segunda-feira, agosto 30, 2010

Verde Tucano

Bastou uma semana de ar seco e poluição excessiva para que eu mudasse minha vontade de estabelecer no primeiro turno a vantagem dos tucanos em São Paulo para tornar-me um tucano convertido em verde. Votarei em Fábio Feldman para governador do Estado.

É bem simples, como um Estado dinâmico, capaz de transitar da economia industrial para a pós-industrial (tema controverso já que o setor serviços e tecnologia ainda estão ligados ao setor industrial, mesmo que possa empregar mais e movimentar mais dinheiro já li um punhado de artigos e livros que dizem que este ainda está ligado a produção desumanizada do setor industrial e eu sou crédulo no que leio), ainda se prende à padrões de desenvolvimento da era industrial? Se não fosse assim, os congestionamentos não ocupariam esta posição central na vida e nas conversas dos habitantes da cidade ao mesmo tempo em que a cidade emplaca cada vez mais e mais carros. A poluição combinada com o ar seco trouxe um tom alaranjado a todos os problemas ambientais da cidade e deixou em evidência como esta cidade está se tornando insustentável (se já não for).

Ao contrário da Alemanha onde o governo Schröder conseguiu uma aliança verde-vermelho, os vermelhos brasileiros ainda pensam num desenvolvimento pela via polonesa (se é que existe um desenvolvimento polonês, talvez um russo). Não existe a preocupação ambiental, e isso se vê quando as alavancas para estancar a crise passam por alternativas totalmente não-ambientais como a diminuição do imposto sobre automóveis e o aumento do crédito que propiciam a compra bem como o estímulo a um estilo de vida totalmente não-sustentável como símbolo de mobilidade social, quando deveríamos promover tanto aos ingressantes da famigerada nova classe média, como os já pertencentes a ela um estilo de vida sustentável.

Soma-se a isso a sucessivas investidas do governo contra os órgãos ambientais, que graças a Constituição de 88 prezam pelos interesses difusos e coletivos e que por isso trabalham com mais variáveis que a única variável do governo, a eleitoral. Não se pode esquecer também a alteração do Código Florestal, criado no governo Castello Branco, representava o estilo daquela época, modificado no governo Collor, trouxe avanços na proteção ambiental, destruído no governo Lula, mostra como o governo enxerga esta questão.

O governo de São Paulo teve uma visão distinta, conseguiu produzir à política estadual de combate as mudanças climáticas, além de manter-se fiel a Lei Trípoli, que por mais controversa que fosse, permite a participação da sociedade nas decisões do meio ambiente, bem como a preservação dos interesses difusos e coletivos. Sendo eleitoreiro ou não, o grande investimento nos transportes de massa também representa um avanço, mesmo que o mesmo nível de investimento tenha sido feito para os transportes individuais.

Uma vitória do Mercadante representa uma piora da questão ambiental, afinal seu discurso está ligado ao pedágio, enquanto o de Alckmin, uma continuidade da atual gestão. Votar em Fábio Feldman significa avançar numa idéia de desenvolvimento sustentável, que passa pela transformação do modus vivendi da sociedade bem como um incentivo a economia criativa (eu realmente adorei este conceito). É necessário mostrar a força de uma idéia, e esse é o voto do 1º turno, o 2º turno, se houver, se decidirá ao seu tempo.

O pós é o anti

Fico impressionado como o Estado do Rio de Janeiro se converteu ao Sérgio Cabral, não é nem a um ismo, já que não existe um cabralismo (como não existia um garotinhoismo). O Estado que foi criador e perpetuador de conceitos, como o Socialismo Moreno, (filho dileto do Brizolismo), que na contramão de sua política oposicionista, elegeu em 1994 Marcello Alencar governador, alinhado com a era FHC; com a ajuda dos anti, virou o pós, o anti-tucanismo raivoso dos petistas trouxe a inviabilidade deste projeto no Rio, a própria raivosidade petista, impediu também a própria viabilidade de um projeto petista com a débâcle do petismo na junção como brizolismo não tão brizolista de Garotinho em 1998.

Então se criou o seguinte quadro, para superar o brizolismo que criava os quadros políticos para logo em seguida retirar o suporte destes, foi preciso que estes quadros que foram engolidos por Brizola o superassem. Alencar, pela adesão ao projeto tucano; Maia, por um processo personalista; Saturnino Braga se encontrou no PT e Garotinho foi o resultado dialético do anti-brizolismo e do brizolismo. Conseguiu até juntar-se à Moreira Franco, que era o anti-brizolista.

Após um período Garotinho/Rosinha, conseguiu-se a união de todos os anti. Os anti-tucanos, os anti-petistas, anti-brizolistas e anti-garotinhos se encontraram no pragmatismo voraz de Sérgio Cabral, que trouxe a reboque um Eduardo Paes, parido de César Maia, criado no ninho tucano e desabrochado nesta nova ordem de Cabral. É incrível que o Estado do Rio de Janeiro esteja neste projeto que só se define na negação de outros, que é incapaz de ter uma marca, não é socialismo moreno, embora utilize algumas de suas armas, não é social-democrata à Marcello Alencar, embora também utilize de suas armas; não é truculento como Moreira Franco, mas também utiliza seu discurso, é um amálgama do anti, que se corrói de inveja do a favor.

Acho que aí vem o contraponto maior: Denise Frossard, Gabeira e César Maia. Você não precisa concordar com eles, mas sabe sobre o que eles estão falando. A estes, existe um limite da ideologia, de suas próprias estratégias. Os anti-eles estão com Cabral, desde uma política à moda antiga do Senador Dornelles, ao comunismo-stalinista de Jandira Feghali, o petismo de Lindbergh Farias, a religiosidade de Marcello Crivela, até cabe o Wagner Montes. Enfim, eles não representam nada, só são contra algumas coisas, e são contra até em coisas que outros da mesma aliança não são contra.

