sexta-feira, outubro 30, 2009

O que é felicidade?

Péssima pergunta a ser feita no último dia útil antes de voltar ao trabalho. Boa pergunta pós-filme Na Natureza Selvagem.

Hoje para mim, é poder ler e ouvir boas coisas (e algumas más também); observar cidades, esquadrinhando-las, tentando entendê-las. Ter boas companhias para falar alguma besteira, piadas bobas e discutir algum assunto sério (e polêmico por que não?). Ter uma ótima companhia para fazer essas mesmas coisas com mais intimidade e carinho, permitindo um ponto de fuga Romântico ou uma ilusão e tentar não levar um estilo de vida Romântico. Ter algum contato com o divino também é importante, não importando a natureza deste contato.

Considerando que vivo, trabalho e tiro férias pensando e observando cidades e tenho as boas e a ótima companhia, apesar de me acharem triste, eu acho que tenho um potencial latente de felicidade, ou melhor acho que muitas vezes a alcanço.

O que me falta é constância!

Na Natureza Selvagem

Talvez a tenacidade e a capacidade de reorganização deste imenso clichê chamado capitalismo trouxe consigo não a revolução que seria sua superação, mas uma força com igual tenacidade e capacidade de reorganização que é o Romantismo e seus mitos antigos e reformados.

Não há como não pensar em Romantismo ao ver uma história de um jovem que foge de sua vida a procura da “verdade” e da “felicidade” na natureza selvagem. Mesmo que coloquemos neste jovem uma crítica social mais bem construída, problemas familiares e psicológicos, comunidades hippies, camisas xadrez e Pearl Jam, podemos ver nada mais que uma atualização do ideal Romântico, não à toa que o filme se inicia com uma citação de Byron.

Como filme, não se pode negar a beleza dos cenários selvagens e dos personagens em suas buscas, que mesmo fluídas são bem construídas. Mas a valorização extremada do jovem que rompeu com o mundo da um ar cansativo ao filme. Achei ótima a cena em que o jovem volta a uma cidade grande e já não consegue se adaptar a ela.

Agora como tema, não dá pra não ligar ao filme essa epopéia de ONGs e protestos anti-globalização e anti-capitalismo que para mim nada mais é que Romantismo revisitado, revisado e atualizado. Assim como a vida do jovem do filme, estes protestos podem causar uma mudança radical na vida dos que dele fazem parte, mas em nada muda a natureza da fuga. O protesto e as ONGs pelo menos tem a vantagem de permitir uma consciência coletiva (difusa) enquanto a vida de ermitão só pode levar a uma epifania que é um sentimento religioso que deve ser combatido pelos anti-tudo.

O engraçado desta história toda é que mesmo com sua ineficácia ao atacar a vontade da fuga, ela é irresistível e acredito que não há uma alma viva que não a procurou, seja na natureza, no passado, na infância, no amor, na morte ou também na futilidade, que carrega em si também um grande espírito Romântico.

Poderia haver uma Conferência do Cassino Lisboeta mundial que rompesse com esta brisa do Romantismo encanado, que talvez seja o mal da minha geração?

quarta-feira, outubro 28, 2009

Golpe de Ar

Golpe de ar
Fabrício Corsaletti

Se havia uma coisa que me encucava era o fato de não ler nenhum autor da minha idade. Não conhecia nenhum, e esse fato gerava em mim a sensação de que minha geração fiara imune ao choque geracional que outros escritores de outras gerações conseguiram mostrar em seus livros como o Quarup ou Gracias por el fuego.

No entanto, graça à Revista Bravo, que eu achava insuportavelmente chata, tenho descoberto escritores, até mais jovens do que eu que já não sou tão jovem assim, que talvez sintetizem um pouco minha geração; que não é mais a da luta de classes como em Gracias por el fuego, mas que pertence a era dos interesses difusos e coletivos como em Cordilheira e Golpe de Ar.

O bom de Golpe de Ar é que em nenhum momento você precisa imaginar situações já que o que está escrito lá, todo mundo com vinte e muitos anos já passou. Como a narrativa é cortada, as frases curtas, o texto se fragmenta como nosso tempo, sem perder a coerência. Achei fantástico o fato do livro deixar alguns segredos em aberto e esses segredos não atrapalharem a narrativa e sim tornarem-se símbolo da individualidade que não nega o coletivo (frase meio clichê, mas se pode encontrar algumas verdades nos clichês também).

Nosso mal estar geracional não está exposto ali, mas você o sente a medida que lê. Terminei o livro pensando que talvez a futilidade que todos reclamam é realmente futilidade, mas o incômodo com ela pode ser a porta para o entendimento e a resolução deste mal tão pouco explícito, tão difuso, tão coletivo.

