terça-feira, dezembro 29, 2009

5+ - 2009

Sempre que escrevo isso no fim de ano chego a duas conclusões:

1a. Fazer lista é mais um exercício de memória que de gosto;
2a. Eu sempre vejo as coisas defasadas, sou um atrasado.

5+ - Filmes:

  1. Amantes: Assisti 3 vezes no cinema e adorei as 3. O filme é meio sombrio, o tema é tabu, mas acho tão bem retratado, tão verdadeiro e tão honesto nos seus defeitos que talvez seja o filme que mais marcou este ano para mim.
  2. É proibido fumar: Estava na dúvida da posição, mas como é brasileiro ganhou um ponto (hehe). Na verdade é uma resposta a minha frustração de não me sentir representado em filmes nacionais. Gostei do filme exatamente porque todos os personagens ali podem ser meus conhecidos e seu drama é factível. Glória Pires está ótima e o Paulo Miklos mais ainda, filme que funciona.
  3. Bastardos Inglórios: Não gosto do Tarantino, da "estética da violência" (soou conceitual...hehe), mas o filme é interessante, gostei da liberdade de mexer com a história, meio dessacralizando-a. Até no insulto bobo e caricato ao nazismo ele foi bem humorado. Interessante brincar com a história.
  4. 500 dias com ela: Entrei no cinema achando que veria um filme bobinho e achei um filme bem mais complexo. Talvez ao brincar com o esse mito que nos persegue, esse romantismo que se renova a cada dia, ele nos ponha na defensiva e no fim o restaura de uma maneira não exagerada.
  5. Aconteceu em Woodstock: Filme bonito, interessante, história bem contada e por ter gostado de um filme do Ang Lee, merece ser citado.
  • Simplesmente Alice: Assisti com mais de 10 anos de atraso, mas gostei muito do filme, achei extremamente perspicaz, vou ser categórico: foi o melhor filme do Woody Allen.
5+ Músicas:

Está relacionado com os shows que fui...

  1. Bellisimo così: Foi a música mais ouvida por mim em 2009. Começou como obrigação para me preparar para o show da Laura Pausini, e quando vi, estava escutando mais do que deveria.
  2. Desormais: Está aqui só para constar que fui no show do Charles Aznavour, acho que 2009 foi o ano que menos ouvi Charles Aznavour, mas foi o ano que fui vê-lo, e talvez isso represente um fim de uma época.
  3. Viagem: Comprei um cd da Vanessa da Mata nas Americana e fiquei fã e ele ainda virou trilha sonora! Mas essa música é realmente interessante, desde que comprei, encano em uma música, mas nessa encanei por mais tempo.
  4. Prima che esci: Mais uma da Laura Pausini, pena que não cantou no show.
  5. Poker Face: Momento divertido ao som de Lady Gaga.

5+ Livros.

Eu não tenho memória!

  1. Poemas completos de Alberto Caeiro: comecei a gostar de poesia no ano passado e esse ano foi o livro que mais gostei, que mais carreguei depois de ter lido, e que vez em quando ainda releio. (não sou crítico, não sei comentar).
  2. Golpe de Ar - Romance jovem, achei interessante por ser exatamente jovem, acho que precisava ler coisas mais joviais e achei um escritor que quando lançar mais um livro, vou querer ler. Gostei da forma que escreve e achei a história, embora simples, muito bem contada.
  3. O livro do Riso e do Esquecimento - Como é gostoso ler um bom contador de história, que consegue alinhavar vários pensamentos ao longo de contos e que por meio de metáforas bem construídas consegue universalizar um tempo e um espaço bem definido. No começo do ano entrei numa ondinha Milan Kundera por causa deste livro.
  4. Cordilheira - A mesma coisa do 2o., só que um pouco mais clichê.
  5. Cartas de Caio Fernando Abreu: É meio voyeur ler cartas dos outros, mas as cartas de Caio F. eram tão divertidas, inspiradas, adorei lê-las e comecei até a escrever mais cartas. Daria este livro para o Gabriel Chalita e para o Padre Fábio!

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Reforma Política

Sempre considerei a Reforma Política como a “mãe” das reformas, sem ela não poderíamos enfrentar nenhuma outra reforma, e ainda acredito que são necessárias outras reformas como a da Previdência, a Sindical e a Tributária (alguns poriam a Trabalhista, mas essa eu sou contra). Mesmo que a população tenha votado sistematicamente contra essas reformas nas duas últimas eleições nacionais, são temas que devem ser discutidos até para um claro entendimento do porque se é contra.

Entretanto, de uns tempos pra cá, mais precisamente depois da interpretação do STF sobre a fidelidade partidária, meu reformismo arrefeceu. Considerando tudo que se propõe, começo a desconfiar que não temos um problema de representatividade. Suponha que seja aprovada realmente uma proposta de voto distrital, todo o paroquianismo que reclamamos que há no Congresso seria legitimado, aumentando ainda mais o neocorenelismo. Se se aprova uma proposta de lista fechada, entregamos na mão de partidos em que não confiamos o arranjo das listas para as eleições proporcionais e aumentamos o caciquismo dentro dos partidos.

O meio termo, o voto distrital misto, combinaria a escolha de deputados com projeção em seus Estados, com uma metade do congresso que estaria vinculada a um determinado distrito. No entanto, no nosso sistema eleitoral hoje, se um partido não tiver um deputado com expressão no Estado como todo, não elege deputado algum, e sem um puxador de voto local, o deputado de expressão não consegue liderar a lista do seu partido elegendo o puxador local que não atingiu o coeficiente eleitoral. Na verdade, desconfio que já estamos vivendo um voto distrital misto desde 1986. O puxador de voto estadual, geralmente deputado de renome ganha votos em todas as seções, mas sem o voto da liderança local, ele não consegue nem cacifar seu nome, nem dar ao partido todos os votos necessários para a formação da bancada. Além disso, como a colocação dos nomes na lista partidária se dá pelo voto recebido, democratiza-se o partido na urna, já que o partido foi incapaz de se democratizar nas prévias.

Vou ressaltar a importância que dou ao puxador de voto. Este nome de expressão que liderará a lista é o quadro que assumirá papéis importantes dentro do futuro Congresso e principalmente será responsável pela renovação dos quadros políticos no seu Estado e consequentemente no País. A gente tem que estimular puxadores de voto para que haja renovação. Acabar com o puxador de voto torna o Congresso refém de interesses paroquiais enquanto os puxadores de voto são mais sensíveis à pressão da sociedade como um todo e de toda sorte de interesse difuso e coletivo.

Com certeza a vinculação do deputado a um distrito o torna mais “vigiável”, no entanto, as demandas locais chegarão à bancada pelo deputado puxador de voto local, e a bancada não será insensível à estas demandas, já que elas são extremamente valiosas tanto para o arranjo da lista proporcional, como para garantir o tamanho da bancada.

Lógico, que o sistema não é perfeito, é necessário perpetuar a fidelidade partidária da maneira que o STF a interpretou e ainda assim seria necessário voltar a verticalização, que foi entendimento do STF e valeu em 2002 e 2006, mas que os deputados derrubaram em Lei. A verticalização racionaliza o processo, já que chama o partido a coerência, democratizando-o como a lista aberta o faz.

Sobraria por fim dois aspectos da reforma política: financiamento público e formas de financiamento. Mais financiamento público que o horário eleitoral gratuito não existe, já é dinheiro suficientemente grande para um partido se viabilizar, sem contar que ele é distribuído de forma justa e ainda há o fundo partidário. A questão de que é inviável se eleger com as regras de financiamento de campanha atual não é caso de Reforma Política, é caso de polícia, criminal. A lei é essa e cumpra-se. Se não é possível ganhar uma eleição com estas regras e se, como Lula afirmou, todos fazem. Punamos todos e se aprenderá a ganhar eleição com estas regras. Apenas mexeria na possibilidade de doação secreta, mas a sociedade pode cobrar isso sem a força da lei, no momento que um candidato apontar que o outro recebeu doação secreta a sociedade entenderá o recado.

Existe a questão do peso das bancadas dos Estados, mas essa discussão nasce morta, sempre existe a teoria da conspiração que os paulistas querem todos os espaços do congresso, que os estados grandes já tem importância e os pequenos precisam de mais representatividade, mesmo sendo o Congresso a Casa do Povo e que esta questão de representação se dá no Senado, que é a Casa da Federação. Como isso não será resolvido nunca, desisto a priori desta discussão, embora ache totalmente injusto meu voto valer menos que o voto de um cara de Roraima.

Além de tudo isso, talvez seja um reflexo da meia-idade, acho que não existem sistemas rígidos perfeitos e sim aperfeiçoamentos e nossa democracia é muito jovem ainda, há espaço para muitos aperfeiçoamentos. Sem contar que uma Reforma Política ampla, na forma de constituinte como quer o PT permite a abertura de uma caixa de Pandora, onde aparecerão coisas horrorosas. Prefiro confiar nos Pais da Pátria que criaram a Constituição de 88. Com democracia não se brinca, não se testa seus limites, o espírito está pronto mas a carne é fraca. Considerando que temos hoje no poder um presidente personalista que quer eleger ser Medvedev de saias a qualquer custo, uma reforma política hoje abriria espaço para o chavismo e o preço da liberdade é realmente a eterna vigilância, não o eterno reformismo.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Agora é Aécio

Não é um posicionamento ideológico, se assim o fosse estaria aqui falando do quanto acho Serra o melhor candidato à presidência; acredito que seja o mais capaz de trazer uma normalidade democrática e institucional, uma volta ao rumo da modernidade e não esse remendo de varguismo requentado que nos apresenta Lula.

Apesar de achar Serra o melhor candidato, quando olho os noticiários e sigo minha intuição, tenho quase certeza de que quem será o candidato da oposição, com grandes chances de vitória é Aécio Neves, e não José Serra. A desistência de Aécio, para mim, é o ato mais importante de sua campanha, que agora será não-campanha até abril.

A força de Serra é exatamente sua fraqueza. Afinal, a chance de atrair mais votos do que a intenção de voto que ele já possui hoje é pequena, enquanto Aécio é a novidade. Considerando a situação do Estado de São Paulo, onde é um governador popular, tem-se a impressão que mais difícil será ele sair para presidência. Considerando que Alckmin pode vir a ser candidato a governador, caso ele perca a presidencial, perderá também o Estado, já que Alckmin aqui é um fogo amigo muito mais fogo que amigo. É possível derrotar Alckmin dentro do partido, principalmente depois do fiasco na eleição municipal, mas isso seria um desgaste e exigiria do candidato Serra a presidência uma dedicação gigantesca num Estado que ele já tem os votos, impedindo-o de fazer campanha onde ele precisa conseguir votos.

Vamos considerar que a pior votação do PSDB, à do próprio Alckmin em 2006, seja um voto cativo, teríamos o PSDB ganhando em 7 Estados, sendo somente 2 Estados-chave: São Paulo e Rio Grande do Sul. Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Roraima viriam por inércia, pela própria característica destes Estados, lembrando que em Santa Catarina a oposição tem os dois principais candidatos liderando e no Paraná há a oposição, Beta Richa, e uma pseudo-situação, Osmar Dias, também liderando, o que pode vir a trazer mais votos anti-Lula.

Com esta plataforma mínima, a estratégia seria ampliar a diferença nestes Estados, o que pode vir a ser fácil pela liderança absoluta dos partidos de oposição no Paraná e em Santa Catarina, pela grande polarização e rejeição ao PT no Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, pelo medo do PT no Mato Grosso e em Roraima e pela grande popularidade de Serra em São Paulo, Estado que o mesmo grupo governa desde 1982.