Eu acho que o tão falado pós-Lula, será como no Rio, uma união de quem é contra. Que triste fazer política na negação.

(Mutatis mutandis o mesmo acontece em Campinas, Doutor Hélio é a união de todos os anti-qualquer coisa).

domingo, agosto 22, 2010

Guarda-roupa

Vamos comprar um guarda roupa novo? Daqui a pouco chegam suas malas, suas roupas e seus livros, e aí teremos que guardar tudo, ou podemos deixar tudo sem guardar para comemorar a chegada, depois guardarmos tudo no seu lugar. Não é necessária uma data, a certeza basta, e com certeza se compra um guarda-roupa novo, que não será o centro da casa, mas será o começo de uma nova casa, com novas roupas e novos livros. Vidas novas têm vários símbolos e a nossa vida nova é um guarda-roupa novo, onde estarão nossas roupas, nossas malas e nossos livros, algumas mensagens nas portas e novas roupas e livros.

domingo, julho 25, 2010

Lenine

A ideia não é nova, mas realmente eu acho que se existe um cantor que simboliza a cidade de São Paulo é o Lenine. Em nenhum momento ele nega que é pernambucano, ele é um símbolo do Recife, e aí torna mais simbólico o fato que para mim ele lembra a cidade de São Paulo. Acho que ele decifra seus habitantes e a cidade muito mais que Sampa do Caetano (embora não roube um certo ar romântico de Ronda ou de Adoniran Barbosa).

Eu sou um pessimista sobre os anos que vivemos, acho que perdemos o tom da modernidade que entrou avassaladoramente nos nossos discursos nos anos 90, anos em que forjei minha identidade (ainda a forjo, mas o grosso foi feito no segundo mandato de Fernando Henrique, sou produto do segundo mandato do Fernando Henrique). E aí que entra o Lenine com letras modernas, urbanas, facilmente assimilável por quem habita a cidade, por quem vive a cidade. Cantando coisas da cidade.

Hoje no show no shopping Anália Franco, onde a cidade está se forjando sobre o signo dos 2000, onde a modernidade sai de cena para o progresso descomprometido ideologicamente, foi muito bom encontrar-me com meu espírito de modernidade comprometida (mesmo que o comprometimento seja diametralmente oposto).

Valeu o show, me diverti muito.

Muito tempo, pouco tempo

Neste mês de julho praticamente não consegui escrever aqui no blog. Não que não tivesse ideia do que fosse escrever (embora pelo que andei relendo estou me repetindo demais), mas tive problemas operacionais tremendos como ora falta de computador, ora falta de internet, nas duas últimas semanas falta de tempo.

É praticamente uma sensação de transição onde ainda não sei bem qual será o papel do blog. Mas por que escrever no blog? A resposta é mais para treino de retórica, documentação de idéias e pelo prazer de reler depois de algum tempo e verificar como eu estava. O blog é uma fotografia do meu pensamento.

Que fique bem claro que eu pensei neste tempo que não escrevi, só não tirei fotografia.

Vou deixar os temas em aberto sobre o que eu queria escrever e depois se um dia eles voltarem a me preocupar, eu escrevo sobre eles. Tento fazer uma pintura da fotografia que não foi tirada.

Sobre o que não escrevi e pensei em escrever:

Existe um Destino Manifesto nos paulistas? Qual a melhor forma de verificar isso?

(sobre o 9 de julho e as críticas a festa)

Vou votar na Marina!

(Por que um discípulo do discurso de despedida do Senado de FHC adotou o verde)

É o Paraná, Estúpido!

(sobre a necessidade do Álvaro Dias ser vice do Serra).

Luciano Hook é o Sérgio Cabral na TV

(basta assistir o programa e olhar para o governo)

domingo, junho 20, 2010

Local e Global: Metropolitano

Um assunto extremamente importante passará em branco na campanha eleitoral deste ano: a organização do espaço metropolitano. Sendo institucionalmente um espaço de ação dos três níveis de poder, essas regiões expressam em si mesmas todas as contradições do capitalismo tardio, bem como os reflexos da revolução tecnológica. É palco dos conflitos de diversos interesses e ainda também é um conceito contraditório já que traz em si uma comunidade de mais de 20 milhões de habitantes, como na Região Metropolitana de São Paulo.

Se a organização regional, e metropolitana, é da órbita dos estados, as relações que se estabelecem entre os municípios, relações derivadas de uma organização econômica que extrapola esse espaço, são municipais. Pensar o metropolitano exige ir além dos municípios e dos estados. Qualquer ação municipal, por menor que for, interfere na lógica regional, já que esta é muito complexa e integrada. Qualquer decisão de cima para baixo, desarranjará o equilíbrio micro.

É importante ressaltar as qualidades da organização das regiões metropolitanas baseadas nos municípios, porque nessa esfera de poder encontram-se, ou podem se encontrar, os conflitos fundamentais da comunidade. Imaginar um esvaziamento dos municípios em favor do estado para melhor organizar o espaço metropolitano é antidemocrático. No entanto, o estado tem papel nesta organização e acabe a ele representações relevantes. Mesmo sendo a organização do espaço metropolitano uma determinação econômica que não é controlada por nenhum destes entes, a ação mediada pode trazer mais qualidade para essa determinação econômica estabelecida fora deles (esse fora deles não é metafísico, mas sim algo que está além, que é a própria organização da sociedade capitalista – com todo risco do chavão); pode induzir soluções para os problemas derivados dessa organização econômica que criou o espaço metropolitano e ser a arena para discussão dos interesses que compões esse espaço e essa organização econômica.

