma arma poderosa de se fazer política. Bem, acompanho os passos do meu subprefeito e do meu governador pelo twitter. O primeiro faz com que a gente conheça cada buraco novo, faixa ilegal, ambulante não regulamentado, enfim, tudo que se passa na subprefeitura da Sé, e pelo twitter sabemos como ele resolverá o problema que surgiu. O segundo fala sobre tudo menos de política, e nas entrelinhas destes poucos 140 caracteres você percebe um governador em ação. O mais legal de tudo, é que tenho certeza que tanto o Andrea Matarazzo como o Serra devem estar encantados o tanto quanto eu com o twitter.
Agora pela manhã, além de ler o horóscopo, você lê tudo que o Serra fez pela madrugada! É fantástico!
Acho que é ótimo esse contato com nossos representantes, ainda mais quando os canais tradicionais estão cada vez mais contaminados e distorcidos, em 140 caracteres o eleitor acompanha o eleito e ainda tem liberdade de lhe fazer questionamentos.
Pois bem, tomei uma decisão muito radical: em 2010 só receberá meu voto quem eu puder acompanhar pelo twitter. Quero saber em qual discussão meu deputado está metido. Quero saber sobre o que ele se preocupa. O twitter mata a vanguarda. A comunicação passa além dela. Você, simples mortal acompanha. E em tempo real!
Falando em canais distorcidos...
Um jornalzinho destes tipo "Causa Operária" tinha na capa uma reportagem falando que o Serra usa o discurso da Revolução de 32 para armar um golpe contra o Lula. Vai ser paranóico assim lá na Venezuela! Meu amigo, a Revolução de 32 é um símbolo paulista, goste ou não. Ou será que o jornalzinho também acha que a Yeda Crusius usa a Semana Farroupilha para isso!...risos
sexta-feira, julho 03, 2009
São Paulo e o Senado
Pois bem, os outros dois senadores dos quais me envergonho: Aloísio Mercadante e Romeu Tuma terão que defender a banca nas próximas eleições e aí é um caso claro de começar um movimento no Estado para melhorar nossa representação.
A questão de Romeu Tuma é uma questão que não me incomoda tanto, ele sempre foi eleito como resultado de uma combinação de fatores políticos quase astrológicos que lhe garantiram duas eleições fáceis. Não lhe tiro os méritos, mas não acho que ele foi eleito e sim que os outros o elegeram.
No entanto, a questão Aloísio Mercadante me dói. Ele é uma tragédia na tribuna. Assim como Ideli Salvatti, é um senador que simplesmente não sabe se comportar. Não tem respeito com a casa para qual foi eleito e no momento de todas as crises do Senado, sempre esteve do lado contrário da ética e da opinião pública. Votou a favor de Renan Calheiros no seu processo de cassação e ontem foi a tribuna do Senado num discurso em defesa de Sarney buscando a governabilidade.
Senhor Senador, se a governabilidade depende da desmoralização do Senado, logo isso torna claro o projeto quase absolutista do PT no governo. Afinal, se o governo só consegue governabilidade na desordem do congresso e quando sempre há uma participação do Executivo na crise, este Executivo quer acabar com a divisão dos poderes. Lembremos: a crise do mensalão na Câmara e a imposição da eleição de Sarney, partiram do Executivo!
Claro que haverá governabilidade na era pós-Sarney. A oposição não é idiota o suficiente para paralisar o país, desde que o governo tenha o mínimo de respeito com o Congresso. O que é insustentável é a atual situação, onde acho que é dever da oposição se pôr em obstrução, e que o governo busque sua maioria silenciosa e bem paga com seus cargos.
Tomara que em 2010 nos lembremos da triste atuação destes 7 anos de mandato do Senador Mercadante!
sábado, junho 27, 2009
Síndrome de Higienópolis
De como se acha um Centro de Cultura Judaica
Depois de três finais de semana seguidos onde todos os meus sábados terminavam de alguma maneira em Higienópolis, não era de se estranhar que eu acabasse este sábado na 2ª mostra de audiovisual israelense do Centro de Cultura Judaica de São Paulo. Acho a construção do Estado de Israel uma das coisas mais fascinantes do século 20, uma verdadeira odisséia. Criou-se um Estado do nada e as questões que são postas a este Estado hoje serão as questões que terão impacto nos nossos Estados num futuro que acredito ser bem próximo.