Além de ampliar a vantagem haveria de ganhar espaço, e considerando os 7 Estados azuis, por semelhança, a oposição deveria ganhar o Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais e diminuir o massacre nos demais Estados. Aí está o problema: em Goiás, uma campanha de Marconi Perillo pode trazer votos, no Distrito Federal pós-Arruda, existe a ambigüidade de Roriz que não se pode contar e em Minas existe Aécio Neves.

Serra precisa de Aécio, Aécio prescinde de Serra. Considerando que os votos ganhos por Alckmin vão ser repetidos em qualquer um dos dois, Aécio pode trazer Minas e fazer uma fenda no Nordeste, diminuir a rejeição no Rio e no Nordeste e poderá contar com os votos paulistas que Serra lhe dará como por inércia dentro de sua campanha à reeleição. Caso Serra seja o candidato, sem Aécio ele não consegue atrair novos votos, além de ter que administrar a campanha em seu próprio Estado.

Sem contar que sempre há o risco do efeito Carlos Sampaio. Serra pode liderar o primeiro turno inteiro, e no segundo turno todos os votos se voltam contra ele. Aécio tem mais desenvoltura para escapar desta armadilha que o PT tenta criar ao propor o plebiscito entre os partidos, além do que, uma campanha Aécio estimula uma campanha Ciro, que é o grande ladrão de votos de Dilma.

Por tudo isso, eu realmente acho que até março Serra decide ficar em São Paulo, e em 1º de janeiro de 2011 quem assumirá a presidência é Aécio Neves.

terça-feira, dezembro 22, 2009

O Grande Gatsby

Se um dia eu fosse escrever uma novela para TV eu adaptaria O Grande Gatsby. Sem entrar naquela discussão sobre a contemporaneidade dos clássicos, a grande virtude do livro é que os personagens, embora descritos na Era do Jazz, não são datados, então tanto podemos enxergar Gatsbys em muitos lugares, um pouco menos de Nicks e um número crescente de Toms e Dayses.

Lógico que o retrato da Era do Jazz deixa o livro fabuloso, afinal tenho impressão que foi um dos períodos mais fantásticos que nossa civilização já viveu. Entre o Fim da Primeira Guerra e o Crash de 29 a modernidade deve ter atingido seu ápice. O bom do livro é que de uma maneira enviesada ele até zomba um pouco da modernidade.

A primeira vez que o li fiquei tão fissurado nas festas que não percebi a beleza do fim. Pois no fim, mesmo numa sociedade aberta para o sucesso, o berço dá uma segurança extra. Embora queiramos sempre acreditar que isso não existe, haverá sempre a diferenciação da elite e dos emergentes e ela se imporá na hora certa, como no livro.

Gostei de ter relido!

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Aconteceu em Woodstock

Interessante quando um diretor famoso se propõe a fazer um filme “sessão da tarde”. Quando isso acontece, afasta-se da ideia de que para ser um filme bom há que subverter a narrativa, fugir de alguns esquemas consagrados de filmagem e de alguns personagens que beiram o estereótipo. E tendo uma saga sem grandes surpresas, num filme normal, se pode ter um bom filme, que diverte e põe algumas questões interessantes à plateia caso ela queira comprá-las ou discuti-las.

O que eu gostei em “Aconteceu em Woodstock” foi a simplicidade do enredo, como os personagens são exagerados e o roteiro simples, alguns aspectos que poderiam passar desapercebidos se mostram mais. Assim a questão do movimento hippie como uma conseqüência do capitalismo e não uma reação a ele surge muito claramente no filme, já que existe a procura pelo lucro, porque sabemos que dez anos depois todos eles votarão Reagan e que é possível combinar a felicidade com tudo isso, sem necessariamente refugiar-se numa fuga nas drogas ou numa comunidade hippie, como é o caso do protagonista. No entanto, mostra como certas experiências místicas podem realmente modificar a trajetória de uma pessoa, e acredito que Woodstoock foi pedra angular da vida de muita gente.

Fico tentando imaginar o que é a sociedade norte-americana na cabeça do Ang Lee, na verdade existe uma dualidade entre a repressão moral e a liberdade individual que não são conceitos orientais. Talvez por isso a questão do desejo sempre apareça nos filmes, e nesse, dentro de uma experiência mística coletiva permite também a discussão do desejo em suas diversas formas, do casamento-tipo à homossexualidade. Também é interessante algumas inversões de valores como a velhinhas progressistas e os jovens racistas. No fim eu sempre acho que existe um elogio da liberdade individual frente a repressão moral, neste filme isso é celebrado mais ainda!

Ah, não se pode esquecer que as imagens são maravilhosas, nunca fui muito de fixar-me nas imagens, mas elas são um elemento fundamental da narrativa. Se o filme tivesse meia-hora menos, seria um filme muito melhor, mas mesmo longo, ainda é uma ótima diversão.

Saí do cinema como quem viu uma sessão da tarde. Ri dos estereótipos, adorei as imagens, gostei dos conflitos e principalmente das suas soluções.

Hippies e Romantismo

Não consigo não pensar no movimento hippie como uma forma moderna de romantismo no contexto da fuga e da contestação dos tais valores burgueses. Assim como o Romantismo nos permitiu tornar heroicas as revoluções liberais, o movimento hippie legitimou o meu grande clichê de todos os textos, os interesses difusos coletivos, dali ganhou força o ambientalismo, permitiu uma radicalização do feminismo e do movimento gay.

Mas e Ronald Reagan?

E agora José? Pois é, todos os caminhos levaram a Ronald Reagan e enquanto este fenômeno não for explicado, mantém-se uma grande interrogação sobre o que foram os anos 70.

terça-feira, dezembro 15, 2009

De volta às cores


Depois de três semanas entre tons pastéis, cinzas e verossimilhança de Woody Allen, foi fantástico assistir a Abraços Partidos de Almodóvar. Voltaram as cores, como se toda a terapia do primeiro viesse desabar no inconsciente do segundo. Como tudo beira ao absurdo, mas um absurdo tão possível em Abraços Partidos, não se perde a humanidade, a gente se sente a ultrapassando.

Acho fantástico como Almodóvar consegue mostrar pessoas em situações limites, até esterotipando-as, sem, no entanto, perder a verossimilhança. É como se num instante pudéssemos sair de nossas situações sob controle e chegarmos à extremos. Uma paixão avassaladora, um ciúme doentio, uma busca frenética, tudo é muito simples de ser alcançado, mesmo para quem vive dentro dos padrões. Nestas situações o vermelho fica bem mais vermelho, o amarelo brilha, o azul se torna anil, a realidade vira surrealidade.

O filme é interessante por ser, como disse a Bravo, o filme masculino do Almodóvar, embora o masculino ali tenha humores que são essenciais ao feminino. Bom filme, um filme que é uma boa diversão, bonito de ver. Além disso, as referências à Mulheres à beira de um ataque de nervos são hilárias.


Castelhano

Eu realmente sou apaixonado pelo castelhano, adoro as s aspiradas, o z diferente, a rapidez, as colocações pronominais, as elípticas, o cuidado com os objetos e os artigos. Que língua trágica! Uma língua onde até um texto científico torna-se um melodrama. Como é gostoso ouvir as pessoas falando castelhano, e de repente, um “dale” ou uma outra expressão qualquer e você se sente a vontade de tutear com o filme, ele já é seu íntimo.

domingo, dezembro 13, 2009

Woody Allen

Nunca me dediquei tanto a um artista como me dediquei neste último mês ao Woody Allen. Tendo como vizinho a mostra “A elegância de Woody Allen” no CCBB, dos 40 longas que ele dirigiu, vi nesta mostra 16, considerando outros 5 que vi em outras ocasiões. Isso é mais da metade dos filmes que ele dirigiu, cobrindo todas as fases a ponto de me sentir a vontade de falar sobre os filmes, sobre alguns pontos em comuns, alguns aspectos que estão presente em seus filmes.

Além do assistir, existiu uma coisa fantástica que só havia me acontecido vendo Truffaut, houve identificação, ora com o Woody Allen em alguns pontos que ele mostrava em seus filmes, ora com a Mia Farrow que talvez possibilitou a ele interpretar sua melhor fase.

Assisti a filmes em que saí do cinema extasiado de tanto que gostei, como Simplesmente Alice, Crimes e Pecados, A outra. Houve sessões que saí como quem sai de uma sessão da tarde. Sessão tarde um pouco mais elegante e instigante. Dois ou três destes filmes foram temas de terapia (principalmente Interiores e Simplesmente Alice). Mas, sendo êxtase, sendo psicanalítico, foi a minha diversão deste último mês.

Provavelmente, assim como aconteceu com Truffaut, vem uma pequena ressaca de Woody Allen, para depois ser incorporado no dia-a-dia, na lembrança, uma fonte de metáforas interessantes para me expressar.

Saí de Zelig com a sensação de que deixei um bom amigo na rodoviária.

sábado, dezembro 05, 2009

O verão dos Democratas

Esta semana realmente não foi uma boa semana para a oposição, foi a alegria para alguns grupos que viram no episódio do “mensalão” no Distrito Federal a prova irrefutável do que o próprio presidente Lula já havia dito: isso acontece com todos! Se acontece com todos, o PT foi perdoado a priori e se seguirmos a lógica de Lula os Democratas também o serão.

No entanto, ao contrário do que as capas das revistas governistas dizem, falando sobre a morte dos Democratas, acredito que isso não será o seu fim pelo simples fato de não haver oposição. A lógica pode parecer ilógica, mas alguém que não “comprou” esta tese do lulismo integrador de todas as tendências, que acalma os ricos liberais, afaga a classe média e dá a boquinha aos pobres, não tem a quem aderir a não ser aos Democratas! Quem se opõe ao governo Lula, mesmo se escandalizando com os atos do governador Arruda não vai passar a votar Dilma, uma vez que ela também está maculada pelo “mensalão” do PT. E existem outras coisas além do que o quem rouba mais que quem, ou quem faz mais que quem, que é a proposta do PT para 2010.

Lógico que a oposição não é só formada pelos Democratas, mas também pelo PSDB; mas o PSDB, em troca de conveniências de ser governo nos Estados, está cada dia mais no muro, não aderiu à tática dos Democratas de hostilizar o governo no Congresso, mas também não consegue dar propostas que consigam romper o plebiscito que está se formando para 2010. A estratégia pode funcionar na geração de uma imagem do pós-Lula (Aécio) ou de uma revisão dos dois projetos (Serra), mas também pode afastar quem quer uma oposição mais combativa ou quem está ressentido da falta de debate na política nacional.

Não acredito realmente que os Democratas vão sumir em 2010, mesmo porque algumas idéias que ele representa ainda têm corpo na sociedade e não há quem se disponha a defendê-las. A clareza oposicionista dos Democratas é sua maior força no cenário que se forma, embora a popularidade do governo seja altíssima, não existe uma unanimidade neste projeto e alguém tem que ser oposição.

Agora começa o verão e com eles os resultados econômicos do ano. Aumento da máquina, da dívida pública, diminuição dos repasses aos municípios e Estados, o sonho idílico da potência sempre acaba nos números. Não que o país não esteja bem, está, mas não tanto quanto a retórica de Lula diz. Assim, da mesma maneira que em um verão o Partido Republicano solapou a popularidade de Obama e se restabeleceu como partido. Começa agora o verão dos Democratas, é a hora do partido virar o jogo aproveitando a própria falta de oposição.

A ver.