Sempre penso em como criar esse espaço de mediação que não é lugar de consenso, é lugar de convencimento. Acredito que a organização dos comitês de bacias instituídos pela Política Nacional dos Recursos Hídricos, onde numa composição múltipla formada pelos estados, municípios, união e sociedade civil organizada, estabelecem-se prioridades, princípios, metas, conflitos, acordos entre todos e tudo isso é posto em prática por um órgão executivo que reflete a diversidade do comitê, que são as Agências de Águas.

Instituir o Comitê de Bacias que envolva o espaço metropolitano é o primeiro passo para se criar um pensamento metropolitano. Garante-se o local e o regional, limitam-se ambos e insere a sociedade num órgão deliberativo. A própria instituição plena do Comitê de Bacias ataca um dos principais conflitos do espaço metropolitano, o uso dos recursos hídricos, além de por uma forma indireta estabelecer algumas regras de ocupação do solo a partir do Plano Diretor de Bacias.

Com uma cunha aberta talvez se consiga dar um passo mais ousado que está sendo dado na Região Metropolitana do Recife, que é criar um consórcio de transporte. A fragmentação dos municípios e a centralidade do capital favorece que o estado capitaneie essa discussão, mas, sendo o transporte um indutor do crescimento urbano, somente uma política integrada conseguiria ir mais além, sem contar que o consórcio também traz o controle social.

A lei ambiental sendo ela aplicadas por órgãos deliberativos e consultivos é freio a ação dos poderes, bem como um espaço para atuação da sociedade.

Acredito que uma vez aplicados plenamente estes instrumentos, o debate das Agências Metropolitanas tornar-se-á mais palatável, permitindo uma experiência ainda mais radical de democracia, de planejamento e de estímulo ao poder local.

Cabe, no entanto, que essas idéias sejam implantadas, e estas idéias não são para aqueles do Estado forte, da força do Estado. É preciso espírito dos anos 90, quando estas leis foram criadas. É necessário que o Estado saia um pouco do palco para que a ação da sociedade civil apareça e se institucionalize, trazendo uma nova onda, menos burocratizante e mais participativa.

Este é um debate com alto teor de discussão que tem potencial de liberar discussões fantásticas na arena política, mas quem poderia levá-lo adiante?

quarta-feira, junho 16, 2010

Propriedade ou moradia?

Acredito que a maioria dos problemas das grandes cidades pode ser derivada do conceito de propriedade que seus cidadãos têm. Desta forma, admitem-se subsídios a compra da propriedade através de subsídios governamentais ou conjuntos habitacionais construídos a fundo perdido; sendo que ambos permitem a aquisição da propriedade. Permite-se e estimula-se o subsídio ao transporte público e aos serviços públicos essenciais. No entanto, a aplicação dos instrumentos do Estatuto das Cidades que buscam o melhor aproveitamento da propriedade urbana sofre resistência inclusive daqueles que a lei queria beneficiar (as operações urbanas consorciadas, no entanto, acabam sendo bem aceitas uma vez que não mexe na estrutura da propriedade, ao contrário do IPTU progressivo e do direito de preempção).

Podemos perceber isso até na forma que os movimentos de moradia agem, e principalmente no seu descolamento da luta pela melhoria do transporte público. As invasões, não só pela dificuldade de reintegração de posse, ocorrem na maioria das vezes em áreas públicas, que são consideradas áreas de ninguém, ou em áreas de proteção ambiental (estas sim podem ser privadas, mas a estas são negadas o direito de ocupação). Se considerarmos que não há muitas invasões nas regiões centrais e se somarmos o movimento centrípeto do crescimento urbano, percebe-se que a moradia só tem valor positivo como propriedade. Como o preço da propriedade urbana é menor na periferia; os que podem pagar vão para lá construir o sonho da casa própria, e os que não podem pagar, ali encontram terras “ociosas”, públicas ou privadas, que podem ser ocupadas e aí sim forçar o direito de propriedade, seja por usucapião ou pela ação do poder público em construir conjuntos habitacionais em zonas especiais de interesse social, quando constituídas.

Cabe observar que se há um movimento centrípeto demográfico, seria interessante verificar os estoques de residências, e talvez veremos um descolamento do mercado de alugueres e do mercado de residências. Além disso, a presença de áreas pouco adensadas no centro, que não são de nenhuma maneira contestada pelos movimentos sociais pró-moradia. É, para mim, uma prova de que o movimento é pró-propriedade e não moradia. Embora existam cortiços e prédios invadidos no centro decadente das cidades, esse em porcentagem são um número muito pequeno das invasões; além disso, estas áreas pouco densas não são alvo de invasões e eu acho que não é só por uma ação vigilante do Estado.

Uma alteração no valor positivo da propriedade privada e uma valorização da moradia poderiam trazer para o mercado imobiliário uma forma de ganho diferente da especulação imobiliária: o mercado de aluguel, que poderia trazer rendimentos aos proprietários da terra, assim como o juros traz para quem investe. Além disso, tendo a moradia um valor positivo, poderíamos trazer para a lei as Concessões Especiais para o Fim de Moradia, onde o Estado é o proprietário de imóveis e se torna um regulador do valor dos alugueres. Cabe lembrar, que o Estado, pelas próprias regras do Estatuto das Cidades poderia, reorganizar a cidade (não de uma maneira fascista, claro, mas de uma maneira participativa e que respeite a dinâmica da cidade, caso contrário produzirá alguns fracassos como a Operação Urbana Água Branca, no que tange aos imóveis comerciais), otimizando os serviços públicos por ele concessionados. Cabe lembrar, que um mercado regulador de alugueres pelo Estado não necessariamente precisa ser estatal, já que se permite a associação com investidores privados para empreendimentos assim.