O filme que assisti chama-se Irmãos, que até parece uma novelinha pela filmagem e linearidade da história. A partir de um tema batido das diferenças entre irmãos acaba mostrando uma novidade interessante. Um dos irmãos vive num kibutz em Israel, que também é uma experiência social fantástica; enquanto o outro é um judeu ortodoxo que vive nos Estados Unidos e volta à Israel para defender o direito dos ortodoxos de não se alistarem no exército.
O cotidiano faz do habitante do kibutz um cidadão israelense enquanto o outro, ao ser judeu nos Estados Unidos se sente um judeu, não um israelense. Assume-se israelense por causa da Lei do Retorno, mas antes de tudo ele é um judeu.
Então do clichê previsível do combate entre os irmãos, surge o grande tema do filme, que é se Israel é um Estado ou um Estado Judeu. E isso tem toda uma diferença na forma de organizar o Estado. O filme acaba chegando a conclusão que o Estado de Israel hoje é um equilíbrio entre estas tendências, e a cada radicalização de um lado, ou de outro, sempre existe o risco de um confronto. Que cada dia se torna mais latente, já que a Lei do Retorno hoje acaba favorecendo os ortodoxos.
A questão torna-se mais séria, afinal a Lei do Retorno implica que o israelense é judeu, mas se ele for só judeu poderíamos ter um novo Irã, mas se for só israelense, é um Estado absurdo, já que a construção de sua identidade de estado calcou-se na sua origem judaica.
O bom é saber que política é processo, e com certeza a forma que Israel resolver isso trará uma luz para questões deste tipo que hoje já se põe em países como a França, onde para alguns os imigrantes acabam eclipsando as características que tornaram a França um Estado.
Bom filme para refletir.
Da platéia e do Centro de Cultura Judaica
O Centro de Cultura Judaica é um lugar maravilhoso. Se não fosse o Guia Folha nem saberia que existia, e que fica ao lado do metrô Sumaré. É um prédio moderno, em concreto aparente, com a máxima segurança. Para assistir o filme tive que passar por um detector de metais.
O engraçado foi como a platéia interagia com o filme o que deu a entender que essa divisão entre seculares e ortodoxos existe também na comunidade judaica daqui. Quando os costumes do ortodoxo o colocavam em situações embaraçosas frente ao mundo normal, a platéia ria muito e achava um absurdo (como por exemplo, numa cena em que ele fica em dúvida se atende ou não atende o celular durante shabat).
E o Irã?
Será que essa onda de protesto também não reflete no Irã essa questão crucial entre o secular e o religioso?
Um caminho para a paz
Escolher o título do que pretendo escrever talvez seja mais difícil do que o que vou escrever. Assim como no começo do mês escrevi sobre uma série de livros de Revoluções do século 20, no final do mês terminarei com uma série interminável de cartas e livros que, apesar de seu conteúdo religioso, procuram entender o mundo. Assim como as Revoluções do século 20 partiam de uma análise da situação para criar as mudanças, as encíclicas Paz na Terra de João XXIII e Caminho da Igreja de Paulo VI tentam fazer esta análise situacional da humanidade no seu tempo. Tempo este que é intrigante já que produziu tanto as Revoluções como a própria Revolução da Igreja que é acusada de ser a reação a qualquer Revolução.
Assim, ao ler ambas encíclicas, além de documentos falando do modus operandis da Igreja num mundo que lhe é estranho; ambas oferecem ao mundo um caminho para resolver as contradições deste mundo que geraram os conflitos destes tempos revolucionários. Afinal, a consciência civil nos anos 60 modificou toda a sociedade ocidental onde a Igreja estava apoiada, sociedade esta, que por sua vez foi intimamente influenciada pela Igreja desde seu tempo medieval.