A propósito

Tragamos a capital de volta para o Rio e esqueçamos esta ideia de uma capital no meio do nada, ou pelo menos tranformemos o Distrito Federal numa cidade autonôma ou coisa que o valha. É um despropósito dar 3 senadores, deputados federais e distritais e um governador com polícia e orçamento para uma ilha da fantasia que está totalmente alheia ao que se passa no país.

Brasília passa a ter um prefeito, e o que seria papel de Estado passa ser assumido pela União. Ser Distrito Federal é isso, não criar um Estado e chamá-lo de Distrito Federal como se fez. Para deputado federal e senador, os cidadãos de Brasília votam como se fossem de Goiás, como era antigamente.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

As mulheres e a crise financeira

A Revista Cláudia é realmente uma revista feminista: neste mês saiu uma matéria mostrando como a solução para a crise financeira mundial pode estar não num lugar geográfico como a China e a Índia, e sim, num gênero em abundância no Ocidente (e em todo lugar), mas que ainda não possui nem igualdade de renda nem de poder. Sim, a solução está na mulher.

A matéria mostra três faces de como a mulher pode comandar uma verdadeira revolução econômica capaz de superar a crise. Na primeira, explora o fato de que elas são decisivas na escolha dos gastos das famílias e chefiam a maioria delas, portanto, uma empresa ou um governo que conta com as mulheres na produção de suas “mercadorias” e políticas sociais atingiria mais facilmente o mercado principal, garantindo uma retomada mais rápida do crescimento. A segunda face está no fato de que uma organização (empresa ou Estado) que conta com uma maior participação da mulher e também com um maior empoderamento (a palavra é empowerment) delas, contaria com um maior capital humano, combinando o melhor dos gêneros e promovendo um ambiente de tolerância fundamental num mundo de interesses difusos e coletivos. O terceiro argumento foi o que mais me intrigou, na verdade ele baseava a crise econômica como a decadência de uma economia baseada no mundo dos homens e que a crise onde a igualdade era maior, foi menos intensa.

Os dois argumentos acabam sempre numa lógica de um direito da mulher por ser uma consumidora como os homens e me desagrada um pouco a idéia de que a igualdade entre os sexos seja uma apenas uma relação de troca econômica, acredito que tenha uma questão moral aí importante a ser discutida. O segundo argumento ainda conta com a diferença entre os gêneros, o que é bem interessante quando a gente vê, principalmente no mercado de trabalho e na política, uma masculinização da mulher, que abandona sua feminilidade para entrar num mundo masculino.

No entanto o terceiro argumento faz pensar. Afinal, não é o mundo realmente um lugar muito masculino. Não foram a jornada de trabalho, as leis trabalhistas, os códigos sociais todos feitos para o homem? Não é a competitividade e a agressividade o elemento mais destacado nas revistas de negócios e não são estas mesmas categorias totalmente associadas à masculinidade? Dá até pra pensar se não tem fundamento mesmo o fato de que o desequilíbrio entre homens e mulheres possa ter causado um desequilíbrio maior.

Abstrações a parte, achei interessante o fato de pôr a questão do gênero num assunto onde a universalidade não permite verificar as diferenças gritantes que esta questão tem no mercado de hoje. Afinal, por que a mulher continua ganhando menos que os homens? Por que a jornada de trabalho não respeita as diferenças entre os gêneros? Por que a maternidade não é mais protegida no mercado de trabalho e é até uma barreira para o sucesso profissional das mulheres?

Acho que é um bom tema para se pensar, afinal, no meio dos outros interesses difusos, parece que o feminismo tem sido eclipsado pelo ambientalismo, pela questão da raça e da diversidade sexual. Esta semana passou no Senado a lei do divórcio imediato e nem foi muito noticiada, e pensar que nos anos 70 esta foi uma bandeira feminista e onde talvez elas tiveram mais sucesso. Ainda há outros temas importantes a serem discutidos como a igualdade no serviço doméstico, a maior representação política e o grande tema do aborto a ser confrontado. Se a economia está em crise, uma sociedade em ebulição geralmente dá boas respostas econômicas.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Mia Farrow

Não achei que fosse ficar fã de uma atriz do jeito que me sinto fã da Mia Farrow. Talvez o Woody Allen tenha ajudado muito nesta história, mas não dá pra negar que somente ela poderia representar as características que suas personagens carregam.

Mesmo que os papéis tenham aspectos contraditórios como Hannah, de Hannah e suas Irmãs, e Cecília, da Rosa Púrpura do Cairo; elas têm entre si um laço interessante, as personagens representadas pela Mia Farrow são um belo retrato da mulher dos anos 80, com suas dúvidas, certezas. Não acredito que outra atriz poderia fazer tão bem esse papel como Mia Farrow. Até no divórcio ela conseguiu se comportar como num filme do Woody Allen.

Nesta onda de Mia Farrow, fico sempre tentando encontrá-la e encontro (e acabo também me encontrando). Não sei bem o que significa ser uma boa atriz, mas tenho certeza que Mia Farrow é ótima.

Provavelmente em Simplesmente Alice ela teve seu ápice, ali estava bonita, inteligente, um pouco dissimulada, com aquela inocência sagaz que ela consegue reproduzir tão bem. A mostra chama-se “A elegância de Woody Allen”, mas a elegância é de Mia Farrow, que conseguiu tirá-lo da comédia rasgada.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

O Americano Tranquilo - Graham Greene

Não há grandes pirotecnias lingüísticas, nem uma revolução na narrativa. No entanto a história sustenta o livro numa novela convencional, mas interessante. Talvez ser convencional não seja uma coisa tão problemática quando você consegue construir personagens verdadeiros em situações extremas.

O Americano Tranquilo é um livro fantástico sobre a guerra dos franceses na Indochina que nos deixa até uma pista sobre como será a guerra dos norte-americanos no mesmo lugar. Quando o mundo se volta num antiamericanismo infantil, ele nos mostra uma face diferente do neocolonialismo. Achei fantástico como o americano tranquilo do título se fundamenta numa visão de mundo, que é totalmente diferente da francesa/inglesa do século XIX e talvez é esta visão de mundo que precisa ser analisada e não palavras de ordem.

Embora essa questão do americano possa ser o mote principal, acho que o tema da inevitabilidade do engajamento é o melhor do livro. Estranho pensar de que a neutralidade não é um fato possível, ainda mais quando o mundo se divide cada vez mais (mais uma vez a questão dos interesses difusos coletivos...). E no fim, todo mundo se posiciona de alguma maneira, talvez nos anos 50 em situações extremas como a guerra e hoje em qualquer situação.

O livro dá uma descrição tão fantástica de Saigon que pela primeira vez fiquei com vontade de conhecer um lugar no Oriente. Fiquei morrendo de vontade de ler “Nosso Homem em Havana” do mesmo autor.

sábado, novembro 14, 2009

A Revista Piauí e a Rua Piauí

Tinha dois exemplares da revista Piauí fechados e agora que acabei outras leituras me pus a lê-los e tenho que admitir que realmente eu acho a revista Piauí uma das melhores revistas que você pode comprar numa banca. É uma revista de análise. Num tempo onde as informações são tão rápidas, as versões e os fatos mudam a todo instante, lendo a Piauí você tem o tempo a seu favor.

Como hoje nenhum fato é novidade já que tudo acontece em tempo real, acho que o futuro de um jornal e de uma revista está nos colunistas, que são pessoas que podem interpretar o mundo de informações publicadas a exaustão dando a elas um cenário, compondo um quadro onde as notícias são elementos. E aí entra a Piauí compondo o mundo atual sem nenhum furo ou novidade, e sim, conectando as notícias que passaram, que foram importantes e que pela enxurrada de notícias acabaram despercebidas.

Na verdade, no título eu quis pôr uma das maiores críticas que ouço da Revista Piauí: ela é elitista, trata o mundo como se o mundo fosse Higienópolis (por isso da Rua Piauí). Rememorando as cinco últimas reportagens que li: Serra na hora da decisão (revista 37), Vidas Paralisadas, O setembro negro da Sadia, A longa guerra de Stanley McChrystal e Ilusões de Obama (revista 38); com certeza não são reportagens que possam ser resumidas numa metáfora de futebol, numa frase de efeito ou num grito de ordem.

A infelicidade do meu tempo e da minha geração é que a discussão, a discordância, a análise e o conhecimento viraram elitismo. O problema da Revista Piauí não é a Rua Piauí e sim o fato que o que ela tem de qualidade (que para mim são virtudes) não é simbolicamente apropriado por grande parte da população e o mais triste é que a parte do think tank nacional que a acusa de elitismo não considere estas qualidades como necessárias.

Neste ponto posso ser um pouco saudosista e pessimista. Mas acho que a capacidade de análise e reflexão não é mais uma virtude e ao considerá-las uma faculdade da elite, termo vago sem análise e reflexão, se faz com que o efêmero seja a grande virtude do meu tempo. Esta efemeridade ao invés de provocar a reflexão de um projeto nacional (coletivo), de classe (difuso) ou individual, abre espaço para a apropriação parcial da realidade ou da fuga da realidade (uma fuga romântica, por que não?)

Considerando o aumento do número de vagas nas universidades públicas, o Pró-Uni (virtudes do governo Lula), a internet que democratiza o pensamento (e a efemeridade), e hoje vivendo numa cidade como São Paulo, onde o acesso a cultura e ao conhecimento, gratuito ou com baixo custo é gigantesco, as reflexões da Piauí não deveriam só fazer eco na Rua Piauí e sim em qualquer rua.

sexta-feira, novembro 13, 2009

São José dos Campos


Sensação estranha de nunca ter vivido ali ao mesmo tempo em que reconhecia prédios e me lembrava dos nomes das ruas. Mudei tanto que o simbolismo que poderia existir ali não simbolizava mais nada. Era só uma cidade vazia de significados que até poderia ser resignificada caso não estivesse ali somente para buscar um documento.

O efeito colateral de viver intensamente é que não havendo espaço emocional para tanta intensidade, a intensidade do passado é totalmente decomposta; transfiguram-se alguns elementos para que estes se sintetizem com o instante presente e o restante vire uma “natureza morta” ou se perca.

De minha passagem por São José dos Campos restaram algumas manias e tiques que já foram totalmente desnaturalizados para se incorporarem em mim como se não tivessem uma origem geográfica além de mim. Restaram também alguns nomes de ruas e o banhado, paisagem maravilhosa que não me evoca sentimento algum. Não lembro de grandes alegrias nem tristezas e as pessoas viraram personagens.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Risadas Impróprias

Não deveria rir disso, eu sei, mas não consigo parar de rir. Então vai em homenagem às velhinhas campineiras que andam de ônibus com o Carlos, aos participantes da Marcha para Jesus e a todos aqueles que gostam de um axé (de Jesus, claro).

Sem contar a homenagem especial à Baby Consuelo que em Alô Alô Terezinha, cantou: "Menino do Rio, sabor que provoca arrepio, Jesus forever tatuado no braço...." sic.


segunda-feira, novembro 02, 2009

O Machismo e o Vestidinho

Confesso que fiquei chocado com a cobertura que foi dada à barbárie ocorrida dentro de uma universidade por causa de um vestido curto. Parecia que o problema todo era o vestido e não a barbárie e a falta de tolerância com o diferente que os alunos desta universidade mostraram.

Depois de tanta luta contra o machismo, como é possível que uma mulher seja hostilizada e tenha que sair escoltada pela polícia por causa de um vestido? Como é possível que dentro de uma universidade, onde o saber de diferentes correntes é ensinado e estudado possa ter um ritual tão medieval contra a mulher? E como a imprensa, ao invés de investigar a causa de tal reação inconsciente e coletiva, de uma moral chauvinista, pode ter se concentrado apenas no vestido e não no acontecimento?