No entanto, cabe a pergunta: o que quer o movimento de moradia? O que querem os sem-teto? A resposta a esta questão pode representar uma surpresa. Talvez queiram mais propriedade que a moradia, ou a propriedade da moradia, que só é válida se for própria. E isso seria uma contradição fantástica de ser analisada, se conseguisse ser provada.

Democracia e Eleições

Eu não tenho nenhuma dúvida sobre em quem vou votar nas eleições deste ano. Acho que em cenários extremamente polarizados é uma covardia não tomar partido, mesmo com ressalvas. Já tinha tomado partido antes da polarização e isso que poderia comprometer minha análise, num cenário como o tal, me deixa mais a vontade uma vez explicitada minha escolha.

No entanto, sinto falta há algum tempo e acredito que chegaremos ao extremo este ano da absoluta falta de debates. É como se o país só precisasse de metas, de um objetivo, quando, penso eu, o mais importante é o processo onde se definem essas metas e como se as atinge.
Sei que o discurso é batido e clichê, mas como num mundo onde os interesses são cada vez mais difusos, numa sociedade multifacetada que se agrupa e se dissolve a favor de diferentes assuntos pode sobreviver a um nós-contra-eles a que estamos sendo submetidos? É necessária uma radicalização da democracia de forma que todos os interesses possam ser discutidos e decididos.

Ao focar suas campanhas em temas centrais, onde uma espécie de consciência já criou verdades absolutas, as campanhas buscam a todos, atingem a todos, mas a poucos em específico. Se fossem levantadas bandeiras pelas quais a sociedade ainda não criou o certo e o errado, poderíamos liberar forças, anseios e desejos que talvez nem imaginemos que existam.

Neste ponto muito me agrada campanhas como a da Soninha e do Gabeira para prefeito em 2008, da Heloísa Helena e do Plínio Arruda Sampaio para presidente e governador em 2006 e agora da Marina Silva e do Gabeira para presidente e governador. Com suas campanhas mais abertas, discutindo, às vezes, temas periféricos para os ortodoxos, eles podem liberar atos falhos nesta consciência coletiva que pode ser muito mais reformista que o próprio discurso reformista.

Um discurso feminista de fato produziria discussões no mundo do trabalho, da assistência social, da saúde pública muito mais interessantes que discussões sobre o trabalho, a assistência social ou a saúde pública. O mesmo pelo movimento ambientalista, pela reforma universitária, pela progressão continuada na escola pública, para uma política energética. Somente fora do lugar comum poderemos encontrar a sociedade de fato em sua atividade, ávida por participar de discussões que a envolva e a motive. Longe do superávit, da estabilidade da moeda, da responsabilidade fiscal, do assistencialismo ou de quem fez mais ou cresceu mais.

Que sejamos vagarosos em incluir o povo no discurso, mas que sejamos fervorosos na defesa de uma democracia real e participativa, que favoreça o surgimento de movimentos sociais, não pelo financiamento do Estado, mas sim pela possibilidade de verem seus objetivos discutidos por todos.
Adoraria ver isso na República que estamos construindo!

quarta-feira, junho 09, 2010

Músicas Italianas

Tenho uma fixação por essas músicas italianas dos 60, é a breguice, é a riqueza, é toda essa contradição que é ser latino. Você pode ser do G8, mas jamais esquece suas origens!



sábado, maio 29, 2010

Eu li Madame Bovary

Transformei alguns livros em ícones, o que deixou mais difícil ainda lê-los, já que ganharam uma aura de especial, de clássico, de difícil. Madame Bovary era um deles e consegui transpô-lo.

No fim, fiquei maravilhado com o livro. Madame Bovary não tem nada a ver com Luísa. Madame Bovary é maldosa, engenhosa, além de se mover pelas paixões, ela tem uma razão nos seus movimentos que deixa Luísa no chinelo. Madame Bovary é capaz de enganar o marido dizendo que vai ter aula de piano em outra cidade para se encontrar com o amante, enquanto Luísa no máximo foge para o Paraíso com Basílio.

Além do mais, Madame Bovary teve dois amantes e ainda fez amor numa charrete! Madame Bovary quis morrer e se matou; continuou enganando Charles desde o túmulo. Luísa, simplesmente morreu louca e careca. Emma foi para o túmulo mais bonita do que quando era viva, mesmo se suicidando com arsênico. Sem contar que Emma não se deixou nem chantagear, nem se prostituir, se suicidou porque estava endividada, claro que tinha remorso, mas não foi só o remorso que a matou, como matou Luísa.

Agora a descrição de Charles é fantástica, talvez ela valha mais do que a da própria Emma. Acho que a grande crítica nem seja o Romantismo em si, mas sim o que leva as pessoas aos ardores Românticos.

No fim, talvez a burguesia portuguesa fosse mais pudica e menos cosmopolita que a francesa (tese bem trabalhada em Os Maias), mesmo que ainda seja este retrato da burguesia francesa seja a de uma burguesia de província. Mas é fantástico como o dinheiro vai entrando em todos os detalhes e como a ausência de comentários pode insinuar uma conduta moral forte.

Foi uma pena ter lido conto do Woody Allen em que ele traz Emma para Nova York antes de ter lido Madame Bovary. Se tivesse feito na sequência certa o conto seria ainda mais engraçado.

O livro merece ser lido, de alguma coisa serviu andar tanto de ônibus.

terça-feira, maio 18, 2010

À Rita Cadillac

Não é lá muito cultural e eu não estava perto do palco, eu só escutei e desconfiei que era ela, depois fiquei sabendo que era mesmo.

De qualquer maneira, deixo a música aí


A praça! A praça é do povo!