Desta forma, os dois papas “revolucionários” propunham que somente no exame de consciência de sua ação como Igreja e como humano, poderiam encontrar a tolerância que seria produtora da paz. Então olhando para o outro como portador dos mesmos direitos e deveres, seria possível a construção da Paz Mundial. Parece-me um pouco ingênuo pensar que a construção da Paz Mundial partiria de uma iniciativa individual. No entanto, a individualidade é o maior tesouro ocidental, e se essa individualidade ocidental causara o desequilíbrio do mundo quando se afirmava contra a sociedade constituída produzindo um choque geracional até hoje pouco explicado na sua busca do impossível como o maio de 1968; esta própria individualidade, ao reconhecer a individualidade alheia poderia trazer de volta um mundo de tolerância, que por cadeia, através das associações entre os homens, dos países e dos dois blocos que existiam no mundo de então (três, se contarmos os países subdesenvolvidos que ajudarão na transformação da Igreja), poderia conduzir à um mundo de tolerância e paz.
O Papa Paulo VI, no entanto, na encíclica caminho da Igreja, talvez tenha sido mais incisivo ao mostrar a Igreja como um caminho para a “questão” dos anos 60. Propunha que a Igreja se interiorizasse tomando consciência de seu papel de Igreja e dos mistérios que ela portava, para num segundo momento olhar-se e ver seus desvios, considerando que nunca seria perfeita como Cristo, mas que na fé deste deveria se transformar e propunha que ao vivenciar o mundo (tudo que é fora da Igreja), ela dialogasse com ele, mantendo-se firme em princípios “cristãos”, que numa extrapolação minha, seriam os próprios princípios do Ocidente. Esse diálogo se basearia na tolerância, no conhecimento e na fraternidade, mas não poderia nunca fugir de princípios bem estabelecidos verificados na primeira ação, a da consciência, a do exame de consciência. Somente sobre estes princípios que o diálogo com o mundo (sem ser mundo) poderia ser estruturado, sendo a Igreja uma fonte de mistérios de fé que poderiam infundir não só no ocidente, como no mundo todo a tolerância e o respeito aos direitos do indivíduo.
Sem entrar no mérito dos mistérios o fato é que ambas encíclicas buscavam dentro da Igreja possíveis caminhos para uma sociedade de tolerância e diálogo.
Porém, ao olhar a proposta de Igreja de Paulo VI, não tem como não notar como esse processo, interiorização, tomada de consciência e diálogo é o mesmo processo que nós passamos por nossa vida (seja ela com os mistérios da Igreja ou não). Talvez seja a forma ocidental de tornar-nos adultos. Afinal, num primeiro momento precisamos desta individualização a fim de nos conhecer, e conhecer nosso potencial. No nosso contato com o mundo verificamos nossa imperfeição, nossas falhas, saímos do mundo ideal da individualização. Estas imperfeições serão absorvidas, interiorizadas, ou até gerarão nossos traumas e neuroses. E na vivência do mundo, no contato do outro, nas nossas relações, teremos que nos confrontar a todo instante com o nosso “eu” e as nossas imperfeições.
Acho que desagradei a teólogos, psicólogos e sociólogos com o que escrevi. No entanto, vejo e reforço como a Igreja imprimiu no Ocidente a questão da individualidade, e nós, ocidentais, na nossa individualidade, passamos por processos semelhantes ao da experiência mística da Igreja, que mesmo para aqueles que não acreditam nos mistérios da fé, passam por situações iguais. No final, até acredito que a Igreja, se não pôde dar a resposta para uma sociedade menos brutal, teve ferramentas e as utilizou para isso.
sábado, junho 20, 2009
Rua Piauí

Perguntaram no meu trabalho qual era o meu grande sonho e eu simplesmente não soube responder. Entrei em crise, afinal o que é um homem sem um sonho? Pois bem, hoje andando pela cidade tive a certeza que meu sonho, que eu tinha vergonha de contar, que poderia parecer pedante, estava mais claro e mais vivo do que imaginava: quero morar na Rua Piauí!
Higienópolis é meu ideal de cidade. Prédios, consultórios, parques, avenidas com semáforos sincronizados para o pedestre, calçadas largas e bem arrumadas, árvores podadas e prédios modernistas. Se morasse em Higienópolis provavelmente sairia pouco de lá. Quando o metrô chegar ali, adeus meus sonhos motorizados. Serei um pedestre convicto e dono de um dálmata que passearia feliz pela Praça Buenos Aires.