Nestas viagens de férias acabei topando com um livro fantástico do Philip Roth, Indignação, onde ele conta um caso chamado de “noite das calcinhas brancas” onde estudantes WASPs invadiram os dormitórios das meninas, expondo-as, e expondo suas calcinhas como troféus. No livro, o fato se dava num ambiente de profunda repressão sexual e de uma moral protestante ascética profunda. Agora, é possível pensar que na Uniban estamos num ambiente de profunda repressão sexual e de uma moral protestante ascética?

Para mim é machismo e nada mais que isso, machismo estimulado pela imprensa e pela universidade que é incapaz de superar este mal. Se uma mulher não pode se vestir do jeito que ela bem entender, ela não está sendo respeitada como mulher, como ser que é igual a todos. E às meninas que justificaram a barbárie pelo tamanho do vestido, estas são mais machistas ainda, já que para se posicionarem no mundo tiveram que renunciar a diferença, embarcando por conta própria no machismo reinante.

Depois de um século onde tabus sexuais foram derrubados, onde a mulher entrou no mercado de trabalho, que a mulher conseguiu se colocar no mundo não renunciando sua feminilidade e sim a ressaltando e buscando o direito de ser mulher, depois do Segundo Sexo e da geração pós-Segundo Sexo, depois de Camille Paglia, a mim, só resta a vergonha de conviver num mundo onde um vestido curto, que até pode ser inadequado, justifica o vandalismo, justifica uma caça ao diferente.

sexta-feira, outubro 30, 2009

O que é felicidade?

Péssima pergunta a ser feita no último dia útil antes de voltar ao trabalho. Boa pergunta pós-filme Na Natureza Selvagem.

Hoje para mim, é poder ler e ouvir boas coisas (e algumas más também); observar cidades, esquadrinhando-las, tentando entendê-las. Ter boas companhias para falar alguma besteira, piadas bobas e discutir algum assunto sério (e polêmico por que não?). Ter uma ótima companhia para fazer essas mesmas coisas com mais intimidade e carinho, permitindo um ponto de fuga Romântico ou uma ilusão e tentar não levar um estilo de vida Romântico. Ter algum contato com o divino também é importante, não importando a natureza deste contato.

Considerando que vivo, trabalho e tiro férias pensando e observando cidades e tenho as boas e a ótima companhia, apesar de me acharem triste, eu acho que tenho um potencial latente de felicidade, ou melhor acho que muitas vezes a alcanço.

O que me falta é constância!

Na Natureza Selvagem

Talvez a tenacidade e a capacidade de reorganização deste imenso clichê chamado capitalismo trouxe consigo não a revolução que seria sua superação, mas uma força com igual tenacidade e capacidade de reorganização que é o Romantismo e seus mitos antigos e reformados.

Não há como não pensar em Romantismo ao ver uma história de um jovem que foge de sua vida a procura da “verdade” e da “felicidade” na natureza selvagem. Mesmo que coloquemos neste jovem uma crítica social mais bem construída, problemas familiares e psicológicos, comunidades hippies, camisas xadrez e Pearl Jam, podemos ver nada mais que uma atualização do ideal Romântico, não à toa que o filme se inicia com uma citação de Byron.

Como filme, não se pode negar a beleza dos cenários selvagens e dos personagens em suas buscas, que mesmo fluídas são bem construídas. Mas a valorização extremada do jovem que rompeu com o mundo da um ar cansativo ao filme. Achei ótima a cena em que o jovem volta a uma cidade grande e já não consegue se adaptar a ela.

Agora como tema, não dá pra não ligar ao filme essa epopéia de ONGs e protestos anti-globalização e anti-capitalismo que para mim nada mais é que Romantismo revisitado, revisado e atualizado. Assim como a vida do jovem do filme, estes protestos podem causar uma mudança radical na vida dos que dele fazem parte, mas em nada muda a natureza da fuga. O protesto e as ONGs pelo menos tem a vantagem de permitir uma consciência coletiva (difusa) enquanto a vida de ermitão só pode levar a uma epifania que é um sentimento religioso que deve ser combatido pelos anti-tudo.

O engraçado desta história toda é que mesmo com sua ineficácia ao atacar a vontade da fuga, ela é irresistível e acredito que não há uma alma viva que não a procurou, seja na natureza, no passado, na infância, no amor, na morte ou também na futilidade, que carrega em si também um grande espírito Romântico.

Poderia haver uma Conferência do Cassino Lisboeta mundial que rompesse com esta brisa do Romantismo encanado, que talvez seja o mal da minha geração?

quarta-feira, outubro 28, 2009

Golpe de Ar

Golpe de ar
Fabrício Corsaletti

Se havia uma coisa que me encucava era o fato de não ler nenhum autor da minha idade. Não conhecia nenhum, e esse fato gerava em mim a sensação de que minha geração fiara imune ao choque geracional que outros escritores de outras gerações conseguiram mostrar em seus livros como o Quarup ou Gracias por el fuego.

No entanto, graça à Revista Bravo, que eu achava insuportavelmente chata, tenho descoberto escritores, até mais jovens do que eu que já não sou tão jovem assim, que talvez sintetizem um pouco minha geração; que não é mais a da luta de classes como em Gracias por el fuego, mas que pertence a era dos interesses difusos e coletivos como em Cordilheira e Golpe de Ar.

O bom de Golpe de Ar é que em nenhum momento você precisa imaginar situações já que o que está escrito lá, todo mundo com vinte e muitos anos já passou. Como a narrativa é cortada, as frases curtas, o texto se fragmenta como nosso tempo, sem perder a coerência. Achei fantástico o fato do livro deixar alguns segredos em aberto e esses segredos não atrapalharem a narrativa e sim tornarem-se símbolo da individualidade que não nega o coletivo (frase meio clichê, mas se pode encontrar algumas verdades nos clichês também).

Nosso mal estar geracional não está exposto ali, mas você o sente a medida que lê. Terminei o livro pensando que talvez a futilidade que todos reclamam é realmente futilidade, mas o incômodo com ela pode ser a porta para o entendimento e a resolução deste mal tão pouco explícito, tão difuso, tão coletivo.

O livro se passa em Buenos Aires que com vinte e poucos anos também foi minha fuga, talvez por isso a identificação seja maior (ou não). Gostei do livro!

segunda-feira, outubro 26, 2009

Subsídio para iniciantes

Não existe debate mais gostoso e acalorado que a questão dos subsídios. Além da técnica, da economia, os subsídios são ideológicos e políticos o que deixa sempre esta discussão tensa. Não se trata de negar o caráter social do transporte público, mas sim, de como se encara a imensa massa de dinheiro que é consumida em custeio e investimento e de como olhar o sistema de transporte pela luz de sua eficiência como estruturador do espaço urbano, como causa do aumento da mobilidade, como promotor da equidade de acessos e pela qualidade do serviço prestado.

No congresso da ANTP encontrei minha musa nesta discussão: Ângela Amim; encontrei também a batalha pela qual combateria o bom combate: Política Nacional de Mobilidade Urbana. Somente com simplicidade tarifária, eficiência na prestação do serviço, preocupação com custos, ressarcimento das gratuidades e envolvimento dos municípios e da sociedade na tarefa de organizar o transporte público urbano, metropolitano ou não, pode-se justificar a quantidade quase faraônica de subsídios para custeio e os investimentos a fundo perdido no setor. Fora isso, política tarifária é caixa-preta e caixas-pretas não são democráticas nem justas.

Ao apresentar a questão do subsídio (de uma maneira até um pouco amadora para justificar o iniciantes do título, já que me considero iniciante também) utilizando os dados do balanço da CPTM, ilustrando como o crescimento desordenado da metrópole pode levar a um aumento do custo e uma necessidade intrínseca de subsídio, detalhando a tarifa e discutindo algumas formas de lançar custos para medir a real eficiência dos diferentes serviços, para uma platéia de jovens que estão sendo treinados para assistentes administrativos, que em sua maioria vivem no subúrbio e que estão ávidos de mobilidade, principalmente a social, percebi que eles, assim como eu, se assustaram com o subsídio. Concluí que eles também acharam absurda a quantidade de dinheiro consumida no transporte e como há injustiça na forma de transferência de dinheiro do Estado para o custeio.

Ainda há espaço para a “desesquerdização” da política tarifária a partir de um discurso de eficiência, sem negar seu caráter social, mas restaurando o espírito de choque capitalista vencedor em 1994. Não se deve temer este espírito, por mais irracional que anda o quadro político atual, sempre haverá espaço para a razão. Podemos ser latinos, mas não deixamos de ser ocidentais.

terça-feira, outubro 20, 2009

Maringá, Maringá...

Eu sabia que conhecia a música....rs, e a ouvi ao vivo num show da Inezita Barroso!

Maringá
(Inezita Barroso - comp. Joubert de Carvalho)

Foi numa leva que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante que mais dava o que falar
E junto dela veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse de um caboclo que ficou

Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu garrei a imaginar

Maringá, Maringá
Para haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar

Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um caboclo assossegar

Antigamente uma alegria sem igual
Dominava aquela gente da cidade de Pombal
Mas veio a seca, toda água foi embora
Só restando então a mágoa
Do caboclo quando chora


segunda-feira, outubro 19, 2009

Curitiba e Maringá

"Suave é a noite, a noite que eu saio
Pra conhecer cidades e me perder por aí"


Não sei se os lugares influenciam as pessoas que nele habitam ou as pessoas que transformam seus habitats. É um pouco a discussão do ovo e da galinha. Acho que ambos interagem, transformando cada lugar numa coisa única, já que nele se desenvolvem todas as aspirações das pessoas que nele habitam, ainda mais se considerarmos cidades que são o máximo da nossa civilização. (ainda influência do Rouanet falando sobre a civilização ocidental...)

Pensando nesta relação lugar-pessoa, fiquei impressionado com o contraste entre Curitiba e Maringá. Se tivesse ido à Curitiba e numa outra viagem ido à Maringá, talvez a diferença não ficaria tão evidente. Como em menos de duas horas fui de uma a outra, qualquer pequena diferença se agigantou. Senti-me mudando de país.

Curitiba é cinza, organizada, funcional. Praticamente tudo que quero ser. Cidade racional. Lá você é bem tratado em todos os lugares, um lugar ótimo para sentir frio, ser você sem precisar ser simpático. Ninguém espera que você seja simpático e é ótimo não precisar ser simpático. A cidade clama para que você siga o regulamento, um regulamento não escrito e bem seguido e a vontade de segui-lo é imensa. Pessoas que não se comportam bem, que não sabem conviver em sociedade deveriam ser condenadas a viver em Curitiba. Se o que falei até agora pareceu uma crítica, na verdade foi um elogio. A cidade funciona, é viva e é organizada, é criativa sem sufoco nem choro, não existem imprevistos em Curitiba!

Maringá é amarela, quente. Cidade planejada com burburinho, trânsito; planejada sem desenhos mirabolantes nem segregação radical. Planejada para ser cidade, com gente, com gente real, com carrinho de cachorro quente na calçada; um lugar onde você pode atravessar fora da faixa de pedestre como em qualquer outro lugar do mundo (exceto Curitiba). O calor move a cidade, todo mundo parece estar na rua o que deixa a cidade com um aspecto feliz. Ás vezes o calor irrita, irrita saber que todos os filmes em cartaz são dublados, que os restaurantes fecham cedo e que se você não estiver de bom humor com certeza será mal atendido. O imprevisto nasce da entropia gerada pelo calor, calor continental. As características das pessoas se agigantam no calor, e o bonito se torna mais bonito, o feio mais feio e o calor acaba deixando a cidade sexy. Acho que “Corpos Ardentes” poderia ter sido filmado em Maringá. Quando amanheci na cidade lembrei do filme.