Na verdade não foi uma praça, foram várias praças e ruas para vários povos. Um espetáculo de gente. A virada cultural me encanta exatamente por pôr gente em praças e ruas onde não andariam em dias normais. Discute-se se isso é revitalização do centro, não só isso, mas isso também. Como você pode trazer pessoas para o Centro se elas nem o conhecem? Então façamos viradas culturais onde menos as pessoas querem ir de forma a que elas se apropriem da cidade que é delas, e que muitas vezes não reconhecem como delas.

Essa mistura forçada de pessoas do centro expandido, da periferia e dos moradores degradados do centro degradado dá noção de cidade. O rico se espanta com o mendigo e com o suburbano, que por sua vez aproveita uma noite cheia de atividades gratuitas, tangenciando "artes" por ele ainda experimentadas. O rico, se não for demófobo (infelizmente não é só o rico que pode ser demófobo, geralmente as vanguardas também são, principalmente as medianas e medíocres) toma contato com um mundo que não é o dele. E isso gera laço, gera convivência e gera uma adoção do espaço, que só assim pode ser público. E sendo público, a sociedade difusa pode reclamar por seu melhor uso, por ver sua cultura exposta no evento.

Numa entrevista no Estadão de sexta-feira, antes da virada, uma mulher de teatro reclamava do alto valor da festa e que este dinheiro poderia ser investido em atividades (como a dela, claro, a boquinha é cultural) que tivessem duração maior e que por isso, mesmo tendo um público menor, atingiria, segundo ela, níveis tão altos da população. Duvido, a dita mulher despreza o povo que não quer ver o espetáculo dela, quer decidir pelo povo. Aliás, não que isso seja critério para utilização de recursos do Estado, mas nunca uma renúncia fiscal poderia (ou deveria) ser utilizada num espetáculo onde não se busca o público e sim a satisfação do artista. (Nunca a Lei Rouanet poderia ser utilizada para um filme do Godard ou do David Lynch, p.ex.).

Enfim, a festa tem problemas. Tem; até conceituais. A presença dos CEUs deve aumentar, falta o hip hop, que é um elemento cultural importante, que é parte da identidade de grande parte da população que não pode ser punida por causa de um show que não deu certo. Falta a presença de chavões como Calypso ou bandas sertanejas como Bruno e Marrone (alguém vai negá-los como cultura?). Faltam palcos alternativos e outros projetos cujo fim seja apresentar-se na Virada Cultural.

A Virada Cultural é onde a cidade se torna mais cosmopolita, não um cosmopolitismo Zona Oeste, mas um evento que a une em todas suas contradições, um evento com Metrô, CPTM e SPTrans atuando para levar Centro para periferia e trazer a periferia para o Centro.

Agora, por que existem tão poucos patrocinadores privados? Duvido que num evento destes não existam interessados. Será o medo que o privado possa estragar o cultural? Se for esse o medo, a Lei Rouanet já quebrou este paradigma. Será que ainda persiste a confusão entre o estatal e o público? Bem, no mínimo, a festa poderia ter mais recursos (e também há de ter uma compensação financeira pelos estragos que o vinho São Tomé faz na cidade...hehe).

P.S. Está se tornando chato, mas sempre que vejo uma praça com gente eu digo o título.

Área Livre de Crianças


Pode parecer meio intolerante pensar em ambientes livre de crianças, mas eu realmente acho um absurdo que uma pessoa que não gosta de crianças, que não terá filhos, seja obrigado a conviver com crianças. Assim como o não-fumante tem o direito de não ser incomodado pela fumaça do fumante, porque alguém que não gosta de criança tem que agüentar choro, manha, grito, falta de educação de uma criança?

A idéia de uma área livre de crianças não é uma restrição às crianças, é simplesmente fazer valer o direito de quem não ser incomodado por elas. Por exemplo. No caso de viagens de ônibus e aviões, pelo menos um horário é livre de crianças. Os pais podem viajar em todos os outros. Quem não quer viajar com crianças, se não quiser esse contato, limitar-se-á ao horário “livre de crianças”. A mesma coisa com cinemas, teatros, passeios turísticos.

Poria aqui a idéia de uma missa sem crianças; embora o reino dos céus seja para aqueles que como na parábola são como elas, é praticamente impossível transcender com choro e manha. Mas como a Igreja é um lugar de tolerâncias, não faz sentido esta regra. Exatamente por isso que adoro Santa Cecília, porque talvez eu seja a pessoa mais nova ali!

Na verdade, sempre penso nesta coisa de uma área livre de crianças quando viajo. Eu nem acho tão absurdo as atitudes das crianças, mas sim a dos pais, que acham que as outras pessoas têm que entender o show de seus filhos simplesmente porque são crianças. Não, as pessoas não têm que aturar nada, senhores pais, vocês sim têm que educar seus filhos a viver em sociedade. Afinal, a escolha de ter filhos foi dos senhores, não minha, a minha foi exatamente contrária a isso!

Eu realmente acho que é uma coisa a ser pensada. Tenho certeza que se a ANTT ou ANAC permitissem viagens livres de crianças, essas viagens seriam as mais rentáveis. A mesma coisa se um prédio decidisse em condomínio que não fosse permitido crianças.

Quero só deixar claro que não sou nenhum psicopata ou assassino de crianças. Tenho meu sobrinho, ganharei uma sobrinha, gosto de brincar com eles, me emociono quando ele me chama de Tio Renato, acho legal quando um casal decide ter filhos. O que eu não quero é ter meu direito ao silêncio, meu direito ao sono numa viagem ou a prestar atenção num passeio turístico negado porque um pai sem noção de civilidade não consegue controlar seu filho!

É isso, quem sabe um dia essa idéia cresce! Oxalá!

sábado, maio 15, 2010

Ainda assim o transporte público vale a pena

É incrível como existe um condicionamento das pessoas sobre a necessidade de carro. Por mais que eu tenha vindo trabalhar no fim do mundo, racionalmente, é inviável pensar em fazer isso de carro. Não só no aspecto econômico, mas até na questão do tempo.