O livro se passa em Buenos Aires que com vinte e poucos anos também foi minha fuga, talvez por isso a identificação seja maior (ou não). Gostei do livro!

segunda-feira, outubro 26, 2009

Subsídio para iniciantes

Não existe debate mais gostoso e acalorado que a questão dos subsídios. Além da técnica, da economia, os subsídios são ideológicos e políticos o que deixa sempre esta discussão tensa. Não se trata de negar o caráter social do transporte público, mas sim, de como se encara a imensa massa de dinheiro que é consumida em custeio e investimento e de como olhar o sistema de transporte pela luz de sua eficiência como estruturador do espaço urbano, como causa do aumento da mobilidade, como promotor da equidade de acessos e pela qualidade do serviço prestado.

No congresso da ANTP encontrei minha musa nesta discussão: Ângela Amim; encontrei também a batalha pela qual combateria o bom combate: Política Nacional de Mobilidade Urbana. Somente com simplicidade tarifária, eficiência na prestação do serviço, preocupação com custos, ressarcimento das gratuidades e envolvimento dos municípios e da sociedade na tarefa de organizar o transporte público urbano, metropolitano ou não, pode-se justificar a quantidade quase faraônica de subsídios para custeio e os investimentos a fundo perdido no setor. Fora isso, política tarifária é caixa-preta e caixas-pretas não são democráticas nem justas.

Ao apresentar a questão do subsídio (de uma maneira até um pouco amadora para justificar o iniciantes do título, já que me considero iniciante também) utilizando os dados do balanço da CPTM, ilustrando como o crescimento desordenado da metrópole pode levar a um aumento do custo e uma necessidade intrínseca de subsídio, detalhando a tarifa e discutindo algumas formas de lançar custos para medir a real eficiência dos diferentes serviços, para uma platéia de jovens que estão sendo treinados para assistentes administrativos, que em sua maioria vivem no subúrbio e que estão ávidos de mobilidade, principalmente a social, percebi que eles, assim como eu, se assustaram com o subsídio. Concluí que eles também acharam absurda a quantidade de dinheiro consumida no transporte e como há injustiça na forma de transferência de dinheiro do Estado para o custeio.

Ainda há espaço para a “desesquerdização” da política tarifária a partir de um discurso de eficiência, sem negar seu caráter social, mas restaurando o espírito de choque capitalista vencedor em 1994. Não se deve temer este espírito, por mais irracional que anda o quadro político atual, sempre haverá espaço para a razão. Podemos ser latinos, mas não deixamos de ser ocidentais.

terça-feira, outubro 20, 2009

Maringá, Maringá...

Eu sabia que conhecia a música....rs, e a ouvi ao vivo num show da Inezita Barroso!

Maringá
(Inezita Barroso - comp. Joubert de Carvalho)

Foi numa leva que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante que mais dava o que falar
E junto dela veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse de um caboclo que ficou

Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar

Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar

Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar

Antigamente uma alegria sem igual
Dominava aquela gente da cidade de Pombal
Mas veio a seca, toda água foi embora
Só restando então a mágoa
Do caboclo quando chora


segunda-feira, outubro 19, 2009

Curitiba e Maringá

"Suave é a noite, a noite que eu saio
Pra conhecer cidades e me perder por aí"


Não sei se os lugares influenciam as pessoas que nele habitam ou as pessoas que transformam seus habitats. É um pouco a discussão do ovo e da galinha. Acho que ambos interagem, transformando cada lugar numa coisa única, já que nele se desenvolvem todas as aspirações das pessoas que nele habitam, ainda mais se considerarmos cidades que são o máximo da nossa civilização. (ainda influência do Rouanet falando sobre a civilização ocidental...)

Pensando nesta relação lugar-pessoa, fiquei impressionado com o contraste entre Curitiba e Maringá. Se tivesse ido à Curitiba e numa outra viagem ido à Maringá, talvez a diferença não ficaria tão evidente. Como em menos de duas horas fui de uma a outra, qualquer pequena diferença se agigantou. Senti-me mudando de país.

Curitiba é cinza, organizada, funcional. Praticamente tudo que quero ser. Cidade racional. Lá você é bem tratado em todos os lugares, um lugar ótimo para sentir frio, ser você sem precisar ser simpático. Ninguém espera que você seja simpático e é ótimo não precisar ser simpático. A cidade clama para que você siga o regulamento, um regulamento não escrito e bem seguido e a vontade de segui-lo é imensa. Pessoas que não se comportam bem, que não sabem conviver em sociedade deveriam ser condenadas a viver em Curitiba. Se o que falei até agora pareceu uma crítica, na verdade foi um elogio. A cidade funciona, é viva e é organizada, é criativa sem sufoco nem choro, não existem imprevistos em Curitiba!