Voltei para São Paulo achando que esses dois Paranás não poderiam coexistir, mas talvez a diferença seja a graça de tudo, são diferenças complementares. É um pouco esquizofrênico mas encontrei-me em ambas!

terça-feira, setembro 22, 2009

Livros

5 livros que eu vou ler antes de morrer:
  1. A Montanha Mágica;
  2. O Tempo e o Vento (completo);
  3. Em busca do tempo perdido (este eu ainda vou ler em francês);
  4. O Segundo Sexo (acho melhor ler este em português mesmo);
  5. Dom Quixote (foi um dos presentes mais bonitos que já ganhei, mas ainda não li);

5 livros que eu vou reler antes de morrer:

  1. Quarup;
  2. Este lado do Paraíso;
  3. São Bernardo;
  4. Os Maias;
  5. O Primo Basílio.

5 livros que eu tenho certeza que não lerei até morrer:

  1. Ensaio sobre a cegueira;
  2. Grande Sertão: veredas;
  3. Veias Abertas da América Latina;
  4. O Ateneu;
  5. Amor de Perdição.

5 livros que eu me arrependo até a morte de ter lido:

  1. O terceiro travesseiro;
  2. Lucíola;
  3. Enquanto a Inglaterra dorme;
  4. Sonetos de Bocage;
  5. Minutos de Sabedoria (na verdade não sabia o que por no quinto item)

terça-feira, setembro 08, 2009

À obstrução!

Não sei se fico mais indignado com a situação ou com a oposição. É absolutamente inadmissível que o governo outorgue, e a palavra é essa mesma enquanto vigorar a urgência declarada pelo presidente, um marco regulatório para o Petróleo, atropelando o Congresso e a Sociedade. Um marco arcaico, estatizante, que será corroído pelos mesmos companheiros que estão aparelhando o Estado brasileiro.

Concordem ou não com o marco regulatório em vigor, ele tem uma coerência em todos os campos onde a constituição permite a regulamentação e foi tema da campanha presidencial de 1994, tema de discussão no congresso durante todo o biênio 1995-1996. Pode-se gostar dele ou não, mas ele é uma conquista democrática legítima. O que se está querendo fazer com a quantidade absurda de propaganda e a urgência num novo marco regulatório é impor um modelo à sociedade que ela não tem o direito de discutir. Assim como foi a fusão da Oi com a BrasilTelecom, destrói-se uma peça jurídica construída democraticamente e a substitui por uma peça de propaganda onde não se dá o direito da Casa do Povo e da Federação analisá-la. É uma atrocidade à democracia o que está acontecendo e o governo Lula é o grande arquiteto deste autoritarismo.

No entanto, choca-me ainda mais o papel do PSDB nesta história. Agora é a hora da obstrução, é no parlamento que se conseguirá tirar a urgência deste projeto, que não é um projeto de marco regulatório e sim um projeto de ditadura vindoura. A defesa da democracia, além do aparelhamento do setor do petróleo é o que está em jogo; à oposição cabe a obstrução, que é prática parlamentar legítima. É necessário forçar o governo à negociação.

O Partido Republicano tem conseguido destruir a aura de Obama exatamente nas contradições, atropelos e desrespeitos que este, na ânsia do novo, está impondo à uma sociedade acostumada à democracia. Nós não temos ainda trinta anos de retorno democrático, mas a oposição deve ser a fiel defensora das nossas liberdades. É necessário mostrar que o governo Lula está destruindo uma opção que a sociedade brasileira fez em 94! Não é possível ser dúbio em horas tão decisivas!

O chavismo está muito próximo, e agora terá até aviões franceses nos próximos desfiles. O preço da liberdade é a eterna vigilância e a oposição deve ser vigilante a fim de lembrar o governo que ele vive sob o Estado da Lei, cuja lei ele sabota, violando direitos individuais como o do caseiro e absolvendo seus comparsas com os votos de 7 indicações que fez no Supremo. Vigiemos!

sexta-feira, setembro 04, 2009

No tan Buenos Aires

Ayer miré a una película argentina antigua, del inicio de la decadencia argentina pos-Perón. Pues bien, lo que más me impresionó en ella fue cómo se puede mirar Buenos Aires desde allí con los mismo ojos con que la miré en julio cuanto estuve allá. Tanto el Kavanagh, la Plaza San Martín, la Torre de los Ingleses, las baldosas rotas en las veredas, estaban todos allá en la película, cómo si no hubiera pasado casi cincuenta años entre las dos miradas.

Así como en las otras películas que he mirado, no sólo en la Muestra, como en los pocos filmes que llegan desde Argentina hacia acá, se consigue hacer un contorno del significado de ser argentino, que quizás sea más homogéneo do que el ser brasileño. No que homogéneo acá signifique más sencillo, porque lo único que no se puede decir del argentino es que sean un pueblo sencillo, pero que su complejidad sea más radical y esto por si sólo nos permite mirar a los detalles.

Si en él parágrafo arriba lo puse de un modo amplío, ahora lo puedo hablar de estas contradicciones que hacen la complejidad de los argentinos que están presentes tanto en las películas de los sesenta (algo como una nouvelle vague argentina) como en el nuevo cine argentino. Así como se hacen una autocrítica brutal, dejando clarísimo la naturaleza de un país de oficinas y jubilados, una clase media con valores un poco conservadores y hasta al límite reaccionaria, pueden traer también temas muy delicados como el aborto, el divorcio, la eutanasia y las discusiones familiares que no podrían venir al telón se no hubieran sido puesto bajo a la luz de la autocrítica.

Por ser así, a mí, me parece mucho más realista una película argentina de los sesenta que habla del aborto bajo esta mirada sobre la sociedad que una brasileña que quizás no tenga la misma radicalidad en su complejidad. De ser así, nuestras películas traen consigo algo de artificial, que puede ser resultado del facto de hacer falta esta crítica que es cara a los argentinos o, lo que sería más lastimoso, quizás porque no hago parte del universo de los temas de las películas brasileñas.

No puedo negar que mismo en la crisis, como en las luchas, los piquetes y con la ya famosa decadencia de Argentina, todavía es un país que me encanta. Puede ser que el castellano de este texto sea tan trucho como mi análisis del cine argentino, pero al mirar las películas, lo quise escribir algo en castellano, un homenaje a uno de los lugares que más me siento bien.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Por um vento liberal

Todo sendero tiene su atolladero

Essa história do pré-sal talvez possa ser a alavanca necessária para começarmos a discutir o país que queremos. Não acredito nem ideologias, nem em Estados inventados, nem em Dom Sebastião saído do mar. Estado é construção, mas para construir é preciso discutir e infelizmente nestes últimos 7 anos o que menos fizemos foi isso, discutir. Não só por culpa do presidente e do oficialismo, mas também por falta de vontade da oposição em fazer oposição à um presidente popular, esquecendo que foi a vontade do povo, pelo voto, que fez da oposição, oposição!

A questão não é tão complicada assim, ela só precisa ser feita. Hoje temos um Estado do tamanho do Estado que tínhamos pré-Fernando Henrique, um Estado que se agiganta, que gasta com o funcionalismo, na crise e na prosperidade, que aparelhou toda e qualquer instituição do Estado, expurgando a contradição dos palácios e departamentos. Ao mesmo tempo, ao criar uma ilha de fantasia no serviço público federal, sugou para dentro dele todo o potencial inventivo, capaz de criar empreendimentos e fazer o setor público prosperar; afinal o governo federal paga seis vezes mais que a iniciativa privada. Não é a toa que hordas de estudantes recém formados em universidade públicas se dediquem dia e noite a ter um carguinho federal onde daqui a algum tempo terão direitos adquiridos e o patrimonialismo nosso, antropológico, cultural, fará que o governo governe para essa casta que se apoderou do Estado e não para seus pobres filhos que o sustentam.

Para os que não fazem parte da casta, fica um discurso dúbio, onde se mantém um sistema financeiro turbinado com juros altos, rebaixa de impostos para combater a crise e bolsas a disposição dos que não são da casta, nem do setor produtivo e nem do financeiro. O presente se torna fantástico, afinal o desemprego cai e a renda aumenta, mas por incrível matemática o rendimento pelo trabalho cai, a participação do trabalho na renda nacional cai mais ainda e o orçamento começa a fazer água. Nos anos 70 tivemos um ciclo de Brasil Grande que desaguou na crise dos 80. Qual o custo desta farra fiscal? Ele vale essa felicidade presente?

Eu duvido. Talvez seja um dos poucos que se mantém fiel à onda de 94. Não quero um Estado ator, quero um Estado planejador. Pouco me importa se a renda do óleo extraído venha da Petrobrás ou de qualquer outra, desde que se pague os impostos e royalties devido (sem tentar passar a perna na receita). Muitas são as demandas, cada dia crescem mais, na velocidade em que crescem os interesses difusos e coletivos, mas ao mesmo tempo que cada vez mais atores entram em cena, o espaço orçamentário é o mesmo e é preciso um choque de consciência e de democracia para fazer este arranjo sem empurrar com a barriga a decisão. A decisão deve ser feita na eleição, não deve ser escondida da eleição. Decisões implicam em tomada de consciência e muitas vezes na não-satisfação dos desejos, mas adultos trabalham com suas frustrações. Tentar atender a todos num malabarismo que nos levará a inflação e ao populismo é infantilidade.

Questões como o déficit da previdência, o agigantamento do setor público, a diminuição do papel do trabalho na renda nacional deve ser discutida e não escondida por um presidente popular que é popular porque fala o que todo mundo quer ouvir. Arma-se uma bomba, uma hora a bomba explode. A falta de discussão é prejudicial à democracia e somente facilita um clima de qué se vayan todos presente em todos os cafezinhos públicos e privados.

Chegou a hora de decisões. Haverá alguém para tomá-las? Em Gracias por el fuego, há conversa numa festa um dos personagens diz que para o Uruguai só haveriam dois caminhos: Fidel ou Stroessner. Não acredito que nosso leque de opções seja tão radical e restrito assim, mas uma hora teremos que escolher entre Cristina Kirchner ou Michele Bachelet. Eu vou de Bachelet, e você?

sábado, agosto 29, 2009

Isabella Rossellini

Acabei de assistir um filme ótimo. O filme em si merecia um texto longo, com detalhes, tentando abrir metáforas perdidas, explorando toda a psiquê, etc. No entanto, não conseguia tirar os olhos da Isabella Rossellini no papel de uma mãe judia.

Como o tempo é triste. Para mim a Isabella Rossellini vai ser sempre aquela mulher um pouco sapeca de “Um toque de infidelidade”. Acho que uma das sessões da tarde mais inteligentes que a Globo já passou.

No entanto, a garota Isabella Rossellini agora é uma mamãe judia. É praticamente um ícone de juventude que se perdeu. Saí do cinema me sentindo velho.

quarta-feira, agosto 26, 2009

O grande risco das pequenas mentiras

Sempre acreditei na afirmação do título e até já tive provas de que realmente é verdade que as pequenas mentiras trazem consigo mais riscos que as grandes. Quando se mente por muita coisa, os detalhes se tornam maiores e mesmo uma contradição pode passar desapercebida pela grandiloqüência da história. Quando se mente pequeno, por comezinha que é a mentira, se ela suscita dúvidas, os detalhes desmontam o castelo de cartas. Mesmo porque se já existe uma dúvida em coisas corriqueiras, a credibilidade do mentiroso já está desvendada a priori.