Economicamente, se eu precisar, num dia de chuva ou de pressa, pegar um táxi, esse valor não chegará ao preço mensalizado do IPVA, do seguro e do estacionamento. Trabalhando no fim do mundo, eu gasto com transporte menos que os 6% de renda que é o limite do vale transporte, isso considerando os deslocamentos que não estão ligados ao trabalho. Acho inadmissível, pelo menos no meu orçamento, gastar 12% da minha renda líquida em transporte, como gastam o segundo e o terceiro tercil de renda da região metropolitana (segundo o DIEESE) para manterem seus carros.

Agora o que me impressiona é a questão do tempo. Quando eu comecei a trabalhar aqui, achava um absurdo tremendo perder uma hora e meia de viagem do centro até aqui. No entanto, conversando com as pessoas que trabalham aqui, às vezes, para deslocamentos mais curtos, as pessoas gastam a mesma quantidade de tempo. Ouço relatos de gente que demora meia hora para atravessar a ponte João Dias! Lanço um desafio, quem consegue fazer, às 7 horas da noite, o trajeto Estação Giovanni Gronchi - Estação Santa Cecília em 1 hora e meia? Pois eu, em média, faço!


Uma das coisas que achava besteira quando trabalhava na CPTM era o fator de impedância do transbordo. Hoje, poria um valor enorme nesta impedância. Realmente, eu fujo de qualquer transferência de meios de transporte, isso cansa, é irritante, mesmo sendo transferências livres como entre a CPTM e o Metrô, ou entre os ônibus.


Logicamente surgirá um questionamento sobre o conforto e a individualidade. Pois bem, eu sou o contrafluxo! Sento em Osasco (operação embarque sentado) e levanto na Estação Giovanni Gronchi. Com os fones de ouvido, é possível ler, dormir ou escutar música.

O resultado é: não importa onde você trabalha, morando no Centro, você está bem e usufrui de transporte público confortável e barato. Basta morar no Centro! Claro que se houvesse a mesma capilaridade de vias, corredores ou outros sistemas, novos lugares seriam tão bons como o centro, assim, a própria descentralização da produção seria acompanhada de uma descentralização de lugares bons para morar, mas aí teríamos o risco de vivermos em Los Angeles. Então, fortaleçamos os centros, isso é o que eu desejo para esta cidade.

A mulher do lado

Num surto consumista acabei comprando uma caixa de filmes do Truffaut, talvez numa tentativa de acabar com ciclo Woody Allen meio que a força. Então veio, A mulher do lado, O último metrô e Um só pecado. Como realmente é legal assistir um filme com história, que foi pensado para você pensar na história, que não é só uma história, mas uma história filmada, onde cada objeto ou música é um elemento importante na forma de contar esta história.

Pois bem, A mulher do lado é um filme sobre um amor que volta. Um casal que teve uma paixão violenta com fim abrupto volta a se encontrar depois de oito anos como vizinhos numa vila, de maneira que não existe outra maneira se não restabelecer o contato. Mas qual o contato? Bem, acho que é isso o que o filme conta.


Achei interessante que se o filme fosse óbvio, a paixão voltaria, mas a vida real e o filme não é bem assim, e aí a forma com que ambos conduzem esta situação muda muito conforme o filme passa e também, na maioria das vezes, não coincide com a que o outro tenta conduzir.

Claro que se estamos falando de paixão, é nesse campo que a coisa vai se desenrolar. O desapaixonar-se é tão interessante quanto o apaixonar, também parte da mesma violência e acho que no filme esse apaixonar-desapaixonar-apaixonar é muito bem explorado. Deve ser uma coisa tão comum essa do filme e eu nunca tinha visto isso num filme.

Fiquei pensando depois do filme que talvez se o Truffaut fosse vivo, teria se tornado um Woody Allen e aí acabei vendo Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

Comissões de fábrica (e de escritório)

As comissões de fábrica são uma experiência fantástica de democracia real e uma escola para um sindicalismo democrático que participa da vida do trabalhador, sendo bem mais efetivo que a contribuição sindical compulsória e as famigeradas cartinhas denunciando o acordo coletivo.

Comissão não é sindicato, enquanto um cuida de interesses maiores, setoriais, a comissão é o espaço para o debate local, para os problemas da organização onde trabalham. Traz em si uma possibilidade de solidariedade entre os trabalhadores que a tecnologia corrói. Num escritório, onde não existe uma solidariedade bem definida, como numa fábrica, e onde a ilusão de desenvolvimento pessoal e de carreira faz com que o outro trabalhador seja um inimigo potencial ao ilusório caminho inexorável do sucesso; uma comissão de fábrica daria consciência aos colarinhos brancos do seu status proletário, uma vez que os problemas que atingem a um, no que tange à organização, atingem a todos.

No entanto, como pensar num mecanismo tão avançado de participação dos trabalhadores, num quadro onde a comissão já existente, a CIPA, é totalmente dominada pelo Estado, na sua concepção, pelos patrões, na sua constituição e pelo sindicalismo pelego que aí vê uma possibilidade de se manter atuante num quadro de deterioração da imagem dos sindicatos. Também há a questão da estabilidade do cipeiro que seria um fator de segurança para atuação e hoje é um motivo de acomodação aos interesses patronais.

O primeiro passo para esse florescimento de comissões verdadeiramente representativas passa pela total desregulamentação dos sindicatos. A crise destes pode ser comparada à dos partidos; mas, embora os partidos tenham um papel institucional, o sindicato está livre para ser realmente desvinculado do Estado. Se não somos obrigados a sermos filiados a algum partido, por que somos obrigados a sermos sindicalizados? Por que contribuir com sindicados cujos membros desconhecemos e que tomam decisões que não concordamos?