Maringá é amarela, quente. Cidade planejada com burburinho, trânsito; planejada sem desenhos mirabolantes nem segregação radical. Planejada para ser cidade, com gente, com gente real, com carrinho de cachorro quente na calçada; um lugar onde você pode atravessar fora da faixa de pedestre como em qualquer outro lugar do mundo (exceto Curitiba). O calor move a cidade, todo mundo parece estar na rua o que deixa a cidade com um aspecto feliz. Ás vezes o calor irrita, irrita saber que todos os filmes em cartaz são dublados, que os restaurantes fecham cedo e que se você não estiver de bom humor com certeza será mal atendido. O imprevisto nasce da entropia gerada pelo calor, calor continental. As características das pessoas se agigantam no calor, e o bonito se torna mais bonito, o feio mais feio e o calor acaba deixando a cidade sexy. Acho que “Corpos Ardentes” poderia ter sido filmado em Maringá. Quando amanheci na cidade lembrei do filme.

Voltei para São Paulo achando que esses dois Paranás não poderiam coexistir, mas talvez a diferença seja a graça de tudo, são diferenças complementares. É um pouco esquizofrênico mas encontrei-me em ambas!

terça-feira, setembro 22, 2009

Livros

5 livros que eu vou ler antes de morrer:
  1. A Montanha Mágica;
  2. O Tempo e o Vento (completo);
  3. Em busca do tempo perdido (este eu ainda vou ler em francês);
  4. O Segundo Sexo (acho melhor ler este em português mesmo);
  5. Dom Quixote (foi um dos presentes mais bonitos que já ganhei, mas ainda não li);

5 livros que eu vou reler antes de morrer:

  1. Quarup;
  2. Este lado do Paraíso;
  3. São Bernardo;
  4. Os Maias;
  5. O Primo Basílio.

5 livros que eu tenho certeza que não lerei até morrer:

  1. Ensaio sobre a cegueira;
  2. Grande Sertão: veredas;
  3. Veias Abertas da América Latina;
  4. O Ateneu;
  5. Amor de Perdição.

5 livros que eu me arrependo até a morte de ter lido:

  1. O terceiro travesseiro;
  2. Lucíola;
  3. Enquanto a Inglaterra dorme;
  4. Sonetos de Bocage;
  5. Minutos de Sabedoria (na verdade não sabia o que por no quinto item)

terça-feira, setembro 08, 2009

À obstrução!

Não sei se fico mais indignado com a situação ou com a oposição. É absolutamente inadmissível que o governo outorgue, e a palavra é essa mesma enquanto vigorar a urgência declarada pelo presidente, um marco regulatório para o Petróleo, atropelando o Congresso e a Sociedade. Um marco arcaico, estatizante, que será corroído pelos mesmos companheiros que estão aparelhando o Estado brasileiro.

Concordem ou não com o marco regulatório em vigor, ele tem uma coerência em todos os campos onde a constituição permite a regulamentação e foi tema da campanha presidencial de 1994, tema de discussão no congresso durante todo o biênio 1995-1996. Pode-se gostar dele ou não, mas ele é uma conquista democrática legítima. O que se está querendo fazer com a quantidade absurda de propaganda e a urgência num novo marco regulatório é impor um modelo à sociedade que ela não tem o direito de discutir. Assim como foi a fusão da Oi com a BrasilTelecom, destrói-se uma peça jurídica construída democraticamente e a substitui por uma peça de propaganda onde não se dá o direito da Casa do Povo e da Federação analisá-la. É uma atrocidade à democracia o que está acontecendo e o governo Lula é o grande arquiteto deste autoritarismo.

No entanto, choca-me ainda mais o papel do PSDB nesta história. Agora é a hora da obstrução, é no parlamento que se conseguirá tirar a urgência deste projeto, que não é um projeto de marco regulatório e sim um projeto de ditadura vindoura. A defesa da democracia, além do aparelhamento do setor do petróleo é o que está em jogo; à oposição cabe a obstrução, que é prática parlamentar legítima. É necessário forçar o governo à negociação.

O Partido Republicano tem conseguido destruir a aura de Obama exatamente nas contradições, atropelos e desrespeitos que este, na ânsia do novo, está impondo à uma sociedade acostumada à democracia. Nós não temos ainda trinta anos de retorno democrático, mas a oposição deve ser a fiel defensora das nossas liberdades. É necessário mostrar que o governo Lula está destruindo uma opção que a sociedade brasileira fez em 94! Não é possível ser dúbio em horas tão decisivas!