Neste caso, dona Dilma está se mostrando uma filha que não aprendeu direito as lições do pai. Sempre que alguém pôs sob mácula a imagem do seu mentor e mestre, ele soube através da grandiloqüência e de um certo sebastianismo afastar-se dela, mesmo que a sombra pairasse sobre seus companheiros de luta que cada dia que passa se transforma e se deforma. Dilma não, mente por pouco, e como desconfia-se do pouco que faz, seus pequenos enganos vão aparecendo, assim como um título de doutora que ela não tinha, assim como um encontro que ela diz que não teve e que não teria porquê provar, assim como aceitou que até poderia provar que não o teve se tivesse os registros, assim como o contrato de segurança indica que não se pode apagar os registros e sic transit gloria mundi.

Não acredito que aqui chegaremos a histeria de uma mentira boba quase derrubar um presidente como foi com Clinton, mas será que somos tão amigáveis às pequenas mentiras a ponto de elegermos uma pequena contadora de histórias?

Os governos passam e a administração pública fica

Começo a sentir orgulho da Receita pela prova de lealdade à administração pública que seus funcionários estão dando ao pedirem exoneração dos cargos de confiança. Isso mostra o quanto este governo interfere na burocracia para auxiliar seus amigos. Assim aconteceu na Fazenda quando para defender Palocci abriram o sigilo bancário do caseiro acusador ou quando o ministro Hélio Costa pressionou a Anatel a aceitar a fusão da sócia do filho do presidente contrariando a lei e o espírito da privatização da telefonia. Também podemos lembrar que esta série de exonerações forçadas ou voluntárias começou para proteger a Petrobrás, totalmente loteada, de ser autuada pela Receita.

Enfim, a administração pública fica e este governo quer ficar per omnia secula saeculorum se enraizando na administração, na boquinha amiga e companheira.

domingo, agosto 23, 2009

Chega de Saudades

Sabe quando você assiste a um filme e fica com ele na cabeça por muito tempo? Infelizmente eu tenho uma mania horrível de assistir várias vezes esse tipo de filme e fico querendo enxergar mais neles do que acho que eles se propuseram a mostrar.

Pois bem, Chega de Saudades é um filme que eu já devo ter assistido umas 10 vezes. Durante todo o tempo que esteve nos cinemas nunca consegui assisti-lo, de repente, por causa de um erro das Lojas Americanas ele chegou na minha mão. Um presente numa hora errada que chegou errado, no entanto o filme acabou sendo perfeito para àquela hora.

A idéia de velhinhos dançando pode ser meio prosaica, mas o filme é muito mais que isso, o jeito que as histórias se entrelaçam com a trilha sonora, tudo como se fosse um baile acontecendo é fantástica. Concordo com o roteirista que talvez as pessoas mais lúcidas e bem resolvidas daqui de São Paulo estão dançando às 5 da tarde.

Sem contar a Elza Soares cantando Lama numa das cenas mais marcantes do filme.

Ao fim, você encontra no filme alguns paralelos tão interessantes com a vida moderna vividos por personagens que não vivem esta tal da vida moderna. Lembra-me um pouquinho os bailes que minha mãe e meu pai iam e acabavam levando a mim e ao meu irmão. Não eram Bailes da Saudade, mas as músicas eram músicas de baile e minha memória musical é muito melhor que a visual.

É um filme de gente que você vê todos os dias e esta “vida metropolitana e cosmopolita” faz com que não o enxerguemos.

Domésticas – O filme.

Engraçado, não tinha reparado numa cena de Domésticas que pega o gancho com a última frase do texto sobre o Chega de Saudades. É fantástica a cena quando o lavador de carro fica preso no elevador e que não o acham porque o morador do prédio não sabia o nome dele e como reação ele picha o prédio inteiro com seu nome. Absurdo que existam grupos tão marginalizados que precisam gritar para que os enxerguemos.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Serra, cuidado para não ser Carlos Sampaio!

A analogia surgiu hoje de manhã numa discussão sobre 2010, mas não acho impossível que o espectro maligno que levou Doutor Hélio a prefeitura de Campinas em 2004 não possa fazer de Ciro Gomes o próximo presidente do Brasil.

A conta é simples. Serra é o único candidato da dita “direita”, enquanto a dita “esquerda” vai com todas seus matizes para a campanha: Dilma, Ciro Gomes, Marina Silva e Heloísa Helena. Serra lidera o 1º turno inteiro enquanto Dilma e Ciro Gomes se engalfinham para ver quem vai ao segundo turno, com toda a baixaria que sabemos que um é e que já temos indícios que a outra será. Passado o 1º turno, eles voltam a ser amiguinhos, o PT, que não apóia nem o candidato deles (vide Luisa Erundina e Jacó Bittar) apóia Ciro Gomes e ele leva no segundo turno.

Em 2004, Doutor Hélio e Luciano Zica brigaram o que puderam, com a figuração de Petterson Prado e Jacó Bittar. Passou Doutor Hélio e o PT nacional foi o maior doador da campanha no segundo turno.

Não sei que conselho dar, não vale a pena entrar na lama, mas não fique também de salto alto!

E se nada mais der certo...

Bem, se nada mais der certo, faça um filme bem ruim, com muito palavrão, umas figuras estranhas, peça patrocínio da Ancine, chame uma estatal para patrociná-lo deduzindo o Imposto de Renda pela Lei Rouanet e você ganhará uma graninha. Afinal, com esta modinha alternativa, sempre haverá alguém para vê-lo, e como o filme já está pago, se um modernete ver seu filme, você ainda lucra!

O preço da liberdade é a eterna vigilância!

É um absurdo o governo federal fazer propaganda dentro do cinema, não só o faz como governo federal, como ainda põe mensagens em propagandas das estatais. O governo federal é mais presente no filme do que o próprio filme.

Então ficamos assim, os gastos do governo com funcionalismo sobe à mesma proporção que eram em 94, o salário no funcionalismo público federal são 6 vezes maiores do que na iniciativa privada. Os companheiros ocuparam todos os cargos possíveis e imagináveis e meu rico dinheirinho, suado, sofrido ainda paga filme de quinta categoria!

O chavismo está perto. O espírito está pronto, mas a carne é a fraca. Vigiemos!

domingo, agosto 09, 2009

Onde estava Aloízio Mercadante??

Segue coluna do Clóvis Rossi na Folha de hoje. (não sei sobre a legalidade de dar um corta e cola numa coluna de um jornal, mas não queria por só o link)
Talvez a coluna responda a grande questão desta semana: por que Aloízio Mercadante (e Ideli Salvatti) viram toda a baixaria de seus gabinetes e não atuando como líder do partido do governo e como líder do governo??
CLÓVIS ROSSI Pena ou desprezo?

SÃO PAULO - Chego a sentir certa pena do senador Aloizio Mercadante, o líder do PT no Senado, quando ele diz que o motivo que o levou a fugir do plenário na quinta-feira é este: "Não queria ver minha foto naquela moldura".
Pena, senador, que sua foto já esteja naquela moldura desde que aceitou silenciosa, mas gostosamente, a aliança de seu partido com algumas das figuras mais deploráveis da política brasileira.Ou Mercadante não participou ativamente da campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, ano em que Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello estavam lado a lado, praticando as infâmias arquiconhecidas?
Não creio que o senador petista tenha uma formação tão religiosa que lhe permita acreditar no arrependimento dos pecadores. Portanto, só aceitou conviver e ser "companheiro" de Collor e Renan (para não citar uma bela quantidade de outros não menos deploráveis) em nome de agarrar-se ao poder a qualquer custo, mesmo que seja um custo deplorável.
Mercadante foi, durante as campanhas presidenciais do PT, a melhor fonte sobre assuntos econômicos. E melhor aí é, sim, juízo de valor, embora muita gente, inclusive no próprio partido, faça severas restrições aos conhecimentos do hoje senador.
Muito bem. Após a posse, Mercadante foi escanteado. Um dia, em almoço no Itamaraty para o então primeiro-ministro japonês Junichiro Koizumi, sentamos à mesma mesa e ele me disse que se sentia "emparedado", porque tinha críticas, mas a lealdade ao chefe o impedia de fazê-las.
Calou-se tanto, renunciou tanto a pensar com a própria cabeça que termina obrigado a homiziar-se em seu gabinete para não aparecer na foto ao lado do "companheiro" Renan, sob a presidência do "companheiro" Sarney.
Merece piedade ou desprezo?

terça-feira, agosto 04, 2009

Foi apenas um sonho

Ainda estou sob efeito de Foi apenas um sonho. Já haviam me falado que era bom, mas não sabia que me causaria tanto impacto. Que filme bom!

Engraçado é perceber, e aceitar, como as pessoas fogem da mediocridade. Somos todos os dias bombardeados de casos de sucesso, de proezas inimagináveis, de belezas inatas e construídas que diferenciam as pessoas, ao mesmo tempo em que caminhamos cada dia mais para a massificação.

Fico meio receoso em usar a palavra massificação uma vez que estamos cada dia mais na era da diferenciação social, dos interesses difusos e coletivos, mesmo que ainda haja a polaridade burguês-proletário, há tantos tipos de burgueses e tantos tipos de proletários que não se pode mais tratá-los como o Manifesto Comunista os tratava. (esse parágrafo é uma tentativa de justificar o massificação, já que realmente não estamos mais tão massificados assim...)

Posto isso, ao mesmo tempo em que se foge da mediocridade com a idéia de que qualquer um pode ascender à glória por seus próprios meios, seja ele do talento, da beleza, da inteligência, o caminho que nos é dado é um só. E esse caminho que poderia nos tirar da mediocridade, tende a nos levar a ela.

Afinal, ganharás o pão com o suor do seu trabalho e há de ter responsabilidades, e tudo isso pode solapar de vez qualquer talento, beleza e inteligência que poderia vir a trazer uma realização plena.

Aí entra o filme. Quando você acha que o casal romperá o estilo de vida. Onde sofrem a reprovação de todos do seu convívio social e ao mesmo tempo os fazem repensar seus próprios modos de vida. O casal não consegue romper o ciclo. O casal não, o marido.

Triste busca incessante esta a da felicidade. Pelo menos a diferenciação nos dá a graça de criarmos nichos alienantes que podem nos dar a idéia de sermos bons e diferentes, mesmo dentro da geléia geral.

(Que textinho marxista, não o imaginei assim, mas é uma forma de análise, ou não)

domingo, agosto 02, 2009

Instantâneo

Eu sou assim, pelo menos por agora. Ando a procura de paixões, ancorado em algumas poucas certezas e em busca de novas dúvidas. Há dez anos não sabia falar inglês e continuo sem saber. Fui bom em matemática e hoje não sei cálculo. Quis aprender francês e agora quero aprender fotografia. Engenheiro por acidente, observador de nascimento e católico por persistência. Sou assim, agora.

Amanhã posso ser fotógrafo, talvez demógrafo. Oxalá aprenda o maldito inglês. Quiçá seja católico ou vire astrólogo. Enquanto não decido, continuo um engenheiro observador e católico que não sabe mais cálculo, nem tirar fotografias, à procura paixões, ancorado na certeza de que não sabe falar inglês e que precisa aprendê-lo, mesmo tendo vontade de aprender francês e fotografia.

sexta-feira, julho 31, 2009

Segunda Onda e Baader-Meinhof

No artigo do Gabeira hoje na Folha ele comentava sobre uma segunda onda democrática, superando esta primeira onda que se esgota com o fim do governo Lula. Se na primeira onda tivemos a consolidação da democracia com eleições diretas regulares, “uma política econômica realista, uma generosa política social”. A próxima onda será a da responsabilidade diante da transparência, além das demandas sociais que cresceram (com a economia e com a democracia) e com uma nova abordagem de como os políticos irão absorver e dirigir essas novas demandas.