Mais que um bairro, Higienópolis é um projeto político, modernizador, arrojado, tal qual o Edifício Louveira. E aí a Rua Piauí é fantástica, ela liga este projeto político da Praça Vilaboin ao projeto de vida da Praça Buenos Aires.
Mas e o dinheiro? Não me perguntaram qual era o sonho? Eis o sonho! A exeqüibilidade nunca é sonhada!
Apenas o Fim
Assisti a Apenas o Fim e saí com a sensação de que não participei da festa. Me negaram um convite, talvez não seja tão dourado quanto àquela juventude, nem tão cult para entender as referências musicais e culturais. Num dos poucos filmes brasileiros urbanos, eu não estava lá. Rompeu-se o mito da classe média, classe média são os outros, são eles! Não conhecia as bandas que eles falavam, nunca estive acostumado com seu humor neurótico nem tampouco com o paradigma de amor de que tratavam.
Estava out, não era hype o suficiente para compreender a profundidade do universo cult do Baixo Gávea. A grande crise foi perceber que os que os personagens eram, foi o que um dia eu quis ser. Até um certo ponto fiquei feliz em ter fracassado nesta missão. Afinal transfigurações são experiências místicas não sociais.
Não estou tirando o mérito do filme, acho que da mesma maneira que a Zona Sul carioca assitiu à Linha de Passe tateando o diferente, a Zona Leste paulistana que verá Apenas o Fim poderá sentir ao vê-lo as diferenças gritantes no modus vivendi destes personagens. Pode soar um pouco preconceituoso, principalmente para meu único leitor, mas a diferenciação de classe neste filme ultrapassa o tema universal e principal do filme que é o fim do relacionamento.
Embora pareça que esteja criticando, é um filme que deve ser visto. É um filme diferente desta onda de comédias de massa com ritmo de novela, tem seu charme, busca o novo. Pena que esta vanguarda talvez só pôde ser absorvida em parte por mim pelo meu total estranhamento com o mundo dos personagens.
A cereja do bolo porém é saber que entre os cults e os descolados deste mundo (e do mundo do filme) há aqueles que trocariam todos os filmes do Godard por um filme dos Transformers! Foi o grande momento de interseção entre mim, o filme e a platéia do Espaço Unibanco!
Sem querer criar um bairrismo desnecessário, mas imagino a glória de assistir este filme no Espaço Unibanco Botafogo!
quarta-feira, junho 10, 2009
Revoluções do Século 20
O conceito de revolução em si já é um conceito bem complexo, afinal, ele foi totalmente apropriado numa perspectiva marxista de luta de classes e também traz em seu bojo o conceito de nação. Há muito tempo atrás li “O que é Revolução?” de Florestan Fernandes e ele ressaltava muito estes dois aspectos. Os livros também ressaltam e também apresentam estas revoluções não como um “raio que caiu num dia de sol” assim como Marx fez no 18 Brumário de Luis Bonaparte. Exatamente esta análise à la 18 Brumário que dá toda a graça dos livros. Afinal, ao descrever a sociedade guatemalteca, iraniana e alemã para poder mostrar o conflito que gerou a revolução, encontramos sociedades totalmente diferentes, onde existia o elemento capitalista, mas principalmente a singularidade local. O que em si, dificultaria a criação objetiva de um conceito de Revolução.
Além disso, é engraçado notar como este conceito, talvez aí resultado direto da vitória de uma historiografia marxista cujo 18 Brumário é paradigmático, ganha o sublime, a aura da justiça, principalmente porque traz consigo também o conceito de povo. E mesmo nas sociedades que deveriam ser revolucionadas pelos teóricos da Revolução, estes dois conceitos ganharam ideologias diversas e são apropriados até por contra-revolucionários. Não é à toa que existe toda uma discussão sobre a “Revolução de 64” ou a “Revolução Libertadora” que derrubou Perón, e também não achamos estranhos colocarmos o adjetivo de revolucionário à ascensão de Reagan e Thatcher nos anos 80. Também não podemos esquecer que na queda do socialismo real no final dos 80, a “libertação” dos países do regime comunista foi considerada Revolução, como a Revolução de Veludo. No entanto nenhuma destas revoluções poderiam ser tratadas na coleção Revoluções do Século 20, já que não trouxeram (ou tentaram trazer) consigo o socialismo, embora o conflito de classes permeiem, as retratadas e as não retratadas.