O chavismo está muito próximo, e agora terá até aviões franceses nos próximos desfiles. O preço da liberdade é a eterna vigilância e a oposição deve ser vigilante a fim de lembrar o governo que ele vive sob o Estado da Lei, cuja lei ele sabota, violando direitos individuais como o do caseiro e absolvendo seus comparsas com os votos de 7 indicações que fez no Supremo. Vigiemos!

sexta-feira, setembro 04, 2009

No tan Buenos Aires

Ayer miré a una película argentina antigua, del inicio de la decadencia argentina pos-Perón. Pues bien, lo que más me impresionó en ella fue cómo se puede mirar Buenos Aires desde allí con los mismo ojos con que la miré en julio cuanto estuve allá. Tanto el Kavanagh, la Plaza San Martín, la Torre de los Ingleses, las baldosas rotas en las veredas, estaban todos allá en la película, cómo si no hubiera pasado casi cincuenta años entre las dos miradas.

Así como en las otras películas que he mirado, no sólo en la Muestra, como en los pocos filmes que llegan desde Argentina hacia acá, se consigue hacer un contorno del significado de ser argentino, que quizás sea más homogéneo do que el ser brasileño. No que homogéneo acá signifique más sencillo, porque lo único que no se puede decir del argentino es que sean un pueblo sencillo, pero que su complejidad sea más radical y esto por si sólo nos permite mirar a los detalles.

Si en él parágrafo arriba lo puse de un modo amplío, ahora lo puedo hablar de estas contradicciones que hacen la complejidad de los argentinos que están presentes tanto en las películas de los sesenta (algo como una nouvelle vague argentina) como en el nuevo cine argentino. Así como se hacen una autocrítica brutal, dejando clarísimo la naturaleza de un país de oficinas y jubilados, una clase media con valores un poco conservadores y hasta al límite reaccionaria, pueden traer también temas muy delicados como el aborto, el divorcio, la eutanasia y las discusiones familiares que no podrían venir al telón se no hubieran sido puesto bajo a la luz de la autocrítica.

Por ser así, a mí, me parece mucho más realista una película argentina de los sesenta que habla del aborto bajo esta mirada sobre la sociedad que una brasileña que quizás no tenga la misma radicalidad en su complejidad. De ser así, nuestras películas traen consigo algo de artificial, que puede ser resultado del facto de hacer falta esta crítica que es cara a los argentinos o, lo que sería más lastimoso, quizás porque no hago parte del universo de los temas de las películas brasileñas.

No puedo negar que mismo en la crisis, como en las luchas, los piquetes y con la ya famosa decadencia de Argentina, todavía es un país que me encanta. Puede ser que el castellano de este texto sea tan trucho como mi análisis del cine argentino, pero al mirar las películas, lo quise escribir algo en castellano, un homenaje a uno de los lugares que más me siento bien.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Por um vento liberal

Todo sendero tiene su atolladero

Essa história do pré-sal talvez possa ser a alavanca necessária para começarmos a discutir o país que queremos. Não acredito nem ideologias, nem em Estados inventados, nem em Dom Sebastião saído do mar. Estado é construção, mas para construir é preciso discutir e infelizmente nestes últimos 7 anos o que menos fizemos foi isso, discutir. Não só por culpa do presidente e do oficialismo, mas também por falta de vontade da oposição em fazer oposição à um presidente popular, esquecendo que foi a vontade do povo, pelo voto, que fez da oposição, oposição!

A questão não é tão complicada assim, ela só precisa ser feita. Hoje temos um Estado do tamanho do Estado que tínhamos pré-Fernando Henrique, um Estado que se agiganta, que gasta com o funcionalismo, na crise e na prosperidade, que aparelhou toda e qualquer instituição do Estado, expurgando a contradição dos palácios e departamentos. Ao mesmo tempo, ao criar uma ilha de fantasia no serviço público federal, sugou para dentro dele todo o potencial inventivo, capaz de criar empreendimentos e fazer o setor público prosperar; afinal o governo federal paga seis vezes mais que a iniciativa privada. Não é a toa que hordas de estudantes recém formados em universidade públicas se dediquem dia e noite a ter um carguinho federal onde daqui a algum tempo terão direitos adquiridos e o patrimonialismo nosso, antropológico, cultural, fará que o governo governe para essa casta que se apoderou do Estado e não para seus pobres filhos que o sustentam.