Ponho aqui também uma questão de liderança, e talvez de espírito. Afinal, acho que esta nova onda deve vir com um propósito, seja ela bolivariano ou extremamente liberal, acho interessante que ele tenha uma meta e não viva do dia a dia. Acho importante caminharmos numa direção, não decidir no dia a dia. Não que uma idéia prevalecerá, mas termos líderes com propósitos e ideais pode gerar um debate interessante que falta hoje em nossa democracia.

Neste ponto entra o link com o filme que eu acabei de assistir. O filme é “Baader Meinhof” e é sobre o grupo terrorista que surgiu no seio de uma das nações com um estado de bem estar social mais bem desenvolvido e que nem por isso surgiu dentro de sua juventude uma geração contestadora que acabou indo para a luta armada em torno de uma revolução cujos motivos eram tão fluídos que se torna um mistério.

Na verdade todos os acontecimentos de 68 parecem para mim como um delírio coletivo do ocidente. Uma contestação de tudo e da própria ocidentalidade (engraçado, acho que durante todo o século passado todos os intelectuais só enxergavam a decadência do Ocidente). Ao fim, num misto de sonho, de uma utopia difusa que negava a individualidade em busca de uma liberdade não muito explicada.

Acho que os filmes tratam esses acontecimentos de 68 com um certo romantismo, afinal a juventude é uma coisa bela de se observar e em 1968 eles tomaram conta do mundo, subvertendo valores, mas foram pouco eficientes nos seus objetivos. Afinal, todas as revoltas impediram a implantação de um governo do Willy Brandt de tentar um governo que conseguisse implantar uma forma de representação que incluísse os jovens, impediu o PCI de chegar ao governo, reforçou o gaullismo na França e de rasteira destruiu a socialdemocracia nos Estados Unidos e na Inglaterra trazendo a Era Reagan e Teatcher.

Sobre o filme....

Bem, filmes alemães são ótimos sempre, eles não oscilam como os franceses, então se você vir em cartaz um filme alemão, assiste. Mal não vai lhe fazer! Sem contar que o final dos 60 e começo dos 70 são fantásticos, de música, de estética. Vale a pena o filme.

terça-feira, julho 28, 2009

Timing

Hoje eu cheguei adiantado no tempo. Corri para que o tempo passasse correndo, corri tanto que o ultrapassei, sem olhar para o lado, como se fosse a luz, num caminho reto e certeiro corri e passei do ponto. Não consegui achar nada que me difratasse, que me multiplicasse em outros espectros que conseguissem dar conta desta ansiedade que me fez passar do tempo. Cheguei adiantado. Ganhei do tempo e perdi tempo.

Sensação estranha para quem sempre se sentiu atrasado. Cheguei adiantado no tempo e isso não me trouxe nada mais que uma trajetória perfeita como a da luz, que corre o ultrapassando; talvez um espelho me fizesse retroceder, mas aí seria um retrocesso no espaço, não mais no tempo. Cheguei adiantado, poderia mudar o meio; a trajetória se tornaria mais lenta e o mundo me alcançaria. Talvez, novos meios, novos ares, novas analogias que não sejam tão rígidas como a luz e o tempo.

domingo, julho 26, 2009

Zona de Máxima Restrição aos Fretados

A meu ver, a grande discussão sobre a ZMRF tem muito mais a ver com a apropriação do público pelo privado do que a mobilidade de pessoas. É interessante notar nas reclamações dos usuários o absurdo deles terem que usar o transporte coletivo, como se o usuário do transporte coletivo fosse um ser que deve ser evitado, o diferente, o perigoso.

Segundo as pesquisa OD 2007, o perfil de renda e escolaridade dos usuários do fretado é igual a do usuário do transporte coletivo, o que desmonta o argumento que está na faixa dos fretados, que a partir de amanhã serão proibidos, que o fretado substitui 20 carros. Bem, somente se o usuário do fretado for um louco ou estiver na rabeira da distribuição estatística. Afinal, com a renda média dos usuários de fretado, se eles fizerem esta viagem de automóvel, o peso do transporte individual em seus orçamentos aumentará muito.

Olhando as pesquisas do DIEESE a participação do item transporte nas famílias do terceiro tercil de renda da RMSP já é quase igual ao de alimentação. Claro que eles tem maior mobilidade que os dos outros tercis, mas se optarem por usar seus carros, aumentarão este peso, o que é meio impossível. Logo os usuários do fretado não serão tão incoerentes para substituir sua viagem pelo carro, se ele pudesse, já estaria fazendo e não andando de fretado.

Além do mais, não é justo que os usuários do transporte coletivo dos ônibus da capital sejam prejudicados pelas barbaridades que os fretados fazem nas ruas, que diminui a velocidade dos ônibus. Não posso falar para vocês olharem a Berrini, a São Carlos do Pinhal e a Alameda Santos já que a partir de amanhã elas estarão livres, mas quem já as viu, se escandalizou com as barbaridades cometidas pelos fretados.

O que se vê é uma minoria que se acha melhor do que os usuários de transporte coletivo que se sente detentora de um direito que prejudica uma maioria de pessoas que são iguais a elas diminuindo a velocidade do trânsito na cidade.

Como transporte é máfia, amanhã será um dia de tumulto geral, praticamente com os fretados tentando sabotar o plano, tomara que a CET consiga pôr ordem na casa.

Vou fazer um exercício de futurologia, eu realmente acho que daqui uns dois meses as coisas estarão estabilizadas, e aí teremos mais 40.000 usuários que estão nos segundos e terceiros tercis de renda usando o transporte coletivo e discutindo-o politicamente. Afinal, o transporte público pode ser superlotado ou ineficiente, mas o é pela dinâmica da cidade e pressões de grupos como os usuários do fretado.

A construção da cidade passa pela identificação dos interesses e principalmente pela ponderação das suas forças motrizes, acho que neste caso o interesse foi detectado e a cidade ganhará com a medida.

quarta-feira, julho 22, 2009

Mas afinal: você é a favor do quê?

No blog do Marcelo Coelho ele comentou o quão fascinante é a política norte-americana a partir da análise de Milk. Não deixo de concordar com ele, não que conheça muito da política norte-americana, mas sim no argumento de que os interesses no Brasil não são muito claros. Na verdade, não há temas e não há lados.

Tente pensar num tema nacional que esteja sendo discutido no Congresso ou pela sociedade. Não há! Não se discute juros, não se discute superávit, não se discute um plano educacional, simplesmente não se discute. As coisas são aprovadas sem discussão, sem necessidade das pessoas se mostrarem.

Mesmo nesta crise do Senado, há um vai e volta, uma escamoteada de idéias. Uma névoa entre o dito e o feito que chega ser torturante.

O presidente Lula fala coisas contraditórias dependendo da platéia, fala de austeridade fiscal e equilíbrio para empresários e fala de gastos públicos e bolsas para a platéia. A oposição faz o mesmo, ao mesmo tempo em que bate no governo por causa da farra do dinheiro público, não faz absolutamente nada para impedir isso, aliás, aprova, dá voto. Governo negocia posição, oposição negocia posição, governo pressiona, oposição obstrui. Agora negociar e obstruir o que se não há nada para negociar? As discussões são cosméticas, não envolvem a sociedade, são para a propaganda política e só.

Vou mirar na oposição agora. Não era o caso de obstruir a aprovação da LDO para preservar os antigos critérios de superávit e impedir o aumento do gasto público? Afinal, quem quer eficiência e equilíbrio fiscal, deveria obstruir qualquer iniciativa do governo neste sentido! Não é impedir o governo, é ter coerência entre programa e voto!

Pois bem, pretendo investigar mais os candidatos que votarei em 2010 e abaixo listei coisas que eu me moveria para defender:

Aborto;
Política de equiparação para mulheres;
Jornada de 36 horas semanais;
Fator previdenciário;
Criação de mais faixas de Imposto de Renda;
Que o Imposto de Renda seja o principal imposto do país;
Criação do Imposto sobre Herança e Grandes Fortunas;
Limite de 60% dos gastos públicos com pessoal, incluindo aposentados;
Superávit primário de 2,5% no orçamento da União;
Privatização dos Correios;
Privatização da Petrobrás;
Voto distrital misto;
Voto em legenda;
Vinculação orçamentária automática para Educação (Como em São Paulo);
Criação do Código Ambiental, consolidando a legislação ambiental dispersa;
Proibição de estímulo a indústria de automóveis e motos;
Que o trabalho corresponda a pelo menos 60% da Renda Nacional.

Bem, não sei onde vou acrescentar isso, mas eu acredito nisso e procuro isso, ou algo disso, em quem eu voto.

A propósito.

Neste ponto entra meu encantamento pela Soninha e pelo Gabeira. Acho que eles podem sim representar a discussão.

terça-feira, julho 21, 2009

A difícil questão de dizer o que é Arte!

Será que existe alguma função social na arte? Será que essa função é transmitir algum significado, mesmo que seja um significado inconsciente do artista para o espectador/observador. Será que ela é uma experiência única do artista ou é coletiva? Ela é uma forma de comunicação entre o artista e seu púbico?

Essa discussão é tão interessante porque ela traz consigo outros elementos, como o legitimador da arte: o museu, o curador, o crítico, que são capazes de transformar uma coisa sem definição num conceito! E muitas vezes podemos não concordar com eles!

Mais difícil ainda quando estamos numa época onde é muito fácil fazer arte. É fácil pintar, fotografar. E sem querer pode-se dar a aura da arte.

Após o curso de fotografia que fiz no CCSP acho que estas questões se tornaram bem interessantes; a partir do momento que se tem uma individualização tremenda do artista, própria da modernidade, revela-se esta individualização é de massa e pode cair no kitsch. Sendo assim, acho que a grande discussão é o kitsch, como parâmetro de arte, como o diferencial estético. E como fazer isso sem cair numa teoria de vanguardas que deixam a arte elitista?

Pois bem, acredito que muito desta discussão seja totalmente bizantina, e a partir de algumas mostras que estão espalhadas pela cidade podemos ver que a arte é permeável a todos os estratos, desde que eles tenham acesso. (o que não deixa de ser uma vitória minha contra o elitismo das vanguardas), mas que também a picaretagem é muito bem percebida (mesmo com o aval das vanguardas).

A cidade está com algumas exposições ótimas que merecem ser vistas e isso faz São Paulo uma cidade fantástica. Listei algumas exposições que vi sem ter pretensão nenhuma de criticá-las nem de convencer ninguém. Mas como a pobreza faz a gente caminhar por lugares muitas vezes desconhecidos, um desses lugares pode ser uma das exposições abaixo;

Cuide bem de você (Sesc Pompéia): Se existe um fenômeno de exposição, é essa. A idéia fantástica de tentar compreender um fora por e-mail explicada por mais de 100 mulheres de diferentes formações é uma sacada de mestre. Quando você pensa que haverá um massacre do macho, você vê que existem muitas Camilles Paglias perdidas pelo mundo. É ótima a explicação da juíza e da advogada, mas a melhor de todas é da especialista em romances do século XVIII e da consultora de bons costumes. Acho que nunca me diverti tanto numa exposição!