É muito triste pensar que nossos sindicatos foram concebidos e continuam atuando de uma maneira fascista e é por isso que se só aglomeram pessoas através do fausto de um sorteio de apartamento ou de um show sertanejo.

O sindicato livre,que talvez tenha menos dinheiro e trabalhadores, por sua vez, seria fruto de um acordo de trabalhadores, firmado na convivência real do trabalho e pelas comissões de fábrica que seriam a primeira instância para a tomada de consciência de seu papel proletário. Essa experiência sim traria lutas dignas como a luta pela redução da jornada de trabalho de fato, greves legítimas, não somente no setor público onde prejudica somente a vida dos pobres, mas contra o capital, onde esse estiver em desacordo com as reivindicações dos trabalhadores (as vezes eu acredito que sempre estarão em desacordo, mas na maioria das vezes sou socialdemocrata suficiente para acreditar nas conciliação).

Acho que o sindicato livre é meu maior desejo para este Primeiro de Maio.

quinta-feira, abril 22, 2010

Ídolos e Fãs

Um dos filmes que mais gostei do Woody Allen foi Simplesmente Alice, acho que ali que eu realmente comecei a gostar da Mia Farrow, tudo bem que assisti antes de Hannah e suas Irmãs, mas ainda assim coloco Simplesmente Alice como um dos meus filmes favoritos.

No entanto, lendo Conversas com Woody Allen, olha a passagem que encontro:

Vamos falar de Simplesmente Alice, que veio entre Crimes e Pecados e Neblinas e Sombras.

Simplesmente Alice tinha um certo estilo. Eu só queria que fosse uma lenda. Podia haver uma sequência divertida aqui e ali - como no momento em que ela fica invisível -, mas só isso. Agora, se funciona ou não, não posso garantir. Sempre trabalho com orçamento baixo e em circunstâncias limitadas, então não posso comparar com um filme realmente estiloso, em que esses caras põem um monte de tempo e dinheiro na direção de arte.
Não tenho nenhum afeto especial por Simplesmente Alice. Não deteso o filme. Nunca penso nele. A Mia ficou ótima com aquele chapéu vermelho; o Alec Baldwin, claro, é sempre ótimo. O Bill Hurt também. Mas é só um filme.

Engraçado né, se eu tivesse uma conversa com o Woody Allen acho que tentaria falar muito deste filme. Engraçado isso, uma coisa que para o artista não significa nada, para um público pode ter um grande significado. Bem, sabendo disso, não perguntarei nada sobre Simplesmente Alice a ele.

No entanto, embora pudesse ficar um pouco decepcionado pelo desdém com um filme que eu gostei, achei interessante que quando ele se achou medíocre, eu o achei muito bom! Estou muito fã mesmo do Woody Allen.

quarta-feira, abril 21, 2010

Tudo que você quis saber sobre sexo, mas tinha vergonha de perguntar

A primeira vez que assisti este filme, simplesmente o achei ridículo. Achei as piadas sem graça, bobas, absurdas. Lendo “Conversas com Woody Allen” resolvi ser um pouco mais indulgente com o filme e acho que estava num mau dia quando eu o vi pela primeira vez.

Não que o filme seja uma obra-prima, uma comédia extremamente engraçada; no entanto, deve-se considerar que se trata de um tema muito forte, tabu, realmente há cenas bem pesadas (e engraçadas) como o quadro “o que é uma perversão sexual” ou sobre o quanto são precisas as pesquisas sobre sexo. Tudo bem que o título é um best seller, mas mesmo assim, pensar que o filme esteve no cinema me faz pensar que em 1972 as pessoas estavam mais dispostas a verem tabus no cinema.

A parte mais engraçada, sem dúvida, é “o que é sodomia”. É tão absurdo, mas o ator é tão bom, que acabei ficando em estado de riso durante todo o quadro. “Todo travesti é homossexual” também é muito engraçado. Quando você trata com realismo o absurdo, se consegue cenas impagáveis.

O quadro que mais se fala no livro, “toda mulher é capaz de atingir o orgasmo?”, que foi feito como uma sátira dos filmes do Antonioni não é o mais engraçado, mas dá alguns sinais sobre alguns filmes muito sérios que virão. Aqui também o absurdo é mais engraçado que o tema.

Terminar com “como funciona uma ereção” deu um final interessante para o filme, a ideia do corpo como máquina é levada ao extremo e é uma sacada interessante, acho que esse quadro também será tratado em alguns outros filmes.

Não é um filme que não se pode deixar de ver, acho que existe o risco de assisti-lo como o vi a primeira vez. Pode vir a ser um programa divertido. Não recomendaria a ninguém, como faço propaganda de outros filmes do Woody Allen, mas acho que para um feriado de Tiradentes numa quarta-feira, foi interessante.

terça-feira, abril 20, 2010

Ainda assim Engenheiro


Nestes últimos dias tive a sensação que realmente sou um engenheiro civil pleno. Não que antes não fosse, ainda acho que engenharia é uma maneira pragmática de solucionar problemas, racionalizando e simplificando pela técnica problemas complexos. Fazia isso quando estava no PCP do vidro float e quando fazia muitas observações e avaliações a respeito de um grande número de assuntos na CPTM.

Considerando, porém, que a cidade é o elemento mais complexo que nossa civilização (ocidental, pelo menos na concepção de cidade que estou falando) já construiu; morar nela é um problema complexo que implica inúmeros sistemas de abastecimento e de recolhimento de dejetos, bem como locomoção, aspirações e bem estar que somente um engenheiro pode tentar racionalizar sem perder a realidade, sem ser fascista impondo uma o solução artificial como as cidades-jardim, villa radieuse e outros experimentos; e ainda assim, pela técnica, fazer com que os problemas desse aglomerado sejam minorados.