Para os que não fazem parte da casta, fica um discurso dúbio, onde se mantém um sistema financeiro turbinado com juros altos, rebaixa de impostos para combater a crise e bolsas a disposição dos que não são da casta, nem do setor produtivo e nem do financeiro. O presente se torna fantástico, afinal o desemprego cai e a renda aumenta, mas por incrível matemática o rendimento pelo trabalho cai, a participação do trabalho na renda nacional cai mais ainda e o orçamento começa a fazer água. Nos anos 70 tivemos um ciclo de Brasil Grande que desaguou na crise dos 80. Qual o custo desta farra fiscal? Ele vale essa felicidade presente?

Eu duvido. Talvez seja um dos poucos que se mantém fiel à onda de 94. Não quero um Estado ator, quero um Estado planejador. Pouco me importa se a renda do óleo extraído venha da Petrobrás ou de qualquer outra, desde que se pague os impostos e royalties devido (sem tentar passar a perna na receita). Muitas são as demandas, cada dia crescem mais, na velocidade em que crescem os interesses difusos e coletivos, mas ao mesmo tempo que cada vez mais atores entram em cena, o espaço orçamentário é o mesmo e é preciso um choque de consciência e de democracia para fazer este arranjo sem empurrar com a barriga a decisão. A decisão deve ser feita na eleição, não deve ser escondida da eleição. Decisões implicam em tomada de consciência e muitas vezes na não-satisfação dos desejos, mas adultos trabalham com suas frustrações. Tentar atender a todos num malabarismo que nos levará a inflação e ao populismo é infantilidade.

Questões como o déficit da previdência, o agigantamento do setor público, a diminuição do papel do trabalho na renda nacional deve ser discutida e não escondida por um presidente popular que é popular porque fala o que todo mundo quer ouvir. Arma-se uma bomba, uma hora a bomba explode. A falta de discussão é prejudicial à democracia e somente facilita um clima de qué se vayan todos presente em todos os cafezinhos públicos e privados.

Chegou a hora de decisões. Haverá alguém para tomá-las? Em Gracias por el fuego, há conversa numa festa um dos personagens diz que para o Uruguai só haveriam dois caminhos: Fidel ou Stroessner. Não acredito que nosso leque de opções seja tão radical e restrito assim, mas uma hora teremos que escolher entre Cristina Kirchner ou Michele Bachelet. Eu vou de Bachelet, e você?

sábado, agosto 29, 2009

Isabella Rossellini

Acabei de assistir um filme ótimo. O filme em si merecia um texto longo, com detalhes, tentando abrir metáforas perdidas, explorando toda a psiquê, etc. No entanto, não conseguia tirar os olhos da Isabella Rossellini no papel de uma mãe judia.

Como o tempo é triste. Para mim a Isabella Rossellini vai ser sempre aquela mulher um pouco sapeca de “Um toque de infidelidade”. Acho que uma das sessões da tarde mais inteligentes que a Globo já passou.

No entanto, a garota Isabella Rossellini agora é uma mamãe judia. É praticamente um ícone de juventude que se perdeu. Saí do cinema me sentindo velho.

quarta-feira, agosto 26, 2009

O grande risco das pequenas mentiras

Sempre acreditei na afirmação do título e até já tive provas de que realmente é verdade que as pequenas mentiras trazem consigo mais riscos que as grandes. Quando se mente por muita coisa, os detalhes se tornam maiores e mesmo uma contradição pode passar desapercebida pela grandiloqüência da história. Quando se mente pequeno, por comezinha que é a mentira, se ela suscita dúvidas, os detalhes desmontam o castelo de cartas. Mesmo porque se já existe uma dúvida em coisas corriqueiras, a credibilidade do mentiroso já está desvendada a priori.

Neste caso, dona Dilma está se mostrando uma filha que não aprendeu direito as lições do pai. Sempre que alguém pôs sob mácula a imagem do seu mentor e mestre, ele soube através da grandiloqüência e de um certo sebastianismo afastar-se dela, mesmo que a sombra pairasse sobre seus companheiros de luta que cada dia que passa se transforma e se deforma. Dilma não, mente por pouco, e como desconfia-se do pouco que faz, seus pequenos enganos vão aparecendo, assim como um título de doutora que ela não tinha, assim como um encontro que ela diz que não teve e que não teria porquê provar, assim como aceitou que até poderia provar que não o teve se tivesse os registros, assim como o contrato de segurança indica que não se pode apagar os registros e sic transit gloria mundi.

Não acredito que aqui chegaremos a histeria de uma mentira boba quase derrubar um presidente como foi com Clinton, mas será que somos tão amigáveis às pequenas mentiras a ponto de elegermos uma pequena contadora de histórias?