Ser Jovem na França (Centro Cultural da Caixa): Mostra de fotografia com algumas fotografias bem interessantes, acho que ali é um lugar fantástico para descobrir a artisticidade ou documentalidade da fotografia. Existe um certo lirismo na exposição da juventude, da diversidade cultural. Interesses difusos e coletivos na mais bela idade! A exposição foi encomendada pelo governo francês e essa informação é importante para saber a motivação dos fotógrafos.

Argentina Hoy (Centro Cultural São Paulo): Bem, é interessante mostrar a ousadia dos nossos hermanos, embora muitas peças beirem a picaretagem. Adorei as fotografias, principalmente a do “quarto rosa”, mas também as paisagens desfocadas, que dão uma idéia de miniatura fantástica. As imagens épicas da época da independência mostrando os piqueteiros também são bem interessantes. Achei bem interessante a tapeçaria do campo de batalha.

Gravuras de Franz Post (BMF): Aqui a graça está em pensar como foi feita aquele quantidade de gravura em metal no século XVII. Achei legal rever Pernambuco nas gravuras encomendadas por Maurício de Nassau. Afinal, foi graças a Maurício de Nassau que me levou até o Recife. O mais engraçado desta exposição é que na minha aula de gravura em acetato eu desenhei um mapa, e o Franz Post também, está vendo como meu acetato é arte?

Pinacoteca – Acervo: Muito bem, é emocionante ficar ao lado de um Rodin, é a mesma emoção que tive em Curitiba ao ficar perto de um Renoir e de um Portinari. Afinal, se eles são mestres, deve ser por alguma coisa, e é legal ficar perto de uma obra famosa. No entanto, além do prédio que é a grande atração, a sala dos concretistas é fantástica. Ainda mais naquele prédio, e ao lado das esculturas. Há uma exposição de fotografia lá também.

Bom proveito e oxalá apareçam mais exposições gratuitas!

segunda-feira, julho 13, 2009

Viva a Revolução de 32


Perdemos uma guerra, mas ganhamos um feriado! (e daqui a pouco uma tradição!)

Feriado em Curitiba

Morria de vontade de conhecer Curitiba. Talvez isso influenciou o tanto que eu gostei de lá. Vim embora com uma sensação que poderia morar e ser feliz em Curitiba.

Cidade sem afetações, sóbria, séria, fria. Como deve ser bom viver numa cidade onde os carros dão seta para virar! E como é fácil andar por Curitiba. Estive lá em dias de chuva, mas deve ser ótimo ir aos parques, ir pra rua.

Conheci um dos bares que entrou na minha lista dos 5 mais, Stuart bar, em pleno centro, um bar antigo, com chopp bom! E você vai andando pelo centro da cidade e se sente bem, mesmo sem ter polícia por perto (não sei a cor do uniforme da Polícia do Paraná, não vi um policial sequer!).

Ok, o Museu do Niemayer é um paradigma. Quando um museu ofusca o que está dentro dele, boa coisa não é. Mas no fim, a inserção radical de um olho de vidro suavizada por curvas deixa tudo mais normal, dá a sobriedade que Brasília não tem e que duvido que Niterói tenha. Deixa a coisa com uma cara de Curitiba!

Uma observação étnica

Beto Richa deveria declarar Glória Perez persona non grata na cidade, caso contrário teremos uma novela sobre ucranianos e esse povo tão simpático, tão alegre, tão trabalhador, não merece este castigo. Cheguei em Curitiba no auge do 48º Festival Folclórico e de Etnias do Paraná. Somente um Estado bem resolvido pode chegar a um festival destes! Vi uma apresentação de danças ucranianas e adoraria ser um ucraniano! O Teatro Guaíra estava cheio. Tinha até cambista vendendo ingressos. Na platéia, me senti um ET, a comunidade ucraniana em peso aplaudindo suas tradições em ucraniano. Pena que o restaurante ucraniano era tão caro e esta era uma viagem de poucos gastos!

Twittando

Adorei esta história do twitter. Como sempre tive um preconceito inicial, afinal, virou tão febrezinha que não dava vontade nem de conhecer. Mas uma vez tendo um, você percebe o quanto o tal do twitter é poderoso.

Ok. Em 140 caracteres não dá para você desenvolver uma tese, mas em 140 caracteres você consegue se comunicar, alertar, chamar a atenção. Uma boa intenção pode estar contida em 140 caracteres. Assim como a gente saca na hora um charlatão com até menos caracteres!

O engraçado é que você comentando seu dia, você acaba o personalizando. Mesmo com milhões de pessoas levando a mesma vida que você!

A política e o Twitter

O discurso é batido por causa do Obama, mas o twitter é realmente uma arma poderosa de se fazer política. Bem, acompanho os passos do meu subprefeito e do meu governador pelo twitter. O primeiro faz com que a gente conheça cada buraco novo, faixa ilegal, ambulante não regulamentado, enfim, tudo que se passa na subprefeitura da Sé, e pelo twitter sabemos como ele resolverá o problema que surgiu. O segundo fala sobre tudo menos de política, e nas entrelinhas destes poucos 140 caracteres você percebe um governador em ação. O mais legal de tudo, é que tenho certeza que tanto o Andrea Matarazzo como o Serra devem estar encantados o tanto quanto eu com o twitter.

Agora pela manhã, além de ler o horóscopo, você lê tudo que o Serra fez pela madrugada! É fantástico!

Acho que é ótimo esse contato com nossos representantes, ainda mais quando os canais tradicionais estão cada vez mais contaminados e distorcidos, em 140 caracteres o eleitor acompanha o eleito e ainda tem liberdade de lhe fazer questionamentos.

Pois bem, tomei uma decisão muito radical: em 2010 só receberá meu voto quem eu puder acompanhar pelo twitter. Quero saber em qual discussão meu deputado está metido. Quero saber sobre o que ele se preocupa. O twitter mata a vanguarda. A comunicação passa além dela. Você, simples mortal acompanha. E em tempo real!

Falando em canais distorcidos...

Um jornalzinho destes tipo "Causa Operária" tinha na capa uma reportagem falando que o Serra usa o discurso da Revolução de 32 para armar um golpe contra o Lula. Vai ser paranóico assim lá na Venezuela! Meu amigo, a Revolução de 32 é um símbolo paulista, goste ou não. Ou será que o jornalzinho também acha que a Yeda Crusius usa a Semana Farroupilha para isso!...risos

sexta-feira, julho 03, 2009

São Paulo e o Senado

Tenho um pouco de vergonha da representação de São Paulo no Senado Federal, não que seja revanchista, afinal somente um dos três teve meu voto: Eduardo Suplicy, nos demais, só houve lamento sobre o Estado mais importante da nação ter escolhido tão mal seus representantes justamente na Casa da Federação.

Pois bem, os outros dois senadores dos quais me envergonho: Aloísio Mercadante e Romeu Tuma terão que defender a banca nas próximas eleições e aí é um caso claro de começar um movimento no Estado para melhorar nossa representação.

A questão de Romeu Tuma é uma questão que não me incomoda tanto, ele sempre foi eleito como resultado de uma combinação de fatores políticos quase astrológicos que lhe garantiram duas eleições fáceis. Não lhe tiro os méritos, mas não acho que ele foi eleito e sim que os outros o elegeram.

No entanto, a questão Aloísio Mercadante me dói. Ele é uma tragédia na tribuna. Assim como Ideli Salvatti, é um senador que simplesmente não sabe se comportar. Não tem respeito com a casa para qual foi eleito e no momento de todas as crises do Senado, sempre esteve do lado contrário da ética e da opinião pública. Votou a favor de Renan Calheiros no seu processo de cassação e ontem foi a tribuna do Senado num discurso em defesa de Sarney buscando a governabilidade.

Senhor Senador, se a governabilidade depende da desmoralização do Senado, logo isso torna claro o projeto quase absolutista do PT no governo. Afinal, se o governo só consegue governabilidade na desordem do congresso e quando sempre há uma participação do Executivo na crise, este Executivo quer acabar com a divisão dos poderes. Lembremos: a crise do mensalão na Câmara e a imposição da eleição de Sarney, partiram do Executivo!

Claro que haverá governabilidade na era pós-Sarney. A oposição não é idiota o suficiente para paralisar o país, desde que o governo tenha o mínimo de respeito com o Congresso. O que é insustentável é a atual situação, onde acho que é dever da oposição se pôr em obstrução, e que o governo busque sua maioria silenciosa e bem paga com seus cargos.

Tomara que em 2010 nos lembremos da triste atuação destes 7 anos de mandato do Senador Mercadante!

sábado, junho 27, 2009

Síndrome de Higienópolis

De como se acha um Centro de Cultura Judaica

Depois de três finais de semana seguidos onde todos os meus sábados terminavam de alguma maneira em Higienópolis, não era de se estranhar que eu acabasse este sábado na 2ª mostra de audiovisual israelense do Centro de Cultura Judaica de São Paulo. Acho a construção do Estado de Israel uma das coisas mais fascinantes do século 20, uma verdadeira odisséia. Criou-se um Estado do nada e as questões que são postas a este Estado hoje serão as questões que terão impacto nos nossos Estados num futuro que acredito ser bem próximo.

O filme que assisti chama-se Irmãos, que até parece uma novelinha pela filmagem e linearidade da história. A partir de um tema batido das diferenças entre irmãos acaba mostrando uma novidade interessante. Um dos irmãos vive num kibutz em Israel, que também é uma experiência social fantástica; enquanto o outro é um judeu ortodoxo que vive nos Estados Unidos e volta à Israel para defender o direito dos ortodoxos de não se alistarem no exército.

O cotidiano faz do habitante do kibutz um cidadão israelense enquanto o outro, ao ser judeu nos Estados Unidos se sente um judeu, não um israelense. Assume-se israelense por causa da Lei do Retorno, mas antes de tudo ele é um judeu.

Então do clichê previsível do combate entre os irmãos, surge o grande tema do filme, que é se Israel é um Estado ou um Estado Judeu. E isso tem toda uma diferença na forma de organizar o Estado. O filme acaba chegando a conclusão que o Estado de Israel hoje é um equilíbrio entre estas tendências, e a cada radicalização de um lado, ou de outro, sempre existe o risco de um confronto. Que cada dia se torna mais latente, já que a Lei do Retorno hoje acaba favorecendo os ortodoxos.

A questão torna-se mais séria, afinal a Lei do Retorno implica que o israelense é judeu, mas se ele for só judeu poderíamos ter um novo Irã, mas se for só israelense, é um Estado absurdo, já que a construção de sua identidade de estado calcou-se na sua origem judaica.

O bom é saber que política é processo, e com certeza a forma que Israel resolver isso trará uma luz para questões deste tipo que hoje já se põe em países como a França, onde para alguns os imigrantes acabam eclipsando as características que tornaram a França um Estado.

Bom filme para refletir.

Da platéia e do Centro de Cultura Judaica

O Centro de Cultura Judaica é um lugar maravilhoso. Se não fosse o Guia Folha nem saberia que existia, e que fica ao lado do metrô Sumaré. É um prédio moderno, em concreto aparente, com a máxima segurança. Para assistir o filme tive que passar por um detector de metais.

O engraçado foi como a platéia interagia com o filme o que deu a entender que essa divisão entre seculares e ortodoxos existe também na comunidade judaica daqui. Quando os costumes do ortodoxo o colocavam em situações embaraçosas frente ao mundo normal, a platéia ria muito e achava um absurdo (como por exemplo, numa cena em que ele fica em dúvida se atende ou não atende o celular durante shabat).

E o Irã?

Será que essa onda de protesto também não reflete no Irã essa questão crucial entre o secular e o religioso?