Ao encarar um condomínio produzido de maneira industrial (racional e ocidental, portanto), me envolvo com um gigantesco número de normas e procedimentos que englobam outro gigantesco número de ciências que com pragmatismo pode dar respostas satisfatórias a toda complexidade envolvida.

O interessante disso, é que a técnica não priva ninguém de decisões, sonhos e aspirações; a engenharia não é fascista. A sociedade decide seus desejos e a engenharia dá uma resposta. Às vezes ela é mais cara que a sociedade pode ou está disposta a pagar, mas sempre dá uma resposta.

domingo, abril 18, 2010

Vinte e muitos anos

_ Você se sente muito diferente do que quando você saiu da faculdade?
_ Depende, em algumas coisas sim e outras não.
_ Como assim?
_ Ah, acho que hoje eu tenho mais discernimento com as coisas, levaria a faculdade de uma maneira bem diferente, acho que passaria por ela de uma maneira muito mais agradável. Sofreria menos com alguns detalhes, prestaria mais atenção em algumas matérias.
_ Sei lá, quando ouço que a faculdade é a melhor parte da vida fico me perguntando se realmente para mim isso é verdade. Às vezes eu até esqueço que passei por ela. Mas concordo que hoje eu me sinto muito mais maduro do que quando saí de lá. Faço francês com um monte de piá que está na faculdade, olho pra eles e fico pensando se eu era tão bobo daquele jeito.
_ É, mas também eu acho que os que estão vindo estão cada vez mais bobos, mais jovens. Acho que como aumentou a concorrência, estão entrando um monte de gente “bolha”, que não têm nenhum contato com a realidade. Quando eu fiz estágio tinha uma menina que quando foi embora ela foi assaltada; se fosse minha mãe teria dito pra que eu tomasse cuidado; olhasse quando fosse passar por lá. No entanto a mãe dela deu um carro pra ela, olha que loucura! Veja o tipo de relação que esta menina vai ter com a vida.
_ Meus pais me chamariam de tonto por deixar-me ser assaltado! (risos). Mas é bem isso que eu estava falando: as pessoas não têm mais noção ao se relacionar com o mundo, ou melhor, o jeito que eles se relacionam é diferente.
_ Talvez essa seja o choque geracional da nossa era, ao invés de ser entre pais e filhos, talvez se dê entre primos mais velhos e primos mais novos. Mas lhe digo que eu me sinto muito bem com meus quase 30.
_ Eu me sinto bem com 29 anos, acho que demorei bastante para ter essa sensação de adulto que eu tenho hoje. Me sinto bem adulto hoje, também, se não me sentisse adulto com 29 anos era um bom sinal que a terapia não está funcionando mesmo (risos)
_ Pois é, mas sabe que eu acho que está na hora da gente começar a cuidar mais do nosso corpo, não sei quanto a você, mas eu não sinto mais meu corpo como ele era antes. Sei lá, às vezes me vejo pesado, sem elasticidade. Comecei a pensar nisso, sei lá, não só em alimentação, mas a gente não faz nada né?
_ O engraçado é que eu sinto a mesma coisa e pensar que há uns 5, 6 anos atrás, a gente se orgulhava de não pensar nisso. (risos).
_ Mas eu quero realmente começar a fazer uma academia, sei lá.
_ Pra lhe falar a verdade eu vejo isso cada dia mais necessário: eu tenho dor nas costas! Não posso mais dormir em qualquer lugar não, não dá mais pra ser como era. Lembra-se daquela viagem que a gente fez naquele fim de ano, que a gente andou pra caramba, fez rappel, foi em cachoeira, acho que não faria isso hoje não. Não que não faria, mas talvez sem o mesmo pique. E não por não querer, por não agüentar!
­_ Que horror!
_ Mas é verdade, a gente dá aquela disfarçada falando que agora que eu já tenho uma certa idade eu quero conforto, mas eu acho que é mais uma questão de corpo mesmo.
_ Você já pensou quando a gente fizer 40?
_ Putz, eu acho que fazer os 30 vai ser tranqüilo, os 40 vão ser bem foda. Porque ainda nos 30, a gente estava meio que se preparando para o jogo. Com 40, o que a gente fez está feito. Não dá mais pra fazer muita coisa não. A gente vai estar vivendo os resultados, e sei lá, tenho medo que entre os 30 e os 40 eu consiga muito mais coisa.
_ Mas de que tipo de coisa você está falando?
_ Sei lá, profissão, grana, família, amor. Acho que agora a gente já tem mais ou menos um desenho do que a gente quer, tá certo, a gente foi meio errático dos 20 aos 30 (risos), mas agora, a gente tem uma idéia. Nos 40, a gente vai ver se foi por um caminho bom, não dá pra ser errático mais como a gente foi até agora.
_ Credo, dá até medo de pensar.
_ Mas sério agora, eu acho que a gente deveria pensar mesmo em fazer alguma coisa com nossa saúde, vamos tentar fazer, agora que você está voltando pra São Paulo a gente pode tentar fazer alguma coisa junto, pode ser no estilo daquele lance do Tai Chi Chuan que a gente tentou na Unicamp, mas agora mais sério (risos), nem que seja pra fazer um alongamento, um pilates, uma ioga que seja...
_ O foda é a grana né? Mas eu topo, pelo menos a gente vence a preguiça junto, ou não né, a gente pode ser preguiçoso como a gente era com 20 e poucos. (risos)
_ Putz, não posso esquecer que agora eu trabalho no fim do mundo...
_ Ih, nem vem com conversinha não (risos).
_ Não, a gente vai fazer sim (risos), mas eu trabalho no fim do mundo mesmo!
_ Pára de reclamar, moleque!
_ Ei, vamos indo?
_ Vamos, pede a conta!