Os governos passam e a administração pública fica

Começo a sentir orgulho da Receita pela prova de lealdade à administração pública que seus funcionários estão dando ao pedirem exoneração dos cargos de confiança. Isso mostra o quanto este governo interfere na burocracia para auxiliar seus amigos. Assim aconteceu na Fazenda quando para defender Palocci abriram o sigilo bancário do caseiro acusador ou quando o ministro Hélio Costa pressionou a Anatel a aceitar a fusão da sócia do filho do presidente contrariando a lei e o espírito da privatização da telefonia. Também podemos lembrar que esta série de exonerações forçadas ou voluntárias começou para proteger a Petrobrás, totalmente loteada, de ser autuada pela Receita.

Enfim, a administração pública fica e este governo quer ficar per omnia secula saeculorum se enraizando na administração, na boquinha amiga e companheira.

domingo, agosto 23, 2009

Chega de Saudades

Sabe quando você assiste a um filme e fica com ele na cabeça por muito tempo? Infelizmente eu tenho uma mania horrível de assistir várias vezes esse tipo de filme e fico querendo enxergar mais neles do que acho que eles se propuseram a mostrar.

Pois bem, Chega de Saudades é um filme que eu já devo ter assistido umas 10 vezes. Durante todo o tempo que esteve nos cinemas nunca consegui assisti-lo, de repente, por causa de um erro das Lojas Americanas ele chegou na minha mão. Um presente numa hora errada que chegou errado, no entanto o filme acabou sendo perfeito para àquela hora.

A idéia de velhinhos dançando pode ser meio prosaica, mas o filme é muito mais que isso, o jeito que as histórias se entrelaçam com a trilha sonora, tudo como se fosse um baile acontecendo é fantástica. Concordo com o roteirista que talvez as pessoas mais lúcidas e bem resolvidas daqui de São Paulo estão dançando às 5 da tarde.

Sem contar a Elza Soares cantando Lama numa das cenas mais marcantes do filme.

Ao fim, você encontra no filme alguns paralelos tão interessantes com a vida moderna vividos por personagens que não vivem esta tal da vida moderna. Lembra-me um pouquinho os bailes que minha mãe e meu pai iam e acabavam levando a mim e ao meu irmão. Não eram Bailes da Saudade, mas as músicas eram músicas de baile e minha memória musical é muito melhor que a visual.

É um filme de gente que você vê todos os dias e esta “vida metropolitana e cosmopolita” faz com que não o enxerguemos.

Domésticas – O filme.

Engraçado, não tinha reparado numa cena de Domésticas que pega o gancho com a última frase do texto sobre o Chega de Saudades. É fantástica a cena quando o lavador de carro fica preso no elevador e que não o acham porque o morador do prédio não sabia o nome dele e como reação ele picha o prédio inteiro com seu nome. Absurdo que existam grupos tão marginalizados que precisam gritar para que os enxerguemos.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Serra, cuidado para não ser Carlos Sampaio!

A analogia surgiu hoje de manhã numa discussão sobre 2010, mas não acho impossível que o espectro maligno que levou Doutor Hélio a prefeitura de Campinas em 2004 não possa fazer de Ciro Gomes o próximo presidente do Brasil.

A conta é simples. Serra é o único candidato da dita “direita”, enquanto a dita “esquerda” vai com todas seus matizes para a campanha: Dilma, Ciro Gomes, Marina Silva e Heloísa Helena. Serra lidera o 1º turno inteiro enquanto Dilma e Ciro Gomes se engalfinham para ver quem vai ao segundo turno, com toda a baixaria que sabemos que um é e que já temos indícios que a outra será. Passado o 1º turno, eles voltam a ser amiguinhos, o PT, que não apóia nem o candidato deles (vide Luisa Erundina e Jacó Bittar) apóia Ciro Gomes e ele leva no segundo turno.

Em 2004, Doutor Hélio e Luciano Zica brigaram o que puderam, com a figuração de Petterson Prado e Jacó Bittar. Passou Doutor Hélio e o PT nacional foi o maior doador da campanha no segundo turno.

Não sei que conselho dar, não vale a pena entrar na lama, mas não fique também de salto alto!

E se nada mais der certo...

Bem, se nada mais der certo, faça um filme bem ruim, com muito palavrão, umas figuras estranhas, peça patrocínio da Ancine, chame uma estatal para patrociná-lo deduzindo o Imposto de Renda pela Lei Rouanet e você ganhará uma graninha. Afinal, com esta modinha alternativa, sempre haverá alguém para vê-lo, e como o filme já está pago, se um modernete ver seu filme, você ainda lucra!

O preço da liberdade é a eterna vigilância!

É um absurdo o governo federal fazer propaganda dentro do cinema, não só o faz como governo federal, como ainda põe mensagens em propagandas das estatais. O governo federal é mais presente no filme do que o próprio filme.