A contradição é notar que a revolução iraniana influenciou a ascensão de Reagan, e que talvez a diferença entre o Xá e Khomeini fosse tão grande quanto a diferença entre Reagan e Carter (embora no livro da guatemalteca o autor coloca uma pequena sombra na minha admiração ao Carter).
Talvez o conceito que engendre todas estas revoluções seja o conceito de crise, afinal é ele que provoca o lugar comum de todos estes acontecimentos maravilhosos; afinal uma revolução (à direita ou à esquerda) é um desprendimento brutal de energia humana. E mesmo com a toda a tecnologia diferente, com a “democracia” bem consolidada, ainda Revoluções (talvez já fora do sentido que Marx deu a elas) aconteçam ainda no nosso mundo. Afinal, quando um Evo Morales assume o poder na Bolívia, não podemos deixar de colocar o quão revolucionário isso é, bem como a volta de um Berlusconi.
quarta-feira, maio 27, 2009
A minha Buenos Aires
Sete anos depois eu voltei e vi que continua a minha cidade, mais que uma foto, um lugar, a graça de Buenos Aires é vivê-la e como viver é uma experiência singular, subjetiva, lá encontrei uma Buenos Aires inacessível aos outros, era a minha Buenos Aires restaurada.
Confesso que ela se alargou um pouco e novas percepções foram captadas e ainda serão reveladas.
O ciclo porteño ainda não acabou!
A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera
Quando nos tornamos adultos e conforme vivemos, começamos a ver que os conceitos e valores, por abstratos, não são rígidos e nos amoldamos a eles, definindo-os por superposições de metáforas e experiências, não de uma maneira cínica, mas sim humana. Uma vez que a própria realidade nos traz sensibilidade e tolerância que não combinam com o esquema rígido da hipocrisia-cinismo.
Neste ponto posso dizer que “A Insuportável Leveza do Ser” me achou e não o contrário, já que me alcançou exatamente no processo de relativização dos meus valores.
O livro é de um realismo cru, psicológico, descritivo e que de maneira nenhuma foge ao lirismo; ao invés de querer provar uma tese ou desconstruir o humano, expõe a realidade com o olhar humano, nas poucas certezas e na irracionalidade delas. Talvez pela questão do tempo-espaço, Tchecoslováquia após a Primavera de Praga, onde não havia mais espaço para as nuances, as nuances dos personagens se acentuam ainda mais.
Tirando toda a questão da leveza e do peso que vai permear toda a história, bem menos rígida que minha proposição da hipocrisia-cinismo, as histórias são belas e bem contadas, montadas de maneira a acentuar a realidade, que muitos autores ao tentarem captá-las acabam por deformá-la.
Se tivesse capacidade de fazer um filme, o faria sobre a relação entre Franz e Sabina, que são secundários, mas representam muito mais este aspecto que me encantou do que o casal Tomas e Tereza. Deu-me uma sensação conhecida, familiar, ao ler esta parte, sem contar que as imagens se formavam rapidamente me minha mente.
Além disso, existe Karenin, que talvez seja a Baleia (a cachorrinha de Vidas Secas) eslava.
Adorei o livro, aposto que será relido e ainda assim ficarei encantado por ele.
terça-feira, maio 26, 2009
gabriela + mauricio + francisco = vos
Pois bem, faltou explicar o título e os personagens. Mauricio Macri é o chefe de governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires (um prefeito com mais poder ou um governador com menos), Gabriela Michetti é a primeira candidata a deputada federal na lista do PRO para as eleições legislativas, Francisco de Narvaez é o primeiro candidato a deputado federal na lista do PRO + peronismo dissidente na Província de Buenos Aires. O PRO é o partido que Macri fundou e que acabou reunindo boa parte da direita difusa, da UCR dissidente, dos apoiadores de Ricardo López Murphy (3º colocado na eleição de Nestor Kirchner) e agora o peronismo dissidente. Peronismo dissidente é a parte do Partido Justicialista que não está alinhada com o casal Kirchner e que na Província de Buenos Aires é representado pelo ex-governador Felipe Solá e pelo ex-presidente Eduardo Duhalde e que tem quase o mesmo número de prefeitos que os prefeitos-K no conurbano. Prefeitos-K são os prefeitos peronistas ou radicais alinhados ao casal Kirchner e conurbano é a região metropolitana da cidade de Buenos Aires que está dentro da Província de Buenos Aires, e é onde estão os distritos eleitorais mais densos.