Então ficamos assim, os gastos do governo com funcionalismo sobe à mesma proporção que eram em 94, o salário no funcionalismo público federal são 6 vezes maiores do que na iniciativa privada. Os companheiros ocuparam todos os cargos possíveis e imagináveis e meu rico dinheirinho, suado, sofrido ainda paga filme de quinta categoria!

O chavismo está perto. O espírito está pronto, mas a carne é a fraca. Vigiemos!

domingo, agosto 09, 2009

Onde estava Aloízio Mercadante??

Segue coluna do Clóvis Rossi na Folha de hoje. (não sei sobre a legalidade de dar um corta e cola numa coluna de um jornal, mas não queria por só o link)
Talvez a coluna responda a grande questão desta semana: por que Aloízio Mercadante (e Ideli Salvatti) viram toda a baixaria de seus gabinetes e não atuando como líder do partido do governo e como líder do governo??
CLÓVIS ROSSI Pena ou desprezo?

SÃO PAULO - Chego a sentir certa pena do senador Aloizio Mercadante, o líder do PT no Senado, quando ele diz que o motivo que o levou a fugir do plenário na quinta-feira é este: "Não queria ver minha foto naquela moldura".
Pena, senador, que sua foto já esteja naquela moldura desde que aceitou silenciosa, mas gostosamente, a aliança de seu partido com algumas das figuras mais deploráveis da política brasileira.Ou Mercadante não participou ativamente da campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, ano em que Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello estavam lado a lado, praticando as infâmias arquiconhecidas?
Não creio que o senador petista tenha uma formação tão religiosa que lhe permita acreditar no arrependimento dos pecadores. Portanto, só aceitou conviver e ser "companheiro" de Collor e Renan (para não citar uma bela quantidade de outros não menos deploráveis) em nome de agarrar-se ao poder a qualquer custo, mesmo que seja um custo deplorável.
Mercadante foi, durante as campanhas presidenciais do PT, a melhor fonte sobre assuntos econômicos. E melhor aí é, sim, juízo de valor, embora muita gente, inclusive no próprio partido, faça severas restrições aos conhecimentos do hoje senador.
Muito bem. Após a posse, Mercadante foi escanteado. Um dia, em almoço no Itamaraty para o então primeiro-ministro japonês Junichiro Koizumi, sentamos à mesma mesa e ele me disse que se sentia "emparedado", porque tinha críticas, mas a lealdade ao chefe o impedia de fazê-las.
Calou-se tanto, renunciou tanto a pensar com a própria cabeça que termina obrigado a homiziar-se em seu gabinete para não aparecer na foto ao lado do "companheiro" Renan, sob a presidência do "companheiro" Sarney.
Merece piedade ou desprezo?

terça-feira, agosto 04, 2009

Foi apenas um sonho

Ainda estou sob efeito de Foi apenas um sonho. Já haviam me falado que era bom, mas não sabia que me causaria tanto impacto. Que filme bom!

Engraçado é perceber, e aceitar, como as pessoas fogem da mediocridade. Somos todos os dias bombardeados de casos de sucesso, de proezas inimagináveis, de belezas inatas e construídas que diferenciam as pessoas, ao mesmo tempo em que caminhamos cada dia mais para a massificação.

Fico meio receoso em usar a palavra massificação uma vez que estamos cada dia mais na era da diferenciação social, dos interesses difusos e coletivos, mesmo que ainda haja a polaridade burguês-proletário, há tantos tipos de burgueses e tantos tipos de proletários que não se pode mais tratá-los como o Manifesto Comunista os tratava. (esse parágrafo é uma tentativa de justificar o massificação, já que realmente não estamos mais tão massificados assim...)

Posto isso, ao mesmo tempo em que se foge da mediocridade com a idéia de que qualquer um pode ascender à glória por seus próprios meios, seja ele do talento, da beleza, da inteligência, o caminho que nos é dado é um só. E esse caminho que poderia nos tirar da mediocridade, tende a nos levar a ela.

Afinal, ganharás o pão com o suor do seu trabalho e há de ter responsabilidades, e tudo isso pode solapar de vez qualquer talento, beleza e inteligência que poderia vir a trazer uma realização plena.

Aí entra o filme. Quando você acha que o casal romperá o estilo de vida. Onde sofrem a reprovação de todos do seu convívio social e ao mesmo tempo os fazem repensar seus próprios modos de vida. O casal não consegue romper o ciclo. O casal não, o marido.

Triste busca incessante esta a da felicidade. Pelo menos a diferenciação nos dá a graça de criarmos nichos alienantes que podem nos dar a idéia de sermos bons e diferentes, mesmo dentro da geléia geral.

(Que textinho marxista, não o imaginei assim, mas é uma forma de análise, ou não)

domingo, agosto 02, 2009

Instantâneo

Eu sou assim, pelo menos por agora. Ando a procura de paixões, ancorado em algumas poucas certezas e em busca de novas dúvidas. Há dez anos não sabia falar inglês e continuo sem saber. Fui bom em matemática e hoje não sei cálculo. Quis aprender francês e agora quero aprender fotografia. Engenheiro por acidente, observador de nascimento e católico por persistência. Sou assim, agora.

Amanhã posso ser fotógrafo, talvez demógrafo. Oxalá aprenda o maldito inglês. Quiçá seja católico ou vire astrólogo. Enquanto não decido, continuo um engenheiro observador e católico que não sabe mais cálculo, nem tirar fotografias, à procura paixões, ancorado na certeza de que não sabe falar inglês e que precisa aprendê-lo, mesmo tendo vontade de aprender francês e fotografia.

sexta-feira, julho 31, 2009

Segunda Onda e Baader-Meinhof

No artigo do Gabeira hoje na Folha ele comentava sobre uma segunda onda democrática, superando esta primeira onda que se esgota com o fim do governo Lula. Se na primeira onda tivemos a consolidação da democracia com eleições diretas regulares, “uma política econômica realista, uma generosa política social”. A próxima onda será a da responsabilidade diante da transparência, além das demandas sociais que cresceram (com a economia e com a democracia) e com uma nova abordagem de como os políticos irão absorver e dirigir essas novas demandas.

Ponho aqui também uma questão de liderança, e talvez de espírito. Afinal, acho que esta nova onda deve vir com um propósito, seja ela bolivariano ou extremamente liberal, acho interessante que ele tenha uma meta e não viva do dia a dia. Acho importante caminharmos numa direção, não decidir no dia a dia. Não que uma idéia prevalecerá, mas termos líderes com propósitos e ideais pode gerar um debate interessante que falta hoje em nossa democracia.

Neste ponto entra o link com o filme que eu acabei de assistir. O filme é “Baader Meinhof” e é sobre o grupo terrorista que surgiu no seio de uma das nações com um estado de bem estar social mais bem desenvolvido e que nem por isso surgiu dentro de sua juventude uma geração contestadora que acabou indo para a luta armada em torno de uma revolução cujos motivos eram tão fluídos que se torna um mistério.

Na verdade todos os acontecimentos de 68 parecem para mim como um delírio coletivo do ocidente. Uma contestação de tudo e da própria ocidentalidade (engraçado, acho que durante todo o século passado todos os intelectuais só enxergavam a decadência do Ocidente). Ao fim, num misto de sonho, de uma utopia difusa que negava a individualidade em busca de uma liberdade não muito explicada.

Acho que os filmes tratam esses acontecimentos de 68 com um certo romantismo, afinal a juventude é uma coisa bela de se observar e em 1968 eles tomaram conta do mundo, subvertendo valores, mas foram pouco eficientes nos seus objetivos. Afinal, todas as revoltas impediram a implantação de um governo do Willy Brandt de tentar um governo que conseguisse implantar uma forma de representação que incluísse os jovens, impediu o PCI de chegar ao governo, reforçou o gaullismo na França e de rasteira destruiu a socialdemocracia nos Estados Unidos e na Inglaterra trazendo a Era Reagan e Teatcher.

Sobre o filme....

Bem, filmes alemães são ótimos sempre, eles não oscilam como os franceses, então se você vir em cartaz um filme alemão, assiste. Mal não vai lhe fazer! Sem contar que o final dos 60 e começo dos 70 são fantásticos, de música, de estética. Vale a pena o filme.

terça-feira, julho 28, 2009

Timing

Hoje eu cheguei adiantado no tempo. Corri para que o tempo passasse correndo, corri tanto que o ultrapassei, sem olhar para o lado, como se fosse a luz, num caminho reto e certeiro corri e passei do ponto. Não consegui achar nada que me difratasse, que me multiplicasse em outros espectros que conseguissem dar conta desta ansiedade que me fez passar do tempo. Cheguei adiantado. Ganhei do tempo e perdi tempo.

Sensação estranha para quem sempre se sentiu atrasado. Cheguei adiantado no tempo e isso não me trouxe nada mais que uma trajetória perfeita como a da luz, que corre o ultrapassando; talvez um espelho me fizesse retroceder, mas aí seria um retrocesso no espaço, não mais no tempo. Cheguei adiantado, poderia mudar o meio; a trajetória se tornaria mais lenta e o mundo me alcançaria. Talvez, novos meios, novos ares, novas analogias que não sejam tão rígidas como a luz e o tempo.