O título é tema da campanha que aparece na cidade de Buenos Aires e conseqüentemente em toda região metropolitana de Buenos Aires (que está na Província de Buenos Aires). A idéia é que frente a fórmula “ou minha eleição ou o fim da democracia” que o casal Kirchner quer imprimir na campanha, existe uma maneira pragmática e de defesa da democracia em jogo, e esta está no título.
Segundo as pesquisas é quase certo que Michetti ganhe as eleições porteñas e De Narvaez tem chance de ganhar, mas se não ganhar, conseguirá um bom número de deputados para o bloco nas eleições bonaerenses. De qualquer maneira, este novo partido sairá das eleições maior do que entrou e se posicionará como um pólo opositor ao casal Kirchner, num grupo muito mais coeso que a aliança à esquerda (Elisa Carrió, UCR, Socialistas e Partido Obrero), que como esquerda em todo lugar é sempre desunida.
O que quero deixar claro aqui é que existe um sentimento, que talvez seja predominante nas classes médias, que está sendo negligenciado pelos dois pólos de poder no Brasil (PT x PSDB) e deveria ser reunido por alguém. Este alguém na minha opinião seriam os Democratas, numa roupagem nova. No entanto é preciso ter a visão estratégica de Macri para conseguir se firmar como tal. Bem, as eleições de 2010 são legislativas e todo bom partido deve ter uma boa bancada, começa por aí.
Política argentina é emocionante. A questão das listas da uma dimensão partidária tremenda sobre as eleições legislativas, que falta no Brasil. Existem as peculiaridades locais, como não há propaganda gratuita, os únicos comerciais que se vê na tv são dos partidos que tem dinheiro como o PRO e os do governo (que manterá a fama de não ganhar na Capital). No entanto, a cidade já está no clima de eleição, mesmo faltando 34 dias.
quinta-feira, maio 21, 2009
Tempestades e Calmarias
A Tempestade acaba, seja naturalmente, seja por uma intervenção radical e divina; você se sente num desassossego incrível, como se não pudesse viver sem o turbilhão de coisas acontecendo, e vai desacelerando, olhando para o turbilhão passado e vendo coisas que poderia ter feito diferente, lendo outras coisas, vendo outras paisagens. Quando a calmaria vem, você olha a paisagem, a entende, a interpreta e se prepara para quando os barômetros apitarem novamente você entrar no turbilhão com mais malícia.
Pois bem, do último post até esse, houve a calmaria sinistra, a tempestade e começaram minhas férias e estou olhando a paisagem. Sem pretensões de olhar para frente, nem de reviver nenhum passado. Estou observando e me surpreendendo. As férias são a quaresma do trabalho, não no sentido trágico, mas no sentido da reflexão. Confesso que estou adorando tanto essa reflexão que acabo nem escrevendo muito aqui.
Há muitas coisas que queria falar: de como é fantástico ler Milan Kundera, de como O Leitor é um filme ótimo, como a Adriana Calcanhotto pode fazer um show engraçado e up. Queria falar sobre listas abertas e fechadas, sobre o saco que é fazer mala, sobre o câncer da Dilma, sobre como é gostoso andar na Linha 9 a noite. Infelizmente a paisagem não me permite escrever muito. Acho que nas tempestades encontro mais facilidade de escrever.
Homenagem ao 11o. andar
Privilégio do Mar
(Carlos Drummond de Andrade)
Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.
O edifício é sólido e o mundo também.
Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vêm cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.
O mundo é mesmo de cimento armado.
Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranqüilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!
Podemos beber honradamente nossa cerveja.

